A Saga do Rei Drago
A diablica ameaa que pende sobre o reino de Mensandor e a
perigosa demanda empreendida por Quentin, um dos jovens
aclitos do templo do deus Ariel.

2 volume - Os Guerreiros de Nin
A ascenso da Estrela do Lobo, arauto de Nin, lanou uma
sombra de terror sobre o reino do Rei Drago. A cada noite
que passa, a Estrela do Lobo fica maior e mais ameaadora,
aumentando o poder malfico de Nin. Mais uma vez,  Quentin
quem tem o destino do reino nas mos. A ltima esperana de
salvao reside numa espada: Zhaligkeer, a Brilhante. Mas o
segredo do "lanthanil", o metal vivo com que tem de ser
forjada, perdeu-se h muito na noite dos sculos...

***

OS GUERREIROS DE NIN
A Saga do Rei Drago - 2 volume

Stephen Lawhead

Traduo de Maria Nvoa
Bertrand Editora

***

Para Drake
O meu brilbo
Com todo o amor

***

CAPTULO I

Quentin estava de p junto do alto parapeito sobranceiro  
floresta tranquila. Os seus olhos perscrutavam as colinas 
suaves, vestidas com os tons de verde do incio do Vero, 
esbatidos na luz dourada da tarde pela nvoa que se formava, 
anunciando o crepsculo. Na sua mo apoiada na fria 
balaustrada de pedra esvoaava um fino rolo de pergaminho ao 
sabor da brisa suave. Aos seus ps encontrava-se uma caixa de 
couro, da qual tirara o rolo que lera havia apenas uns 
momentos. A caixa tinha estampada a insgnia real que 
conhecia to bem: o terrvel, ondulante drago vermelho do 
Rei Drago.
Embora o calor dos ltimos raios de sol lhe batesse em cheio 
no rosto, Quentin sentiu-se percorrido por um arrepio. 
Suspirou profundamente e baixou a cabea, abanando-a devagar. 
Ouvindo um roagar atrs de si e os passos leves de uns ps 
batendo na pedra, virou-se e viu Toli deslizando na sua 
direco.
O jovem alto sentou-se facilmente na borda do parapeito, 
cruzou os braos por cima do peito, mirou Quentin com os seus 
olhos castanhos e zombeteiros e encheu os pulmes com aquele 
ar lmpido e fresco.
- Ouve - disse, pondo a cabea de lado. -  o som da terra em 
paz.
Quentin ps-se  escuta e ouviu os trinados longnquos dos 
pssaros que esvoaavam entre as bagas, as folhas a abanarem 
ao sabor da brisa e vozes que murmuravam num ptio algures l 
em baixo.
- Disseram-me que tinha chegado um cavaleiro de Askelon com

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uma mensagem para ti. Ento pensei que era melhor vir aqui 
ver se o meu amo precisa de alguma coisa.
Quentin olhou para o amigo e sorriu.
- Ou seja, a curiosidade levou-te a sair das tuas queridas 
estrebarias.  verdade, recebi uma mensagem do rei. - 
Levantando o pergaminho, estendeu-o a Toli, que comeou a 
ler.
Depois, Toli levantou a cabea e deu com os olhos nos de 
Quentin, que o examinava.
- Aqui no diz qual  o problema.
- Pois no, mas tambm no  um convite para uma visita de 
amigo. Parece um pedido de ajuda e  urgente. Se fosse pouco 
importante, Eskevar teria esperado. De qualquer forma, 
ficmos de voltar para Askelon daqui a umas semanas.---
- E aqui diz que  melhor irmos j. Pois, estou a ver.. Mas 
h mais alguma coisa? - Os penetrantes olhos de Toli 
examinaram Quentin, que se endireitou, tentando esconder-se 
da intensidade daquela observao.
- Porque dizes isso?
Toli riu suavemente.
- Conheo o meu Kenta bem de mais. No estarias com esse ar 
se no suspeitasses do que se esconde por trs desta 
convocatria to inocente,
- Inocente? - Baixou-se e pegou na caixa de couro. - Mas tens 
razo, Toli. Tenho um certo medo. Ao ler a mensagem, senti-me 
invadido por uma sensao de profunda tristeza, de perda...
Toli observou Quentin atentamente e ficou  espera que ele 
continuasse.
- Tenho medo de que se formos agora para Askelon nunca mais 
voltemos a Dekra.
- Viste isso?
Quentin limitou-se a abanar a cabea.
- Bem, ento pode no ser assim. Talvez o teu pressentimento 
seja s um aviso do que pode acontecer se no formos j.
Quentin voltou a sorrir; desta vez, brilhou-lhe nos olhos um 
relmpago de alvio.
- Talvez tenhas razo. Como de costume, o servo salvou o seu 
amo de si prprio.

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- Podemos partir hoje  noite. Vai ser bom voltar a dormir 
por esses caminhos. H muito tempo que no o fazemos juntos.
- Pois, mas esta noite no. j te esqueceste de que vamos 
jantar com o Yeseph? E, se no me engano, s temos tempo para 
nos arranjarmos e irmos para casa dele. Est  nossa espera. 
Portanto, partimos de madrugada - disse Quentin-
- Como queiras - retorquiu Toli, inclinando a cabea numa 
ligeira vnia. - Vou tratar de arranjar tudo quando acabarmos 
de jantar com o Yeseph e os ancies.
Quentin assentiu, pegou no rolo de pergaminho que Toli lhe 
estendia e voltou a met-lo na caixa. Depois, viraram-se e 
dirigiram-se aos aposentos de Quentin.
Vestiram-se os dois com os seus melhores mantos de l, 
enfiaram os ps em finas botas de couro e partiram a caminho 
da humilde morada de Yeseph.
Yeseph vivia num bairro da cidade em runas, perto da 
biblioteca. Enquanto seguiam juntos, Quentin mirava a cidade 
que aprendera a amar. Os seus olhos, h muito acostumados s 
estruturas retorcidas que de todos os lados lhe saltavam  
vista, pareciam no reparar na destruio: o que viam era 
como tudo fora no tempo dos poderosos Ariga.
No seu esprito, via as pedras outra vez empilhadas umas 
sobre as outras, os arcos reconstrudos com azulejos 
coloridos, as portas, maravilhosamente entalhadas, abertas de 
par em par, os ptios cheios de plantas em flor, as ruas 
ecoando de risos e canes. Via tudo como imaginava que tinha 
sido. Quentin tinha sempre a mesma sensao mgica quando 
passeava pela cidade. Vivia em Dekra havia dez anos, e nunca 
deixara de se extasiar nem de sentir que o seu lugar era ali, 
que jamais encontraria outro lar como Dekra.
- H-de voltar a ser - disse Toli, enquanto caminhavam ao 
longo das ruas silenciosas, pisando as pedras das caladas, 
cujas arestas tinham sido limadas pelo tempo.
- O qu? - perguntou Quentin com um ar ausente.
- Esta cidade h-de voltar a ser como foi, como tu a vs na 
tua cabea.
- Achas que sim?
- Tu no?

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- Acredito que sim. Quero acreditar. -Mas, s vezes, parece 
que o trabalho anda to devagar! H tanto para fazer, Era bom 
se tivssemos mais gente.
- Mas repara no que se fez desde que aqui chegmos. E somos 
mais a cada ano que passa. Whist Orren abenoa os nossos 
esforos com os dele.
Era verdade. Os trabalhos de restaurao da antiga cidade, 
que ia sendo povoada com pessoas que partilhavm o sonho de 
lhe devolver a glria de outrora e de estudar os Ariga e o 
seu deus, sucediam-se a um ritmo excelente. Fizera-se muito 
em dez anos. Todavia, ainda faltava o trabalho de uma vida. E 
era isso que espicaava a impacincia de Quentin.
O velho professor de Quentin, de costas curvadas, esperava-os 
de p ao porto do seu ptio. O seu rosto fluminou-se quando 
viu os dois jovens que se aproximavam.
- Ol, ol, meus amigos! - gritou Yeseph, correndo ao seu 
encontro. - Tenho estado  vossa espera. Ainda no chegou 
ningum. Esperava que fosse assim, porque quero falar 
convosco. Arrastou-os para a sombra e indicou-lhes uns bancos 
de pedra situados debaixo de uma rvore de copa muito larga. 
No ptio, limpssimo, havia tudo o que podia ver-se em 
qualquer jardim cujo proprietrio adorasse plantas e flores.
- Sentai-vos, por favor. Sentai-vos. Ornani! - Logo que os 
seus convidados se sentaram debaixo da rvore, Yeseph bateu 
as palmas. Uma jovem esbelta apareceu com um tabuleiro de 
taas de madeira e uma garrafa de pedra. Quase flutuando 
graciosamente, a rapariga pousou o tabuleiro junto do 
cotovelo de Yeseph.
- Podes servir, minha linda - disse docemente.
A jovem serviu as bebidas. Quando se virou para se ir embora, 
Yeseph recomendou-lhe:
- Serve a refeio quando os outros chegarem. Acho que j no 
devem demorar muito. - Sorrindo sempre, ela fez uma vnia e 
retirou-se para dentro de casa.
Os Curatak no tinham servos, Mas era frequente rapazes ou 
raparigas ligarem-se s casas dos chefes curatak mais velhos 
ou dos artesos para os servirem e com eles aprenderem at 
decidirem o que queriam

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fazer na vida. Assim, os que precisavam da ajuda de um servo 
tinham-na sempre e os jovens podiam ser teis at entrarem no 
mundo dos adultos.
Um tanto melancolicamente, Yeseph ficou a ver a rapariga 
desaparecer na ombreira escura. Reparando na sua expresso, 
Quentin comentou:
- Ela  uma ajudante preciosa, Yeseph. Tiveste sorte.
-  verdade, e tenho pena de a perder.
- Porque  que havias de a perder?
- E porque no? Ela tem quase dezoito anos. Quer casar em 
breve. Talvez no Vero. Vai casar com o Rulan, um antigo 
aluno meu. Ele  bom rapaz e muito inteligente. Vai ser um 
bom casamento. Mas eu perco uma excelente cozinheira e fico 
sem companhia. Sinto que ela podia ser minha filha.
- Porque no te casas outra vez? - perguntou Toli.
De repente, Yeseph pareceu muito agitado.
- Com quem  que tens andado a falar?
- Com ningum. Perguntei por perguntar.
- Bem, mas  verdade. Era isso que queria dizer-vos. Vou 
mesmo casar. Anuncio os banhos esta noite.
- Parabns! - gritou Quentin, que se ps em p de um salto, 
percorreu a distncia que o separava do seu antigo professor 
e abraou-o, beijando-lhe ambas as faces. - Quem  a 
felizarda?
- Karyll, a costureira.
- A viva do Lendoe, que morreu h uns anos num acidente na 
forja?
- Essa mesmo. Uma excelente mulher. E h tanto tempo que est 
sozinha...
Quentin riu-se.
- No precisas de nos dar explicaes: j tens a nossa 
autorizao. Tenho a certeza de que ides ser muito felizes.
- Vamos mesmo. Por mim, j me sinto muito feliz por partilhar 
esta notcia com os meus amigos. Sabeis, vs sois quase meus 
filhos.
- Foste nosso professor e nosso pai muitas e muitas vezes.
- Por isso  natural que sejais os primeiros a saber.
- A venerada mulher vem c hoje  noite? Gostava de lhe dar 
os parabns.

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- Vem... alis, parece-me que estou a ouvir a sua voz.
O som de vozes alegres e risonhas chegou ao ptio, vindo da 
rua. Yeseph precipitou-se para o porto, a receber a noiva e 
as suas duas companheiras. Corando e sorrindo, guiou-a at 
Quentin e Toli, que aguardavam de p com a alegria estampada 
no rosto.
- Meus amigos, esta  a Karyll, a minha prometida.
A mulher baixa e de rosto redondo devolveu-lhes o sorriso 
caloroso. O seu cabelo castanho, onde Quentin viu alguns fios 
prateados, estava recatadamente apanhado atrs, preso numa 
rede ornamentada. Envergava um vestido branco e largo e 
trazia um xaile azul-vivo nos ombros. Era uma mulher 
graciosa.
Quando Yeseph a cingiu com o brao, lanou  futura esposa um 
olhar to afectuoso que Quentin se sentiu invadido pela 
saudade da sua amada.
- Ol, Karyll. Parabns. O Yeseph j nos disse que se vo 
casar. Fico muito satisfeito com isso.
- Obrigado, Quentin. Somos muito felizes. - Virando-se, 
mergulhou os olhos nos de Yeseph e acrescentou: - O Yeseph 
est sempre a pr-vos nos pncaros. Ainda bem que ele vos 
escolheu para serdes os primeiros a saber dos nossos planos.
- Quando vai ser o casamento? - perguntou Toli.
- Eu e o Yeseph pensmos que seria agradvel casarmo-nos em 
meados do Vero.
-  verdade - concordou o noivo. -Na realidade, no h nada 
que nos impea de casarmos imediatamente. j somos os dois 
crescidos. - Deu uma gargalhada, a que se juntou outra de 
Karyll. Mas o riso desvaneceu-se quando Yeseph viu que nem 
Quentin nem Toli partilhavam a sua alegria. Tinham ficado 
estranhamente calados. A luz da felicidade extingura-se-lhes 
do olhar.
- Que se passa? O nosso plano no vos agrada?
- Agrada e muito. No entanto, parece-me que no vamos estar 
entre os felizes convidados.
- Posso saber porque no?
- amos dzer-te esta noite. O rei convocou-nos. Temos de 
partir para Askelon.
- Sim, j sei... daqui a umas semanas, mas...

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- No. j. Chegou hoje um cavaleiro. Temos de partir 
imediatamente.
- Ento vamos esperar at vs regressardes - prontificou-se 
Yeseph. Karyll assentiu com a cabea.
Quentin sorriu com tristeza.
- No, isso no quero. Nem sei quando poderemos voltar. No 
espereis por ns, por favor.
Toli tentou aligeirar o tom da conversa.
- O Kenta quer dizer que, se estivesse no teu lugar, Yeseph, 
no deixaria que uma criatura to adorvel fugisse para os 
braos de outro. Deves casar-te como planeaste. Quanto a ns, 
voltaremos muito em breve para dar os parabns ao feliz 
casal.
Yeseph procurou os olhos de Quentin. Como de costume, lia 
mais neles do que o seu amigo queria.
- H algum problema?
- Parece-me que sim - suspirou Quentin. - A mensagem no o 
dizia directamente e o mensageiro tambm no lhe acrescentou 
nada. Mas partiu imediatamente, sem esperar pela resposta. 
Yeseph observou Quentin, de p  sua frente. O jovem 
desajeitado e impetuoso crescera e tomara-se um homem directo 
e sensvel. Era alto e esbelto como os jovens, mas sem o ar 
descuidado que estes muitas vezes tm. Apesar do seu porte 
rgio, Quentin no se dava absolutamente nenhuns ares de 
grande senhor nem tinha a arrogncia que  frequente 
acompanhar os espritos nobres. O ancio sentiu uma dor no 
corao ao ver o seu aluno e protegido como que balanando  
beira de um grande abismo. Apeteceu-lhe estender a mo e 
pux-lo, mas sabia que no podia. Quentin pertencia a Deccra, 
mas tambm era de Askelon, e no podia negar a sua lealdade a 
nenhuma das duas cidades.
- Claro que tens de ir. - Yeseph esforou se por sorrir. - 
Quando partes?
- Amanh de madrugada.  melhor...
- Claro, claro. No vale a pena adiar. Quanto mais cedo 
fores, mais cedo voltas. Desta vez, pode ser que tragas a 
Bria contigo.
Ao ouvir este nome, Quentin sobressaltou-se e voltou a sorrir 
calorosamente. A sombra fria que cara sobre o alegre grupo 
afastou-se e,  medida que o cintilante crepsculo avanava 
suavemente, comearam a

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falar ao mesmo tempo de tudo o que fariam quando voltassem a 
encontrar-se.

Apesar do seu desejo de partirem cedinho na manh seguinte, 
Quentin e Toli foram Os ltimos a sair de casa de Yeseph, 
onde tinham cantado, comido e conversado muito. Os ancies 
haviam abenoado a jornada dos jovens e todos tinham ouvido 
histrias e canes dos antigos Ariga, cantadas por um dos 
jovens msicos curatak. Depois, haviam-se despedido, mas 
ningum o fizera to ardentemente como Quentin.
- Olha, Kenta - disse Toli, enquanto caminhavam pelas ruas 
escuras e vazias. A lua cheia brilhava sobre a cidade, 
iluminando tudo com uma luz lquida e prateada.

Quentin seguiu o olhar de Tol, que se erguia para o cu.
- Que ests a ver?
- J desapareceu. Era s uma estrela cadente.
- Hummm. - Quentin voltou a refugiar-se nos seus devaneios 
escutando o eco dos seus passos na calada e sentindo-se 
envolvido pela Paz silenciosa de Dekra. De repente, sem 
motivo, arrepiou-se todo, como se tivesse atravessado um poo 
de ar frio. Toli reparou o estremecimento de ombros de 
Quentin e olhou para o amigo.
- Tambm sentiste?
Quentin ignorou a Pergunta. Por fim, depois de terem dado 
mais alguns passos, indagou:
- Achas que alguma vez voltaremos aqui?
- A noite no  boa altura para pensar nessas coisas.
Voltaram os dois em silncio para o palcio do governador e 
encaminharam-se para os seus aposentos.
- Vai ser bom voltar a ver Askelon e todos os nossos amigos - 
disse Quentin ao despedir-se. - Boa noite.
- Boa noite. Eu acordo-te de manh.
Quentin deixou-se ficar muito tempo deitado na cama, sem 
fechar os olhos. Ouviu, no quarto ao lado, Toli fazendo 
silenciosamente os preparativos para a viagem e os passos 
suaves do Jher, que foi tratar dos cavalos antes de ir para a 
cama. Por fim, virou-se para o lado e adormeceu 
imediatamente. A Lua brilhava atravs das portas da varanda, 
espreitando para dentro como um rosto amvel.

CAPTULO II

Quentin encontrou-se com Toli nas cavalarias, que eram um 
agrupamento de estruturas baixas, de pedra, que Toli 
destinara  criao de
cavalos. No tempo que passara em Dekra, o Jher tomara-se um 
excelente treinador e criador de cavalos. De facto, com a 
ajuda do mestre
dos estbulos de Eskevar, estava a desenvolver uma raa de 
animais
notveis, produto do cruzamento dos cavalos de guerra de mais 
porte,
como Balder, com os mais leves e ligeiros, que eram o orgulho 
de Pelagia. O resultado seria uma raa suficientemente forte 
e corajosa para a
guerra, mas que tambm teria a capacidade de percorrer 
depressa grandes distncias sem se cansar.
Quentin passou por baixo do largo arco de pedra e parou em 
frente da baia de Balder. Ao ver o seu dono aproximar-se, o 
velho cavalo
de guerra relinchou baixinho. Estendendo a mo, Quentin deu-
lhe
umas palmadinhas e acariciou o focinho macio e enorme.
Desta vez, podes ficar aqui, meu velho. Toma conta dele, 
Wilton
disse por cima do ombro para o jovem ajudante de Toli. - De 
vez
em quando, d-lhe mais uma cenoura. - Depois, dando umas 
palmadas na testa do cavalo, cujo plo formava uma estrela 
branca, rematou:
- Quando eu voltar, havemos de dar um grande passeio.
As cavalarias cheiravam a funcho-doce, a palha e aos corpos
quentes dos cavalos. O cheiro lembrava a Quentin as jornadas 
que fizera. De facto, estava ansioso por partir. Dirigiu-se a 
Toli, que verificava os alimentos e o jaez das suas montadas.
- Bom dia, Kenta. Ia mesmo agora acordar-te.

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- Como vs, estou pronto. No dormi muito. Est tudo 
preparado. - Virou-se e deu uma palmada num garanho de um 
branco de leite - Ento, Blazer? Ests mortinho por esticar 
essas patas compridas? O cavalo lanou para a frente a crina 
esvoaante e mirou Quentin com os seus olhos preto-azulados, 
como se dissesse: "Embora! Vamos embora!"
- S tenho de dar mais algumas instrues ao Wilton - 
respondeu Toli. - Depois, podemos pr-nos a caminho.
Toli. que se considerava servo de Quentin para toda a vida, 
era objecto de devoo dos Curatak. O simptico Jher tinha 
vrios ajudantes que tratava to bem como qualquer amo fazia 
a um servo dedicado. O facto era que consideravam Toli to 
prncipe como Quentin; e numa cidade onde cada homem era 
servo do outro, isto constitua a mais elevada das honras.
Toli voltou, pegou nas rdeas dos dois cavalos e conduziu-os 
para as ruas silenciosas. Seguindo  direita de Toli, Quentin 
escutava o bater das patas dos cavalos nas pedras das ruas 
antigas. Para leste, o cu brilhava envolto numa neblina 
violeta, iluminando-se e adquirindo um matiz vermelho-dourado 
 medida que o Sol ia ficando mais alto.
Toli cheirou o ar e anunciou:
- O vento sopra de oeste, por cima do mar. Vamos ter bom 
tempo para a viagem.
- Ainda bem. Espero estar em Askelon antes da lua nova. Achas 
que conseguimos?
-  possvel. Com bons cavalos e a estrada do rei em bom 
estado at depois de Pelgrin...
- Os nossos cavalos tm asas, meu amigo. E a estrada de 
Eskevar j vai at ao Anri. De facto, vamos voar.
Chegaram s portas da cidade e saram. Eram portas pouco 
vigiadas, pois Dekra no temia os intrusos nem tinha 
verdadeira necessidade de se defender.
Na porta pequena que se abria dentro da maior, Quentin parou 
e lanou um ltimo e demorado olhar  cidade que tanto amava. 
A pedra vermelha luzia com o matiz rosado do Sol nascente. As 
torres e as espiras erguiam-se majestosamente no ar lmpido e 
fresco da manh, brilhando e cintilando como cristal 
resplandecente. Os sons normais da cidade

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que acordava ecoavam nas ruas vazias: um co ladrava, uma 
porta abria-se e fechava-se. Atrs dele, Blazere Riv, o 
lustroso cavalo preto de Toli, agitavam os freios, 
impacientes por partir. Quentin levantou um brao, a 
despedir-se de Dekra, e virou-se para o seu cavalo.
- Vamos depressa' - gritou, saltando para a sela. - Vamos. 
Blazer! - O cavalo ergueu as patas dianteiras do cho, deu um 
pequeno coice e saltou em frente, seguindo o seu caminho.

Impaciente por chegar, Quentin forou o percurso atravs de 
colinas baixas e entrou nas miserveis terras pantanosas. O 
seu plano era pararem em Malmarbv, seguindo o mais possvel 
na orla dos pntanos. Em Malmarby, alugariam um barco para 
atravessarem a enseada e navegarem ao longo da costa oeste 
at depois da Muralha de Celbercor. Depois, o caminho tornar-
se-ia mais fcil. Dirigir-se-iam para o rio Arvin, para o 
local onde este surgia lmpido e frio de dentro dos Fiskills, 
cavalgariam ao longo da estrada nova do rei, passando os 
sops selvagens que ficavam acima de Narramoor e 
atravessariam Pelgrin depressa, em direco a Askelon.
Os primeiros dias de viagem passaram sem novidades, A caa 
era abundante e, graas  habilidade de caador de Toli, 
nunca lhes faltou nada que houvesse nas florestas.
Chegaram  aldeia de Malmarby numa manh de sol. pelo caminho 
mais largo, que dava para a povoao e que saa do labirinto 
de pntanos e terrenos alagadios que a rodeavam.
Quando se aproximavam da aldeia, Toli endireitou-se na sela e 
puxou as rdeas ao cavalo, fazendo-o parar. Quentin imitou-o, 
mas sem saber o que tinha alarmado o amigo.
- O que ? O que  que ests a ver?
- Falta qualquer coisa na aldeia. Sinto-o.
- Parece muito pacata. Mas vamos com cuidado.
Seguindo em frente com os cavalos a passo, iam perscrutando 
os arbustos e o denso matagal que ladeava o caminho, 
procurando qualquer sinal que pudesse confirmar as apreenses 
de Toli. No viram ningum nem ouviram nada at chegarem 
mesmo  aldeia. Quentin parou o cavalo, ergueu-se na sela e 
olhou em volta. O caminho enlameado que fazia as vezes de rua 
principal de Malmarby estava vazio. No se

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via vivalma entre as casas de madeira; a povoao encontrava-
se silenciosa como um tmulo.
- Parece que no h ningum por aqui. Onde... ?
Ainda no acabara de falar quando quatro homens saltaram do 
arbusto mais prximo e agarraram os arreios dos cavalos. Dois 
dos homens estavam armados com lanas e os outros dois com 
espadas curtas. Pareciam aterrorizados: nos seus rostos 
graves e plidos lia-se a preocupao e o medo.
Foi o olhar que lanou a estes rostos miserveis que 
imobilizou a mo de Quentin.
- Espera, Toli! No precisamos de ter medo destes homens. 
Quentin falou alto e com calma, para que os seus potenciais 
atacantes soubessem que no queriam fazer-lhes mal.
Ouviu-se um roagar no arbusto e apareceu, ou antes, caiu 
outro homem na estrada. Quentin reconheceu o rosto magro e 
sulcado pelas preocupaes do conselheiro da aldeia.
- Bom dia, conselheiro.  assim que tratais os forasteiros? 
Se calhar, quereis convidar-nos para tomar o pequeno 
almoo...
O homem magro e careca pestanejou e precipitou-se para a 
frente, olhando de vis para os viajantes com o seu nico 
olho bom.
- Quentin? Para trs, homens,  o prncipe! Larguem-nos!
Quentin sorriu ao ouvir aquele ttulo. No era o prncipe, 
mas a sua lenda crescera tanto entre o povo simples de 
Mensandor que para ele era, de facto, o detentor de uma 
posio to elevada. Por isso, tinham-lhe conferido o ttulo 
mais alto em que haviam pensado: para eles, Quentin era, 
muito simplesmente, o prncipe.
- Sim, sou o Quentin. Mas dz-me, Milan, a que se deve esta 
recepo? Onde esto as pessoas? A aldeia parece deserta.
- Desculpai, senhores. No queramos fazer-vos mal. - O chefe 
da aldeia parecia ter o corao despedaado pela dor. Torcia 
as mos enquanto falava, como se temesse alguma retaliao.
-  que... bem, todo o cuidado  pouco. Ouvimos histrias de 
muita maldade. Achmos melhor vigiar a estrada.
- Ladres? - indagou Quentin.
Milan ignorou-o e perguntou a um dos seus homens:
- Tu no viste nada?

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No, nada.
Quentin encolheu os ombros e olhou para Toli, que estudou o 
rosto dos homens que tinham  frente e permaneceu calado.
- Bem, talvez os nossos receios sejam infundados. Ficais 
connosco?
- No, desta vez no. Se puseres  nossa disposio um dos 
teus excelentes barcos, partiremos imediatamente. Temos de ir 
para Askelon o mais depressa possvel.
O conselheiro da aldeia fitou Quentin com um olhar estranho e 
entendido e virou-se:
- Vai  frente avisar os da aldeia. No h nada a temer - 
ordenou a um dos homens. Depois, acrescentou para Quentin: - 
O barco  vosso. Podeis levar o meu, que  o maior de todos. 
O meu filho acompanhar-vos-.
- Obrigado pela tua amabilidade - respondeu Quentin. 
Comearam a caminhar todos juntos.
Passaram pelas habitaes simples que se amontoavam ao longo 
do caminho que seguia at  beira da gua. Ao princpio, 
Quentin ainda viu um rosto fugidio numa janela ou a espreitar 
de uma porta, mas, quando chegaram ao grande molhe de madeira 
que servia de embarcadouro para os barcos de pesca da 
povoao, j a maioria dos habitantes de Malmarby andava nas 
suas ocupaes quotidianas, como se nada de invulgar tivesse 
acontecido. Muitos deles desceram tambm at ao molhe e 
muitos outros saudaram a passagem dos rgios viajantes.
Os barcos de Malmarby eram largos, com o feitio de caixas e 
suficientemente robustos para suportarem a fria do mais 
enraivecido dos mares, que, alis, era coisa que nunca 
faziam, pois os enormes barcos serviam apenas para bordejar a 
abrigada enseada de um lado ao outro.
O barco de Milan era mais do que adequado s suas 
necessidades, mas os cavalos mostraram-se um tanto agitados 
ao serem guiados a bordo de uma embarcao to estranha.
Com o filho de Milan, Rol, ao remo da popa, afastaram-se da 
multido que se apinhava no molhe. As mos fortes de Rol 
manejando o remo depressa os fizeram entrar num canal mais 
profundo, onde foram empurrados por uma corrente mais rpida. 
Ento, iaram a pequena vela no mastro atarracado e 
continuaram a vogar velozmente.

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- Onde quereis desembarcar, senhores? - gritou Rol, sentado  
popa.
- Onde achares melhor, desde que seja a oeste da muralha.
Quentin calou-se e observou o robusto moceto de ombros 
fortes e espessa cabeleira castanha, lembrando-se dos tempos 
em que o simptico jovem era um rapaz magrinho que corria ao 
lado do cavalo de qualquer viajante que atravessasse a 
aldeia, assim como ele e Toli tinham feito tantas vezes.
- De que  que tm medo na aldeia? - perguntou Quentin, 
aproximando-se de Rol. - O que aconteceu desde a ltima vez 
que por aqui passmos?
O jovem encolheu os ombros musculosos e continuou a manejar o 
remo.
- No sei. Histrias! No  preciso muito para aterrorizar 
uma aldeia to pequena.
- Que histrias so essas de que falas? De onde vieram?
Tol aproximou-se para ouvir Rol.
- Esta Primavera, apareceram pessoas do Suth a dizer que 
tinham sido atacadas por demnios, que lhes queimaram as 
casas.
- Os demnios no queimam casas - observou Toli.
Rol voltou a encolher os ombros.
- No sei se queimam ou no. Foi o que as pessoas disseram.
- Hum...  estranho. Como eram esses demnios?
- Gigantes e ferozes. Cuspiam fogo pela boca e cada um tinha 
dez braos com patas em vez de mos.
- Disseram de onde vieram esses demnios?
- Ningum sabia. Alguns diziam que vieram do outro lado do 
mar, para l do Gerfallon. Outros que lhes viram na testa o 
sinal da Estrela do Lobo. Se calhar, vieram do cu.
-  uma histria esquisita - disse Quentin a Toli quando se 
afastaram.
- Para que haviam de queimar uma aldeia de camponeses no 
Suth? - inquiriu Toli. - No h l nada e ningum ganha com 
isso.
- Sei l! H pelo menos dez anos que no acontece nada assim. 
O reino est em paz. No nos podemos esquecer de dizer ao rei 
o que ouvimos.

25

Rol mostrou ser um excelente marinheiro: ao fim do dia 
encontravam-se perto do seu destino. Na linha da costa, por 
cima da gua, formara-se uma ligeira neblina que entrava pela 
enseada. Atravs da nvoa cinzenta, com as sombras alongando-
se sobre a terra, viram a superfcie plana e escura da Grande 
Muralha projectando-se nas guas profundas.
Rol fez o barco contornar o indefinido lado da muralha e 
guiou-o para a costa rochosa. Enquanto passavam por aquela 
forma imponente, ningum falou. O chapinhar constante do 
comprido remo de Rol era o nico som que quebrava o silncio.
Quentin contemplava a nvoa enrolando-se em volta da muralha 
e pensou que. assim, parecia que a grande estrutura flutuava 
numa espiral de nuvens, enquanto o cu, que escurecia com a 
aproximao do crepsculo, parecia ficar duro e slido como 
pedra. Mas sobressaltou-se quando ouviu uma pancada surda e 
sentiu o leve abano que lhe disse que tinham tocado em 
terra.
- Ficas connosco esta noite, Rol? Vamos acampar perto do 
caminho, ali em cima. - Quentin apontou para uma elevao 
arborizada que orlava a costa. - O Toli vai fazer uma 
fogueira num instante e, depois, podemos comer qualquer coisa 
quente.
- Obrigado, senhor. Estou cansado... e com fome. No sei o 
que  pior.
- Prestaste-nos um bom servio. Toma a tua recompensa. 
Quentin meteu a mo na bolsa de couro macio que tinha 
pendurada no cinto. - Um ducado de ouro pelo trabalho e outro 
pela tua amabilidade.
Estendendo a mo calejada, Rol fez uma profunda vnia:
-  de mais, senhor. Eu no devia aceitar tanto. - Apalpou as 
moedas de ouro e quis devolv-las a Quentin.
- No, ganhaste-as bem. E tambm ao nosso apreo! Guarda-as e 
no digas mais nada. Mas, olha! O Toli j est a acampar. Se 
no nos despachamos, ainda chegamos atrasados ao jantar.
Reclinaram-se os trs a conversar em volta da fogueira, 
enquanto as estrelas surgiam na imensa abbada celeste. Na 
costa, a gua batia docemente nos seixos macios e 
arredondados e, nas rvores, uma ave nocturna chamava a sua 
companheira. Os pinheiros altos erguiam-se acima deles e o ar 
cheirava a vento fresco e a blsamo.

26

Quentin, que cabeceava de sono e se deixou adormecer por 
vrias vezes, acabou por desejar boa-noite aos companheiros e 
por se enrolar na sua capa. Toli ps mais uma acha na 
fogueira, levantou-se para ver os cavalos e foi-se deitar. A 
julgar pelo ritmo lento e regular da sua respirao, Rol j 
dormia como uma pedra. Toli espreguiou-se e irgueu os olhos 
para o cu, que cintilava com mil luzinhas minsculas. Ao 
percorrer os cus com o olhar, teve uma curiosa viso. Por um 
momento, deixou-se ficar a contemplar o que estava a ver. 
Depois, virou-se e agachou-se silenciosamente perto de 
Quentin.
- Kenta... - Abanou docemente o seu amo adormecido. - Kenta, 
quero que vejas uma coisa.
Quentin virou-se e sentou-se, perscrutando intensamente o 
rosto de Toli, iluninado de um lado pela luz da fogueira, mas 
este estava inespressivo.
- O que foi? Conseguiste ver o Veado Branco?
- No, no  nada assim to importante. - Toli ignorou o 
gracejo. - Pensei que talvez quisesses ver isto... - Conduziu 
Quentin para um local pouco afastado da fogueira e dos ramos 
pendentes das rvores.
- Olha para leste... ali, mesmo acima da muralha. Ests a 
ver?
- Uma estrela? Estou a ver... uma estrela muito brilhante.
- Repara como cintila. No achas estranho?
-  a Estrela do Lobo. Mas tens razo: est diferente. Que 
achas? Toli observou a estrela brilhante e acabou por se 
afastar, dizendo: - No sei. S queria que a visses.
Quentin no ficou satisfeito com esta resposta. Era evidente 
que Toli escondia alguma suspeita, mas permaneceu calado. E 
no valia a pena tentar arrancar nada ao Jher at este estar 
pronto para falar. Quentin pensou que, fosse o que fosse que 
andasse s voltas naquela cabea, acabaria por se revelar 
mais cedo ou mais tarde, mas s quando Toli assim o quisesse. 
Ento, esperaria. Quentin suspirou, voltou a enrolar-se na 
capa e adormeceu.

CAPTULO III

A julgar pelo som gorgolejante que enchia o desfiladeiro 
orlado de rochas, a primeira catarata do Arvin, ficava mesmo 
em frente. Blazer e Riv escolhiam o melhor caminho entre as 
pedras soltas do cho do desfiladeiro, enquanto Quentin e 
Toli perscrutavam os elevados penhascos.  sua volta, 
agigantavam-se denteadas espirais de rocha. Movimentavam-se 
com cuidado, como se atravessassem a floresta petrificada de 
um gigante.
Passaram entre dois grandes afloramentos de pedra castanha, 
sobre os quais se erguia uma grande laje que formava os 
postes e o someiro de uma ombreira enorme.
- A Porta de Azmel - murmurou Quentin, ao passarem-na 
rapidamente. Depois, consideravelmente mais alegre, 
acrescentou: - Olha! A estrada de Eskevar. - Apontou para o 
outro lado das velozes guas do Arvin, para o ponto onde 
comeava a estrada.
Sem hesitar, Quentin fez avanar o cavalo para dentro da gua 
fria. A rpida corrente bateu contra as patas do animal e 
molhou o seu cavaleiro at aos joelhos. Quentin sentiu que 
aquelas picadas geladas eram o tnico para fazer desaparecer 
o pressentimento opressivo que o assaltava sempre que 
cavalgava pelo fantasmagrico desfiladeiro que terninava na 
Porta de Azrael. Mas, com este para trs e com a estrada 
larga  frente, sentiu que o nimo lhe voltava.
- Agora j no falta muito - gritou por cima do ombro para 
Toli que. naquele momento, entrava, chapinhando, no rio. - 
Amanh  noite jantaremos com o Durwin. e, no dia seguinte, 
estaremos  mesa do Rei Drago.

28

Pensava que tinhas pressa - replicou Toli. - Podemos fazer 
melhor do que isso! - Proferidas estas palavras, bateu com as 
rdeas nos ombros de Riv e inclinou-se na sela. O cavalo deu 
um salto para a frente, fazendo erguer torrentes de gua 
gelada, passou por Quentin, saiu do rio batendo com os cascos 
no cho e precipitou-se para a estrada.
- Uma corrida! - gritou Quentin para a figura de Toli, que se 
afastava. Depois, agitou as rdeas de Blazer, que saiu da 
gua e partiu como uma flecha atrs de Tol.
L no alto, nos sops solitrios, o som da corrida ecoava e 
tornava a ecoar de uma rocha nua para a outra. Os seus gritos 
de jbilo percorriam regatos e fendas e retiniam nos espaos 
entre as rochas e nas cavernas. Os cavalos quase voavam e os 
seus cascos arrancavam fascas do cho de pedra.
Por fim, exaustos e sem flego, pararam numa cumeeira. Abaixo 
deles, os sops iam desaparecendo em arcos suaves, esbatendo-
se na distncia brumosa em tons que iam do violeta ao azul. 
Para sul, erguiam-se os despenhadeiros majestosos e cobertos 
de neve dos Fiskills, onde os ventos eternos uivavam entre os 
picos aguados.
- Ah! - suspirou Quentin, respirando profundamente. - Que 
vista!  uma terra muito bonita, no ?
- Lindssima. O meu povo tem uma palavra... acho que nunca ta 
disse: AI-affira.
- No, nunca a tinha ouvido. Que quer dizer?
- No existe nenhum significado exacto na tua lngua, mas 
quer dizer qualquer coisa como "a terra da paz abundante".
- AI-allira. Gosto. Ajusta-se na perfeio. - Comearam a 
descer juntos. - E no h dvida que est em paz. Olha para 
aqueles vales. Estes ltimos anos foram bons. A terra 
produziu muito. As pessoas esto satisfeitas. No posso 
deixar de pensar que o deus abenoou este reino, como 
recompensa pelos tempos atribulados que passou, quando 
Eskevar estava afastado do trono.
- Tens razo, tm sido uns anos muito bons. Tempos dourados. 
S espero que continuem assim.
Quentin lanou um olhar de lado ao seu companheiro. Os olhos 
de Toli estavam fixos nalgum horizonte distante. Parecia em 
transe. Como

29

no queria alterar a boa disposio que reinava, Quentin no 
perguntou nada, e continuaram a descer a encosta sem falar.

O dia seguinte amanheceu limpo e claro, aquecido por um vento 
suave que soprava de oeste. j os viajantes se tinham posto a 
caminho h muito tempo quando o Sol espreitou por cima do 
Erleraros, o pico mais alto dos Fiskls. Como a estrada lhes 
facilitava o andamento, foraram o passo e chegaram s terras 
baixas cerca do meio-dia.
Comeram uma refeio apressada entre pedras cobertas de 
musgo,  sombra de um antigo carvalho, e recomearam a 
jornada. Ainda no tinham ido longe quando Toli disse:
- Olha ali para a estrada. Temos companhia.
Quentin ergueu o olhar e viu com dificuldade, l muito ao 
longe, o que parecia ser um grupo de viajantes caminhando na 
sua direco. Mal os entreviu, e logo foram escondidos por 
uma curva da estrada.
- Sero mercadores? - indagou Quentin para si prprio em voz 
alta. Acontecia muitas vezes os comerciantes que vendiam os 
seus produtos de cidade em cidade viajarem em grupo, tanto 
para se distrarem uns aos outros como para se protegerem.
- Se forem, compro uma jia para a Bria.
Prosseguindo o seu caminho, Quentin pensou em tudo aquilo de 
que a sua amada gostaria. Rodearam o flanco de um monte 
coberto de erva e de flores silvestres escarlates e 
aproximaram-se do local onde tinham visto os viajantes.
- Que estranho! - observou Quentin. - j devamos t-los 
encontrado. Talvez tenham parado na estrada, atrs daquele 
macio de rvores. - Apontou em frente, para um amontoado de 
rvores cujos ramos pendiam sobre a estrada, escondendo de 
vista todos os que estivessem do outro lado.
Cada vez mais perplexos, seguiram em frente.
Quando chegaram s rvores, voltaram a poder ver o fundo da 
estrada, mas no se distinguia vivalma.
- Isto  cada vez mais estranho - comentou Quentin.
Toli desmontou e caminhou ao longo da estrada, procurando na 
poeira quaisquer sinais que pudessem explicar o 
desaparecimento do

30

grupo que ambos tinham visto com toda a nitidez apenas uns 
minutos atrs.
Avanaram lentamente, Quentin examinava as rvores, que 
ficavam do lado direito da estrada. De repente, Toli parou, 
ajoelhou-se e traou com o dedo um crculo em volta de umas 
pegadas impressas na poeira.
- Pararam aqui antes de sarem da estrada... ali. - Apontou 
para as rvores.
- Quantos eram?
- Isto no chega para dizer. Mas eram homens, mulheres e 
tambm crianas.
- UP - resfolegou Quentin confusamente. - Porque ser que 
tero ido a correr para o bosque? De certeza que no foi por 
terem visto dois cavaleiros.
Toli encolheu os ombros e voltou a montar:
- Est aqui mais uma coisa que no podemos esquecer-nos de 
contar ao rei.
- Pois no.
Ao escurecer, acamparam numa clareira cheia de erva, mesmo ao 
lado da estrada. O sol lanava raios cor de rubi atravs das 
delicadas nvens que se moviam graciosamente pela abbada 
violeta dos cus. Quentin foi postar-se num campo salpicado 
de flores amarelas, cujas corolas prenhes de plen lhe 
roavam pelas pernas. De braos cruzados no peito e um olhar 
de sonhadora concentrao, contemplou a forma imponente que 
tinha  frente: no cimo do trilho estreito, que subia como um 
fio de fumo branco elevando-se do cho, encontrava-se o 
planalto onde se erguia o Grande Templo de Ariel.
- Confessa que tens saudades da tua antiga casa - disse Toli, 
aproximando-se por trs.
- No... - respondeu Quentn com um ar ausente. Depois, 
mexeu-se e riu-se, fitando os olhos castanho-escuros de Toli. 
-  como quem tem saudades da sombra quando anda ao sol. S 
estava a pensar no tempo que passei naquele templo. Para mim, 
foram dias de solido e frustrao, de estudos infindveis, 
sem encontrar quem realmente procurava. No teria dado um bom 
sacerdote... nunca percebi para que servia ungir a rocha 
sagrada do templo. Sempre me pareceu que era desperdiar um 
leo muito caro, mas havia quem achasse que era uma

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ddiva. E os sacrifcios... as pulseiras de ouro, as taas de 
prata e os animais muito bem tratados... s serviam para 
tornar os sacerdotes mais ricos e mais gordos do que j eram.
- Whist Orren quer mais do que pulseiras, taas ou carne. E 
no vive s nos templos feitos pelos homens, mas nas suas 
vidas.
- Sim, o Altssimo oferece aos homens a liberdade; o preo  
uma devoo sem limites. Os deuses menores no exigem tanto, 
mas quem pode conhec-los? So como neblinas sobre a gua: 
quando o sol as toca, desaparecem.
Viraram-se e foram acomodar-se para passar a noite. Depois de 
comerem, Toli ps os cavalos a pastarem na erva. O crepsculo 
envolvia a tranquila clareira com as suas compridas vestes 
purpreas.
Quentin deitou-se com a cabea repousando na sela e observou 
o cu, coberto de lantejoulas. "As estrelas nunca mudam", 
pensou. Depois, ainda a formular este pensamento, lembrou-se 
da conversa que tivera com Toli. Virou a cabea para leste e 
viu a estrela estranha e cintilante para a qual Toli lhe 
chamara a ateno algumas noites atrs.
- A Estrela do Lobo parece mais brilhante - comentou Quentin.
- Tenho andado a pensar o mesmo, Kenta.
- Que diria o sumo sacerdote Biorkis a um pressgio assim? Os 
sacerdotes devem ter as suas explicaes.
- Vai l e pergunta-lhe.
- O qu? Achas que me atrevo?
- Porque no? Que mal tem?
- Nem acredito no que estou a ouvir! O meu servo a dizer-me 
para procurar um pressgio numa fonte impura! Toli, sabes 
melhor do que ningum que me afastei de smbolos e de 
pressgios. Sigo um deus diferente... tal como tu.
- No estou a sugerir que peas um pressgio a Ariel nem que 
renuncies s verdades que aprendeste, mas s que perguntes ao 
teu amigo de antigamente a sua opinio sobre um acontecimento 
estranho. No h mal nenhum nisso. Alm disso, Whist Orren, 
que mantm as estrelas nas suas rotas, por vezes revela a sua 
vontade atravs de portentos assim. Quem quer que olhe pode 
ver o que l est escrito.
- Tens razo, Toli. O biorkis ainda  meu amigo. E at me 
apetece dar um passeio. Anda. - Com passos largos, Quentin 
atravessou o

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campo em direco ao carreiro que levava ao templo, e que, 
pelo luar brilhante, parecia um fio de prata serpenteando 
pela encosta acima.
Chegaram ao carreiro e iniciaram a subida em crculos. 
Enquanto subiam, Quentin contemplava a noite inundada pela 
luz da Lua. O vale brilhava frouxamente; os contornos das 
folhas das rvores e as ervas pareciam tecidos em prata. Ao 
longe, nos montes distantes, as fogueiras dos pastores 
cintilavam como estrelas cadas na Terra.
Por fim, chegaram ao cimo e entraram no grande ptio branco 
de pavimento de pedra, em cujo centro se erguia um pilar de 
pedra trabalhada com uma tocha em cima. A sua chama 
bruxuleante lanava um amplo crculo de luz em volta da base 
e reflectia-se nas portas fechadas do templo.
- Agora vamos ver se peregrinos assim como ns so bem 
recebidos  noite - murmurou Quentin.
Atravessaram o ptio e subiram os muitos degraus que iam dar 
 entrada principal. Quando chegaram s portas enormes, 
Quentin tirou o punhal da bainha que tinha presa no cinto e 
bateu com o cabo nas slidas traves.
Sabia que quela hora deviam estar todos a dormir e que tinha 
que esperar que algum sacerdote acordasse. Enquanto esperava, 
sentiu-se invadido pela estranha sensao de que voltava a 
ser o magrinho aclito do templo de tantos anos atrs. Por um 
momento, viu a pedra escura do templo e o ptio banhado pelo 
luar com os olhos da sua mocidade
Tornou a bater e ouviu logo um arrastar de ps do outro lado.
- Vai-te embora, peregrino. Volta amanh. Os sacerdotes esto 
a dormir - disse a voz abafada do outro lado.
- H algum que nos deixar entrar se lhe disseres quem 
somos.
- S o sumo sacerdote vos pode deixar entrar.
- Excelente!  ele que procuramos!
- No, vo-se embora! Voltai amanh. No vou acord-lo agora 
- Ouviram os passos arrastados afastando-se do outro lado da 
porta.
- Bem, ele no quer facilitar-nos nada - disse Quentin. - Mas 
h outra entrada nas traseiras do templo. j que viemos aqui, 
vamos tentar.
Movimentando-se como sombras debaixo do alto prtico do 
templo, chegaram ao lado virado a sul, sobranceiro ao 
tranquilo vale. Enquanto

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andavam, o luar banhava-os com os seus raios oblquos, que
formavam tiras de luz e sombra por baixo das enormes 
caleiras.
- Ouve - disse Toli. - Vozes.
Quentin parou e ps a cabea de lado. O ar parado 
transportava as
vozes que lhes chegavam de um ponto situado l  frente, um 
pouco
abaixo deles. O som era apenas um murmrio surdo que mal se 
reconhecia.
Prosseguiram com mais cautela e as vozes ficaram mais 
distintas.
Dali a pouco, os viajantes estavam agachados atrs das 
imensas colunas
do templo, observando um pequeno crculo de homens de vestes 
compridas inclinados sobre um objecto brilhante.
- Esto a estudar as estrelas - comentou Quentin, muito 
excitado. - E olha para aquele do meio. Parece-me que o 
conheo.
Com toda a ousadia, Quentin saiu da sombra da coluna e desceu
alguns passos em direco ao grupo. Inspirando profundamente, 
disse
em voz alta:
- Sacerdotes de Ariel, recebeis dois peregrinos curiosos?
Os sobressaltados sacerdotes viraram-se rapidamente e 
observaram
as figuras de dois jovens encaminhando-se para eles.
O sacerdote que estava no meio dos outros deu um passo em 
frente e respondeu:
- Os peregrinos so sempre bem-vindos ao santurio de Ariel,
mas a maioria prefere fazer as suas oferendas  luz do dia.
- No viemos fazer oferendas nem perguntar nada ao deus 
Ariel,
mas sim a um sacerdote.
- Os sacerdotes so apenas servos do seu deus;  ele que 
declara
a sua vontade.
- Ns tambm no queremos o interesse do deus por qualquer
coisa que nos possa ter acontecido - replicou Quentin, 
aproximando-se do sacerdote. Naquele momento, j conseguia 
ver completa mente o rosto do homem  luz do luar, e sabia 
que estava em frente
do seu antigo protector. - Queremos falar contigo de homem 
para
homem.
Quentin sorriu quando um leve claro de reconhecimento 
fluminou
a cara do sacerdote.
O meu corao diz-me que devia conhecer-vos, senhor - disse

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lentamente o sumo sacerdote. Os seus olhos de velho 
procuravam nas feies do jovem alguma pista que lhe 
indicasse quem era a pessoa com quem falava. - Mas no me vem 
aos lbios nenhum nome. j nos conhecemos?
Quentin aproximou-se mais e pousou as mos nos ombros 
arredondados do sacerdote.
- A vida de um sacerdote  assim to ocupada que nem lhe d 
tempo para recordaes?
- As recordaes no andam pelos ptios dos templos  noite 
nem se encontram cara a cara com aqueles que as tm.
- Ento talvez te lembres disto. - Quentin meteu a mo na 
bolsa que trazia  cintura e tirou uma moeda de prata, que 
estendeu ao sacerdote.
- Esta moeda  do templo. Ento deveis ser...
- Tu prprio me deste essa moeda h muitos anos, Biorkis.
- Quentin? s o Quentin, o aclito? - perguntou 
precipitadamente o ancio.
- Sou. Voltei para te ver, meu velho amigo... foi sempre 
assim que te considerei.
- Mas como mudaste e te fizeste homem! Vejo que ests bom. 
que te traz aqui hoje?
Os outros sacerdotes olhavam para esta reunio com um ar de 
interrogao, aproximando-se mais para verem quem seria 
aquele desconhecido.
- Podemos falar a ss? - indagou Quentin. - Tenho uma coisa 
para te perguntar.
Afastaram-se os dois, seguidos de perto por Toli. Os 
sacerdotes juntaram-se a murmurar o seu espanto e a falar 
entre eles.
- O teu nome espalhou-se pela terra - disse Biorkis, enquanto 
se encaminhavam para um afloramento rochoso situado de um dos 
lados do planalto.
- Sim? Aqui tambm se ouvem esses contos?
- Ouvimos o que queremos ouvir. Os camponeses no se cansam 
de nos trazer informaes. Algumas so teis. Mas tu s 
conhecido como o prncipe que salvou o Rei Drago e derrotou 
o monstruoso feiticeiro Nimrood.

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- No fui eu que derrotei o Nimrood, e sim aqui o Toli, meu 
servo
e meu amigo.
Biorkis fez uma vnia para Toli e indicou que deviam sentar-
se todos nas rochas.
Tambm dizem que ests a construir uma cidade nas Terras 
Selvagens, que se ergue por magia das pedras do cho.
- Mais uma vez, no se deve a mim. Dekra s  a minha cidade
porque os gentis Curatak me deixaram participar no seu 
trabalho para
lhe devolver a sua antiga glria.
- Quem o diz so as pessoas, no sou eu. Quanto a mim, 
suponho que a verdade destas histrias se encontra no corao 
como o
caroo de um damasco. Mas, pelo menos, vou sabendo que o meu 
antigo aclito est bem e que  muito estimado pelos seus 
conterrneos.
Mas porque me procuraste agora? Durante estes anos, as portas 
do templo no estiveram fechadas para ti.
- Viemos saber a tua opinio sobre uma coisa que vimos. -
Quentin virou-se para leste e apontou para l do vale 
tranquilo e banhado pela lua. - Aquela estrela que nasce ali. 
A Estrela do Lobo. No
tem mudado ultimamente? Os sacerdotes detectam algum aumento 
do
seu poder?
- Portanto, no renunciaste completamente aos teus estudos. 
Continuas a procurar sinais nos cus nocturnos.
No, tenho de admitir que j no estudo as estrelas. Foi o 
Toli que me chamou a ateno para isto aqui h umas noites.
- O teu Toli tem razo. De facto, h muitos meses que 
seguimos
esta estrela com interesse. Esta noite, como viste, estvamos 
mais uma
vez a examinar as cartas, procurando uma resposta para este 
mistrio.
- Ento no sabes o que pressagia este sinal?
- Alguma vez se sabe? - Biorkis riu-se. - Porque  que fazes 
um
ar to chocado? Um sacerdote pode ter dvidas- at o sumo 
sacerdote
as pode ter. Mas temos as nossas teorias. Sim, muitas 
teorias.
- Foi isso que viemos ouvir: as vossas teorias. O que  que 
achas
que significa?

CAPTULO IV

Durwin percorria apressadamente os corredores escuros do 
castelo de Askelon, varrendo o cho com as suas compridas 
vestes castanhas. Tinha o caminho iluminado por tochas, cujas 
chamas bruxuleavam com a agitao do ar que Durwin provocava 
ao passar apressadamente por elas.  sua frente, via duas 
portas abertas para um pedao do cu noctumo, banhado pelos 
brilhantes raios da Lua.
Atravessando a soleira, entrou na varanda e parou. Ali, a 
alguns passos dele, encontrava-se a silhueta delgada de uma 
mulher, cujo cabelo escuro, perpassado de reflexos, caa em 
cascatas de anis e caracis, e cujo rosto erguido revelava a 
beleza do seu pescoo esbelto e bem modelado. Envergava um 
vestido branco e largo, preso na elegante cintura por uma 
comprida fita azul que quase tocava no cho.
- Vossa Majestade - disse Durwin, anunciando-se suavemente. 
Estou aqui.
A mulher virou-se e sorriu.
- Meu bom Durwin, obrigado por teres vindo to depressa.
- Bria... Pensei...
- Pensaste que eu era a rainha, bem sei. Mas fui eu que pedi 
para c vires.
- Pareces-te tanto com a tua me assim com a luz da Lua a 
bater-te no cabelo...
- Isso para mim  o melhor dos cumprimentos, bom antigo. Mas 
deves estar cansado da jornada. No vou demorar-te muito, mas 
tenho de falar contigo. Senta-te, por favor.

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Levantou o brao, indicando-lhe um banco de pedra ali perto. 
Durwin pegou-lhe na mo e caminhou com ela ao longo da 
varanda.
- Est uma noite linda, no est? - perguntou.
- Est.. muito bonita. - A jovem falava como se s naquele 
momento tivesse descoberto que era de noite. O eremita 
percebeu que ela tinha qualquer coisa que a inquietava.
- Preferia no te ter incomodado, mas achei que ningum podi 
ajudar-me melhor. O Theido partiu e Ronsard foi com ele.
- No faz mal, senhora. Fico muito contente por saber que 
este velho eremita ainda pode ser til aos habitantes do 
castelo de Askelon. Se soubesse, tinha vindo mais cedo... o 
teu mensageiro ainda perdeu algum tempo  minha procura. Eu 
andava na floresta a apanhar erva, para tratar a mulher 
doente de um campons que mora ali perto.
- Eu sabia que vinhas logo que pudesses. Eu... - A princesa 
interrompeu-se, incapaz de dizer o que lhe ia pelo corao.
Durwin ficou  espera e, depois, disse:
- O que se passa, Bria? Podes falar  vontade. Sou teu amigo.
- Oh, Durwin! - As mos tremeram-lhe e deixou cair a cabea. 
Enterrou o rosto nas mos, e ele pensou que ia chorar. Mas 
ela inspirou profundamente e ergueu o rosto para a Lua, com 
os olhos enxutos. Nesse momento, a jovem lembrou-lhe mais do 
que nunca uma outra mulher que tinha uma imensa fora 
interior em tempos de aflio: a rainha Alinea.
Por fim, Bria falou:
-  o rei. Oh, Durwin, estou muito preocupada. Nem parece o 
mesmo. Acho que est muito doente, mas no quer ser visto por 
nenhum dos seus mdicos. Ri-se de mim sempre que lhe sugiro 
que cuide da sua sade. A minha me tambm anda preocupada, 
mas no pode fazer nada. E h outra coisa.
Durwin. ficou pacientemente  espera que ela continuasse.
- No sei o que ... algum problema, algures. - Virou-se e 
fitou o eremita com um sorriso que, embora lhe suavizasse a 
boca, no lhe iluminou o olhar, como normalmente acontecia. - 
O quentin vem a.
- Eu sei. Daqui a umas semanas. Vamos todos celebrar juntos o 
Dia do Meio do Vero.
- No, ele vem agora. O rei Eskevar mandou-o chamar. Mesmo 
sabendo

39

que ele viria para o Dia do Meio do Vero, o meu pai mandou
um mensageiro especial para o ir buscar.  por isso que sei 
que alguma coisa se passa.
- Pode ser que ele queira v-lo mais cedo... por capricho.
Bria sorriu novamente.
- Muito obrigado pelas tuas palavras, mas conheces o Rei 
Drago
to bem como eu. No faz nada por capricho. Tem qualquer 
razo para
o querer aqui. Mas nem desconfio do que possa ser.
- Ento, vamos esperar e logo veremos. Quando  que o Quentin
chega?
- Se partiu logo que recebeu a mensagem, deve estar aqui 
depois
de amanh ou, no mximo, no dia a seguir.
- Isso quer dizer que a espera no ser muita, vais ver. 
Entretanto,
vou tentar descobrir o que aflige o rei tanto fisicamente 
como no esprito. Farei tudo o que puder ser feito. No te 
preocupes mais, senhora.
- Obrigado, bom amigo. No lhes dizes que te mandei chamar?
- Se preferes que no, digo-lhes que me cansei dos livros e 
das
mezinhas e que queria o calor do convivio com os meus amigos. 
Vim
mais cedo para a celebrao, pronto.
-j me sinto melhor por saber que ests aqui.
- Fico satisfeito com isso, mas tenho a certeza de que 
preferias
que um certo jovem estivesse no meu lugar.
Bria sorriu e, desta vez, os seus profundos olhos verdes 
cintilaram.
- No o posso negar. Mas no me importo de esperar. De certo
modo,  bom saber que ele vem mais cedo.
Falaram mais um pouco e, depois, levantaram-se e Bria desejou
uma boa-noite a Durwin. Este acompanhou-a  porta que dava 
para
dentro do castelo e vrou-se para vaguear sozinho pela 
varanda.
Apoiando os braos no parapeito, inclinou-se para ver os 
jardins e descortinou uma figura solitria passeando entre os 
canteiros de rosas
cor de rubi, que o luar tomava azuis. No sabia quem poderia 
ser, mas,
a julgar pela maneira como vagueava, era bvio que o 
caminhante se
deixara apanhar pela melancolia. inclinava-se para a frente e 
cruzava os
braos, parava e recomeava a andar.
Durwin continuou a olhar, at que a figura pareceu pressentir 
que

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estava a ser observada: parou, endireitou-se e virou-se 
rapidamente para a varanda. Durwin afastou-se, no sem antes 
ver o que j tinha adivinhado. No momento em que o rosto se 
voltara, o luar fluminara-o e Durwin certificara-se de que 
pertencia a Eskevar, o Rei Drago.

A barba branca, comprida e entranada de Biorkis, smbolo da 
sua ocupao, luzia ao luar como uma brilhante cascata 
gelada. O seu rosto enrugado, ainda redondo e rechonchudo 
como sempre, parecia uma lua mais pequena que reflectia a sua 
luz para um progenitor maior. Biorkis contemplou o cu 
durante muito tempo. Por fim, disse:
- Pode ou no ser qualquer coisa. Os cus esto cheios de 
sinais e portentos, e nem todos tm a ver com os homens.
- Se pensasses isso ias estudar as estrelas  noite?
- No, provavelmente no. Mas este fenmeno  muito estranho. 
 um sinal que s se v uma vez na vida.. ou que talvez nunca 
se veja. Para alm de qualquer significado que o seu estudo 
possa vir a revelar,  sempre til registar o que se passa.
- No ests a querer responder-me, Biorkis. Porqu? Claro que 
todos podemos ver a estrela e pensar o que quisermos.
Uma expresso de grande fadiga apareceu no rosto do sumo 
sacerdote, que se virou para fitar Quentin:
- Tanto quanto sei, esta estrela  um sinal do mal.
Falara com simplicidade e suavidade, mas as suas palavras 
gelaram o sangue de Quentin, a quem pareceu que o ar 
arrefecera subitamente.
Quentin tentou aligeirar o comentrio de Biorkis:
- Os pressgios so sempre bons ou maus, conforme quem os l.
- Pois, mas quanto maior for o sinal maiores sero as suas 
consequncias. E este sinal  muito grande... imenso.
Quentin ergueu os olhos para leste e mirou a estrela 
atentamente. Era verdade que estava brilhante, mas havia 
outras estrelas que brilhavam quase tanto como ela. Voltou a 
fitar Biorkis; com uma interrogao no olhar.
- S ainda agora comeou a mostrar-se - disse o sumo 
sacerdote, respondendo quele olhar. - Fica mais brilhante a 
cada noite que passa, assim como o mal que pressagia.
- Sabes qual  a natureza desse mal?

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- o mal  o mal. Que interessa? De qualquer modo, o 
sofrimento vai ser muito. Inundaes, fome, peste, guerra... 
 tudo o mesmo: destruio.
- Dizes bem.  verdade. Mas, se souberem de onde vir, os 
homens podem fazer muito para enfrentarem esse mal.
- A entram as nossas teorias. Alguns dizem que a estrela vai 
crescer at encher o cu, tapando o Sol, a Lua e as estrelas. 
Depois, toca na Terra e semeia a insanidade, antes de 
consumir tudo pelo fogo.
"Outros dizem que cada nao tem uma estrela e que esta 
Estrela do Lobo representa uma nao feroz e brutal que se 
ergue contra outras naes e tenta elimin-las com o seu 
poder.
"Outros ainda consideram isto o princpio do fim da 
humanidade na Terra. Esta estrela  o smbolo de Nin, o deus 
destruidor, que faz descer os seus exrcitos para lutarem 
contra as naes da Terra.
- E tu, Biorkis, que dizes tu?
- Acredito que todos tm razo. A verdade h-de ser composta 
por parte de cada uma destas suspeitas.
- E quando  que essa verdade se tornar evidente?
- Quem sabe? Muito do que  pressagiado nunca chega a 
acontecer. As nossas melhores adivinhaes no passam de 
resmunguices de cegos. - Biorkis virou a cara. - Nada  certo 
- rematou baixinho. Nada  certo.
Levantando-se, Quentin encaminhou-se para o ancio e pousou-
lhe uma mo no ombro.
- Anda connosco. j viveste o suficiente para veres os deuses 
como eles so. Deixa-nos mostrar-te um deus digno da tua 
devoo, o Altssimo, Senhor de Tudo. Nele encontrars a paz 
que procuras. Uma vez, disseste-me que buscavas uma luz mais 
brilhante.
Biorkis fitou o com um ar cansado.
- Ainda te lembras disso?
- Disso e de mais. Lembro-me que eras o nico amigo que eu 
tinha no templo. Anda connosco e deixa-nos mostrar-te a luz 
que procuras h tanto tempo.
Biorkiis suspirou, e foi como se toda a terra gemesse de uma 
imensa exausto.
- Estou velho... velho de mais para mudar. Sim, estes olhos 
procuraram

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a verdade que lhes foi negada. Sei que  em vo que sirvo 
deuses menores, mas sou o sumo sacerdote. No posso ir 
convosco. Houve, talvez, uma altura em que pude afastar-me, 
como o Durwin e como tu... mas j passou. Agora  muito 
tarde.
Quentin olhou tristemente para o seu velho amigo.
- Tenho pena.
Toli levantou-se e afastou-se. Quentin virou-se e olhou para 
trs, na direco de Biorkis, que permanecia empoleirado numa 
rocha, contemplando o tranquilo vale.
- No  tarde de mais. Basta-te procurares e logo o 
encontrars. A deciso  tua.
Sem uma palavra, Quentin e Toli desceram lado a lado o trilho 
sinuoso. Quando chegaram ao campo e  fogueira, cujas brasas 
luziam frouxamente, Quentin perguntou:
- Sabias que a estrela era um sinal do mal, no sabias?
- Sabia. Sempre pensei isso.
- Mas sugeriste que fssemos ao templo. Porqu?
- Quis ouvir a opinio de outros sbios. Apesar de todas as 
incertezas espirituais, os sacerdotes no deixam de ser 
homens de grande sabedoria.
- E o Biorks confirmou os teus piores receios?
- O biorks falou do que pode acontecer, no do que vai 
acontecer. Isso s o Deus Altssimo, o sabe. A sua mo est 
sempre estendida para os que o servem.
- Ento, se as especulaes do Biorkis; estiverem certas, 
vamos precisar dessa mo forte muito em breve.

CAPTULO V

- A Terra move-se por meio de estdios, pocas. As lendas 
antigas falam de estdios anteriores da Terra... de quatro, 
pelo menos. Vivemos na quinta idade do homem. Cada idade faz 
o seu percurso e, depois, d lugar a outra idade. - Durwin 
pousou as mos na mesa. Quentin, com o queixo apoiado nas 
mos, fitava o santo eremita com uma ateno extasiada. 
Encontravam-se nos aposentos de Durwin.  sua volta, as velas 
bruxuleavam e enchiam o quarto de um brilho enevoado e 
amarelo.
"Estas idades podem durar mil ou dez mil anos. Claro que 
ningum pode saber a sua durao, mas os antigos acreditavam 
que o mundo  lanado num grande turbilho antes do fim de 
cada idade. Iniciam-se grandes migraes de pessoas, naes 
em guerra levantam-se contra naes, os cus esto cheios de 
sinais e de portentos. Depois, vem o dilvio: a Terra inteira 
 inundada ou coberta de gelo. Ento, o fogo incendeia a 
Terra e apaga todos os sinais da idade anterior.  um tempo 
de caos e trevas, grandes cataclismos e morte. Mas de tudo 
isto surge uma nova idade, melhor e superior  anterior.
Enquanto Durwin falava, Quentin sentiu-se invadido por uma 
fantasmagrica sensao de fascnio. Tentando libertar-se 
dela, indagou:
- Mas a Terra tem de ser completamente destruda para nascer 
uma nova idade?
Durwin. meditou na pergunta, mas, antes de abrir a boca para 
falar, Toli respondeu:
- Entre o meu povo, existem muitas histrias dos tempos 
anteriores

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a este. Diz-se que os Jher surgiram na terceira idade, quando 
o mundo era ainda muito jovem e os homens falavam com os 
animais e viviam em paz uns com os outros.
"So lendas muito antigas, cuja origem  anterior ao mais 
velho dos nossos contadores de histrias. Mas diz-se que a 
destruio do mundo pode ser evitada por um grande feito, 
embora no se saiba qual.
"Conta-se que Tilgal, o filho do Fazedor de Estrelas, salvou 
o mundo na segunda idade, amarrando os seus cavalos  
quadriga do pai e levando Morhesh, o Grande Senhor do Mal, 
depois de o ter ferido com um punhal feito de um nico raio 
de luz. Como o atirou para o Poo da Noite, a estrela de 
Morhesh extinguiu-se e a Terra no ardeu.
Durwin assentiu prontamente:
-  verdade! Como eu ia a dizer, cr-se que nem todas as 
idades tm de acabar em calamidade. A destruio pode ser 
minimizada completamente evitada... em geral, Por um acto de 
herosmo, um sacrifcio supremo ou o aparecimento de um lder 
poderoso, que conduz a humanidade para a nova idade.
- Acreditas nisso? - Perguntou Quentin.
- Acredito que o que aconteceu no passado aconteceu mesmo. 
que o testemunharam explicaram-no o melhor que podiam, com as 
palavras e as ideias de que dispunham. Claro que h muito Por 
esclarecer, mas  estranho que todas as raas tenham memrias 
deste tipo no seu passado.
Inclinando-se para a frente, Quentin pousou os cotovelos na 
mesa e enclavinhou os dedos das mos Uns nos outros.
- Quer dizer, acreditas que a estrela que vemos no cu  um 
indcio do fim desta idade?
Durwin esticou o queixo e coou-o. Lanando a Quentin uma 
rpi da mirada COM os seus olhos pretos, sorriu subitamente.
- Sim, acredito que se aproxima uma nova idade como o mundo 
jamais conheceu. Um tempo de grandes convulses e mudanas. E 
eu no acredito que haja mudanas sem lutas e sofrimento.  
assim!
Isso tudo parece-me muito sinistro - admitiu Quentin.
No deves pensar na dor - retorquiu Toli. - Pensa antes na 
maior glria da nova idade.

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Toli e Quentin haviam cavalgado de Narramoor at  cabana de 
Durwin, na floresta de Pelgrin. Como tinham ido depressa, 
haviam chegado ao fim da tarde, na altura em que o Sol se 
escondia por trs das copas das rvores.
- O durwin no est em casa - disse Toli ao aproximarem-se da 
cabana. Depois de terem olhado em volta, Quentin entrara l 
dentro e voltara sem pistas que lhes indicassem onde estaria 
o eremita.
- Pode ter sado por pouco tempo, se calhar para tratar 
algum aqui perto. Talvez volte ao cair da noite, mas no me 
parece. Tem o saco de remdios l dentro, mas a capa e a 
bolsa no.
Por isso, tinham decidido cavalgar durante a noite, e haviam 
chegado s imponentes portas de Askelon quando a Lua 
desaparecia a oeste. No querendo perturbar os criados nem 
acordar o rei e a rainha, tinham-se dirigido para os 
aposentos reservados a Durwin sempre que este se encontrava 
no castelo. A, para sua surpresa e satisfao, tinham 
encontrado o eremita afundado na sua cadeira, com um 
pergaminho enrolado no regao. Dormia to profundamente que 
at ressonava.
Depois de terem entrado, e apesar das tentativas para no 
fazerem barulho, Durwin despertara e saudara-os 
calorosamente:
- Cavalgastes toda a noite! Deveis estar com fome. Vou buscar 
 cozinha alguma coisa para comerdes.
Sara depressa, com uma vela na mo, enquanto Quentin e Toli 
tiravam as capas e mergulhavam as mos na gua da bacia, 
tentando lavar a fadiga. Exaustos, tinham-se ento acomodado 
numas cadeiras e passado pelo sono at que Durwin voltara com 
po, queijo e fruta que roubara da despensa.
- Pronto, sentai-vos a esta mesa e comei enquanto eu vos 
conto o que tenho feito desde a ltima vez que nos 
encontrmos. - Durwin falara-lhes dos seus estudos e do seu 
trabalho de curandeiro entre os camponeses e Quentin 
informara-o da audincia com Biorkis e da sua discusso sobre 
a estrela que brilhava mais de noite para noite.
Tinham falado muito e at tarde. Por fim, haviam-se levantado 
da mesa e acomodado nas cadeiras para dormir. Nesse preciso 
momento, ouvira-se algum bater muito levemente  porta de 
Durwin.
- Durwin, parece-me que tens visitas. Costumas receber assim 
to tarde? - indagara Quentin.

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Como muito bem sabes, nem sequer uma pessoa eu esperava nos 
meus aposentos esta noite e, afinal, encontro duas. Por isso, 
a partir de agora, tudo  possvel. Abre a porta e deixa-os 
entrar, se faz favor.
Quentin encaminhara-se para a porta e abrira-a, sem estar 
preparado para ser saudado como fora.
- Quentin, meu amor! Ests aqui! - Quentin abrira 
instantaneamente os braos para erguer uma jovem de vestido 
comprido branco de l, e enterrara o rosto no seu cabelo.
- Bria! At agora, nem sabia como tinha saudades tuas!
Os dois apaixonados tinham-se apertado num longo abrao e 
haviam-se afastado subitamente ao terem-se lembrado de que 
no estavam ss. Quentin voltara a pousar a sua dama no cho 
e arrastara-a, para dentro do quarto. Durwin e Toli olhavam-
nos e sorriam.
- O que te traz to tarde aos aposentos deste eremita? - 
perguntara Quentin em tom de brincadeira.
- Ia a passar l fora e ouvi vozes. Pareceu-me que uma delas 
era tua, meu amor.
- Ah! Os teus lbios do a resposta que os meus ouvidos 
querem ouvir. Mas olha, tenho muito para te contar. Aconteceu 
muita coisa desde a ltima vez que estive contigo.
- Mas no ser aqui! - replicara Durwin. - Daqui a pouco, 
neste quarto s vai ouvir-se o ressonar dos que querem 
dormir! Meus pombinhos, vo arrulhar para outro lado! - 
Sorrira alegremente e enxotara -os para fora da porta.
Quentin e Bria tinham percorrido de mos dadas o corredor 
mergulhado na escurido e haviam sado para a mesma varanda 
onde a princesa e Durwin tinham estado apenas uma noite 
antes.
Ao abrir a porta da varanda, Quentin dera com a luz fraca de 
um cu incandescente. A leste, os dedos carmesim da madrugada 
erguiam-se para o cu, mas, como o Sol se demorava atrs da 
linha do horizonte, ainda se viam uma ou duas estrelas.
- Tive saudades tuas, meu querido - suspirara Bria. - O meu 
corao tem chorado a tua ausncia.
- Agora estou aqui contigo.  quando estou a teu lado que me 
sinto mais feliz.

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- Mas vais partir outra vez temo que bem depressa. O meu pai 
tem uma tarefa para ti, e ficaremos novamente separados.
- Sabes o que ?
Bria abanara a cabea.
- Ento como sabes que vou partir to de repente?
- Uma mulher sabe
- Nesse caso, teremos de tornar ainda mais doce cada momento
que passemos juntos. - Dizendo isto, Quentin puxara-a 
suavemente e
beijara-a. Ela rodeara-o com os braos e pousara a cabea no 
seu peito.
Quentin contemplava o plcido cu vermelho-rseo, que se 
iluminnava e adquiria um tom dourado. A subtil alquimia da 
madrugada parecia ter transformado por magia as pedras das 
imponentes muralhas do
castelo de Askelon, que luziam como ouro polido.
- Quentin... - comeara Bria, num tom de voz fraco e 
assustado.
- Que se passa?
- Tenho medo, mas no sei de qu. O rei guarda os
seus pensamentos para si prprio e no quer ver ningum. E 
quando
quero saber dos assuntos do reino, sorri, d-me palmadinhas 
na mo e
diz-me que uma princesa s deve pensar em coisas felizes e 
no se
preocupar com questes mundanas. Ando inquieta por causa 
dele. Oh,
Quentin, quando o vires, vais perceber o que quero dizer. Ele 
no est
bem. Anda plido e abatido. Tem qualquer preocupao a 
afligi-lo.
Nem eu nem a minha me sabemos o que havemos de fazer.
- Acalma-te, Bria, meu amor. Se eu puder fazer alguma coisa 
para
o aliviar, garanto-te que no me pouparei a esforos. E se os 
remdios puderem cur-lo, o Durwin tratar disso.
"No entanto, devo confessar que tambm ando inquieto, mas no 

por nada que se explique assim to facilmente. Quem me dera 
que
fosse! Dava uma fortuna a quem acalmasse o turbilho que 
sinto crescer em mim.
"Vm aii problemas, Bria. Sinto-o, embora tudo  minha volta 
me
parea sereno e em paz. Assusto-me com as sombras e a noite 
no me
traz descanso;  como se o prprio vento me sussurrasse 
palavras de
alarme aos ouvidos, mas no ouo nenhum som.
Bria suspirara profundamente e apertara-o com mais fora.
- O que se passa? O que  que vai ser de ns, meu querido?
- No sei. Mas garanto-te uma coisa: hei-de amar-te para 
sempre.

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Tinham-se mantido abraados durante algum tempo, enquanto o 
Sol nascia e enchia o cu com a sua luz dourada.
- Olha como o Sol expulsa as trevas. Tal como ele, tambm o 
amor h-de afastar de ns todos estes problemas, garanto-te.
- Achas que o amor consegue tanto? - perguntara Bria 
sonhadoramente.
- Consegue tudo.

CAPTULO VI

- Meu bom Theido, acho que devemos regressar. j viemos longe 
de mais e  tempo de voltarmos a Askelon. Daqui a pouco o rei 
vai pensar que desaparecemos, se  que isso no aconteceu j.
- Mas ainda no vimos o que viemos ver: o inimigo, se de 
facto existe algum. Se voltssemos agora, estaramos a ser 
descuidados. A nossa tarefa no est completa.
Ronsard estava inclinado na sela, com uma mo pousada na 
maaneta e a outra atrs, massajando o fundo das costas.
- Se no desmonto depressa deste cavalo, posso nunca mais 
voltar a andar.
- Desde quando gostas de andar? O comandante-chefe do Reino 
devia dar melhor exemplo aos seus homens - gracejou Theido, 
voltando-se na sela para lanar um olhar aos quatro 
cavaleiros que os seguiam.
- Os meus homens conhecem-se bem - retorquiu Ronsard. Mas no 
estou a brincar quando digo que devemos voltar mediatamente. 
No  de animo leve que se faz esperar um rei.
- Nem  prprio levar-lhe informaes inteis. Os seus 
propsitos seriam to frustrados de uma maneira como da 
outra. - Theido virou o cavalo e aproximou-se de Ronsard. - 
Mas eu digo-te o que vamos fazer, para no ouvir mais as tuas 
queixas: mandamos um cavaleiro para trs com o encargo de 
comunicar o que descobrimos at agora e de informar da nossa 
inteno de continuarmos at estarmos satisfeitos.
- Muito bem. Manda tambm dizer que regressaremos o mais cedo 
e o mais rapidamente possvel, com um relatrio completo.

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- De acordo. - Theido virou o rosto queimado pelo sol na 
direco onde os cavaleiros esperavam, descansando as suas 
montadas, antes de prosseguirem a jornada. - Martran! Anda 
c! - chamou.
O cavaleiro aproximou-se dos seus chefes a p e saudou-os.
- Martran, vais imediatamente ter com o rei e transmitir-lhe 
esta mensagem: continuamos a nossa misso e lamentamos o 
atraso. Diz-lhe tambm que regressaremos logo que tivermos 
obtido aquilo que procuramos ou que pudermos ter respostas 
satisfatrias para lhe dar. Compreendes?
- Sim, meu senhor - replicou vivamente o cavaleiro.
- Repete a mensagem - ordenou Ronsard.
O cavaleiro repetiu a mensagem palavra por palavra, dando  
mesma a inflexo de Ronsard.
- Muito bem - aprovou Ronsard. - Pe-te a caminho. No pares 
por nada nem por ningum.
O cavaleiro tornou a saud-los, regressou para junto do 
cavalo, montou e partiu imediatamente, sem olhar para trs.
- Agora - disse Theido, abanando as rdeas impacientemente - 
vamos em frente.
Ronsard ergueu-se na sela e gritou para os restantes 
cavaleiros:
- Montai! A caminho!
Desde que tinham partido de Askelon que cavalgavam para sul, 
primeiro na direco de Hinsenby e, depois, ao longo da 
costa, que se inclinava para a regio de Suth de Mensandor. 
No caminho, haviam passado por Persch e por um grupo de 
aldeias cujos nomes no apareciam mencionados em nenhum mapa.
Naquele momento, aproximavam-se de uma faixa rochosa da 
costa, cujos ngremes penhascos se erguiam  beira-mar. Era a 
extremidade mais a sul dos montes Fiskills. Os despenhadeiros 
desciam para o mar e a terra abatia, como se tivesse sido 
dividida pelo golpe de um machado. O mar estava juncado de 
imensas rochas denteadas, algumas delas do tamanho de ilhas, 
mas que, apesar das suas dimenses, se projectavam nuas e sem 
vida acima das ondas, servindo apenas de poleiro para 
milhares de aves marinhas, que enchiam o ar com os seus 
gritos.
Um trilho estreito e traioeiro subia atravs dos penhascos e 
retorcia-se

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entre os picos rochosos. Ora passava por um desfiladeiro to 
estreito que um homem de braos estendidos podia tocar em 
ambas as paredes de rocha, ora ia dar a um penhasco nu, onde 
um nico passo em falso faria cavalo e cavaleiro carem s 
cambalhotas na espuma do mar enraivecido.
Pararam.
- Acho que o melhor  passarmos a noite aqui. No confio 
naquele
trilho  noite; j  suficientemente mau  luz do dia.
- Est bem - concordou Ronsard. - Parece-me que tambm 
prefiro percorr-lo logo de manh.
Afastando-se um pouco do trilho, comearam a levantar o 
acampamento para passarem a noite. O sol deslizava por trs 
do horizonte escuro do mar e os pssaros esvoaavam para os 
seus poleiros rochosos,
fazendo o crepsculo estremecer com os seus gritos 
barulhentos.
Dali a momentos, a Lua elevou-se no cu, banhando a paisagem
com a sua luz plida. Os homens, cansados, dormitavam e 
conversa
em voz abafada.
- Ouvi! - exclamou Ronsard abruptamente. Fez-se silncio, e 
todos se puseram a escutar a doce brisa do mar. O nico som 
que lhes
chegou aos ouvidos foi o longnquo enrolar das ondas batendo 
contra
as rochas e lambendo os penhascos.
Theido lanou um olhar de interrogao ao seu velho amigo.
- Oh, se calhar no foi nada - disse Ronsard, que, no 
entanto,
continuava a perscrutar a noite atentamente, como se 
esperasse que o
som se repetisse.
Dali a pouco levantou-se e, com um ar inquieto, ps-se a 
percorrer
o acampamento, do lado de fora do crculo de luz projectado 
pela fogueira. Depois, deu uns passos ao longo do caminho e 
ficou muito
de tempo a olhar para o trilho entre os penhascos. Theido, 
que o observava intensamente, no ficou surpreendido quando 
viu o musculoso cavaleiro regressar a correr.
- O que se passa?
- Vem a algum! Ali em cima, nos penhascos tenho a certeza!
Num sussurro spero, ordenou aos seus cavaleiros:
- Apagai a fogueira e levai os cavalos para mais longe. 
Escondei-vos e ficai  espera de um sinal meu!

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O pequeno acampamento ficou deserto num abrir e fechar de 
olhos. Nenhum sinal indicava que, apenas uns momentos atrs, 
tinham estado ali cinco cavaleiros.
Ronsard e Theido sentaram-se  espera, no escuro, ao lado do 
caminho, escondidos atrs de um macio baixo de filitos. Em 
pouco tempo, comearam a ouvir-se os sons fracos de um grupo 
de pessoas correndo, tentando desesperadamente passar sem 
serem vistas: o matraquear de uma pedra deslocada por 
descuido, o chiar abafado de uma roda, um ataque de tosse.
Depois,  medida que se aproximavam, as sombras escuras 
comearam a distinguir-se, recortando-se no cu nocturno. 
Vinham a p, e havia sombras mais pequenas entre as maiores. 
Mais do que caminhando em fila ao longo do trilho, apinhavam-
se umas contra as outras, formando como que um n apertado. 
Era evidente que temiam mais a separao do que a deteco.
- No  nenhum exrcito - murmurou Ronsard entre dentes. 
Respirando devagar, acrescentou: - Mas agora temos de 
descobrir quem so e porque se arriscaram a passar os 
penhascos  noite... exactamente o que ns evitmos fazer.
- Ns tnhamos alternativa, e se calhar eles no - replicou 
Theido.
Ronsard endireitou-se e avanou para perto do trilho, parando 
em frente do caminho do cabecilha dos viajantes nocturnos. 
Quando o homem se aproximou, Ronsard disse em voz alta e 
firme:
- Pra, amigo! Em nome do Rei Drago!
Ouviu-se um guincho e uma praga abafada, vindos do meio do 
grupo. Mas o homem parou imediatamente e olhou em volta, 
procurando a origem daquela ordem inesperada. Ronsard deu uns 
passos em frente e o luar bateu-lhe em cheio no rosto. 
Sorrindo, levantou os braos, mostrando aos assustados 
viajantes que no queria fazer-lhes mal.
- O q... que  que q... ueres? - conseguiu gaguejar o homem 
que vinha  frente.
- S quero falar convosco. No vou deter-vos por muito tempo. 
- Ronsard continuava a falar na mesma voz firme e num tom 
suficientemente alto para todos ouvirem.
- Quem s tu?

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- Sou o comandante-chefe de Mensandor - respondeu Ronsard.
- Quem sois vs e para onde correis  luz da Lua?
- Senhor! - arquejou o homem com alvio. - No estais a 
brincar? Sois mesmo um homem do rei?
- s vossas ordens! Que se passa?
A estas palavras, as pessoas do grupo avanaram 
precipitadamente
e rodearam Ronsard, como se procurassem a proteco do seu 
ttulo,
de que era como um escudo sobre as suas cabeas. Toda a gente 
comeou
a falar em voz alta.
Theido gatinhou para fora do seu esconderijo e foi pr-se ao 
lado
de Ronsard, que levantou as mos e pediu silncio.
- Parece-me que  melhor ouvir a histria de uma s boca de
cada vez. Tu s o chefe do grupo. - Apontou para o homem com
quem tinha falado primeiro. - Comea tu.
Ao luar, o rosto do homem apresentava-se plido, mas Theido 
ficou com a impresso de que tambm estaria plido  luz do 
dia. Nas suas
feies desenhavam-se profundos sulcos de medo. Os seus olhos 
no
paravam quietos: varriam tudo da direita para a esquerda, 
como se tentassem detectar a iminente aproximao do inimigo.
- Eu... ns... - A boca do homem abria-se e fechava-se 
constantemente, mas as palavras custavam a sair.
- Est tudo bem. Por enquanto, ests a salvo. Tenho soldados 
comigo, que te defendero se for preciso. - Ronsard levantou 
o brao e
os seus cavaleiros avanaram e postaram-se ao longo do 
trilho, com as
mos pousadas nos punhos das compridas espadas. A sua 
presena pareceu assustar mais o homem do que acalm-lo.
- V, podes falar  vontade - incitou Theido em tom bondoso.
- Somos de Dom - conseguiu finalmente o homem guinchar. -
Deixmos as nossas casas e trouxemos todos os nossos haveres. 
Vamos
para o Grande Templo. - Calou-se, engoliu em seco e rematou: 
-
No sabemos para onde mais havemos de ir.
-  uma peregrinao muito estranha, meu amigo - observou
Ronsard. - Porque deixaram as vossas casas e fogem assim  
noite?
- No sabeis? Eles vm a uma hoste terrvel terrvel. 
Aterraram
em Halidom e vm a. Corremos para salvar a vida, para que 
Ariel nos
proteja. S o deus nos pode salvar.

54

Quem  que vem a? Viste algum?
O homem olhou para Ronsard com os olhos muito abertos, como 
se no acreditasse no que ouvia.
- A srio que no sabeis? Como  possvel? A terra inteira 
est revirada! Corremos para salvar a vida!
As pessoas comearam novamente a falar em voz alta, dizendo o 
que lhes ia pela alma e implorando aos homens do rei que as 
ajudassem a fugir. Ronsard e Theido ouviram tudo e afastaram-
se para conferenciar.
- Houve qualquer coisa que os assustou muito, isso  bvio. 
Mas o qu,  um mistrio. No percebo nada. - Ronsard coou o 
queixo.
Theido chamou o cabecilha, que se aproximou.
- Bom amigo, viste algum? Viste o inimigo de quem fugis? 
Sabes de onde vem?
O homem hesitou.
- Bem... no vimos ningum. Mas no nos atrevemos a esperar. 
H dois dias, apareceram em Dorn uns homens de Halidom, nas 
terra do Suth, e contaram-nos as coisas terrveis que 
aconteceram l. Surgiu um inimigo poderoso, que leva tudo  
frente. A cidade deles foi incen diada e nas ruas corria o 
sangue das crianas e das mulheres. Os que conseguiram ficar 
vivos fugiram para as montanhas. Por isso corremos enquanto 
ainda podemos.
Mas esse inimigo... tem nome?
 terrvel de mais para dizer! - O homem ergueu as mos para 
o cu, numa splica.
- Pode ser terrvel, mas queremos ouvi-lo. Diz-nos o que 
sabes ordenou Ronsard. O seu tom autoritrio pareceu acalmar 
o assustado campons, que olhou de um para o outro e disse, 
num murmrio tenso:
-  Nin, o Destruidor!

CAPTULO VII

Theido olhou inexpressivamente para Ronsard e depois voltou a 
fitar o apavorado campons. Os olhos do homem, muito abertos 
e redondos, cintilavam ao luar. Mal pronunciara o nome do 
inimigo, a lngua gelara-se-lhe na boca. Mas por muito 
terrvel que o nome fosse para o campons, pelo menos o 
suficiente para pr uma aldeia inteira em fuga, no 
significava nada nem para Theido nem para Ronsard.
- Nunca ouvi esse nome - disse Theido. Ronsard abanou a 
cabea e olhou fixamente para o campons.
- Esse inimigo  conhecido por algum outro nome? No 
conhecemos nenhum Nin nem os seus exrcitos.
- No... que eu saiba no.
- Halidom foi destruda? Os homens que chegaram a Dom viram-
na destruda?
- Foi o que disseram. Alguns tinham perdido tudo: casa, 
famlia e haveres... Tudo.
Theido virou-se para Ronsard:
-j sabemos onde encontrar a nossa resposta: em Halidom.
-  o que parece. Vamos l ver o que puder ser visto. De 
qualquer forma, o rei h-de querer saber o que se passou. - 
Voltando-se novamente para o cabecilha do grupo em fuga, 
perguntou: - Dizes que esse Nin de que falas estava a 
dirigir-se para Dom? Como sabes se no o viste?
- Foram os homens de Halidom. que nos disseram. O inimigo vai 
varrer toda a regio. No h stio que esteja a salvo.  por 
isso que vamos ao Grande Templo de Narramoor pedir ao deus 
para nos proteger.

56

- H um lugar talvez ainda mais seguro do que o templo - 
disse Theido. - Em Erlott, tenho terras que precisam do 
trabalho de muitos braos. Vai l e apresenta-te ao meu 
mordomo, que se chama Toffiii. Diz-lhe que o seu amo ordena 
que vos d abrigo, comida e terra para trabalhar. E d-lhe 
isto. - Theido tirou um pequeno objecto redondo da bolsa que 
tinha no cinto: um quadrado de barro cozido com o seu sinete 
estampado.
O campons fitou o sinete e, depois, Theido. Parecia to 
receoso dele como do prprio Nin.
- Vamos ser vendidos como escravos s porque no temos para 
onde ir? Deixmos as nossas casas para sermos escravos dos 
homens do rei? - Como falara em voz alta, ouviu-se um 
murmrio vindo do resto do grupo, que estava um pouco 
afastado.
- A minha oferta  honrosa - explicou Theido. - Podeis 
aceitar ou no. No a retiro. No tenho escravos; todos os 
que trabalham as minhas terras so livres e tm direito ao 
fruto do seu trabalho em partes iguais. Se duvidais das 
minhas palavras, ide ver com os vossos prprios olhos. De 
qualquer forma, depois de terdes visto, sois livres de partir 
ou de ficar. Ningum vos obriga a nada.
-Sabe apenas isto: se ficardes, tereis de fazer a vossa 
parte e trabalhar a terra que vos for dada. Seno, o vosso 
lugar ser dado a outros que o faam.
O homem olhou para o quadrado de barro que Theido tinha na 
mo. Lanando um olhar de lado para o resto do grupo, 
estendeu a mo hesitantemente:
- Tambm ns somos honrados, embora de baixo nascimento. 
Arrebatou o quadrado da mo de Theido. - iremos s vossas 
terras de Erlott falar com o vosso mordomo; veremos como nos 
recebe. Se mostrar a boa vontade do seu amo, encontrar-nos-
eis a trabalhar nos vossos campos quando voltardes dos vossos 
deveres. - Inclinando-se rigidamente pela cintura, virou-se 
para partir. Mas parou e virou-se outra vez: - Se for como 
dizeis, estamos-vos muito gratos, senhor.
- No quero agradecimentos, mas apenas que cumprais o 
acordado. Para mim, isso significa mais do que a gratido.
O homem fez outra vnia e encaminhou se para o local onde o 
seu. grupo o esperava, para saber o resultado da entrevista. 
Trocaram-se

57

rapidamente algumas palavras, ouviram-se murmrios abafados 
e, de repente, as pessoas puseram-se novamente a caminho, 
mas, desta vez, de um modo mais ousado e com outra disposio 
de esprito. Ao passarem por Theido, vrios refugiados 
acenaram-lhe em sinal de agradecimento e, enquanto desciam 
apressadamente o trilho, todos falavam ao mesmo tempo.
- Bem, esta noite, prestaste-lhes um bom servio. Espero que 
nunca venhas a ter razes para te arrependeres da tua bondade 
- disse Ronsard depois de o grupo ter partido.
- Nunca ningum se arrepende por ser bom, meu amigo. Mas no 
duvido de que ganhei tanto como eles.
- Como  isso?
- A boa terra precisa de ser trabalhada e cuidada pelo 
lavrador. Se eu no tivesse homens para me trabalharem os 
campos, eles depressa se tornariam estreis e improdutivos. 
Estes homens prestam-me um grande servio ao ajudarem-me a 
tratar das minhas terras, que, se forem bem cuidadas, 
produziro mais do que o suficiente para toda a gente.
- Bem, espero que a tua confiana neles seja recompensada. 
Mas porque no? O reino tem estado em paz durante estes anos 
todos e, por enquanto, ainda continua assim.
- Ser? - indagou Theido. - Ser?

Quentin percorria apressadamente os largos corredores 
forrados de tapearias que iam dar aos aposentos do Rei 
Drago. Quando acordara, fora convocado para a cmara privada 
do rei, e vestira roupa lavada: uma tnica, umas calas novas 
verde-floresta e uma capa curta, de Vero, azul, debruada a 
verde e dourado. A capa, finamente bordada, apertada no ombro 
com um alfinete de ouro, esvoaava atrs de si.
Exactamente no momento em que parou  porta que se abria para 
os aposentos de Eskevar, esta girou para dentro, fazendo 
aparecer Oswald, o camareiro da rainha:
- Senhor, anda con-go. A minha senhora quer falar-te.
Oswald pronunciou estas palavras a sorrir, mas a insistncia 
perpassava os seus olhos cinzentos. Por isso, Quentin 
assentiu com a cabea e seguiu o camareiro at um quarto que 
ficava do outro lado do corredor,

58

mesmo em frente dos aposentos do rei. Oswald bateu  porta e 
entrou.
- Vossa Majestade, o Quentin est aqui.
Quentn entrou no quarto atrs do camareiro e viu a rainha 
Alinea sentada num banco colocado no meio do quarto, com as 
mos dobradas no regao. Tinha os olhos postos no cho, mas 
parecia longe dali. Rugas de preocupao sulcavam-lhe a nobre 
fronte. Depois de ele ter entrado, a rainha endireitou-se, e 
um lindo sorriso transformou o seu rosto. O quarto sombrio 
pareceu encher-se de luz. Ela levantou-se e estendeu os 
braos para o saudar. Quentin abraou-a e roou os lbios 
pelas faces plidas e ela deu-lhe dois beijos.
- Quentin, vieste! Sinto-me to contente por estares aqui! 
Espero que a tua viagem no tenha sido muito desagradvel.  
bom ter-te aqui de novo. Os meses passam mais devagar quando 
no ests c. - Pegando-lhe na mo com as suas, indicou-lhe o 
banco. - Por favor, senta-te um bocadinho comigo. - Reparando 
no olhar de Quentin, acrescentou: - Eu sei que o rei est  
espera, mas  importante. Quero dar-te uma palavrinha antes 
de ires  sua presena.
Os seus cintilantes olhos verdes, profundos e serenos, 
semelhantes a lagos da floresta, procuraram os dele por um 
instante, como se ela quisesse decidir se Quentin seria 
suficientemente forte para ouvir o que tinha a dizer.
- Quentin - comeou docemente -, o rei est muito doente.
- Foi o que a Bria me disse. - Corou. - Encontrmo-nos hoje 
de manh quando cheguei. Contou-me que andava muito 
preocupada com a sade dele.
- Mas nem a Bria desconfia a que ponto ele caiu. Ela adora o 
pai de todo o corao, mas no o conhece to bem como eu. H 
qualquer coisa que anda a consum-lo, que o ri por dentro, 
roubando-lhe a fora e enfraquecendo-lhe o esprito.
Em resposta ao olhar de Quentin, continuou:
- No te admires com o que digo: em breve vers com os teus 
prprios olhos. Ele mudou muito desde a ltima vez que o 
viste. Tenho de me esforar muito para no chorar na sua 
presena. - Naquele momento, parecia estar  beira das 
lgrimas.
- Minha rainha, sou um vosso criado. Ordenai e eu obedecerei.

59

- S quero que, quando o vires, faas de conta que est tudo 
bem. Age normalmente. No o deixes perceber que pensas que 
ele est doente nem que eu falei contigo sobre o seu estado.
- Prometo. Mas no posso fazer mais nada?
- No. - Ela deu-lhe umas palmadinhas na mo. - Sei que o 
farias se pudesses. Mas mandei chamar o Durwin. e 
encarreguei-o de uma tarefa bem pesada. Curar o rei pode 
tirar-lhe todos os poderes curativos... se  que eles ainda 
servem para alguma coisa.
- Vou rezar ao Altssimo para que as curas do Durwin. possam 
surtir efeito.
- Eu tambm fao isso. - A rainha sorriu e a sala voltou a 
encher-se de luz, pois, enquanto conversavam, uma nuvem negra 
passara sobre o corao de Quentin. Mais animado, levantou-
se.
- Agora vai v-lo, meu filho. E no te esqueas do que te 
disse.
- Assim farei, minha senhora. No temais.
Quentin deixou o quarto silenciosamente. Ao sair para o 
corredor, encontrou Oswald, que o esperava. O camareiro 
voltou a conduzi-lo aos aposentos do rei, bateu e anunciou-o.
- O quentin est aqui, Vossa Majestade.
Quentin inspirou profundamente e atravessou a soleira da 
porta. No meio da sala de tecto alto encontrava-se uma mesa 
de carvalho pesada e redonda, da forma da prpria cmara, 
situada numa das muitas torres de Askelon. Pequenas janelas 
redondas de vidraas cor de mbar emprestavam uma tonalidade 
quente  luz da tarde. Eskevar estava de costas voltadas para 
eles, de p no meio de um raio de luz vindo de uma destas 
janelas, contemplando o ptio l em baixo.
Houve um momento de pouco  vontade: Quentin no podia falar 
e parecia que o rei no ouvira as palavras do camareiro. 
Sentindo-se de repente encurralado, Quentin hesitou. Nessa 
altura, o rei virou-se devagar e olhou-o fixamente. Nos seus 
lbios surgiu um dbil sorriso.
- Quentin, meu filho, vieste!
Se no tivesse sido o aviso da rainha, Quentin no saberia o 
que fazer. Mordeu o lbio inferior para abafar um grito, 
recomps-se e fez um sorriso forado.
- Vim logo que pude. Os cavalos do Toli so excelentes. 
Parece que tm asas. Viemos a voar...

60

Ainda a sorrir, embora, para Quentin, o seu sorriso triste e 
fraco fosse o de um moribundo, o rei avanou e estendeu a 
mo. Quentin pegou nela sem hesitar, mas reparou como estava 
fria e como o aperto de mo do rei se tornara fraco.
A pele de Eskevar adquirira uma palidez de cera e nos seus 
olhos parecia arder uma luz baa e febril. Tinha os lbios 
gretados e esfolados, e o cabelo, aquela coroa de glria 
feita de caracis abundante escuros, pendia flacidamente e 
sem energia e estava quase completamente grisalho.
Quentin deu por si a fitar o rosto de um estranho, que o 
observava intensamente com os seus olhos cavados, rodeados de 
crculos escuros. Afastando rapidamente o olhar, disse:
- Esta sala  muito alegre. Vamos ficar a ss ou esperais 
mais algum?
- Vem mais gente, mas no  j. Primeiro, quero falar contigo 
a ss. Senta-te, Por favor. - O rei deixou-se cair devagar 
numa cadeira arrumada na mesa redonda, e Quentin imitou-o. 
Apetecia-lhe chorar a
ver Eskevar, o poderoso Rei Drago, transformado num velho 
titubeante.
Quentin no deixava de se perguntar como teria aquilo 
acontecido
Como podia uma mudana daquelas dar-se em to pouco tempo? 
Nun escassos oito ou nove meses, o rei debilitara-se a um 
ponto que chegava a chocar. S lhe apetecia sair depressa da 
sala e ir para bem longe da criatura sentada a seu lado, que 
usava a coroa do rei.
Eskevar fitou os olhos do jovem com uma simpatia 
inexprimvel; subitamente, floresceu nele uma compaixo 
paterna que Quentin nunca antes lhe vira. Sentindo-se 
estranhamente comovido, esqueceu por um momento a sade 
despedaada do rei.
- Quentin - comeou Eskevar, depois de o contemplar por um 
momento -, como sabes, no tenho filhos vares, S a Bria  
herdeira do meu trono. O meu irmo, o prncipe Jaspin, foi 
banido e jamais voltar.
-Creio que  chegada a altura de escolher um sucessor.
- No, senhor - proferiu Quentin rapidamente. - Agora no  
altura de pensar nessas coisas. Ainda tendes muitos anos  
frente. Ainda estais forte.

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Carregando ligeiramente o cenho, Eskevar abanou a cabea 
devagar.
_ No, no  assim. Quentin - continuou, com o mesmo sorriso 
doce e triste e o mesmo olhar paternal -, Quentin, estou a 
morrer.
- No!
- Sim! Ouve! - O rei levantou a voz. - Pode ser devagar, mas 
estou a morrer. No viverei o suficiente para ver outra 
Primavera. Chegou a altura de pr a minha casa em ordem.
Tenciono escolher-te para me sucederes... espera! Como no s 
do meu sangue, a minha deciso ter de ser apresentada ao 
Conselho de Regentes, que, suponho, no levantar qualquer 
problema. Como fui eu prprio a escolher-te, de bom grado vo 
ratificar a minha opo.
Sem falar, Quentin ficou sentado a olhar para as mos. As 
palavras do rei tinham-no emudecido.
Depois do que lhe pareceram horas, ergueu o olhar e viu 
Eskevar observando-o calmamente, mas intensamente.
- Concedeis-me uma grande honra, Vossa Majestade, mas no sou 
digno de uma posio to elevada. Sou rfo e de baixo 
nascimento. No sou digno de ser rei.
- Tu, Quentin, s o meu filho adoptivo. s como um filho para 
mim, que te vi crescer e tornares-te adulto. Quero que sejas 
tu, e nenhum outro, a usar a minha coroa.
- No sei o que hei-de dizer, meu senhor.
- Diz apenas que fars o que te ordeno. Alivia o meu corao.
Quentin levantou-se da cadeira e ajoelhou-se perante o rei.
- Sou um vosso servo, senhor. Obedecer-vos-ei.
Eskevar pousou uma mo na cabea de Quentin e disse:
- Estou satisfeito. Agora, o meu corao pode descansar em 
paz. - Tocou Quentin no brao: - Levantai-vos, senhor! Um rei 
no se ajoelha aos ps de outro. Daqui em diante, s o 
herdeiro do trono de Mensandor.
Nesse momento bateram  porta e ouviu-se a voz de Oswald:
- Os outros chegaram, Vossa Majestade.
Toli e Durwin. entraram. Ao ver o rei, Toli hesitou, mas 
Durwin avanou decididamente. Encaminhando-se para a mesa, 
fez uma vnia rpida e comeou a falar das suas viagens, mas 
sempre sem deixar de

62

observar o monarca doente, como se avaliasse o remdio que 
poderia dar-lhe.
- Muito bem, muito bem, Sentem-se. Temos um assunto para 
discutir.
O rei fitou-os atentamente e, antes de comear, soltou um 
suspiro profundo e cansado.
- H algum tempo que ando inquieto. Desassossegado, 
desconcentrado e irrequieto. Ao princpio, atribu-o  doena 
que me consome, mas temo que seja mais do que isso. A minha 
inquietude persiste por causa de Mensandor. H qualquer coisa 
que no vai bem no reino.
O rei Drago falava suave e distintamente, e Quentin percebeu 
que Eskevar reinava h tanto tempo naquela terra que 
desenvolvera uma espcie de sexto sentido, sabendo 
instintivamente quando alguma coisa no ia bem. Era como se 
uma parte de si prprio tivesse sido magoada e ele sentisse a 
ferida. O rei pressentira o perigo mesmo antes de qualquer 
deles ter suspeitado do mais pequeno remoinho na corrente de 
paz e prosperidade que atravessava o reino.
Com um sobressalto, pensou, ao princpio absurdamente mas, 
depois, cada vez com mais convico, que o que afligia a 
terra era, talvez, a causa da angstia do rei.
- Para comprovar a minha intuio, convoquei os meus fiis 
Theido e Ronsard, dei-lhes uma pequena fora e mandei-os 
descobrir de onde vm os problemas.
"j deviam ter regressado. No tive mensagens nem sinais 
deles, e estou ansioso pelo que possa ter-lhes acontecido. 
Foi por isso que vos convoquei - fez um gesto de cabea na 
direco de Quentin e de Toli. -  cada vez mais urgente 
descobrirmos a origem do problema, antes que seja tarde de 
mais. O mal est por perto; sinto-o.  mais forte a cada dia 
que passa. Se no o encontrarmos e o esmagarmos...
- Senhor - observou Toli -, vimos portentos que talvez 
confirmem os vossos receios.
- Eu tambm - concordou Durwin.
Toli e Durwin informaram o rei dos sinais que tinham 
observado, pressgios de um mal iminente que no sabiam 
identificar. Quentin reparou que, enquanto os seus 
companheiros falavam, e especialmente

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quando mencionavam a Estrela do Lobo, Eskevar parecia decair 
mais, vergado pelo peso do perigo que o seu reino corria.
Depois de uns momentos de um silncio desconfortvel, o rei 
falou solenemente:
- Quentin e Toli, bravos amigos, temos de descobrir onde 
reside verdadeiramente o perigo. O meu povo precisa da vossa 
coragem.
- Partiremos imediatamente em busca do mal. E pode ser que 
encontremos os nossos bons Theido e Ronsard - prontificou-se 
Toli ousadamente.
Sem dizer nada, Quentin passeava o olhar pelos rostos 
reunidos em volta da mesa.
- Muito bem - suspirou o rei. - Sabeis que no vos mandaria 
assim se pensasse que era uma coisa sem importncia ou se 
pudesse pr algum no vosso lugar.
Virando-se, olhou Durwin pensativamente:
- Quanto a ti, no te convoquei, mas, como de costume, deve 
t-lo feito algum que me conhece melhor do que eu prprio. - 
Sorriu novamente e, por um breve momento, Quentin entreviu o 
homem que Eskevar fora. O rei continuou: - Quero que fiques 
comigo, bom eremita. Posso vir a precisar dos teus remdios 
muito em breve e  possvel que as tuas artes sejam mais 
teis aqui do que na garupa de um cavalo.
- Assim  - replicou Durwin. - Farei como quiserdes.
O rei levantou-se com alguma dificuldade e mandou-os sair, 
no sem antes perguntar aos seus dois guerreiros:
- Quando partireis?
- Imediatamente, Vossa Majestade - respondeu Toli.
- Muito bem. Mas, pelo menos, ficai e comei hoje  noite  
minha mesa. Quero ver os meus amigos todos juntos antes de... 
- No terminou o pensamento.
Os trs companheiros levantaram-se, fizeram uma vnia e 
saram em silncio. j  porta, Quentin virou-se e fez meno 
de falar. Mas olhou para Eskevar, os olhos marejaram-se-lhe 
de lgrimas e no conseguiu pronunciar palavra. 
Demasiadamente triste para dizer o que lhe ia pelo corao, 
inclinou-se rapidamente e saiu.

CAPTULO VIII

- A aldeia foi conquistada, Excelentssimo. - O cavaleiro fez 
uma vnia profunda na sela. Atrs dele, o fumo subia numa 
coluna espessa e escura, depois espalhada pelo vento que 
soprava do mar. O seu pnei castanho-avermelhado, com o plo 
manchado de fuligem e sangue seco, sacudia as rdeas e 
abanava a cabea. - No houve resistncia.
Uns olhos selvagens observavam o mensageiro detrs do aro de 
um elmo de ferro ornamentado com plumas pretas que esvoaavam 
como asas ao vento. Sem dizer nada, o comandante virou o 
cavalo e p-lo lentamente a passo. O mensageiro esporeou a 
montada e foi postar-se ao lado do seu chefe, que se 
afastava.
- Estais desagradado com alguma coisa, meu amo? - A voz 
tremia de ansiedade.
- No, est tudo bem. A nossa misso est completa. Vou 
regressar aos navios. Acompanha-me. Posso precisar de um 
mensageiro. Erguendo-se na sela, chamou vrios cavaleiros que 
esperavam a alguma distncia. Estes, com os elmos debaixo do 
brao, observavam impassivelmente o fumo que,  sua frente, 
subia no ar. - Vs os quatro - o comandante fez um gesto com 
a mo enluvada - ficai com os homens e ocupai este lugar. Os 
outros vm comigo. Vamos imediatamente. Sigam-me.
- Mas o que vamos fazer com os prisioneiros, Excelentssimo? 
gritou o mensageiro para a forma escura que se afastava.
O guerreiro no se virou nem olhou em volta, mas o mensageiro 
ouviu as palavras que lhe chegavam l da frente:

66

Matem-nos - disse o seu comandante.
A fragrncia pungente de incenso queimado enchia a sala. 
Nuvens do aromtico vapor vogavam em volta da grande figura 
sentada num trono de almofadas de seda. Pequenas avezinhas 
coloridas, metidas em gaiolas, esvoaavam e chilreavam, sendo 
as suas canes acompanhadas pelas notas calmas de uma 
flauta.
O tilintar de uma sineta soou no corredor, seguido de um 
roagar. A forma gigantesca sentada no trono parecia estar a 
dormir, pois no se mexeu nem de qualquer outra forma deu a 
entender que se apercebera desta intromisso. A enorme cabea 
continuou encostada a uma grande arca. As mos papudas, com 
os dedos enclavinhados uns nos outros e os polegares juntos, 
permaneceram imveis no imenso regao.
- Trago notcias,  Imortal - disse o ministro que entrara 
to silenciosamente. Ficou  espera ajoelhado, com a testa 
encostada ao cho, braos esticados  frente e palmas das 
mos viradas para cima.
- Podes falar, UzIa. - Embora estas palavras tivessem sido 
pronunciadas calmamente, a voz pareceu encher a pequena sala.
- Os vossos guerreiros regressaram. E trazem notcias de 
vitria. As aldeias da costa foram conquistadas.
- Encontraram alguma residncia apropriada para mim?
- Infelizmente no,  Imortal. Eram aldeias pequenas, que no 
possuam acomodaes dignas de vs. Por causa desta afronta, 
as aldeias foram incendiadas e as suas cinzas espalhadas, no 
fosse a vista delas desagradar-vos.
Nin, o Destruidor, olhou sinistramente o ministro em quem 
mais confiava.
- Esta terra vai sentir a minha ira! - gritou. Os pssaros 
tremeram nas gaiolas e a msica parou. UzIa, o primeiro-
ministro, acobardou-se.
- Os patifes desta terra maldita falam de muitos castelos no 
Norte. H um, em especial, que pode servir as vossas 
necessidades enquanto estais aqui a subjugar esta terra  
vossa vontade.
- Como se chama esse palcio?
- Askelon.  a fortaleza do rei desta terra, conhecido por 
Rei Drago.
- Ah - exclamou Nin suavemente. - O som dessas palavras 
agrada-me. Di-las outra vez.

67

-  em Askelon que habita o Rei Drago.
- Habitarei l e serei o Rei Drago. Isso agrada-me. Nunca 
matei nenhum drago... ou matei, UzIa?
- No, minha Divindade. Que eu saiba, no. - E apressou-se a 
acrescentar: - A no ser que fosse numa outra vida, claro.
- Ento vou ansiar por esse acontecimento e saborear o 
momento da sua realizao. - Levantou-se lentamente. - Onde 
esto os meus comandantes? - perguntou Nin com uma profunda 
voz de trovo.
- Esto  vossa espera na praia - replicou UzIa. - Vou mand-
los chamar.
- No, eu vou l. Como satisfizeram o meu desejo, sero 
recompensados, e vero o seu deus aproximar-se deles.
- s tuas ordens,  Poderoso.
UzIa inclinou-se novamente e levantou-se do cho. Virando-se, 
retirou-se para o trio, bateu as palmas e gritou:
- A Divindade vai a passar! Ajoelhai todos! - Depois seguiu  
frente do seu soberano, batendo as palmas e gritando o mesmo 
aviso. Nin seguiu-o lentamente, balanando o seu corpo imenso 
sobre as pesadas pernas.
Quando chegaram a um pequeno lano de escadas, no cimo das 
quais ficava o convs do navio-palcio, UzIa voltou a bater 
as palmas e oito serviais trouxeram um trono montado sobre 
estacas, pousando-o  frente do seu rei, que se sentou nele. 
Depois, retesando todos os msculos, os carregadores subiram 
os degraus com todo o cuidado, de modo a manterem o trono na 
horizontal, para no incorrerem na fria do seu temperamental 
deus. Dali a pouco, estavam no convs.
Mais dois serviais esperavam com grandes sombrinhas feitas 
de penas brilhantes. Mal o trono de Nin surgiu  entrada do 
convs, abrigaram logo a enorme cabea do sol radioso de um 
lindo dia de Vero. Embora oscilando sob o peso do seu fardo, 
os serviais desceram uma comprida rampa que fora construda 
por cima da gua baixa, desde o navio-palcio at  costa. A 
rampa terminava numa plataforma na praia, que formava um 
estrado do qual Nin, o Destruidor, podia comandar os seus 
sbditos, Quando viram esta procisso descendo lentamente a 
rampa, os quatro comandantes desmontaram, aproximaram-se do 
estrado e prostraram-se na areia. Os carregadores chegaram  
plataforma e

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pousaram o trono mvel exactamente no meio do estrado, por 
baixo de um grande dossel de seda azul. Depois retiraram-se, 
ajoelharam-se, com o rosto tocando os joelhos, e ficaram  
espera das ordens do seu rei.
A seda azul agitava-se ao sabor da suave brisa martima. 
Acima do estrado, gaivotas esvoaavam no ar e soltavam os 
seus guinchos para aquele espectculo. Nin levantou as mos e 
disse:
- Erguei-vos, meus senhores da guerra. Podeis olhar para a 
vossa Divindade.
Os comandantes, que envergavam armaduras pesadas, levantaram-
se rigidamente e ficaram ombro a ombro perante o seu 
protector.
- Vi a vossa vitria de longe - continuou Nin. - Assisti s 
chamas da destuio com os meus prprios olhos. Estou muito 
satisfeito. Agora, dizei-me, meus comandantes: que fora tem 
esta terra? H algum exrcito que faa frente  lmina do 
Destruidor? - Olhando os quatro guerreiros, fez um sinal de 
cabea a um deles, que deu lentamente um passo em frente. - 
Gurd?
O guerreiro bateu no corao com a mo fechada; a cota de 
malha do punho produziu um rudo semelhante ao arrastar de 
correntes de ferro contra a couraa de bronze. Tinha o cabelo 
comprido, liso e preto puxado atrs, formando uma grossa 
trana. Os seus olhos pretos e vivos, enquadrados por um 
rosto regular, angular e vermelho, fitaram Nin intensamente.
- No vi soldados no Sul,  Imortal. As aldeias de camponeses 
estavam indefesas.
- Amut.
O guerreiro de raa amarela avanou. Tinha a cabea reluzente 
completamente rapada, excepto no stio onde usava uma curta 
madeixa de cabelo apanhada num n apertado. Nas suas faces e 
testa viam-se estranhas tatuagens azuis e uma cicatriz 
irregular riscava-lhe o rosto do canto de um olho em forma de 
amndoa,  base do pescoo grosso e musculoso.
- No Norte no encontrmos soldados,  Poderoso. A cobarde 
populaa voou  frente das nossas setas como folhas durante 
uma tempestade.
- Luhak - chamou Nin. O terceiro comandante deu um passo em 
frente.

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Luhak tocou na barba com uma mo castanha. Tinha a cabea 
coberta por um elmo de plo branco de cavalo, do centro do 
qual nascia uma pluma curta feita de cauda de cavalo. Era 
alto e magro e, quando abriu a boca para falar, cintilou uma 
fiada de dentes brancos e pontiagudos.
- No interior montanhoso desta terra s encontrei uma aldeia, 
chamada Gaalinpor - disse o guerreiro. - Nenhum exrcito pode 
atravessar aquelas montanhas sem ser visto. Podemos voltar os 
nossos olhos para outro lado.
- Boghaz.
O ltimo comandante, um preto enorme, cujas feies estavam 
escondidas por um vu negro que lhe tapava a parte inferior 
do rosto, revelando apenas os olhos grandes e escuros, 
avanou para o lado dos outros. Tinha a cabea metida num 
elmo de couro coberto de chifre e envergava uma couraa feita 
de discos planos tambm de chifre, ligados uns aos outros por 
aros de ferro. Uma comprida capa vermelha caa-lhe desde os 
ombros at aos calcanhares das botas pretas. Tal como todos 
os outros, trazia de lado uma curiosa espada curva com a 
lmina fina e esguia muito afiada nos dois gumes.
- Eu tambm no vi soldados. As aldeias no ofereceram 
resistncia, o sangue dos teimosos tingiu o cho de vermelho 
e as cinzas subiram ao cu em vossa honra, imortal Nin. - 
Dito isto, o guerreiro preto tocou na testa e fez uma 
profunda vnia.
- Que terra  esta que no constri muros  volta das cidades 
e deixa as aldeias sem proteco? Temos a riqueza  mo, meus 
guerreiros. Vamos para norte, em direco a Askelon, onde 
estabelecerei o meu palcio, para poder estar confortvel 
enquanto domino esta terra.
"Agora ide e avisai-me quando o castelo for meu, para eu ir 
imediatamente apropriar-me do que desejo. Mas no 
sacrifiqueis o rei. Quero ter eu prprio esse prazer: o seu 
sangue h-de correr s para mim. Ouvi e obedecei.
Os quatro comandantes saudaram Nin e recuaram uns passos. 
Depois voltaram-se, montaram os seus cavalos e partiram, a 
galope. Nin bateu as palmas e os serviais deram um salto em 
frente, dando incio ao laborioso processo de transportarem o 
seu deus pela rampa acima, para dentro do magnfico navio-
palcio.

CAPTULO IX

As folhas ainda mostravam pesadas gotas de orvalho quando os 
primeiros raios dourados da manh iluminaram a paisagem. Era 
normal haver orvalho perto do mar, mas Quentin nunca deixava 
de se maravilhar ao ver o sol batendo nas minsculas gotas de 
humidade e transformando-as em jias cintilantes. Cada 
outeiro, cada arbusto, parecia adquirir um valor 
incalculvel.
Os animados cavalos de Toli, bem descansados, cabriolavam e 
corriam ao ar fresco da manh. O prprio Quentin elevou a voz 
num hino ao novo dia. Toli juntou-se-lhe, e as suas vozes 
soaram nos pequenos vales, ao fundo de encostas arborizadas.
- Como  bom estar vivo! - gritou Quentin, mais pela alegria 
de gritar do que para conversar.
- Hoje j parece que gostas da sela - disse Toli, balanando-
se atrs dele. - No foi a impresso que me deste ontem  
noite.
- De manh, o mundo volta a ser criado. Tudo  novo... 
incluindo as selas.
- Alegro-me por ver o meu amo de to bom humor. No  por 
nada, mas nos ltimos trs dias foi fcil confundir-te com um 
urso a grunhir.
Quentin fez de conta que no ouvia, e continuaram como antes. 
Os arreios dos cavalos, que se lanavam num galope breve, 
tilintavam alegremente.
- Desculpa se tenho andado de mau humor - disse Quentin, 
passado algum tempo. - Tenho andado com muito em que pensar 
nestes

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ltimos dias. Foi como uma sombra que pairasse sobre mim. 
Mas, agora, voltei a ver tudo claramente.
- Isso  bom para os dois - replicou Toli no seu habitual 
estilo elptico.
Os dois cavaleiros aproximaram-se da encosta de um outeiro 
comprido e comearam a subi-lo. No cimo, pararam durante 
algum tempo, contemplando a estrada e o vale que ficava para 
l dela, no centro do qual se erguia a aldeia de Persch.
- V como tudo  tranquilo - comentou Quentin, observando o 
cenrio. - Tanta paz! E  assim h mil anos... - A sua voz 
diminuiu de intensidade.
- Rezemos para que possa ser assim durante mais mil - 
respondeu Toli. Abanando as rdeas, comeou a descer a 
estrada, que no passava de um estreito carreiro de terra 
batida, conquistado  erva verde, comprida e espessa que 
cobria as colinas.  medida que se aproximavam da aldeia 
martima, Toli ia ficando tenso e cada vez mais concentrado. 
Reparando na mudana de atitude do seu companheiro, Quentin 
perguntou-lhe:
- O que ? O que vem esses teus olhos de guia?
- Nada, meu amo. E  isso que me preocupa. No estou a ver 
ningum... nenhuma actividade na aldeia.
- Se calhar, as pessoas de Persch deitam-se tarde e levantam-
se tarde - retorquiu Quentin descuidadamente, tentando manter 
o espirito de tranquilidade que acabava de ser despedaado 
pela observao de Toli.
- Ou, se calhar, tm razes para ficar em casa num dia como 
este, e de certeza que essas razes tm a ver com o medo.
Quentin suspirou.
- No  a primeira vez que damos com ele nas nossas jornadas.
Pousando a mo livre no punho da espada, ajeitou-a 
ligeiramente, de modo a estar pronta a ser usada. Os seus 
olhos perscrutavam toda a aldeia, que se aproximava 
lentamente a cada passo que davam. Nem nas ruas nem na 
estrada havia sinais de vida. No se viam nem homens nem 
animais. Era estranho. Normalmente, os primeiros raios da luz 
da manh encontravam as ruelas estreitas cheias de pessoas 
atarefadas na sua vida de todos os dias: os mercadores 
montavam as suas tendas no

73

mercado e os artesos os seus toldos; os lavradores ofereciam 
queijo, meles e ovos em troca de tecidos e de vrios 
utenslios de metal; as mulheres iam buscar gua ao poo do 
largo da aldeia, as crianas escondam-se nas esquinas e 
corriam de um lado para o outro em brincadeiras barulhentas e 
os ces da aldeia ladravam e esquivavam-se por entre as suas 
pernas nuas, queimadas pelo sol.
Mas naquela manh no havia azfamas nem algazarras. As ruas 
vazias pareciam assombradas pelos ecos de risos infantis e 
pela fantasmagrica ausncia dos aldeos.
Os cavaleiros entraram na rua principal, e Quentin ouviu os 
cascos dos cavalos esmagando suavemente os minsculos 
fragmentos de conchas com as quais os habitantes de Persch 
pavimentavam as suas ruas. Quentin sempre pensara que isto 
dava a todas as vilas martimas uma aparncia de frescura e 
limpeza. No entanto, naquele dia, as ruas esbranquiadas 
pareciam desoladas como sepulcros.
Ainda que de fugida, nenhum rosto aparecia a uma porta ou 
numa janela escurecida. No se ouvia nenhum som a no ser o 
sopro da suave brisa martima por entre as caleiras, que 
sussurrava notas de completo abandono.
- No est c ningum - observou Toli, cuja voz pareceu 
morrer no ar vazio.- No acredito. No podem ter partido 
todos. Deve ter ficado algum. Uma aldeia inteira no 
desaparece assim... tem de haver uma boa razo para isso.
Chegaram ao largo da aldeia, que era um rectngulo irregular 
formado pelos frontispcios dos principais edifcios de 
Persch: a estalagem, que se dizia servir um excelente peixe 
estufado, a casa do povo (como no havia nobres a viver em 
Persch, os habitantes tinham construdo aquela casa, na qual 
celebravam as festas e os dias santos), o mercado e as tendas 
dos vendedores, o pequeno templo e o santurio erigidos ao 
deus Ariel e as habitaes dos artesos.
No centro deste rectngulo encontrava-se um grande poo e, ao 
lado, numa pequena elevao, erguia-se um cedro imenso, cujos 
ramos e galhos emaranhados ofereciam a sua sombra a todos os 
que ali se reuniam. Quentin e Toli aproximaram-se da fonte e 
desmontaram. Toli pegou num balde de madeira que estava ao 
lado da borda de pedra do

74

poo e tirou gua para os cavalos. Quentin encheu uma cabaa, 
bebeu abundantemente aquela gua fria e fresca e depois 
passou-a a Toli.
- Hum - cismou Quentin -, nem um som e no se v ningum. No 
entanto, sinto que no estamos sozinhos.
-  verdade. Sinto a presena de algum aqui muito perto. E 
tambm sinto o medo. - Toli voltou a pr o balde no lugar e 
fez sinal a Quentin para que tomasse a montar. Ele obedeceu 
com um olhar de interrogao e, juntos, atravessaram o resto 
da aldeia.
Quando chegaram  ltima habitao, Toli chamou Quentin de 
lado e sussurrou:
- Havia mais algum perto do poo. Senti o olhar de algum 
sobre ns. Vamos deixar aqui os cavalos e voltar por outro 
caminho.
Deslizaram silenciosamente por um beco estreito, ladeado de 
vrias construes, e voltaram ao largo. No havia nada para 
ver: tudo parecia estar como apenas uns momentos antes.
- Bom, parece que temos de procurar noutro lado. Podemos 
tentar encontrar algum numa destas casas.
- Espera s mais um bocadinho.
Mal Toli acabou de falar, ouviram um raspar e um silvo, 
parecido com o som produzido por uma cobra em areia seca, que 
parava e recomeava a um ritmo regular. Puseram-se  escuta. 
O som parecia diminuir rapidamente. Foi ento que Quentin 
percebeu que estivera algum muito perto deles, talvez por 
trs da mesma casa feita com canas onde se escondiam naquele 
momento, espreitando na sombra. O som eram os passos leves e 
arrastados de algum que caminhava com todo o cuidado pela 
rua de conchas.
- Est a ir-se embora! - murmurou bruscamente Quentin, 
dobrando depressa a esquina da casa, mesmo a tempo de ver uma 
perna e um brao desaparecerem por detrs de um denso 
emaranhado de teixos.
- Dirige-se para a doca! - gritou Toli. - Se formos por aqui, 
apanhamo-lo. - Puxando o brao de Quentin, apontou para trs, 
na direco do stio onde a estreita ruela descrevia uma 
curva e comeava a descer, tomando-se um carreiro, como 
tantos nas vilas martimas, que ia dar  beira-mar, ao local 
onde os aldees guardavam os seus barcos de pesca.
Toli largou a correr e Quentin seguiu nos seus calcanhares.

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Precipitaram-se juntos pelo carreiro abaixo e saltaram os 
degraus de pedra construidos do lado da duna que separava a 
aldeia da praia. A sua frente estendia-se a doca, a pequena 
angra que constitua o porto de Persch. Ali, entre dois 
barcos de pesca com os cascos negros voltados para o cu, 
viram um barco leve com uma vela branca e triangular, que 
fora empurrado para a areia. A figura pequena de um jovem 
caminhava agilmente pela areia em direco ao barco.
Quentin largou a correr para a praia em sua perseguio. 
Depois de dar uns passos, parou, levantou a mo e gritou:
- Pra! No queremos fazer mal! S queremos falar!
O jovem deu meia volta, e s ento viu os dois homens que o 
observavam. Embora Quentin e Toli ainda estivessem longe de 
mais para poderem distinguir-lhe o rosto, o resultado das 
palavras de Quentin no lhes deixou quaisquer dvidas.
- Assustaste-o! - disse Toli, vendo a figura que estava na 
praia cambalear, tropear, cair, levantar-se e correr como um 
veado para o barco. - Anda! - gritou o ligeirssimo jher, 
deslizando pela areia.
O jovem estranho, que, entretanto, chegara ao barco, 
empurrava-o com todas as suas foras. Para Quentin, ou 
encalhara nalguma coisa ou a mar baixara desde que o barco 
ali ficara, tomando mais difcil met-lo na gua.
Mas, com a fora do desespero, o rapaz conseguiu lanar  
gua o pequeno barco  vela e, agitando-se com gua pelos 
joelhos, tentava virar o barco para depois saltar de lado l 
para dentro, como um peixe.
Toli chegou primeiro  beira-mar. Quentin seguiu-o, e ambos 
patinharam at ao barco. O estranho, remando furiosamente com 
um remo comprido, lanou um olhar aterrorizado por cima do 
ombro. Quentin reparou na sua estrutura slida e nos seus 
ombros esbeltos. O rapaz envergava o colete de couro e as 
calas castanhas de tecido grosseiro usados pelos pescadores. 
O chapu mole e disforme, tambm tradicional entre os 
habitantes das povoaes martimas do sul de Mensandor, 
estava puxado para baixo, escondendo o jovem rosto.
Quentin avanou para um lado do barco e Toli patinhou para o 
outro. Apesar de o seu ocupante agitar prodigiosamente o 
remo, o barco no estava a avanar para o mar alto to 
rapidamente como o desejado; por isso, nenhum deles teve 
problemas em alcan-lo nalgumas passadas.

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Uma vez dentro do seu raio de aco, o remo assobiou-lhes em 
cima da cabea. Tentando acalmar o desconhecido, Quentin 
disse:
- Est quieto, amigo! Pra com isso! Ai! - Malhando a torto e 
a direito, o remo aproximou-se perigosamente. - No queremos 
fazer mal!
Enquanto Quentin ocupava assim a ateno do rapaz, Toli 
passava-lhe por trs, na direco da proa. Virando-se, o 
rapaz deu com toda a fora com o remo na borda do barco, 
precisamente no stio onde os dedos de Toli tinham estado um 
momento antes. Vendo que o desconhecido ficara 
momentaneamente desequilibrado devido  pancada que 
desferira, Quentin agarrou-se  popa com as duas mos e deu 
um poderoso abano ao barco. O rapaz lanou um grito de 
surpresa e, com os braos abertos e as mos tentando apoiar-
se no ar, saiu pela borda fora, mergulhando de cabea e 
deixando o remo tombar no fundo do barco. Quentin desviou-se 
dos salpicos e Toli rodeou o barco, indo pr-se em frente de 
Quentin. O chapu de pescador flutuava entre os dois. Quentin 
enfiou o brao na gua pouco profunda, agarrou o colarinho do 
desconhecido e levantou-o at ele ficar de p.
- Bem, que temos aqui? - perguntou Quentin amistosamente. 
Toli, acho que apanhmos... - Calou-se abruptamente. Era a 
vez de Quentin ficar surpreendido,
- Uma rapariga! - exclamou Toli, terminando o pensamento de 
Quentin.
Quentin tinha nas mos o chapu molhado, que mais parecia um 
saco preto encharcado e olhava com perplexidade para as 
tranas compridas e escuras, naquele momento ensopadas e 
pegajosas, que rebrilhavam ao sol. A rapariga abriu e fechou 
as pestanas escuras, deixando entrever os olhos claros, de um 
azul de gelo, e limpou a gua que lhe escorria pelo rosto. As 
suas feies eram suaves e perfeitas e nas faces coradas 
tinha a cor de rubi da excitao.
- Larga-me! - gritou. - No sou ningum! No tenho dinheiro! 
Larga-me!
- Paz - disse Quentin suavemente. - No vamos fazer-te mal, 
minha senhora.
A rapariga olhou de um para o outro dos seus captores, 
observando-os com desconfiana.

77

- No somos ladres, se  isso que ests a pensar - comentou 
Toli. - Somos homens do rei.
- Desde quando  que os homens do rei prendem pessoas 
inocentes sem qualquer razo? - desafiou ela altivamente.
- As pessoas inocentes no tm nada a temer de ns. Porque  
que fugiste?
A rapariga lanou um olhar furtivo na direco da aldeia e 
murmurou:
- Estava apavorada. Encontrei a aldeia deserta e...
- E ouviste-nos chegar e escondeste-te.
- Pois foi - assentiu ela com um ar carrancudo, passando uma 
manga encharcada pela cara. Depois, lanou a Quentin um olhar 
de desafio. -Agora, larga-me!
- A seu tempo. Espicaaste a nossa curiosidade, e primeiro 
queremos que respondas s nossas perguntas. Bem - continuou 
Quentin, estendendo-lhe a mo -, mas no  preciso ficarmos 
na gua. Vamos secar-nos na praia.
Virou-se e comeou a patinhar para a costa. De repente, 
sentiu os joelhos vergarem-se-lhe e afundou-se para a frente 
com um grito estrangulado. Algum lhe desferia ferozes socos 
nas costas e nos ombros. Voltou-se debaixo de gua e, quando 
tentava pr-se novamente de p, o ataque parou. Veio  
superfcie e limpou a gua dos olhos. Toli agarrava os braos 
da jovem, que arranhava e dava pontaps, e que assim seguiu 
empurrada pelo seu servo at  praia.
No rosto de Toli estava estampado um sorriso estranho e 
ridculo.

CAPTULO X

- Como  possvel? - Theido abanou a cabea, sem querer 
acreditar. Os seus olhos perscrutavam a plancie enegrecida 
onde outrora ficara a aldeia de Halidom.
- As perspectivas so muito ms, mas alguma coisa deve ter 
ficado. - Ronsard fez sinal aos seus cavaleiros, e todos 
comearam a descer a suave colina que ficava acima do vale 
plano de Halidom. Cada homem tinha no rosto uma interrogao 
lgubre e no esprito o pensamento de Theido: como era 
possvel que uma aldeia inteira tivesse sido aniquilada to 
completamente?
De Halidom apenas restava um crculo enegrecido na terra. No 
ficara nem um pau de p, nem uma pedra sobre outra. A rea 
arrasada da povoao no passava agora de um caos de 
destruio.
- At as aves acabaram o servio - observou Ronsard enquanto 
se aproximavam do permetro do crculo queimado.
- No completamente. Olha ali. - Theido estava a observar um 
ponto a curta distncia deles. Ronsard seguiu-lhe o olhar e 
viu um grande busardo fechando as asas e empoleirando-se no 
que restara de um tronco de rvore. Trs corvos rabugentos 
levantaram voo do local onde tinham estado atarefados a 
debicar no cho.
- Vamos ver o que lhes chama a ateno. - Ronsard virou-se 
para os seus homens. - Espalhai-vos e procurai nas cinzas 
sinais que nos indiquem quem  este inimigo. - Depois, ele e 
Theido conduziram os cavalos para o local onde o busardo 
saltitava ao longo do tronco queimado. A ave observava 
qualquer coisa no cho, mas no conseguiam distinguir o qu.

Foram atravessando a aldeia destruda. Entre as cinzas 
estavam espalhados os vestgios carbonizados da vida 
quotidiana dos aldeos: um trip de ferro com a panela 
amolgada ali perto, uma pequena esttua de pedra de um deus 
domstico, os cacos enegrecidos de uma caneca de vinho. E 
aqui e ali encontravam-se os restos dos infelizes habitantes 
da povoao: uma caveira coberta de fuligem contemplando o 
cu com o seu olhar vazio, um bocado de tbia comprido e numa 
carcaa curva de um conjunto de costelas erguendo-se na 
desolao.
 aproximao dos cavalos, o busardo levantou voo de mau 
humor e ergueu-se lentamente no cu, pondo-se a descrever 
crculos juntamente com os corvos.
- Pelos deuses! - gritou Theido, j perto do stio para onde 
se dirigiam.
- O que ... ? - comeou Ronsard. Depois, tambm ele viu o que 
Theido vira. - Por Orphe... no!
Theido, que j saltara da sua montada, puxava as correias da 
sela para tirar o odre de gua. Ronsard, hipnotizado pelo que 
via, desmontou devagar, aproximou-se, ps a mo no punho da 
espada, e j estava a desembainh-la quando Theido lhe tocou 
no brao:
- No  preciso. j est para alm da dor e do sofrimento.
Enquanto Theido falava, o objecto da sua ateno, o torso 
queimado de um corpo, agitou-se convulsivamente e um olho 
amarelo rodou na sua direco. Quando os viu, o meio cadver 
desfeito soltou um gemido desesperado. Theido ajoelhou-se 
bondosamente ao lado da carcaa e estendeu-lhe o odre.
- Paz, amigo. Toma gua para a tua garganta ressequida. - De 
joelhos, Theido chegava suavemente a extremidade do odre  
boca estalada, deixando sair algumas gotas de gua, que 
humedeceram os lbios do homem. A lngua preta apareceu  
entrada da boca e lambeu a gua. As plpebras rachadas 
agitaram-se e os globos oculares secos rolaram nas suas 
rbitas. Como que por milagre, a gua pareceu exercer algum 
efeito, e nos olhos apareceu um claro de reconhecimento.
- Como  possvel este pobre diabo ainda estar vivo? - 
indagou Ronsard, inclinando-se ao ouvido de Theido.
- No sei. - O cavaleiro calou-se e deixou sair mais um 
fiozinho

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de gua. - Mas antes de Heoth o vir buscar, talvez ele possa 
dizer-nos o que aconteceu aqui.
- Consegues falar, meu amigo? Somos homens do rei e as tuas 
respostas so muito importantes.
Ronsard afastou-se do cheiro que lhe entrava pelas narinas. O 
homem estava horrivelmente queimado. Tinha grandes reas do 
peito e dos braos completamente calcinadas; a parte inferior 
do seu corpo fora esmagada pela rvore ao cair. jazia numa 
depresso pouco funda do cho, meio torcido de lado. O cabelo 
de um lado da cabea ardera todo: do outro lado do crnio nu 
ainda saam uns fios escuros, que voavam ao sabor da brisa.
As aves j o tinham debicado, abrindo-lhe feridas no ombro e 
nas costas, por onde se entreviam os ossos brancos.
- Deixemo-lo morrer em paz - disse Ronsard, virando-se. Tinha 
a voz tensa e sufocada.
- N... n... o. - O som era pouco mais do que um sussurro ao 
vento. Os dois homens fitaram aqueles olhos, que uma luzinha 
agarrava  vida. O aldeo estava a tentar falar.
- Calma. Estamos a ouvir. Deixa-me aproximar. - Theido 
inclinou-se para a frente e ps o ouvido mesmo por cima dos 
lbios do homem. Falava suavemente e com uma serenidade quase 
inacreditvel para Ronsard. - Conta-nos o que aconteceu, se 
puderes.
Embora Ronsard no percebesse como, as palavras formaram-se 
no ar e, apesar de muito dbeis, eram compreensveis.
- Tenho estado  espera que aparea algum - murmurou o 
homem. A sua voz era um arranhar seco, como o som de uma 
folha murcha empurrada pelo vento sobre a areia. -  
espera...  espera...
- Agora estamos aqui. A tua viglia chegou ao fim. Consegues 
contar-nos alguma coisa?
- Todos mortos... tudo destrudo... tudo incendiado.
- Ns sabemos. Sabes quem fez isto?
- Ahh... - ofegou longamente. - O deus destruidor... trs 
metros de altura... deitava fogo pela boca... tudo destrudo.
- O deus estava sozinho?
As palavras estavam a tornar-se mais fracas e tnues.

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N... no... ahh... muitos soldados... dizem... - O homem 
tossiu violentamente, e o torso foi atormentado por outra 
convulso.
- Dizem o qu?
- Ahh...
- Diz-me s isso. Depois, o deus leva-te para descansares.
- Cuidado... Nin, o Destruidor... Ahh... ahh.
Os olhos amarelados toldaram-se e aquietaram-se. O homem no 
teve flego suficiente para arquejar uma ltima vez, mas 
Ronsard sentiu a vida escapar daquele corpo despedaado, que 
a mantivera presa durante tanto tempo contra sua vontade.
Theido levantou-se lentamente.
- Vamos enterrar imediatamente este bravo.
As aves guinchavam, como se soubessem que iam ficar privadas 
da sua refeio.
Depois de enterrarem o pattico cadver com a suavidade que 
os cavaleiros conseguiram reunir, Ronsard e Theido afastaram-
se uns passos para conversar.
-j viste que chegasse, meu amigo? - perguntou Ronsard, 
encostado  espada.
- Aqui j. Mas gostava de ver este inimigo que ataca aldeias 
indefesas e mata os inocentes.
- Suponho que no falta muito para o encontrarmos. Mas no  
agora. Devamos regressar imediatamente e contar o que vimos. 
Quando voltarmos a cavalgar, ser com mil homens atrs de 
ns.
- Isso... tiraste-me as palavras da boca... hum. - Theido 
calou-se e pareceu contemplar alguma coisa no horizonte.
- O que , Theido? Ests preocupado?
Theido inspirou profundamente. Quando se virou novamente para 
Ronsard, tinha uma luz estranha a brilhar-lhe nos olhos. 
Voltando-se outra vez para o horizonte, falou num tom de voz 
que parecia vir de muito longe. Ao mesmo tempo, uma sombra 
passou por sobre o vale.
- Tenho medo, Ronsard.
- Medo? Tu? Conheceis-vos muito mal, senhor!
- No sentes? - O seu olhar era rpido e penetrante. - No? 
Porque...
- Em que pensas, Theido? No me escondas nada agora. Ests

83

com um pressentimento, bem vejo. Diz l' No tenhas medo de 
me inquietar em vo. Sou bastante homem para dar rdea curta 
aos meus pensamentos, garanto-te.
- Muito bem... tens razo, claro. Mas no  fcil p-lo em 
palavras. Agora mesmo. enquanto conversvamos. tive a 
sensao de que estvamos a cavalgar por um caminho estreito 
abaixo. No fim, havia a escurido. As trevas caam sobre 
tudo. S isto. Mas fiquei com medo.
Ronsard estudou o amigo com toda a ateno e, por fim, falou 
em voz firme mas suave:
- Estvamos juntos, tu e eu? Ento isso chega-me. Para 
intimidar estes dois cavaleiros, o caminho tem de ser mesmo 
muito escuro. Mas vamos, deixemos este lugar do mal. 
Regressemos imediatamente a Askelon, para falar com o rei. j 
estivemos ausentes tempo de mais.
- Vamos regressar como dizes, bom amigo. - Theido endireitou 
os ombros e bateu com a mo nas costas de Ronsard. - Mas 
preferia ter visto este inimigo misterioso e saber a sua 
fora. Sentia-me melhor se lhe pudssemos ver a cara.
- Eu tambm, mas no deve faltar muito. Ainda podemos dar com 
ele antes de chegarmos a Askelon... e estamos mal preparados 
para a batalha.
- No estou nada interessado em me engalfinhar com um inimigo 
desconhecido, meu bravo amigo, mas s em espiar os seus 
mtodos. E ainda mais porque este parece ser 
inacreditavelmente fantstico.
Enquanto falavam, caminhavam para o stio onde estavam os 
cavalos. Quando l chegaram, Ronsard montou e gritou para os 
seus cavaleiros:
- Montai, homens! Vamos para Askelon!
Os cavaleiros obedeceram e comearam a subir a colina por 
onde tinham descido, mas desta vez evitaram o crculo 
carbonizado da plancie.
Theido ainda ficou por um momento ao lado do cavalo, 
contemplando a distncia. Quando ouviu Ronsard. chamar atrs 
de si, encolheu os ombros, montou o seu grande palafrm preto 
e apressou-se a juntar-se aos outros. Ao chegar ao cimo da 
colina, o sol do fim da tarde bateu-lhe em cheio no rosto, 
fazendo-o sentir que a melancolia o abandonava, empurrada 
pela torrente de calor dourado que o inundou. Sem olhar para 
trs, esporeou o cavalo.

CAPTULO XI

Durwin levantou a tnica acima dos joelhos e entrou no lago 
rodeado de canaviais. O sol da tarde caa em raios oblquos 
atravs de grandes carvalhos e de vidoeiros com folhas 
prateadas, que cintilavam em reflexos tremeluzentes na gua 
lmpida. Peixes minsculos afastaram-se precipitadamente dos 
seus ps. O grito lquido e cristalino de uma cotovia 
empoleirada num ramo dividiu o silncio verde da floresta em 
duas metades palpitantes.
Durwin avanou cuidadosamente para a gua mais profunda. 
Enquanto ia patinhando, perscrutava o fundo coberto de 
seixos. Por um momento, pensou em despir a tnica e mergulhar 
nas frias profundezas do lago, como costumava fazer na 
floresta de Pelgrin, nas quentes tardes de Vero.
Mas, por mais convidativo que fosse este pensamento, 
reflectiu melhor e resolveu continuar como estava. No tardou 
que ficasse satisfeito por ter continuado vestido, pois, ao 
passear pelo lago, baixando-se de vez em quando, reparou numa 
coisa branca que brilhava na gua. Olhando outra vez, 
percebeu que se tratava de um reflexo na superfcie espelhada 
do lago. Com um sobressalto, levantou o olhar e viu uma 
mulher toda vestida de branco, de p, na margem alagadia e 
coberta de ervas.
- Minha senhora! - exclamou. - Que grande susto! No sabia 
que me estveis a ver.
- Desculpa, Durwin. No queria alarmar-te - riu Alinea, cuja 
voz retiniu no valezinho. H muito que no a ouvia rir. - 
Estavas to

86

concentrado que tive medo de perturbar os teus pensamentos. 
Perdoa-me.
- Agradeo a vossa considerao, mas no era necessrio. S 
estou a apanhar cicuta para fazer uma tisana.
- Cicuta?  um veneno mortal, no ?
- Conheceis as plantas do campo e da floresta?
- S algumas. A minha me, a rainha Ellena, conhecia muitos 
remdios e fazia-nos mezinhas. Quando era pequena, ajudava-a 
a apanhar as ervas.
- Ento sabeis que as plantas no so mortais nem perigosas, 
e que isso s depende da inteno do curandeiro.  verdade 
que algumas so muito poderosas, mas, se forem usadas com 
sabedoria, at a mais venenosa delas todas pode proporcionar 
uma cura maravilhosa.
- E sem dvida que no h neste reino sabedoria maior do que 
a tua, bom eremita. As tuas mezinhas so muito eficazes.
- Oh, minha senhora! No sabeis como as vossas palavras me 
entristecem.
- Disse alguma coisa que no devia? Fala, por favor. - A 
rainha aproximou-se da borda da margem. Durwin caminhou na 
sua direco.
- No, a inteno no era m, mas as vossas palavras 
escarnecem da minha inaptido, pois o doente que eu mais 
gostaria de curar com a minha humilde arte continua prostrado 
na cama... no est melhor agora do que quando comecei a 
trat-lo. A sua doena resiste a toda a minha arte.
-  um estado de enfraquecimento muito subtil.
-  verdade!
Durwin sondou os profundos olhos verdes de Alinea e leu neles 
a preocupao que se adensava a cada dia que passava. Sentiu-
se impotente para a ajudar, tal como se sentia quando ia 
assistir ao nascimento de um beb prematuro, que morria antes 
de ter comeado a viver. Embora fosse um fardo bem pesado, 
no se importaria de o tomar sobre si, mas no podia fazer 
nada seno assistir ao facto, humilhado pela sua inutilidade.
- Achas que o Deus Altssimo ouve as nossas oraes pelo 
doente?
- Acho que sim. Ele ouve todas as oraes e a todas responde 
na devida altura.
- Ento a orao h-de fazer o que as poes no conseguem.

87

- Envergonhais-me com a vossa f. Na minha busca de um 
medicamento, negligenciei gravemente esse remdio. Mas no o 
farei mais.
A rainha suspirou e levantou os olhos para o cu azul e 
limpo, que brilhava docemente  luz da tarde. Longnquos 
farrapos de nuvens deslizavam lentamente ao sabor da brisa 
que, de tempos a tempos, fazia roagar docemente as rvores. 
O lagozinho era como um vidro polido que reflectia tudo o que 
se passava l em cima. Alinea colheu uma florzinha vermelha 
de um macio que tinha aos ps e ps-se a sond-la. como se 
procurasse um sinal do seu criador.
Durwin continuou a patinhar, inclinando-se aqui e ali para 
arrancar uma planta pela raiz. Quando reuniu o suficiente, 
saiu da gua e subiu para a margem, na qual Alinea esperava  
sombra.
- O que se passa, Durwin? - Fez a pergunta em voz baixa. mas 
a incerteza que a perpassou e a preocupao que espreitava 
nos seus olhos deu-lhe o impacte de um grito. Antes de ele 
poder acalm-la, continuou: - Parece-me que uma coisa muito 
m e envolta nas trevas est a crescer, a aproximar-se. s 
vezes, paro sem razo e sou percorrida pelo medo. Vai to 
depressa como veio, mas fica a pairar no ar como um arrepio e 
nada volta a ser como dantes.
- Tambm j o senti. Mas no consigo explic-lo. Acho que 
anda alguma coisa na terra... alguma coisa m. Por enquanto, 
no se sabe o que , mas em breve se revelar.
- Embora as tuas palavras no sejam alegres, anima-me ouvir-
te falar. Pelo menos, sei que um amigo muito querido me 
compreende e sente o mesmo que eu.
- Se pudesse, acalmar-vos-ia.
- Cumpriste bem a tua misso. Vim aqui com a esperana de te 
encontrar e de descansar um bocadinho. Ultimamente, nem tenho 
visto os montes nem os bosques, e j estamos quase na fora 
do Vero.
- Isto  muito calmo. A paz  tanta que, quando venho aqui, 
quase me parece que estou no corao de Pelgrin. Acredito que 
at num tempestuoso mar de problemas se encontram ilhas de 
serenidade. Nada pode tocar nelas.
A rainha mexeu-se, preparando-se para se levantar, e Durwin 
estendeu-lhe a mo.
- Ficai um pouco mais, se quiserdes, senhora. Eu tenho de ir 
tratar

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disto - disse, abanando a cicuta, de onde saram cintilantes 
gotas de gua.
- No, vamos juntos. Tenho de ir ver o rei.
Caminharam at aos cavalos, montaram e regressaram ao castelo 
de Askelon no doce calor da companhia um do outro.

- De onde s? - perguntou Quentin, torcendo o corpete. como  
que te chamas?
- No digo enquanto no souber quem mo pergunta. - Os olhos 
da rapariga faiscaram em desafio.
- Est bem, nome por nome. Chamo-me Quentin e este  o meu 
amigo e criado Toli. - Ao dizer os seus nomes, pareceu-lhe 
ver um claro de reconhecimento atravessando as feies 
agradveis da joven - Estes nomes dizem-te alguma coisa?
- No. Deviam dizer? - atirou ela.
- H quem j os tenha ouvido.
- Suponho que deve haver muita gente que j ouviu falar de 
duas pessoas assim to barulhentas e brigonas.
Quentin irritou-se com a lngua afiada da rapariga.
- Ns dissemos-te os nossos nomes, mas tu no nos disseste o 
teu - retorquiu com ar zangado.
- S digo o meu nome a quem quero. E s quero ser conhecida 
dos meus amigos. - Abanando o cabelo liso e molhado, virou a 
cara.
- Se soubesses quem est a falar contigo... - comeou Quentin 
acaloradamente. A altivez da obstinada rapariga estava a 
faz-lo ficar fora de si.
- Se soubesses quem maltrataste... - Com a rapidez de um 
gato, virou-se novamente para Quentin e saltou-lhe em cima, 
com as mos como se fossem garras.
Toli voltou a agarrar-lhe os braos, dizendo:
- Paz! O que o meu amo est a tentar explicar-te, senhora,  
que jurmos proteger todos os sbditos do reino. Estamos s 
tuas ordens. - Falou em voz baixa e largou-a quando ela 
acalmou.
Pois bem, no precisais de vos preocupar por minha causa 
retorquiu ela, num tom de voz mais brando. - No sou sbdita 
do vosso rei.

89

- No s de Mensandor? Ah, agora j estamos a entender-nos 
observou Quentin com ar azedo.
A rapariga olhou para cada um deles por trs das suas 
pestanas escuras, como se estivesse a medi-los.
- Muito bem, vou confiar em ti... mas s porque o teu criado 
tem tento na lngua. - Lanou a Quentin um olhar sombrio. - 
Chamo-me Esme. Vivo em Elsendor.
- Ento ests muito longe de casa. O que  que te trouxe a 
Mensandor e a esta aldeia to modesta?
- Garanto-te que a aldeia no era o meu destino, mas a minha 
histria no  para os teus ouvidos, embora j saiba que vais 
implicar comigo por causa disso.
- E quem melhor do que os homens do rei para ouvir a tua 
histria? - indagou Quentin.
- O prprio rei! - Cruzando os braos, mirou-os com um olhar 
zangado.
- Ento permite-me que te oferea a proteco do rei at 
obteres uma audincia com ele - disse Toli com uma vnia. 
Esme sorriu triunfantemente e fez que sim com a cabea. 
Quentin ergueu os olhos para o cu. como se implorasse 
pacincia.
- Aceito a vossa proteco. Parece que as mulheres precisam 
dela nesta terra de mal-educados. - Depois de ajeitar as 
roupas, fitou-os gravemente. - Encarrego-vos de me levardes 
imediatamente ao rei.
- Toli fez bem em oferecer-te a proteco do rei, para junto 
de quem regressaremos... mas no j. Temos uma misso de que 
fomos encarregados pelo prprio rei e s podemos voltar 
quando a cumprirmos.
A jovem carregou o cenho e ia comear a interpel-los 
furiosamente, mas Toli intercedeu de novo:
- O que o meu amo diz  verdade. Se a nossa misso no fosse 
urgente, de bom grado te conduziramos directamente ao 
castelo. Ns prprios vamos regressar l o mais cedo 
possvel.
- Ento vou sozinha. Com a vossa proteco ou sem ela, a 
minha misso no pode esperar.
- Como? No teu barco? Ias demorar muito mais tempo do que 
pensas. A corrente do Herwydd  muito forte. No  fcil 
subi-la e Askelon fica longe. Ou ests a pensar em ir a p?

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- Ou tu podes dar-me o teu cavalo - respondeu ela.
- O meu amo est a sugerir-te prudncia, senhora. Talvez no 
faltem muitos dias para completarmos a nossa misso. Temos 
bons cavalos e, se for preciso, podemos chegar rapidamente a 
Askelon. Anda connosco... - hesitou - para tua proteco e 
para chegares mais depressa junto do rei.
Antes de se decidir, a impetuosa jovem passou o olhar de um 
para o outro.
- Est bem, irei convosco. Acho que no tenho outro remdio. 
Ditas estas palavras, virou-se e comeou a caminhar de volta 
 abandonada aldeia de Persch.
Toli e Quentin seguiram atrs dela. Quando chegaram ao largo 
da povoao, Esme voltou-se para eles, anunciando:
- Volto j. - E desapareceu dentro de uma das habitaes.
- Vou esperar aqui pela nossa orgulhosa companheira - disse 
Quentin. - Vai buscar os cavalos. Partiremos logo que ela 
regresse.
Toli obedeceu e ps-se a redistribuir pequenos artigos de 
viagem.
- O que  que ests a fazer? - inquiriu Quentin, observando-
o.
- Como no me parece que queiras que ela v contigo no teu 
cavalo, estou a arranjar o meu.
- O meu dever  assumir eu essa responsabilidade.
- Como? Eu sou teu servo. O dever  meu. E foi por causa da 
minha lngua que ficaste com este fardo s costas. Portanto, 
vou ajudar-te a carreg-lo.
- Se isso te d prazer, Toli, at podes lev-la nos braos 
todo o caminho. Faz como quiseres.
- Estou pronta - gritou uma voz atrs deles. Voltaram-se os 
dois, e viram uma jovem bem diferente da que tinham pescado 
no mar. Esnie apanhara o cabelo, prendendo-o com uma tira de 
couro. Envergava calas de montar, de corte mais requintado 
do que as dos homens, com complicados desenhos bordados ao 
longo das costuras. Atirada por cima de um ombro, tinha uma 
capa curta tambm cuidadosamente bordada, que condizia com as 
calas. Tanto a capa como a macia tnica curta que trazia por 
baixo eram azul-escuras. Na cintura, um cinto fino de couro 
novo segurava um punhal comprido. Umas botas de couro macio 
cobriam-lhe os ps e chegavam-lhe quase aos joelhos.

91

Seria difcil prever uma transformao to notvel. Toli e 
Quentin pestanejaram surpreendidos. Esme parecia uma princesa 
guerreira, mas nunca tal se ouvira em Mensandor.
- Que cavalo monto? - inquiriu.
- Toli leva-te com ele.
Sem mais palavras, subiram para as selas. Toli estendeu a mo 
e puxou a jovem, que se sentou atrs de si. no largo lombo de 
Riv! Dali a pouco, a aldeia silenciosa ficava para trs.
Quando o pr do Sol lhes alongou as sombras sobre as verdes 
colinas, pararam para passar a noite junto de umas finas 
faias pretas, perto de um regato. Quentin e Toli comearam a 
levantar o acampamento e Esme foi sentar-se num stio cheio 
de ervas, puxou os joelhos para cima e ps-se  espera. S se 
aproximou quando Toli j tinha a carne no espeto e o caldo 
borbulhante na panela pouco funda.
- Pode ser que amanh comamos melhor - observou Quentin.
- No pudemos arranjar as provises de que gostaramos. - 
Inclinou a cabea na direco de Persch.
- Para mim,  um banquete - replicou Esme, que, com os olhos 
a brilhar, observava Toli a virar os espetos. - H dois dias 
que no como.
A confisso envergonhou Quentin, que corou violentamente.
- Eu... eu peo desculpa pelo meu comportamento, senhora. No 
devia ter feito o que fiz.
- Eu tambm te julguei mal - admitiu ela. - Mas talvez me 
perdoes o meu erro. Por vezes, uma mulher tem de desencorajar 
os avanos e as inconvenincias dos desconhecidos. Pensei que 
querias aproveitar-te de mim.
- Ficava com muita pena era do homem que tentasse.
- No te acontecer nada enquanto estiveres connosco, senhora 
- disse Toli muito srio.
- Obrigado, senhor. - Quando os seus olhos se encontraram, 
Toli virou rapidamente a cara e acabou de preparar a 
refeio. Uma vez esta pronta, sentaram-se a comer. Toli 
passou um prato de carne em volta e encheu as tigelas de 
caldo. Depois, partiu umas cdeas de po duro, que molharam 
no caldo para amolecer e ser mais fcil de mastigar. Esme 
comeu com um apetite muito pouco prprio de uma senhora, mas 
Quentin e Toli fizeram de conta que no viram nada.

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-  muito simptico da vossa parte no reparardes nas minhas 
maneiras. A comida aquece tanto um estmago vazio!
- Como podemos reparar naquilo que tambm fazemos? - 
perguntou Quentin. - No queres mais? Serve-te  vontade.
- j comi que chegasse, obrigado. Toli, cozinhas comida 
simples como ningum. Gostava de ver o que consegues fazer 
com vitualhas mais exticas.
Toli no disse nada e sorriu misteriosamente.
- Agora queres dizer-nos o que fazias sozinha na aldeia? - 
indagou Quentin passado algum tempo.
Esme observou o interior da sua tigela de caldo, como se a 
resposta estivesse l escrita. Depois, inclinando a cabea 
para um lado, disse:
- No tenho culpa se estava sozinha. Como talvez calculeis, 
fui l  procura das roupas com que me vistes vestida, Ao 
encontrar a aldeia vazia, tal como vs, tratei eu de arranjar 
as roupas.
- Querias andar disfarada... porqu?
- j te disse: uma mulher tem de se rodear de cuidados quando 
viaja sozinha. O disfarce no era l grande coisa, bem sei. 
Mas pensei que servia at eu descobrir outro ou at - fez um 
grande sorriso - os disfarces j no serem necessrios.
- Conheces Mensandor assim to mal para pensares que todos os 
homens so uns patifes?
- No pensei em experimentar os sbditos de Mensandor, mas 
no  deles que tenho medo. Falem-me da vossa misso. 
Qualquer coisa me diz que os nossos objectivos esto mais 
prximos do que parece  primeira vista.
- Vamos procurar uns companheiros que deviam ter aparecido h 
muito - esclareceu Toli. - Foram mandados...
- Apurar a verdade de certos boatos que se espalharam na 
terra - rematou Quentin cheio de tacto.
A testa de Esme enrugou-se subitamente.
- Os vossos amigos foram para sul?
- Foram para sul ao longo da costa. Porqu?
- Bons amigos, tenho muito medo por eles. - A voz tremeu-lhe 
de preocupao. - No me admira que j devam ter chegado h 
muito... ou que nem sequer nunca mais regressem.

93

Imensamente atento, Quentin inclinou-se para a frente. Toli 
ps os utensilios de lado e olhou fixamente para Esme.
- O que  que sabes disso? - perguntou Quentin com uma calma 
que no lhe disfarava a ansiedade.
- S isto... - Como vira o efeito que o que dissera tinha 
provocado, Esme escolheu as palavras com todo o cuidado: - 
Foi entre Dorn e Persch que, h dois dias, perdi os meus 
companheiros.

CAPTULO XII

- Ests a? - indagou Quentin em voz baixa, aproximando-se 
sem fazer barulho e pondo-se de p ao lado de Toli. - Eu 
devia ter adivinhado que estavas a observar as estrelas.
- No podia deixar de o fazer, Kenta. A estrela est a 
crescer. - A luz do cu nocturno iluminava o rosto virado 
para cima do Jher.
- A mim parece-me igual - retorquiu Quentin sem convico. 
Daqui a pouco  madrugada: talvez seja melhor prepararmo-nos 
para partir. As palavras da nossa nova companheira 
preocuparam-me. Fico mais descansado quando estivermos a 
caminho. No me agradaria nada pensar que o Theido e o 
Ronsard foram apanhados porque ns no os avismos nem o 
impedimos.
-  verdade, a estrela cresce a cada noite que passa e o mal 
tambm aumenta - tomou Toli, que se virou para Quentin e o 
fitou com os grandes olhos escuros cheios de uma luz que 
Quentin raramente vira. - Vou aprontar os cavalos e acordar a 
nossa companheira. Temo que o dia j esteja estragado.
Afastando-se sem barulho, Toli deixou Quentin cismando nas 
suas palavras e sondando a estrela que, a leste, brilhava 
intensamente. Quentin ouviu uns passos leves como uma sombra 
atrs de si e Esme apareceu ao seu lado.
- Ento tambm sabes da estrela - disse ela.
- Temo-la observado... mas no sabemos bem o que pressagia.
- No precisas de me poupar s tuas piores suspeitas. Os 
nossos sacerdotes conhecem bem os sinais celestes e tambm 
fazem a leitura

96

dos portentos. Sei o que dizem da Estrela de Rapina, mas no 
tenho medo.
- Ento s mais corajosa do que eu, senhora, porque tenho de 
reconhecer que, s vezes, ao olh-la, sinto muito medo.
Toli trouxe os cavalos e montaram os trs. Deixando o abrigo 
do bosque de faias pretas, deslizaram para a noite que se 
desvanecia e comearam a atravessar os montes iluminados 
pelas estrelas. Atrs deles erguia-se a parede escarpada dos 
Fiskills e o trilho estreito que seguia ao lado do mar. 
Tinham passado este corredor apertado ao fim da tarde e 
haviam forado o andamento at s encostas que ficavam do 
outro lado, onde tinham acampado durante a noite.
Embora estivesse mortinho por saber mais de Esme, Quentin no 
lhe pedira que contasse pormenorizadamente a sua histria, 
nem ela parecia inclinada a falar da perda dos seus 
companheiros ou da misso que a levava para junto do rei 
Eskevar. Mas as reservas que pusera quanto a segurana de 
Theido e de Ronsard tinham-no inquietado, pois ele prprio 
andava a sentir uma certa preocupao. Ela mais no fizera do 
que dar voz  sua dvida, tornando-a real e urgente.
- Eles devem ter ido para sul, por Halidom - raciocinara 
Quentin, quando, depois do jantar, se tinham sentado em volta 
da fogueira. - Seno, a Esme e o seu grupo t-los-iam 
encontrado na estrada entre Dorn e Persch.
- Mas porque  que haviam de ir para to longe? - perguntara 
Tol.
Quentin encolhera os ombros.
- Hei-de perguntar-lhes quando nos encontrarmos. Talvez 
tenham visto alguma coisa. Para me dar volta  cabea, j 
chegam estas povoaes desertas.
Depois, tinham-se calado e tentado descansar. O esprito 
irrequieto de Quentin atirava-se s suas perguntas por 
responder como um co a um osso. Mas, naquela altura, 
novamente em movimento, sentia-se melhor.
Ps-se a escutar a cadncia dos passos dos cavalos na zona 
mais profunda da noite. Dali a pouco, o horizonte comearia a 
iluminar-se a leste e o sol empurraria a escurido, 
preparando-se para mais um dia. Mas, naquela altura. seguiam 
como filhos da noite, deslizando, invisveis.
pelo mundo adormecido.

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Quentin seguiu outra vez pela estrada da costa, um carreiro 
largo e rochoso que ligava as pvoas martimas. Se alguma vez 
encontrassem Ronsard e os seus cavaleiros, seria, com 
certeza, naquela estrada; claro que havia outros caminhos 
para norte, atravs das castanhas Terras Selvagens, mas era 
mais raro viajar-se por eles. Tratava-se de trilhos usados 
pelos mercadores para atravessarem as vastas e vazias terras 
do Suth, em direco s regies mais populosas do Norte.
As aldeias vazias (primeiro, Persch e, depois, Yallo e 
Biskan) tinham-no inquietado muito; embora no se cansasse de 
procurar uma explicao lgica, no lhe surgia nenhuma. 
Theido e Ronsard tambm as teriam descoberto? Se as tinham 
atravessado, com certeza que sim, mas as povoaes tambm 
podiam haver sido abandonadas depois da passagem dos 
cavaleiros. No havia forma de se saber h quanto tempo 
tinham passado na estrada, onde tinham ficado ou quem tinham 
visto.
Embora a razo lhe dissesse que seis cavaleiros armados 
podiam enfrentar quase tudo, Quentin esperava que eles no 
tivessem encontrado o que quer que fosse que surpreendera o 
grupo de Esme.
Cavalgaram durante uma hora ou mais, seguindo a sinuosa senda 
que subia e descia as suaves colinas ondulantes da costa. No 
cimo de cada uma, viam o mar imenso, escuro e calmo, 
estendendo-se na distncia. Gerfallon no se incomodava com 
os tormentos de simples mortais: dormia no seu leito 
profundo, rodeado das suas criaturas.
No cimo de uma colina, Quentin parou e esperou que Toli, com 
Esrne sentada atrs, de mos nos joelhos, subisse e se 
pusesse ao seu lado. impaciente com a demora, Blazersaltitava 
de lado.
- O que achas que  aquilo? - perguntou Quentin, fazendo um 
sinal de cabea na direco dos montes escuros que ficavam a 
norte. Na distncia, distinguia-se a custo uma mancha de 
chumbo luzindo no cu. - Se no soubesse, diria que, hoje, o 
Sol est a nascer a norte... isto , um falso sol.
-j muitas vezes vi este falso nascer do Sol e podes ter a 
certeza de que vem por a alguma desgraa.
- O que ? - inquiriu Esme.
- Fogo - respondeu Toli.
- De certeza? No me parece nenhum incndio - disse Quentin,

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inclinando-se na sela para ver melhor. - Para isso era 
preciso uma pilha de madeira do tamanho de...
- Uma aldeia - completou Toli com a palavra que faltava.
- No me digas;... - gritou Quentin, cada vez mais alarmado.
- Illem fica naquela direco!
- . A mais ou menos uma lgua para norte.
- Ento estamos a perder tempo a falar - rematou Quentin, 
virando o cavalo de frente para o claro. - Talvez possamos 
ajudar. Vamos!
- Segura-te bem. senhora - recomendou Toli, agitando as 
rdeas. Riv saltou do carreiro e lanou-se em perseguio da 
forma em voo de Quentin.
 medida que os cavalos se aproximavam, galopando a toda a 
velocidade. o claro do horizonte ficava mais brilhante e 
maior, A meia lgua de distncia, j cobria os montes, 
adensando-se num feio tom avermelhado. O fumo preto 
recortava-se na cortina mais escura da noite.
A leste, o advento da madrugada tornara o cu cor de prola, 
o que fazia com que o claro parecesse ainda mais agoirento e 
pouco natural.
No fundo de uma ravina, Quentin puxou as rdeas ao cavalo, 
que parou. Na Primavera, os degelos dos FiskilIs enchiam o 
leito seco de gua gelada. Naquela altura estava juncado de 
ervas e arbustos, pois h muito que as guas se tinham 
esvaziado para o mar.
- Parece-me que Illem fica mesmo atrs deste cume - disse 
Quentin. A ravina atravessava uma depresso comprida, 
limitada, em trs lados, por cumes baixos. Do fundo do leito 
seco do regato, parecia que o norte do cu brilhava como 
ferrugem. O vento que soprava para terra espalhava as colunas 
de fumo.
- Passa-se qualquer coisa - observou Toli. - Vamos andando 
com cuidado at descobrirmos onde est o inimigo.
- Concordo - assentiu Esme. - Somos s trs sabe-se l contra 
quantos.
Surpreendido, Quentin mirou-a. Era claro que ela se 
considerava protectora e no protegida.
- Porque  que h-de haver um inimigo? Com certeza no

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pensas... - Quentin calou-se. Conhecia o misterioso instinto 
de Toli suficientemente bem para saber que at as suas mais 
leves extravagncias deviam ser levadas a srio, pois haviam 
tido razo de ser tantas vezes que no era nada prudente no 
lhes ligar. - Est bem, vamos continuar pelo vale at 
ficarmos ao nvel da povoao. Depois, podemos descer ao 
abrigo da crista.
Recomearam a andar, mas a um passo mais lento. Quentin 
seguia  frente, perscrutando os cumes dos montes,  procura 
de sinais de actividade anormal. Um pouco mais  frente, o 
carreiro dava uma curva apertada.
- Espera! - murmurou Toli asperamente. - Ouve!
Vindo do fim da curva, ouvia-se um som estranho e abafado, 
como se um animal grande estivesse a fossar no solo macio do 
leito seco. Arrastando-se, respirava pesadamente, com um 
suspiro imaterial. Ouvindo este som, tanto Blazer como Riv 
levantaram as orelhas.
- O que ser? - indagou Esme, cujo sussurro quase se perdeu, 
dado que a intensidade do som aumentava rapidamente.
- Seja o que for, vem para c - disse Quentin. - Por aqui! - 
E esporeou Mazer na direco da rampa mais prxima, para se 
desviar do caminho do bicho.
Mas foi tarde de mais. Quando Blazersaltava para a frente, a 
coisa apareceu, agitando-se na curva. Quentin entreviu um 
corpo enorme, ondulante, disforme e mal definido. A criatura 
tambm o viu e soltou um latido que pareceu sair de uma dzia 
de gargantas ao mesmo tempo. Foi ento que Quentin percebeu 
do que se tratava.
- Parai! - gritou Quentin, puxando as rdeas bem de lado, 
para que Mazer recuasse nas patas traseiras e rodasse sobre 
si prprio. A sua ordem ecoou na encosta mais afastada. Toli 
apareceu imediatamente ao seu lado.
O animal gritou e desfez-se em cem pedaos, cada um fugindo 
numa direco diferente. De facto, o estranho bicho era 
apenas o amontoado dos aldees de Illem, que fugiam juntos 
das suas casas incendiadas, O som que tinham ouvido era o de 
muitos ps correndo pelo leito seco e o murmrio do medo.
- Parai! - berrou Quentin novamente. - Em nome do Rei Drago!

100

As pessoas pararam.  vista do cavalo e do cavaleiro que 
assim apareciam de repente, ficaram pregados ao cho. Por um 
momento, ningum se atreveu a mexer-se. Quentin calculou que, 
ao todo, deviam ser cinquenta, incluindo homens, mulheres e 
crianas.
Um homem mais corajoso deu um passo em frente:
- No nos entraveis o caminho, senhor. No sei o vosso nome, 
mas se sois amigo deixai-nos ir! - O homem aproximou-se 
lentamente de Quentin. Os outros, que se encontravam atrs 
dele, estavam apavorados de mais para se mexerem ou falarem.
- Podeis estar descansados que no vos faremos mal - disse 
Quentin.
O homem olhou por cima do seu ombro e gritou:
- O destruidor est atrs de ns! S escapmos com as nossas 
vidas... deixem-nos ir! Ele vem atrs de ns!
- Quem  esse Destruidor? Ns vamos ao seu encontro e...
- No,  tarde de mais! - Fez um gesto rpido para os seus 
seguidores. Mal recomearam a andar, o homem ergueu a mo 
para o ar. - Ahh! Encontraram-nos!
Quentin olhou para trs do homem e viu qualquer coisa a 
descer pelos lados da ravina,  luz de tochas. Ento, 
desembainhou a espada de trs da sela e, ao mesmo tempo, 
ouviu o tinido da lmina de Toli.
- Correi! - gritou Quentin aos aldees. - Ns protegeremos a 
vossa fuga.
Toli lanou-se para a frente e Quentin viu mais tochas 
ardendo pela ravina abaixo. Inclinando-se sobre o pescoo de 
Blazer, Quentin precipitou-se para a ladeira, na direco do 
que lhe estava mais prximo. Depois, ouviu a lmina de Toli 
fendendo o ar e o bater de metal, seguido de um grito 
abafado. Com a espada erguida, saltou o leito plano do regato 
e foi dar ao meio de um confuso grupo de soldados envergando 
cotas de malha, que desciam a ladeira desordenadamente. Dois 
deles provaram a sua lmina e outros dois deram meia volta e 
largaram a correr ladeira acima.
Virando-se, Quentin descobriu que tinha o caminho cortado. 
Mazer recuou e comeou a escoicinhar, com cascos que pareciam 
voar. A espada de Quentin, a abrir passagem at ao lado de 
Toli, parecia um escudo cintilante. A ponta de uma lana 
surgiu duas vezes da escurido,

101

mas a espada rachou-a das duas vezes. Ora ficava um broquel 
cortado ao meio, ora um elmo...
Era bvio que os soldados no estavam  espera de encontrar 
homens a cavalo. No sabiam o que fazer e corriam uns para os 
outros, esforando-se por ficarem fora do alcance dos corcis 
bem treinados de Toli e Quentin. Este facto levou Quentin a 
pensar que, embora estivessem em desvantagem, conseguiriam 
domin-los.
Mas, uma vez passada a surpresa inicial, os soldados 
reagruparam-se rapidamente e rodearam os cavaleiros.
- Estamos encurralados! - gritou Quentin, galopando ao lado 
de Toli. - Temos de arranjar uma passagem. Onde fica o ponto 
mais fraco?
- Ali... vs aquele buraco? - respondeu Esme. Quentin viu-a 
apontar com o punhal.
Olhando para o stio indicado, descobriu um espao entre dois 
soldados que corriam para eles.
- Boa, rapariga! Segue-me! - Agitou as rdeas e Blazer deu um 
salto em frente. Ao aproximar-se do buraco, viu uma vedao 
de arbustos baixos. Antes de ter tempo para pensar, Blazer 
estava no ar, passando-lhe por cima.
Toli no teve a mesma sorte. Com o peso de mais um cavaleiro, 
Riv saltou e passou os arbustos com as patas da frente, mas 
as de trs emaranharam-se nos ramos. Caram os trs e os 
soldados convergiram instantaneamente para eles.
Blazer estacou, batendo com os cascos, e Quentin f-lo dar 
meia volta e regressar ao meio da confuso.
- Whist Orren, protege o teu servo! - gritou, desesperado.
Nos escassos momentos de batalha, o cu clareara o suficiente 
para se verem os soldados recortados contra um fundo mais 
escuro. Quentin lanou um grito de batalha e preparou-se para 
a inevitvel coliso. Entretanto, viu Rv sacudindo a cabea 
e voltando a pr-se de p. Toli e Esme estavam perdidos por 
baixo de uma dzia de sombras pretas de soldados que 
formigavam sobre eles.
Quentin foi malhando a torto e a direito na desordem de 
lanas e espadas, ouvindo os arquejos de dor e sentindo a 
espada penetrar bem fundo. Depois de baixar o brao uma e 
outra vez, a turva massa de corpos dividiu-se.

102

Depois, sentiu que algum lhe puxava a capa, desequilibrando-
o para trs. Os soldados estenderam as mos e agarraram-lhe 
os braos; com um golpe seco, tiraram-lhe a espada da mo. 
Blazer recuava e saltava, mas Quentin estava firmemente preso 
e foi iado da sela.
Ao cair no cho, viu Esme saltando do nada e passando por ele 
a correr. Por um instante, os seus olhos encontraram-se. 
Quentin ainda pensou que ela ia em sua ajuda, mas Esme 
afastou-se e, num abrir e fechar de olhos, estava na sela de 
Toli. Cado no cho, Quentin sentiu um p esmagar-lhe a 
garganta.
Enquanto o mundo girava  sua frente, ouviu o som dos cascos 
de Riv, que se afastava.

CAPTULO XIII

Pesados reposteiros tapavam as janelas do quarto do Rei 
Drago. Um fio mnimo de luz brilhava por entre uma abertura 
dos cortinados corridos e caa num simples raio sobre o alto 
leito real. De resto, o quarto estava to escuro como uma 
caverna cavada no fundo de um monte.
Durwin entrou sem fazer barulho e ficou um momento ao p da 
porta. Pondo um dedo no queixo, aproximou-se. escutando a 
respirao irregular e leve da forma imvel que se encontrava 
na cama. Parando junto do enfraquecido rei, inclinou-se para 
observar o rosto do homem adormecido. Foi nessa altura que 
detectou o leve cheiro ptrido da morte.
O santo eremita deu meia volta e pousou a taa de madeira, 
que tinha na mo, numa mesa ali perto. Depois, encaminhou-se 
para a janela alta e estreita, agarrou nos reposteiros com as 
duas mos e puxou com toda a fora. As dobras fechadas do 
tecido rasgaram-se e caram ao cho, deixando entrar uma 
avalancha de estonteante luz da manh. que inundou o quarto 
sombrio.
O ar fresco, limpo e quente varreu o quarto arrefecido pela 
noite, banindo aquele fedor horrvel. O homem deitado na 
cama, plido e niirrado entre os montes de grossas mantas, 
mexeu-se debilmente. Um queixume, onde se notava a falta de 
ar, escapou-lhe dos lbios.
- Acordai, meu rei! - gritou Durwin, inclinando-se. - Ouvis? 
Digo-vos que acordeis e que afasteis de vs o sono da morte!
Durwin pegou na taa e, enfiando a mo por baixo da cabea de

104

Eskevar, chegou-a aos lbios do invlido. O lquido amarelo 
escorreu pelo queixo e pescoo do rei, manchando os lenis.
Mas pelo menos uma parte do remdio entrou na boca do doente. 
O rei arquejou debilmente e o eremita deu-lhe mais lquido. 
esvaziando a taa. Dali a pouco, as plpebras cinzentas 
agitaram-se e abriram-se, pondo a descoberto dois olhos 
escuros, toldados e entorpecidos.
- Acordai, Eskevar. Ainda no chegou a vossa hora. - Os olhos 
imveis fitavam-no por entre a nvoa. - Oh, ser que cheguei 
tarde de mais? - murmurou Durwin para si prprio.
- O que ? Durwin, o que acon... - A rainha assomou  porta 
aberta. Avanando dois passos, viu o marido imvel, olhando 
para cima. - Oh! - gritou, precipitando-se para junto da 
cama.
- Ele ainda est connosco, senhora, mas no sei por quanto 
tempo. - Enquanto falava, Alinea agarrou-se ao seu brao, 
procurando apoio, e atirou-se para cima do leito, enterrando 
o rosto nos lenis. Dali a pouco, ouviam-se os seus soluos 
abafados e indistintos.
Durwin deixou-se ficar de lado, contemplando a rainha e o seu 
rei moribundo. Tinha o corao apertado de piedade e dor.
- Deus Altssimo - rezou -, vs dais vida aos homens e 
tornais a receb-la deles quando a sua passagem sobre a Terra 
est completa. Todas as coisas crescem no seu tempo, de 
acordo com os vossos desgnios. Com certeza que vos  odioso 
que a vida se acabe antes do que foi destinado.
-Uma doena m aflige o nosso rei, apertando-o num abrao 
mortal. Libertai-o dele. Fazei-o voltar a subir o caminho que 
agora desce e devolvei-o aos seus entes queridos e ao seu 
reino.
A orao de Durwin pairou no ar como um blsamo. A brisa 
soprou suavemente, transportando o perfume das rosas dos 
jardins l de fora e atravessando a quietude do quarto com o 
seu doce sussurro. Depois, tudo voltou a ficar silencioso.
- Durwin... olha! - exclamou Alinea. Ajoelhada ao lado de 
Eskevar, apertava-lhe uma mo nas suas. O rei observava-os 
calmamente, com os olhos marejados de lgrimas.
- Oswald! - chamou Durwin. O camareiro da rainha,
que no saa de junto da porta, entrou a medo. - Vai buscar o 
frasco que est na minha mesa de trabalho. - O preocupado 
servo desapareceu

105

imediatamente e voltou mesmo antes de Durwin acrescentar: - E 
despacha-te!
O eremita tirou a rolha do frasco e administrou o lquido, 
que escorreu pela garganta do rei abaixo. Desta vez, Eskevar 
tossiu, fechou os olhos como se tivesse dores e disse. numa 
voz que mal se ouvia:
Ca assim tanto que at sou envenenado no meu prprio leito?
O rei queixa-se...  bom sinal. - A rainha virou o rosto 
ansioso para o eremita. - Senhora, por agora, no h 
problema, mas ele ainda no est fora de perigo.
Durwin. deu a volta  cama e comeou a puxar para trs as 
mantas de l e plo.
- No entanto, fui tolo e de compreenso lenta. Talvez o rei 
no tivesse decado tanto, quase a um ponto sem regresso, se 
eu fosse mais observador. Temos de o levantar. senhora.
Alinea ps um ar de dvida:
Achas....
Sim. Ele tem de poupar a fora que ainda possui. Tem de a 
usar para arranjar mais. Ajudai-me a p-lo de p.
Pegando no corpo do rei, leve como uma pluma, no oferecendo 
qualquer resistncia, levantaram-no com todo o cuidado, 
carregando-o pelos braos, puxaram-no suavemente da cama e 
pousaram os ps descalos no cho.
- Ahhh! - gritou Eskevar, cheio de dores. A rainha lanou um 
olhar preocupado a Durwin, que se limitou a assentir com a 
cabea, como se quisesse dizer: "Continuai, tem de ser."
Cuidadosamente, ajudaram-no a andar passo a passo, de trs 
para diante. parando sempre em frente da janela para o 
deixarem recuperar o flego. Caminharam assim durante muito 
tempo. A cabea do rei, que estava quase inconsciente, 
balanava-lhe nos ombros.
Ao meio-dia, Eskevar j se mexia  vontade, embora ainda 
precisasse de se apoiar no brao da sua rainha. Tinha a testa 
hmida de suor e uma tosse violenta atormentava o seu corpo 
encolhido, fazendo-o tremer todo. Exausto, desfaleceu.
Durwin e Oswald transportaram-no de novo para a cama, 
observados por Alinea, que retorcia as mos.
- Suponho que agora vai dormir profundamente. Daqui a pouco.

106

acordamo-lo para comer. E tem de andar outra vez antes de o 
Sol se pr. Ficarei com ele  noite.
Durwin afastou-se do leito, abanando lentamente a cabea de 
trs para diante.
- Como pude deix-lo decair tanto?
- Na verdade, a culpa no  tua. Fizeste o que pudeste. 
Alis, acabas de lhe salvar a vida. - Alinea deu umas 
palmadinhas no brao de Durwin e sorriu calmamente.
- O deus abriu-me os olhos a tempo. senhora. Devo dar graas 
por isso. Mas no podemos afrouxar outra vez a nossa 
vigilncia, se no queremos perd-lo para sempre. Est muito 
fraco, a sua fora  muito frgil.
- Anda recompor-te  cozinha. Tambm tu vais precisar da tua 
fora nas horas que se aproximam, assim como todos ns.

Quentin retorceu-se no cho. Sentia uma dor aguda, que o 
penetrava de lado. Tinha um olho fechado devido ao inchao e 
a sua boca, que sabia a sangue, latejava com uma dor surda. 
Levantando a cabea devagar, olhou em volta com todo o 
cuidado. O fumo da aldeia incendiada ainda pairava em nuvens 
que rolavam pelo cho, picando-lhe nos olhos e 
congestionando-lhe o nariz. O sol, que ainda mal nascera, 
parecia uma bola vermelha que ardia intensamente por entre a 
nvoa preta que enchia o ar e se afundava nas encostas da 
ravina onde se encontrava.
Um soldado que estava ali perto viu o ligeiro movimento de 
Quentin e deu-lhe um golpe no ombro com o cabo da lana. 
Quentin tornou a baixar a cabea e ficou quieto; j vira o 
que queria ver. A grande maioria dos soldados j partira; s 
tinham ficado uns poucos para guardar os prisioneiros... se  
que havia prisioneiros, pois Toli no se via por lado nenhum.
Quentin tentou mexer os dedos, mas estavam entorpecidos. As 
cordas que o amarravam tinham sido bem atadas e apertadas. 
Tinha as duas mos juntas atrs das costas, um lao  volta 
do pescoo e outro passando-lhe pelos ps. Se movesse as mos 
ou os ps, o n do pescoo esticava e estrangulava-o. Mas, 
periodicamente, Quentin rastejava para um lado ou para o 
outro, tentando avaliar melhor o que o rodeava.
S estava vivo graas ao deus. No catico momento da sua 
captura.

107

ficara instantaneamente inconsciente. Logo que cara no cho 
a deitar sangue, um carrancudo guerreiro erguera um machado 
de dois gumes por cima dele. Quentin vira o claro da lmina 
baixando-se e descrevendo um arco na direco do seu corao.
Fora salvo no ltimo momento por uma mo que agarrara o brao 
que segurava o machado no ar. Depois, rebentara uma 
discusso. Embora Quentin no percebesse as palavras mal 
articuladas daquela lngua spera, sabia que tinham a ver com 
o seu provvel destino. O soldado que empunhava o machado 
queria mat-lo imediatamente. O outro parecia insistir em que 
se esperasse, possivelmente pela aprovao de um superior. 
Por isso. Quentin fora amarrado e deixado a meditar no que o 
esperava.
Mas no esperou muito.
Passado pouco tempo, ouviu o som oco dos cascos de um cavalo. 
De repente, houve uma grande agitao  sua volta, uma voz 
spera gritou uma ordem e dois guerreiros sinistros 
agarraram-lhe pelos braos e, aos saces, puseram-no de 
joelhos. A voz berrou outra ordem e uma mo pegou-lhe no 
cabelo e puxou-lhe a cabea violentamente para trs. Fechou 
os olhos com a dor.
Quando tornou a abri-los, deu com os olhos frios e duros de 
um dos comandantes de Nin.
O guerreiro observava-o impiedosamente. Envergava um estranho 
vesturio de batalha feito de bronze, que, ao Sol nascente, 
luzia com um brilho acobreado que condizia com a cor da sua 
pele. Tinha os braos cobertos por mangas de cota de malha 
que lhe iam dos ombros s mos largas e pesadas e, dos 
joelhos aos tornozelos, usava polainas de bronze. No trazia 
nenhum elmo, e o cabelo preto e comprido estava puxado para 
trs e preso numa trana comprida e grossa, que lhe descia 
pelas costas. Da maaneta da sua sela pendia uma espada 
comprida e curva, com a ln-fina fina manchada de fios 
carmesins de sangue.
O cavalo do comandante, largo e pesado, abanou a crina 
entranada e relinchou. Um dos soldados que agarravam Quentin 
comeou a falar. Era um som estranho aos ouvidos de Quentin, 
que no fazia a mnima ideia de que lngua se tratava, pois 
no percebia nem uma palavra. Mas o mais natural era que o 
soldado estivesse a contar a captura do prisioneiro ao seu 
comandante.

108

A dada altura, o comandante, que ouvia atentamente, 
interrompeu para fazer uma pergunta. Pareceu ento a Quentin 
ver um claro de interesse iluminando-lhe as feies 
selvagens. A uma ordem rpida, dois soldados precipitaram-se 
para lhe desamarrarem as pernas, puseram-no de p e 
obrigaram-no a andar. O comandante ficou a v-lo afastar-se, 
esporeou o cavalo e comeou a descer a ravina.
Quentin foi forado a subir a margem ngreme do leito seco. 
Atravs do fumo que pairava no campo, viu soldados reunidos 
em volta de vrias carroas grandes, envergando o mesmo 
vesturio escuro e grosseiro e transportando brutais machados 
de batalha de dois gumes. A uma ordem, entregaram todos as 
suas armas, que foram recolhidas e metidas dentro das 
carroas. A outra, deram-lhes grandes cestos. Depois, 
regressaram todos a correr para as runas fumegantes de 
Illem.
Quentin foi levado at uma das carroas mais prximas e 
encostado a uma roda enorme... to grande que era da sua 
altura. Desamarraram-no e, depois, prenderam-lhe os pulsos e 
os tornozelos  roda. Naquela posio, no teve outro remdio 
seno observar a estranha actividade que se desenrolava nas 
runas.
Vrios soldados em linha surgiram da cortina de fumo, 
transportando sacos de gro e pipas de vinho. Estes e outros 
alimentos, que constituam as provises da povoao, foram 
empilhados num grande monte e, depois, carregados em 
carrinhos de mo, que os levaram dali para fora.
 sua frente comearam ento a desfilar pares de soldados com 
cestos, que se encaminhavam para os montes. Quentin no 
conseguia ver para onde iam, mas sabia que se dirigiam para 
norte. Os homens transportavam os cestos aos ombros, e alguns 
iam bem curvados sob o peso do que levavam. Quentin ficou a 
pensar no que teriam os cestos.
Mas embora observasse a actividade que o rodeava, estava 
sempre a voltar-lhe  ideia o pensamento que mais temia. Mais 
do que a sua segurana, preocupava-o o que acontecera a Toli. 
O seu amigo, companheiro e servo desaparecera. Sabia que 
havia duas explicaes possveis: ou Toli fora morto durante 
o ataque e, nesse caso, o seu corpo jazia abandonado l no 
fundo da ravina, ou o astuto jher conseguira escapar na 
confuso da batalha.
Quentin rezava para que Toli se tivesse salvo.

109

Nesse momento, ouviu um sinal, um estrondoso toque de 
trombeta. e uma fileira de homens a cavalo passou pelas 
carroas. Cada um deles transportava um machado, um escudo e 
a estranha espada curva. Os cavalos tambm tinham armaduras. 
Grandes discos de couro endurecido, ligados por aros de ferro 
e entranados de maneira a formarem tiras, passavam pela 
cernelha e pela garupa dos animais e quase arrastavam no 
cho. Por cima dos cascos, tinham filas de espiges afiados; 
alm disso, mais dois espiges compridos e cruis despontavam 
da placa frontal de cada cavalo.
Quentin pensou que, fossem quem fossem, tinham chegado 
preparados para a guerra.
Depois de os cavaleiros passarem, ouviu outro toque de 
trombeta e, para seu horror, as carroas puseram-se em 
movimento. Pensando que se tinham esquecido dele, Quentin 
desatou a gritar, enquanto a roda  qual estava amarrado 
comeava a rolar. Mas os seus gritos s originaram 
gargalhadas nos soldados que passavam. Percebeu ento que no 
se tinham esquecido dele. Estava destinado a viajar com eles 
naquela tortura e a morrer lentamente na roda que girava.

CAPTULO XIV

Yeseph encontrava-se sentado no ptio, cabeceando contra o 
peito.  sua volta, os doces sons do crepsculo erguiam-se 
para o ar. O sol j deslizara para trs dos montes de Dekra 
e, embora o cu ainda estivesse de um azul brilhante, raiado 
de nuvens cor de laranja, as compridas sombras do fim da 
tarde mergulhavam na noite o ptio limpo e varrido do 
estimado ancio.
Ao seu lado. as folhas perfumadas de um loureiro novo 
matraqueavam ao sabor da brisa. Como delicadas ptalas de uma 
flor, as leves notas de uma melodia cadenciada deslizavam 
pelo muro e caam no ptio. A taa, na qual no tocara, 
estava pousada perto da sua mo. Yeseph respirava 
pesadamente.
Ouviu-se um passo miudinho e apressado e um frufru, de saias, 
e Karyll, a sua mulher, apareceu a seu lado e baixou o olhar 
para ele. fazendo-o sentir o calor da sua presena.
- O meu marido est cansado do dia de trabalho - disse ela. 
Meu querido, acorda. A refeio da noite est pronta. - A sua 
voz era to leve e tranquilizante como a brisa que brincava 
na rvore.
Yeseph levantou a cabea e,  medida que retomava a 
conscincia, ela viu-lhe nos olhos o reconhecimento gradual 
do stio onde se encontrava. Mas reparou tambm nas profundas 
rugas de preocupao que lhe sulcavam a testa e se lhe 
juntavam em volta dos olhos. Yeseph sorriu quando a viu, mas 
o seu sorriso era triste, sem brilho.
- O que se passa, meu marido? - Ficou  espera que ele lhe 
respondesse.

112

- Tive um sonho - explicou Yeseph com toda a simplicidade.
- E o teu sonho inquietou-te, porque foi um sonho de trevas e 
no de luz.
- Como vs, mulheres, podeis ver longe!  verdade, foi um 
sonho de trevas: uma viso. Vi... - comeou, interrompendo-se 
logo de seguida. - No, ainda no devo contar o que acabo de 
ver. Primeiro. tenho de reflectir muito.
- Ento podes comer enquanto reflectes. Anda. que o jantar 
ainda arrefece.
Karyll deu meia volta e regressou a casa com os seus passos 
abafados. Yeseph ficou a v-la afastar-se, pensando na sorte 
que tivera em encontrar uma mulher to sensata e compreensiva 
para compartilhar a velhice. Depois de articular uma aco de 
graas a Whist Orren pela sua felicidade, ergueu-se 
lentamente e entrou atrs dela.
Enquanto jantavam. Karyll observava atentamente o seu 
companheiro, que no comia com o apetite habitual, limitando-
se a debicar na comida.  luz cintilante das velas pousadas 
na mesa baixa. Yeseph deixou-se absorver ainda mais nos seus 
pensamentos. Por duas vezes levou a comida  boca e por duas 
vezes voltou a p-la no prato com um ar ausente.
- Yeseph - murmurou Karyll docemente -, no comeste bem esta 
noite. O teu sonho perturbou-te. Se no mo queres contar. 
ento conta-o aos ancies.
- Sim, tenho de fazer isso. - Levantando-se imediatamente do 
banco, encaminhou-se para a porta, onde parou, virando-se 
para ela. A sua silhueta escura recortava-se no cu da noite. 
De repente, pareceu voltar outra vez a si. - Vou convocar os 
outros ancies para hoje  noite. No esperes por mim, meu 
amor. Talvez chegue muito tarde.
- No faz mal. Tenho com que me ocupar enquanto no estiveres 
aqui. Agora, vai-te embora. Quanto mais depressa fores, mais 
depressa terei o meu Yeseph de volta.

Yeseph esperava pelos ancies numa cmara interior do Grande 
Templo dos Ariga. No deviam demorar, pois mandara 
mensageiros, trs jovens que serviam no templo, buscar os 
outros chefes curatak. Logo que chegassem, a reunio podia 
comear. Entretanto, acendia as

113

muitas velas colocadas nos seus compridos suportes em volta 
da sala despida.
No meio encontravam-se quatro cadeiras direitas, de costas 
altas, dispostas em crculo, de frente umas para as outras. 
Depois de acender as velas, Yeseph sentou-se no seu lugar e 
juntou as mos no regao, em silenciosa meditao. Dali a 
pouco, as cortinas penduradas  entrada da cmara abriram-se, 
deixando passar a figura familiar de Jollen, que vinha a 
alisar as vestes usadas no conselho.
- Boa noite, ancio Yeseph. Ao convocares-me, salvaste-me de 
uma tarefa bem desagradvel...  que tinha prometido comear 
a traduzir uma cano s crianas.
- Desagradvel? No deves estar a falar a srio, mas, se 
ests, o melhor  ires-te embora e deitares mos  obra.
- Oh, v se percebes. Adoro as crianas e fao tudo o que 
posso por elas, mas a cano que escolheram  no dialecto 
antigo dos Ariga. Trata-se de uma histria muito triste sobre 
um jovem infeliz que  transformado num salgueiro por causa 
das suas lamentaes. Tentei persuadi-las a escolherem uma 
coisa mais alegre, mas s quiseram esta.
- No fim, ainda vais aprender muito - riu Yeseph. - Uma 
excurso ao dialecto antigo  excelente para apurar os 
sentidos.
Jollen fez uma careta.
- Se no soubesse, dizia que foste tu que lhes deste a ideia. 
 mesmo de ti.
O prximo a entrar foi Patur, o chefe no oficial do grupo. 
Era ele quem normalmente assumia a responsabilidade de 
informar os Curatak das decises dos ancies em assuntos de 
interesse pblico. Orador muito hbil e influente, 
normalmente conduzia as oraes feitas no templo. Era uma 
autoridade na religio dos desaparecidos Ariga.
- Saudaes, sbios amigos - disse, ajustando a tnica que 
vestira logo que entrara na cmara. Os seus olhos brilhavam 
de ansiedade pelo trabalho da noite, pois, fosse o que fosse, 
p-lo-ia em comunho com outros espritos sagazes, coisa que 
ele no perdia.
- Saudaes, Patur. Obrigado por teres vindo to depressa. S 
temos de esperar... Ah, c est ele! - Yeseph fez um gesto de 
cabea para o cortinado, e Clemore, a mais recente aquisio 
do grupo depois da morte de Asaph, o membro mais velho, 
entrou, fazendo uma grande vnia.

114

- Boa noite, irmos. Fao votos para que estejais bons. - Os 
outros baixaram a cabea e sentaram-se todos nos seus 
lugares. Yeseph passeou o olhar pelos rostos familiares. 
Estavam ali os amigos em quem mais confiava; Clemore tinha 
razo: os seus irmos. Podia contar-lhes o seu sonho e eles 
ajud-lo-iam a carregar o fardo, por mais pequeno ou grande 
que viesse a ser. S o facto de estar na sua presena j o 
fazia sentir-se melhor. Ser que algum deles sentiria o mesmo 
em relao a ele? A julgar pelas vezes que se tinham ido 
aconselhar s com ele ou em conjunto com os outros, supunha 
que sim. Naquele momento. era a sua vez de lhes apresentar um 
problema.
- Bom Yeseph, no nos faas esperar mais. Diz-nos o que te 
preocupa, pois bem vejo que tens o esprito inquieto - disse 
Patur.
- Tens razo. Estou preocupado. - Fez uma pausa, enquanto 
ordenava os pensamentos. e olhou para cada um deles  vez. - 
Esta noite tive um sonho. Foi breve mas muito estranho.
- Acreditas que pressagia alguma coisa de importante? - 
perguntou Clemore.
- Acredito.
- E tens alguma interpretao para ele?
- No. Foi por isso que vos pedi que viessem aqui esta noite. 
Achei que, juntos, talvez consegussemos compreend-lo.
- Muito bem - disse Jollen -, conta-nos o teu sonho tal como 
o tiveste. Pediremos ao Altssimo que nos ilumine e nos faa 
ver o seu significado.
Yeseph assentiu lentamente e, fechando os olhos, comeou a 
narrar o sonho:
- Tinha eu acabado de entrar no ptio quando fui invadido por 
uma grande sonolncia, embora ainda no tivesse comido. 
Sentei-me, adormeci logo e comecei a sonhar. O sonho foi 
assim:
"Vi um rio que atravessava a terra. Ao toc-la, esta lanava 
abundantes rebentos verdes e rvores, proporcionando comida a 
todos os seres vivos. A gua era lmpida e boa: os homens iam 
beber  beira do rio, e as criaturas selvagens bebiam e 
ficavam satisfeitas.
"Mas comeou a soprar de leste uma tempestade escura. O rio 
continuava a correr, mas a gua comeou a mudar e a ficar da 
cor do sangue. Ao princpio, s uma sugesto de vermelho 
turvou a gua lmpida,

115

que, no entanto. continuou a escurecer at ficar preta. O rio 
comeou a cheirar mal.
-j ningum podia beber e continuar vivo; os homens e os 
animais que bebiam aquela gua morriam. As rvores, a erva e 
as flores que tinham brotado nas margens do rio murcharam e 
morreram. A terra ficou erma, porque todas as coisas 
dependiam do rio para viver. Chegaram os ventos. levantando a 
poeira, que encheu o ar de grandes nuvens que cobriram a 
terra. O rio secou."
Yeseph fez uma pausa, inspirou e continuou. No silncio da 
cmara interior, as suas palavras pareciam o dobrar de sinos:
- As trevas caram sobre a terra, e ouvi uma voz a chamar. 
Era a voz de uma criana aterrorizada, que perguntava: ---
Ondeest o meu pai', Tenho medo. Onde est o meu protector?"
As trevas revolveram-se em resposta  criana. Falavam com a 
voz da noite. dizendo:---Osossos do teu pai so p espalhado 
ao vento. A espada do teu protector est quebrada. Vais viver 
para sempre nas trevas, porque, agora, s filho da noite.---
"Chorei ao ouvir aquelas palavras. As minhas lgrimas caram 
sobre a terra como uma imensa chuvada. E a terra, que se 
transformara numa taa, recolheu aquela chuva de lgrimas.
"Uma outra voz. mais poderosa do que a primeira, trovejou:
- Ondeesto os meus servos? O que aconteceu queles a quem 
chamo?---
"Eu respondi: '"Estou aqui, mas estou sozinho... os outros 
pereceram.- A minha dor era tanta que ca de rosto virado 
para o cho.
"Voltei a ouvir a voz: 'levanta-te, pega na taa e despeja-
a."
Peguei na taa com as mos, despejei-a e ela transformou-se 
numa espada de luz viva que lanava clares nas trevas, 
afugentando-as. --Empunha a espada!", ordenou a voz.
"Comecei a tremer todo, porque sabia que no conseguiria 
ergu-la. -Nunca toquei numa espada e no sei como se usa", 
protestei.
"-'Ento. d-a a esse menino", respondeu a poderosa voz. "Ele 
vai us-la, guiado por ti.---
"_Mas quando procurei a criana para lhe dar a brilhante 
espada tinha desaparecido. A noite engolira-o, embora eu 
ainda o ouvisse chorar na escurido que o empurrava cada vez 
para mais longe.

116

Yeseph voltou a abrir os olhos e fitou os seus irmos, que 
envergavam as vestes do conselho. Estes estavam sentados, 
imveis, meditando nas suas palavras. Tinham uma expresso 
grave, e os seus rostos reflectiam a preocupao que o sonho 
de Yeseph lhes causara.
- Irmos - entoou Patur em voz profunda -, este sonho  muito 
inquietante. Pressinto nele um aviso urgente. Vamos pedir ao 
Altssimo que nos guie na nossa interpretao, pois acredito 
que esta noite nos foi dada para contrariarmos o poder das 
trevas anunciado no sonho.
Mal acabou de falar, os ancies de Dekra juntaram as mos e 
comearam a rezar.

CAPTULO XV

O lustroso corcel preto parecia correr como gua a descer as 
colinas e a atravessar os vales. Bastava a Esme fazer fora 
com os joelhos ou mexer a mo  direita ou  esquerda, que o 
cavalo respondia, como se estivesse em sintonia com os seus 
pensamentos. O animal estava soberbamente treinado... tanto 
que Esme comeou a temer pela sua sade. Riv preferiria 
correr at o corao lhe rebentar a abrandar o passo e 
desobedecer ao seu cavaleiro.
Apesar de o cenrio daquele malfadado combate j ter ficado 
muito para trs, o cavalo continuava a correr. A espuma da 
transpirao subia-lhe do pescoo em flocos arrastados pelo 
vento. Esme viu  frente a linha escura de uma enseada, 
serpenteando atravs de uma plancie. "No stio onde a 
enseada rodeava o verdejante sop de um monte, erguia-se um 
bosquezinho de vidoeiros novos, ao qual a luz da manh 
emprestava um tom branco e brilhante. Pensou de si para si 
que era um bom stio para descansar.
- , Riv!- exclamou, inclinando-se para a frente na sela e 
puxando as rdeas muito ao de leve. O cavalo abrandou para um 
galope mais leve e, depois, passou a andar a trote. Esme 
deixou-o arrefecer antes de chegarem ao ribeiro, pois sabia 
que no seria bom o animal beber ainda quente e sem flego 
por causa da corrida. E, para chegar a Askelon, precisaria do 
cavalo.
Os vidoeiros rodeavam e davam sombra a uma clareira onde 
cresciam ervas compridas, alimentadas pelo regato. Como 
estava meio escondida, seria invisvel para algum que viesse 
atrs dela. De um dos

118

lados da clareira, via-se o sop rochoso do monte, onde o 
ribeiro formava um lago pouco fundo.
Esme escorregou da sela e conduziu lentamente Riv para dentro 
do bosque sombrio. A clareira estava fresca, silenciosa e 
cheia de manchas douradas de luz e de sombras verdes. Muito 
cansada, avanou na direco do curso de gua, que cantava 
alegremente ao passar sobre uma fiada de seixos. Acima dela, 
ouviu o trinado de uma ave na colina e o silvo produzido 
pelas patas do cavalo na erva. Alm da gua borbulhante, no 
havia mais nada. Sim, ali estaria a salvo.
Esme conduziu a montada para a beira do lago e ficou a ver o 
cavalo mergulhar o nariz na gua. Riu bebia abundantemente e. 
depois, tirava a cabea do regato e sacudia a luzidia crina  
luz do Sol, atirando ao ar cintilantes prolas de gua, que 
voltavam a cair no lago cristalino. O cavalo repetiu vrias 
vezes esta operao e, ao v-lo, Esme ia esquecendo que 
acabara de escapar por um triz.
Riv relinchou, desviou-se da gua e olhou-a calmamente, como 
se quisesse dizer: "Podes beber... eu fico de vigia." Esme 
ajoelhou-se na erva comprida, juntou as mos e levou a gua 
lmpida  boca. Quando acabou, conduziu Rv a um stio onde 
cresciam cravinhos e deixou-o pastar, sem sequer se dar ao 
trabalho de o amarrar, pois sabia que um cavalo to bem 
treinado como aquele nunca se iria embora, abandonando o seu 
cavaleiro.
Portanto. deixou o cavalo a pastar e virou a sua ateno para 
a colina, que era o ponto mais alto de onde podia observar as 
cercanias. Como fugira da zaragata da ravina pensando apenas 
em salvar a pele, no sabia muito bem onde estava. Tentara, 
tanto quanto possvel, seguir na mesma direco por onde 
tinham entrado na ravina. pois o seu objectivo era retomar a 
mesma estrada. Uma vez que a encontrasse, viraria para norte 
e dirigir-se-ia para Askelon.
Esme subiu a ngreme encosta da colina que se elevava no 
valezinho, acima das rvores,  luz do Sol, o ar estava mais 
quente e cheio de abelhas e borboletas, que iniciavam as suas 
tarefas dirias. Um vento fresco fazia ondular a erva alta. O 
cu azul brilhava, indiferente aos actos escuros da noite e 
de homens desesperados. Ali, quase conseguia esquecer o que 
se passara apenas uns momentos atrs.
Mas no podia esquecer os dois homens galantes que to 
corajosamente

119

tinham voado em defesa dos inocentes aldees e que, sem 
fazerem perguntas, lhe haviam oferecido a sua proteco. Ao 
chegar  crista da colina. virou os olhos para Illem, agora a 
lguas de distncia. Mas no havia nada para ver; no ficara 
nem uma mancha de fumo no horizonte.
Por uns momentos, sentiu-se indecisa: deveria voltar e tentar 
descobrir o que acontecera aos seus amigos ou continuar para 
completar a sua misso e transmitir a mensagem ao rei?
Era uma escolha com pouco significado. Bem, sabia. O inimigo 
que os vencera na ravina de Illem era o mesmo que a 
surpreendera a si e aos seus companheiros na estrada. Agora. 
mais duas vidas se tinham acrescentado  lista, pois tinha 
poucas dvidas de que Quentin e Toli estavam mortos. E se no 
fosse a importncia da sua misso, teria ficado a 
compartilhar o seu destino.
No havia nada a fazer seno continuar.
Observando a terra. varreu o horizonte com os olhos escuros, 
a procura de algum marco reconhecvel. Para sul, viu uma fina 
faixa de azul-brilhante, que se fundia no cu. "O mar", 
pensou. "No me enganei muito." Se forasse um pouco os 
olhos, quase conseguia ver a estrada. abraando as dunas. 
Esme lanou um ltimo olhar por cima do ombro. para ver se 
fora seguida, mas atrs de si encontravam-se apenas o cu 
radiante e as colinas estivais. Por isso, com o corao 
pesado. virou-se, preparando-se para partir.
Quando descia a encosta da colina, Esme ouviu o relinchar 
excitado de um cavalo. Seria Riv ou algum outro? Estacou. com 
o corao palpitando de pnico, e ps-se  escuta.
Do caramancho coberto de folhas que ficava directamente 
abaixo dela, saiu outro queixume de um cavalo em sofrimento. 
Devido ao emaranhado de folhas e ramos, no conseguia ver o 
animal nem o seu atacante. Percorreu ento o resto do 
caminho, deslizando o mais rpida e silenciosamente possvel, 
com todo o cuidado, para no se mostrar abertamente.
Uma vez abaixo das copas das rvores, viu Rv de patas 
abertas e cabea baixa, encostado s rochas, abanando a crina 
e mostrando os dentes, Mas no descobriu nada que o pusesse 
naquele estado. Estava tudo na mesma. No havia sinais de um 
nico intruso, fosse homem ou bicho.

120

Esme saltou para o cho e, durante um momento, ficou agachada 
na erva. No ouvindo nem vendo nada de inquietante, levantou-
se e foi acalmar o assustado animal.
- Ento, Riv? Calma. - Deu-lhe umas palmadinhas no focinho 
lustroso e passou-lhe o brao delgado em volta do pescoo. - 
Calma. Que foi... h? O que foi que assustou o meu cavalinho?
O cavalo acalmou com as suas festas e com a sua voz 
tranquila, relinchou baixinho e abanou a cabea. Mas 
continuou a fitar o outro lado do regato, sem que Esme 
conseguisse descobrir porqu.
- Ento, ento? No vs? Est tudo bem. No h nada...
Antes de Esme acabar de falar, Riv sacudiu a cabea, rolou os 
olhos aterrorizado, pondo o branco  mostra, e fugiu-lhe. Ela 
puxou as rdeas, que estavam penduradas, mas o cavalo deu um 
salto, atravessou a correr a erva crescida e ps-se a 
relinchar do outro lado da clareira.
- Riv!- gritou Esme impaciente. - Seu mau! Anda c! - Com as 
mos nas ancas, ficou a observar o cavalo, que arqueava as 
costas e recuava, descrevendo crculos de medo. "O que ter 
dado a este animal?", interrogou-se Esme. Nunca tinha visto 
nada assim.

Vai-te embora, bicho feio! E leva a tua cavaleira... Ou pe-
te quieto Efica  sua beira.

A estas estranhas palavras, recitadas em tom monocrdico, 
numa voz spera e pouco clara, Esme girou nos calcanhares e a 
sua mo voou para o punhal comprido que tinha preso no cinto.
No h lmina oufaca Nem n de enforcado Quefaam a vida 
desta sibila Passar um mau bocado!
Esme nem acreditava no que via. Numa rocha no meio do regato 
encontrava-se uma velha corcunda, envolta numa confuso de 
trapos. Numa mo tinha um basto comprido e agitava a outra  
sua frente,

121

como se enxotasse abelhas. Enquanto Esme a observava. muda de 
espanto. a velha saltou de pedra em pedra, com a leveza de um 
grilo, atravessando assim o regato sem molhar um nico 
farrapo.
Quando aterrou na margem, a velhota agitou os trapos e bateu 
trs vezes com o basto no cho. Depois, encaminhou-se a 
mancar na direco de Esme, que a fitava com a boca aberta de 
espanto. De onde teria vindo?
- Quem s, tiazinha? - perguntou Esme cautelosamente. A 
mirrada criatura no respondeu; em vez disso. aproximou-se no 
seu andar saltitante e esquisito. balanando o basto e 
deitando os bofes pela boca fora. O seu cabelo pendia num 
emaranhado de novelos grisalhos, ornamentados com pedaos de 
folhas e de galhos. O rosto engelhado parecia uma ma seca, 
uma massa de rugas e sulcos tostada pelo vento e cozida pelo 
sol. Quando a mulher se mexia, Esme imaginava ouvir os seus 
ossos quebradios batendo uns nos outros. Parecia to velha 
como as rochas soterradas por baixo da colina.
- Quem s? - repetiu Esme.
A mo da velhota agitou-se  sua frente. Esme viu-lhe as mos 
speras e as unhas sujas, e tambm reparou no cheiro a fumo e 
a porcaria que pairava em redor dela.
Se a rocha e a colina A gua e a ilha So a pedra do lar, De 
Orphe sou filha.
Virando manhosamente para Esme o rosto gasto pelo tempo, 
abriu a boca num riso irnico e desdentado. Foi ento que 
Esme lhe viu as rbitas cavadas onde outrora tinham estado os 
olhos. A mulher era completamente cega.
- Vives aqui... nesta clareira?
-  verdade. Razo tens. -Agora diz-me De onde vens.

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- Eu? Chamo-me Esme. No era minha inteno invadir a tua 
casa. Ouvi o cavalo... - Virou-se e reparou que Riv se 
acalmara, estando naquele momento a observ-las, assentindo 
prudentemente com a cabea, como se tivesse sido enfeitiado. 
- No quero incomodar-te mais. Vou partir imediatamente.

De partidas
Ainda  cedo para flar
Pois ainda no disseste
Aquilo que me vais dar

A mulher estendeu a mo, apoiou o queixo no basto e ficou  
espera. Parecia uma rvore inclinada e nodosa, assente num 
tronco seco, com um nico ramo espetado para a frente. O seu 
vesturio esfarrapado esvoaava como folhas ao sabor da 
brisa.
- No tenho nada para te dar, tiazinha - volveu Esme, 
esforando-se por pensar depressa. No era bom aborrecer um 
orculo, especialmente tratando-se de um membro da casta que 
se autodenominava "filhas de Orphe", pois estas eram muito 
poderosas e sbias. - Mas vou rezar uma orao em teu nome 
logo que encontrar um santurio.
A feia mulher atirou a cabea para trs e deu uma gargalhada. 
Esme viu dois solitrios dentes castanhos agarrados como 
lquenes s gengivas da velhota. O riso da vidente retiniu 
como uma saraivada num pote vazio.

No tenho necessidade De uma orao. Prefiro antes Uma nobre 
aco.

Esme sobressaltou-se ao ouvir a velhota usar a palavra 
"nobre".
- Que aco esperas de mim? - perguntou, desconfiada.

O coelho preso Daquele lado Sabe melhor Se for assado.

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A velhota entortou um dedo nodoso para o curso de gua que 
ficava atrs delas. Esme seguiu-o com o olhar e viu um macio 
de pilriteiros que abanava vigorosamente como se, na verdade, 
estivesse l alguma coisa presa.
- Queres que te cozinhe uma refeio?  essa a aco que 
pretendes de mim? - A ideia no agradava a Esme, que estava 
ansiosa por recomear a jornada. A regio no era segura: o 
inimigo vagueava  vontade em busca de presas. j tivera dois 
encontros: no lhe apetecia um terceiro. Oxal tivesse alguma 
coisa de valor para dar  velhota e poder ir-se embora! - 
Muito bem - disse devagar, indo relutantemente buscar o 
coelho que sabia estar preso nos pilriteiros.
A filha de Orphe virou-se, seguiu-a com as suas rbitas cegas 
e sorriu. fazendo o velho rosto enrugado contorcer-se numa 
careta perspicaz. onde no se viam os lbios. Depois, 
tagarelando alegremente de si para si, saltitou como uma ave 
aleijada e foi empoleirar-se,  espera, numa pedra que estava 
ali perto.
Esme no teve qualquer dificuldade em apanhar o coelho. 
Quando o viu debatendo-se, enfiou a mo pelo meio dos 
pilriteiros e puxou-o pelo cachao. Ao pegar-lhe, sentiu o 
seu pequeno corao batendo loucamente. Mas o aterrorizado 
coelho deu uma sapatada e saltou-lhe dos braos. Esme ficou a 
v-lo fugir aos pulinhos. Tinha medo que a velha a 
amaldioasse por ter falhado. Mas o coelho, que, alis, era 
uma rechonchuda lebre, deu dois saltos vacilantes e caiu para 
a frente... morto. Esme correu para a lebre e apanhou-a do 
cho. O seu corao parara. Pegando no punhal, Esme cortou-
lhe a cabea para a sangrar. Depois, deixou-a pendurada num 
ramo pelas patas traseiras e foi procurar lenha para fazer 
uma fogueira.
Quando, por fim, o lume crepitava e a lebre, esfolada e sem 
midos. assava num espeto, Esme aproximou-se da vidente e 
anunciou:
- A tua refeio est quase pronta, tiazinha. E encontrei uma 
ma que podes comer com a carne. - Esme descascara 
cuidadosamente a ma e partira-a aos cubos para dentro de 
uma tigela de madeira que retirara da bagagem de Toli, 
arrumada atrs da sela. Depois, com o cabo do punhal, fizera 
os cubos dourados em pur.
Sem dizer nada, a velhota saltitou para mais perto da 
fogueira e sentou-se. Esme foi at ao regato e encheu uma 
segunda tigela de gua.

124

- Talvez a filha de Orphe queira lavar as mos antes de comer 
disse Esme gentilmente, segurando a tigela  sua frente. A 
velhota assentiu majestosamente, mergulhou as mos com toda a 
elegncia dentro da tigela e esfregou-as. A gua ficou turva 
com a sujidade. Depois, limpou as mos molhadas  roupa 
nojenta e sorriu.
Esme foi buscar-lhe outra tigela de gua, tirou a carne 
cozinhada do espeto e cortou-a em tiras e, depois, em bocados 
mais pequenos.
- A vossa refeio, senhora - disse Esme, pois, ao ser-lhe 
apresentada a tigela de ma e coelho cuidadosamente cortado, 
a vidente assumira um ar de rainha.
Esme recuou e ps-se a observar a velhota, que jantava com 
evidente prazer, lambendo os dedos e estalando os lbios. 
Quando acabou, estendeu a tigela a pedir mais. Esme encheu-a 
outra vez e sentou-se a seu lado,  espera. O sol atingiu o 
seu znite, reduzindo a nada as sombras da clareira, e a 
velhota continuava atarefada  volta da tigela. Esme apertou 
a mo em volta dos joelhos e obrigou-se a esperar o mais 
pacientemente possvel. Por fim, a velha acabou de comer a 
sua rao, pousou as tigelas no cho, a seu lado, e levantou-
se com muitos rangidos e estalos nas articulaes. Abanou-se 
na direco de Esme, parou  sua frente e encostou-se 
novamente ao basto. F-lo sem hesitar e com tanta segurana 
que Esme percebeu que a velhota via tanto com os olhos da 
alma como os outros com uma viso perfeita. E estremeceu ao 
pensar que, provavelmente, a mulher tirara os olhos em 
criana para aumentar o seu estranho dom.

Muita arte Teve esta aco Como  prprio De um nobre 
corao. No preciso de ver mais. S por isso sei Que s 
princesa E que o teu pai  rei.

Esme soltou uma exclamao e ps-se em p de um salto. A 
velha

125

falara verdade, mas assustava-a que o seu segredo fosse 
conhecido assim to facilmente.
- Vs o que no pode ser visto s com os olhos, sacerdotisa. 
Visto que te servi como me pediste, deixa-me partir com a tua 
bno.

Pedes uma bno Vais receb-la bem O teu segredo estar 
seguro Se no desiludires ningum.  muito raro Encontrar 
quem Arrisque a vida Por amor a algum. Mas tu fazes isso E 
ser assim: Quando dois forem soltos A tua misso ter fim.

A velhota deu meia volta e retirou-se apressadamente. Esme 
sentiu um pequeno toque no cotovelo e viu que Riv se 
aproximara e que estava ansioso por partir e afastar-se da 
estranha velhota.
Esme subiu para a sela e ficou a observar o disforme monte de 
trapos que voltava a atravessar o regato, saltando de pedra 
em pedra.
- obrigado pela bno, filha de Orphe. Que a tua profecia 
seja verdadeira.
Ouvindo estas palavras, a velha parou, virou-se outra vez 
para Esme, levantou o basto acima da cabea com ambas as 
mos e deu trs voltas muito depressa. Esme admirou-se por 
ela no cair do seu precrio poleiro, no meio do regato.
A voz spera da anci ergueu-se e encheu a clareira:

Eu digo o que  e no o que pode ser Mas j que tu queres 
Minha profecia te vou dizer!

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A vidente ergueu o rosto para o cu e murmurou um extenso 
encantamento. enquanto o basto se agitava para trs e para 
diante por cima da sua cabea. Depois, baixou com fora o 
nodoso punho do basto, e ouviu-se um estalido quando deu na 
pedra onde ela estava empoleirada. A sua mo lanou-se para o 
ar, com os dedos abertos, como uma garra. As palavras que 
proferiu ecoaram no valezinho:

Procura a espada E no a largues por nada! Para matar o 
inimigo Por um rei tem de ser empunhada.

Com dois saltos, a feiticeira desapareceu to rpida e 
misteriosamente como tinha aparecido. Mas mesmo muito tempo 
depois de ela se ter ido embora as suas palavras soavam nos 
ouvidos de Esme como o claro toque de um sino.

CAPTULO XVI

Quentin pendia inerte da roda da carroa. Tinha o esprito 
toldado pela dor que lhe fazia palpitar todas as extremidades 
do corpo partido. Gemia baixinho, mas sem perceber que estava 
a produzir algum som... s tinha conscincia da latejante e 
insistente agonia.
A roda girara todo o dia por cima de pedras e raizes, ao p e 
dentro de gua. E Quentin, amarrado  roda, fora lentamente 
torturado at  inconscincia. No deu por a roda ter 
finalmente parado, nem pelo pr do Sol, nem pela chegada da 
noite, que acabou com a sua tortura.
Pendendo da roda, soltava gemidos baixos e lamentosos, 
enquanto a escurido se adensava  sua volta.
Entre a confuso ordenada do exrcito de Nin, que levantava o 
acampamento para passar a noite, a lua cheia comeou a 
brilhar no cu e, com ela, a Estrela do Lobo. Sem pestanejar, 
Quentin observava a Lua com olhos que no viam. Alguma parte 
do seu esprito contemplava-a curiosamente, como se fosse um 
animal assustado a espreitar da toca para onde fugira na 
tentativa de escapar aos caadores.
Passado algum tempo, pareceu a Quentin que a Lua se deslocava 
na sua direco, desviando a sua rota no cu preto para se 
aproximar cada vez mais. Via-a serpenteando sobre si, 
brilhando com uma luz suave. Tinha dois olhos escuros que o 
fitavam com um ar estranho. Apetecia-lhe estender o brao e 
pousar a mo na sua superficie macia e luminosa, mas os 
membros no lhe obedeciam. Depois, a Lua desapareceu.
Passados anos (ou seriam apenas uns momentos?), Quentin 
sentiu

128

qualquer coisa fresca na testa. Abrindo os olhos, viu que a 
Lua regressara. Estava a olhar para ele e a murmurar-lhe 
qualquer coisa, mas, embora as palavras lhe zumbissem 
suavemente aos ouvidos, no conseguia ouvi-las. Fez um 
esforo para levantar a cabea e falar, mas faltaram-lhe as 
foras. Por isso, deixou que a Lua o confortasse com a sua 
frescura.
- Kenta, ests a ouvir? Sou o Tol. Kenta...
Quentin pestanejou e, com o olhar bao. perscrutou o rosto 
redondo e brilhante da Lua. Abriu a boca para falar, mas 
tinha-se esquecido de como se articulavam as palavras.
-No tentes falar. Ouve. Vim libertar-te. Kenta, ests a 
ouvir?
Quentin gemeu. Porque era aquela lua to persistente? O que 
queria? A ele, s lhe apetecia deslizar outra vez para o 
suave vazio da inconscincia.
- Tens aqui gua. - Sentiu qualquer coisa contra os lbios e 
um lquido fresco escorreu-lhe suavemente para dentro da 
boca. Engoliu debilmente uma e outra vez. - Bebe devagar - 
sussurraram-lhe.
Depois, Quentin sentiu que lhe tocavam na mo, mas, embora o 
sentisse, parecia-lhe que esta estava muito longe e j no 
fazia parte dele. Quando a mo se soltou, caiu-lhe inerte e 
sem vida ao longo do corpo. A seguir, a Lua inclinou-se e 
cortou as cordas que lhe amarravam os ps. Depois, a outra 
mo soltou-se, e ele caiu de joelhos para a frente, indo 
esbarrar nos slidos braos da Lua, que lhe sussurrou ao 
ouvido:
- Consegues mexer-te?
Quentin no respondeu. Sentiu-se docemente pousado no cho e, 
depois, foi meio levantado, meio arrastado para debaixo da 
carroa. Levantaram-lhe a cabea, e o lquido fresco 
escorreu-lhe pela boca. Depois, deitaram-no novamente. Toli 
comeou a esfregar-lhe os membros dilacerados, tentando 
traz-los  vida, e ele mergulhou outra vez na paz da 
inconscincia.
- Kenta, acorda. - A voz era apenas um sussurro. Uma 
respirao quente fazia-lhe ccegas no ouvido. - Temos de ir.
- Toli? - perguntou Quentin num queixume indistinto.
- Chiu! Mais baixinho. Estou aqui. Graas ao deus, ests 
vivo. Pensei que te tinha perdido.

129

- O que aconteceu? Ooohh... - O seu ombro recomeara a 
latejar, e a dor e o frio da noite despertaram-no um pouco. - 
Onde... onde estou?
- Agora no h tempo, Kenta. Daqui a pouco  manh. Temos de 
nos ir embora. Consegues mexer-te?
- Eu... no sei. Acho que no.
- Tens de tentar. Anda, eu ajudo-te. - Com todo o cuidado, 
Toli sentou o seu amo. mas at este pequeno esforo provocou 
negras ondas de tonturas em Quentin, que, sem conseguir 
controlar-se, tornou a gemer.
- Parece-me que tens o brao direito partido, Kenta. Aperta-o 
de lado e tenta no o mexer.
- No sinto nada. Mas o meu ombro... ahh! - Toli enfiara as 
mos por baixo do brao de Quentin, para o arrastar de 
debaixo da carroa.
- Os soldados esto a dormir, mas h sentinelas a toda a 
volta do acampamento. Como no esperam nada esta noite, esto 
despreocupadas.  a nossa oportunidade. Consegues pr-te de 
p?
- Eu... - Com a ajuda de Toli, conseguiu levantar-se e ficou 
a balanar hesitantemente. A dor cortou-lhe a respirao.
- Eu seguro-te. mas temos de ir. - Toli guiou-o nos seus 
primeiros passos vacilantes. Indefeso, Quentin tropeava para 
a frente, tentando que as pernas se mexessem em harmonia. Mas 
o esforo foi em vo: caiu a poucos passos de onde sara.
- Muito bem - grunhiu Toli. - Vamos tentar outra vez. 
Encosta-te a mim. - Tornando a pr Quentin em p, recomearam 
a caminhar.
Quentin tentou levantar a cabea, mas, com o esforo, argolas 
de dor atravessaram-lhe o crebro. Por isso, deixou-a a 
oscilar no peito, enquanto Toli o empurrava. O cho parecia-
lhe esquisito, como se a cada passo lhe fugisse debaixo dos 
ps. As suas pernas embaraavam-se constantemente, fazendo-o 
tropear; no entanto, sem parar, Toli conseguia sempre p-las 
direitas.
- Ali  frente h um barranco... mais ou menos a cinquenta 
passos. Podemos esconder-nos l e descansar um bocado. Mas 
temos de estar o mais longe possvel antes de o dia nascer.

130

Cambaleando. foram avanando pela escurido fora, enquanto 
Toli, com os seus olhos de noitib, atentava ao mnimo sinal 
de terem sido descobertos. Estavam a afastar-se do 
acampamento, as carroas encontravam-se entre eles e os 
amontoados de soldados inimigos adormecidos. Mas,  frente. 
situava-se o crculo de sentinelas nos seus postos.
O barranco, pouco mais do que uma depresso coberta de ervas 
cavada no solo. abriu-se  sua frente. Quentin deixou-se 
deslizar e deitou-se de costas para baixo, ofegante. Doa-lhe 
a cabea e nos olhos formigavam-lhe formas escuras como asas 
de corvos.
- Ouve - disse Toli. rastejando at  orla do barranco e 
olhando na direco das carroas. - Parece-me que deram pela 
nossa fuga. Est algum a andar  volta da carroa. Temos de 
sair daqui depressa.
Toli levantou Quentin e, to agachados quanto era possvel, 
voltaram a avanar cambaleando.
Quentin esforava-se por se manter direito e por pr um p a 
frente do outro. e Toli tinha a responsabilidade de o fazer 
andar. Era o mximo que Quentin podia fazer, alm de no 
gritar de dor sempre que o seu ombro era sacudido.
- H ali umas rvores. Se conseguirmos l chegar, talvez 
possamos descansar mais um bocado.
Quando Toli acabou de falar, ouviram um grito e o matraquear 
de homens armados correndo.
--J sabem! - gritou Toli, avanando mais depressa.
As rvores erguiam-se como uma massa preta lanada contra o 
cu preto. A Lua j se pusera h muito tempo- Toli escolhera 
a hora mais escura da noite para a sua fuga. Quentin tropeou 
duas vezes, estatelando-se ao comprido no cho, sem que Toli 
o pudesse evitar. E. embora a agonia o cegasse, Quentin 
voltou a levantar-se corajosamente das duas vezes.
Acabaram por chegar s rvores. Toli empurrou Quentin para o 
lado de um tronco disforme e deixou-o l, segurando o brao 
com a mo boa. Embora fizesse frio, Quentin estava alagado em 
suor, cujo sabor salgado lhe chegava aos lbios. Quando via 
as asas negras esvoaando mais perto, lutava para permanecer 
consciente. Sentia que no tinha um nico osso que no 
tivesse sido torcido e deslocado.
Toli regressou logo para o seu lado.

131

- Andam  nossa procura. Sabem que fugiste. Ainda no viraram 
a ateno para as rvores. mas  s uma questo de tempo. Vo 
encontrar o barranco e depois seguem-no, como ns fizemos. 
No podemos ficar aqui.
Quentin arquejou e assentiu. As tmporas palpitavam-lhe com a 
dor. que o penetrava cada vez mais profundamente. Sentia que 
as foras lhe fugiam. Com Toli ao lado, recomeou a andar, 
mas s cegas, pois. entre o suor que lhe escorria para os 
olhos e a escurido do bosque, no conseguia ver nada.
Naquele momento. j se viam tochas bruxuleando na paisagem. 
Os soldados procuravam-nos em grupos de trs ou mais, 
espalhando-se por todo o lado. Dali a pouco, continuando a 
esquivar-se e a avanar hesitantemente pelo meio das rvores, 
Quentin ouviu as suas vozes ecoando atrs de si. De uma vez, 
pareceu-lhe ver o claro de uma tocha  sua direita, movendo-
se a par deles. As vozes dos perseguidores, excitados pela 
caada, soavam mais perto.
- Tenho um cavalo  espera ali em baixo - disse Toli.
Quentin percebeu vagamente que se encontravam no cimo de um 
outeiro, cuja encosta estava revestida de espinheiros. Ainda 
antes de conseguir falar, Toli f-lo mergulhar nas silvas da 
ladeira, sem querer saber dos espinhos que lhes rasgavam a 
carne. Quentin foi avanando e, com Toli sempre ao lado, j 
quase tinha chegado ao fundo quando o seu p bateu numa raiz 
e ele tombou pela encosta abaixo de cabea para a frente. Sem 
poder amparar a queda com as mos, caiu em cheio no cho e 
ouviu um estalido, ao mesmo tempo que sentia qualquer coisa 
ceder no seu ombro magoado. Punhais de dor esfaquearam a 
ferida e ele no conseguiu reprimir um grito de espanto, que 
lhe rasgou a garganta.
Toli passou a correr por ele. Sentindo um movimento mesmo  
sua frente, Quentin percebeu que aterrara quase debaixo do 
cavalo que Toli conseguira arranjar e esconder para a sua 
fuga. Depois, sentiu as mos fortes de Toli abanando-o, 
pondo-o outra vez de p e empurrando-o para a sela, onde 
ficou como um saco de cevada, com a cabea para um lado e os 
ps para o outro. Toli montou logo atrs dele, segurando-o 
com uma mo e agitando as rdeas com a outra.
O cavalo deu um salto e Quentin via a terra girar de lado, 
num

132

caos de formas confusas: ramos, pedras, cu e cho. Viu uma 
luz e depois outra. Ouviu um grito muito prximo e a resposta 
mais afastada. Rangia os dentes, agarrando-se  sela, 
indefeso. Depois, foram cercados pelos berros do inimigo. Uma 
sombra escura saiu dos espinheiros e precipitou-se para eles. 
Toli chicoteou-a com as rdeas. De repente, a pequena mata 
ficou iluminada com as tochas. Toli sacudiu as rdeas com 
fora e virou o cavalo para a encosta, mas esta era 
demasadamente ngreme para o assustado animal, O cavalo 
debateu-se, escorregou, tentou agarrar o ar e caiu para trs, 
agitando furiosamente as patas.
Quentn foi atirado ao cho e Toli caiu-lhe em cima. Num 
abrir e fechar de olhos, foram cercados e feitos prisioneiros 
pelos soldados. Quentin viu o claro de uma tocha e um 
terrvel rosto mal-humorado, que o fitava ironicamente; 
depois, foi agarrado por umas mos pretas, que comearam a 
arrast-lo. Ouviu uma voz gritando de desespero, e percebeu 
que era a sua, mas no conseguiu distinguir as palavras.
Rodou a cabea para ver o que acontecera a Toli, mas s deu 
com os olhos nas tochas que se agitavam atrs de si. "Como os 
ties so brilhantes", pensou. Faziam-lhe doer os olhos. 
"Corre, foge!", disse-lhe outra voz. desta vez dentro da sua 
cabea. Sim. tinha de fugir. Se ao menos o soltassem, 
correria, correria e no deixaria de correr at estar bem 
longe.
"Para onde me levaro?", pensou. "O que me vai acontecer?" As 
perguntas formavam-se no seu esprito, mas no lhe chegava 
qualquer resposta. Muito bem, no interessava. j nada 
interessava. Deixara de sentir fosse o que fosse. Entorpecido 
pela dor, comeou a ter uma viso alucinatria.
Houve um bater de asas negras e, de repente, Quentin estava a 
voar, a cair, a rebolar, a flutuar bem acima da terra. 
Quentin olhou para baixo e viu uma estranha procisso de 
pessoas com tochas marchando por um vale arborizado, 
transportando os corpos de dois infelizes. Quem seriam? 
Quentin teve pena deles. Cheio de tristeza, desviou o olhar e 
viu a escurido da noite avanando sobre ele.
Foi como se um vu de seda lhe tivesse passado em frente dos 
olhos, no o deixando ver mais nada. Quentin deixou-o tocar-
lhe e envolv-lo no seu abrao escuro. Depois, sentu-se 
abandonado pelos ltimos fios de fora e de vontade e perdeu 
os sentidos.

CAPTULO XVII

Os tocos das velas ainda bruxuleavam nos seus suportes altos: 
algumas tinham ardido todas e a cmara interior dos ancies 
cheirava a cera quente e a sebo. Os ancies estavam sentados, 
imveis como pedras, inclinados para a frente, de cabea 
baixa e mos enclavinhadas uma na outra. Se no fosse a sua 
respirao ritmada, o silncio seria total.
A noite j ia a meio e continuavam sentados.  espera.  
escuta.  procura, dentro de si prprios, de uma resposta 
para o sonho de Yseph... um sonho muito perturbador.
A dada altura, a espera acabou, finalmente, quando Clemore 
ergueu as mos e comeou a cantar:
- Peran nim Panrai, ilgelle des onus "st Orren. Entona 
blesor! amatlI kor des voel belforas. - Cantava na lngua 
antiga dos Ariga. Rei dos reis, cujo nome  Altssimo, o teu 
servo adorar o teu nome para sempre.
Os outros trs levantaram lentamente a cabea e fitaram 
Clemore. que tinha os olhos fechados e as mos erguidas de 
cada lado do rosto.
- Fala, ancio Clemore. Diz-nos o que te foi revelado - 
incitou Patur em voz baixa. Os outros assentiram e 
encostaram-se ao espaldar alto das cadeiras de madeira: a 
viglia chegara ao fim. De olhos ainda fechados, Clemore 
comeou a falar:
- O rio  a Verdade e a gua a Paz. E o rio atravessa a 
terra., dando vida a quem o procura, pois a Verdade  a vida.
"Mas o turbilho da guerra desce sobre ele, e o seu mal 
profana a

134

gua. A Verdade  envenenada e sufocada pela mentira. Quando 
a Verdade perece e a Paz murcha, a terra morre. E os ventos 
da guerra sopram sobre a terra, enchendo o cu de nuvens de 
morte, que so o p. Depois, as trevas... o Mal cobre tudo, 
tapando a luz do Bem.
"O menino que chora na escurido  um Filho da Luz que perdeu 
o seu pai, a rectido. A espada do seu pai  o conhecimento 
da Verdade, que foi destruido.
"Mas ficaram alguns que no se entregaram  morte e s trevas 
e que ainda se lembram do Rio, da gua e da Terra Viva. So o 
homem que chora. As lgrimas so as oraes dos Sagrados. que 
lamentam a vinda do Mal.
"As oraes so esvaziadas e transformam-se numa Espada de 
Luz, que  a F. A Espada lana clares contra a escurido do 
_Mal porque nela vive o Esprito do Altssimo. A Espada vai 
ser dada ao -Menino, mas. infelizmente, este foi dominado e 
levado pela Noite.
Quando Clemore acabou de narrar o sonho  sua maneira, 
comearam todos a falar ao mesmo tempo, concordando com a sua 
interpretao, mas a voz de Yeseph ergueu-se acima das 
outras:
- Irmos' No devemos esquecer-nos de que os sonhos podem ter 
vrios significados, todos eles verdadeiros. No ponho em 
dvida que a interpretao que acabmos de ouvir , 
verdadeiramente. do Altssimo. Mas h uma coisa que me 
preocupa.
- O que ? - perguntou jollen, que abriu a mo na direco de 
Yeseph, convidando-o a falar  vontade. - Afinal de contas, 
foste tu que tiveste o sonho.
- Sinto que h um perigo mais presente ainda por revelar.
- O sonho  terrvel - retorquiu Parur.
- E a sua interpretao um aviso muito claro - acrescentou 
Clemore.
- Sim. um aviso do que est para vir - disse Yeseph 
lentamente
mas tambm um reflexo do que est a acontecer neste momento.
- Tens razo, Yeseph. Tambm penso assim. - jollen inclnou-
se e bateu-lhe no brao. - A interpretao foi-nos dada para 
podermos preparar-nos para o que vai acontecer. O sonho foi-
nos dado para sabermos que se abateu um perigo sobre ns.
Clemore assentiu gravemente e Patur puxou a barba grisalha.

135

- O que te diz o corao, Yeseph? O que devemos fazer? - 
perguntou Patur.
- No sei bem. Mas sinto-me muito atormentado. E a minha 
aflio tem vindo a aumentar durante toda a noite. - Lanou 
um olhar aos outros. - Sinto que devemos rezar pelo Filho da 
Luz, que mandamos para fora do nosso seio.
- Quem  ele. Yeseph? - perguntou Clemore.
- O quentin.
- O quentin? Mas ele est em Askelon.
- O quentin, sim... e o Toli tambm. Sinto que esto numa 
situao desesperada.
- Ento - replicou Jollen -, para o sonho ter um fim. pode 
ser que as nossas oraes sejam muito necessrias neste 
momento. - Virando-se para os outros: - Tambm fiquei 
perturbado com o sonho do Yeseph, que no sugere nenhum fim, 
o que significa que este ainda est em dvida. Portanto, 
temos de unir os nossos espritos e os do nosso povo para 
conseguirmos o fim que o Altssimo nos vai mostrar.
- Fao minhas as tuas palavras - disse Yeseph.
- Ento, no percamos mais tempo. As nossas oraes tm de 
comear imediatamente. - Jollen levantou a mo e fechou os 
olhos. Os outros seguiram-lhe o exemplo.
Dali a pouco, a cmara do templo estava cheia do murmrio das 
oraes dos ancies, que subiam ao trono de V-bist Orren. 
Fora do templo, para leste, a luz prateada da madrugada 
comeava a tingir a cortina cinzenta da noite.

Com a madrugada, veio um frio lgubre. Embora o cu parecesse 
bastante claro, o horizonte mostrava um tom de vermelho feio, 
bao e carregado. O vento mudara com a chegada da manh; 
Toli, que estava amarrado ao lado do seu amo, reparara nisso. 
Quentin quase no respirava. O fio que o prendia  vida era 
muito tnue. Antes de o dia nascer, Toli tivera de encostar 
muitas vezes o ouvido ao peito de Quentin, para se certificar 
de que ainda estava vivo.
No acampamento, os soldados andavam atarefados, preparando-se 
para a marcha do dia. Toli, a cujos olhos no escapava nada, 
tinha o pressentimento de que ele e Quentin no iriam com os 
outros, pois

136

vira um grupo de soldados s voltas com cordas e correias, e 
os trs guardas que se encontravam ali naquele momento riam-
se e apontavam para eles. Toli sabia que a sua execuo 
estava a ser preparada.
As fogueiras lanavam fumo branco, que flutuava pelo 
acampamento. A guarda dos prisioneiros foi mudada, para os 
que tinham estado de vigia durante a noite poderem comer. 
Toli suspeitou que, quando todos tivessem acabado de comer e 
estivessem prontos, se reuniriam para assistir  execuo, 
que constituiria uma espcie de diverso, uma lembrana que 
os entreteria ao longo do dia de marcha.
Toli passou os ltimos momentos da sua vida rezando pelo amo, 
que no podia orar por si prprio.
Foi arrancado da sua meditao com um pontap brutal nas 
costas. A pancada f-lo rolar sobre si prprio. Tol olhou 
para cima e viu o rosto cheio de dio de um gigante, 
empunhando um machado de batalha com a lmina da largura da 
cintura de um homem.
O gigante, que tinha o rosto todo costurado com cicatrizes 
que se entrecruzavam, apontou para os cativos e grunhiu. Os 
guardas agarraram-nos e arrastaram-nos para o prado onde o 
exrcito tinha acampado, abrindo caminho atravs de um 
amontoado de soldados, que formava um slido muro em volta de 
um objecto que lhes prendia a ateno.
Toli e Quentin foram empurrados pelo meio da multido e 
atirados para dentro de uma roda larga, formada pelos escudos 
dos soldados. No meio da roda encontravam-se dois cavalos, um 
virado para leste e o outro para oeste. Entre os cavalos 
estava um emaranhado de cordas e dois objectos pesados, 
parecidos com cangas. Do outro lado da roda, via-se o corcel 
preto do comandante, sacudindo a cabea e abanando o brao do 
soldado que o segurava pelo freio.
De repente, houve uma agitao nas fileiras que ocupavam o 
permetro da roda, que se abriu, formando uma larga avenida, 
por onde Toli viu chegar um homem com uma couraa de bronze e 
um elmo tambm de bronze, com duas grandes plumas fixas em 
cima, como asas. Tinha uma capa presa a um ombro, e viam-se 
os contornos da fina lmina da espada cruelmente curva que 
trazia por baixo. Toli no teve dvidas de que estava a ver o 
comandante.
Aproximando-se do seu corcel, o guerreiro parou 
momentaneamente,

137

enquanto dois dos seus homens se atiravam para a frente e se 
lanavam aos seus ps. Um deles deitou-se no cho, o outro 
ps-se de gatas e o comandante subiu para a sela, pisando o 
corpo dos seus homens. Depois, fez um sinal, levantando a 
mo. Tremendo todo por dentro, Toli engoliu em seco e lanou 
um ltimo olhar a Quentin, que jazia inconsciente.
- Continua a dormir, Kenta, e no tenhas medo - sussurrou 
para si prprio. - Eu vou antes de ti.
Mas no ia ser assim. A um sinal do comandante, dois soldados 
avanaram. Um deles transportava uma cabaa cheia de gua. 
Sem qualquer tipo de delicadeza, viraram Quentin, fazendo-o 
rolar e provocando-lhe um queixume. Toli debateu-se, tentando 
libertar-se, mas um soldado que estava atrs dele deu-lhe uma 
pancada na cabea.
O soldado que tinha a cabaa ajoelhou-se, debruou-se em cima 
de Quentin, encostou-lhe o recipiente ao nariz e comeou a 
esvazi-lo.
- Ele assim vai morrer! - berrou Toli, recebendo outra 
pancada na cabea, virando-se contra o soldado e levando um 
pontap nas costelas.
Quentin tossiu violentamente e engasgou-se. A gua esguichou-
lhe da boca e do nariz e ele acordou, cuspindo. As plpebras 
tremeram-lhe e, virando os olhos turvos para Toli, ajoelhado 
ao seu lado, arquejou:
- Meu amigo... lamento muito.
Parecia que Quentin sabia o que ia acontecer.
Os prisioneiros foram obrigados a levantar-se, aos safanes; 
Quentin manteve-se de p no meio de dois soldados mal-
encarados, um dos quais lhe agarrou numa mo-cheia de cabelo, 
para que a sua cabea ficasse direita.
O comandante fez um segundo sinal, e houve uma sbita 
agitao atrs dos dois cativos. Um terceiro prisioneiro foi 
atirado para a roda. Tratava-se de um soldado que, tal como 
Quentin e Toli. tinha as mos e os ps amarrados.
- Uma das sentinelas de ontem  noite - murmurou Toli, 
suspeitando de que o comandante faria dele a primeira vtima.
O rosto do homem, que tremia como varas verdes, estava 
cinzento. O suor empapava-lhe o cabelo e escorria-lhe pelo 
rosto, que no passava de uma hedionda massa de verges 
arroxeados, pois o homem j

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fora muito espancado. O infeliz soldado foi rapidamente 
puxado e levantado por dois outros guardas, que. depois, o 
despiram, cortando-lhe as roupas com as facas. Os que estavam 
a assistir ao espectculo desataram a rir-se.
O miservel foi obrigado a ir at ao meio da roda, onde o 
gigante com o machado o esperava entre os dois cavalos. 
Empurraram-no para o cho e, enquanto se contorcia 
angustiadamente, amarraram-lhe os braos e as pernas s 
pesadas cangas de madeira. Ento. a um sinal, os dois 
cavalos, acorrentados s cangas, foram afastados lentamente, 
em direces opostas.
As cordas retesaram-se. O gigante ps-se em posio sobre a 
sua presa. A vtima foi levantada do cho e ficou suspensa em 
agonia, enquanto o seu corpo ia esticando lentamente. Os 
cavalos inclinavam-se para a frente e o homem gritava 
terrivelmente. Quando cediam, as articulaes e os ligamentos 
produziam um som horrvel, que enchia a roda. Quando a vtima 
lanou o seu ltimo grito, o gigante, rpido como um 
relmpago, fez girar o machado num crculo de luz em volta da 
cabea e, com um golpe poderosssimo, baixou a mo.
O saco do golpe quase derrubou os cavalos, que, quando as 
cordas ficaram frouxas de repente, tiveram de se apoiar nos 
joelhos. O pobre miservel ficou perfeitamente cortado ao 
meio. Entretanto, as hostes aclamavam selvaticamente, batendo 
com as armas e soltando vivas.
Toli lanou um olhar temeroso a Quentin, que observava o 
horrvel espectculo com um olhar vazio. Embora os olhos do 
seu amo estivessem abertos, Toli no sabia se tinham visto a 
cena que acabava de se desenrolar, pois o ar de Quentin era 
vago e ausente.
O comandante mandou tirar o cadver das cangas e atravessou a 
roda com o seu corcel, dirigindo-se para o local onde Toli e 
Quentin esperavam. Toli apertou os dentes com fora e olhou 
teimosamente em frente. Por um momento, o guerreiro baixou 
para os prisioneiros um olhar furibundo. Depois, disse 
qualquer coisa numa lngua ininteligvel. Toli ergueu o rosto 
desafiador e, por um breve instante, os seus olhares 
cruzaram-se. Ento, o outro pegou nas rdeas e chicoteou 
Toli, vergastando-o no rosto uma, duas, trs vezes...
O sangue esguichou de um lenho por cima do olho e escorreu-
lhe pelo rosto. O comandante berrou-lhe qualquer coisa e 
lanou um rpido

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olhar a Quentin, que parecia ainda no saber o que estava a 
acontecer  sua volta. Depois. o chefe dos soldados virou a 
montada e voltou a trote para o meio da roda.
Ento, percorreu lentamente com o olhar todo o crculo de 
rostos do seu exrcito e proferiu um curto discurso, que. a 
julgar pelas expresses sombrias que estes, subitamente, 
adquiriram, Toli achou ser uma repreenso. Quando acabou, fez 
um sinal de cabea, e alguns soldados comearam a reajustar 
as cangas e as correias. Toli pensou que chegara o seu ltimo 
momento. Fechando os olhos, pediu aos cus fora e dignidade 
para enfrentar a provao que o esperava.
Do outro lado da roda. soou uma trombeta. Toli abriu os olhos 
e contemplou os montes e as rvores. decidido a que a sua 
ltima recordao no fosse a do seu carrasco nem a do 
grotesco cadver que jazia cortado ao meio ao lado da cruel 
lmina. Sentiu uma pontada de dor por no ir poder confortar 
o seu amo no seu ltimo momento nem sequer despedir-se dele 
condignamente, mas, de qualquer forma, duvidava de que 
Quentin o ouvisse ou o compreendesse.
Os soldados que tinha ao lado apertaram-no mais e arrastaram-
no para a frente. O corao comeou a bater-lhe loucamente no 
peito e a sua viso tornou-se, de repente, extremamente 
apurada. Viu todas as ervinhas que tinha aos ps, e todas as 
folhas de todos os ramos das rvores destacaram-se com uma 
nitidez impressionante.
O tempo pareceu avolumar-se. expandindo-se para dimenses 
incomensurveis. Caminhava passo a passo, maravilhosamente 
consciente de cada momento que passava, agarrando-o, 
saboreando-o. Ora levantava um p. para dar um passo, que 
demorava tanto tempo!, ora era o outro que estava no ar. 
Ainda faltavam cerca de vinte passos at ao homem do machado, 
e cada um parecia durar uma eternidade.
Estava consciente do ar que lhe enchia os pulmes, do seu 
sabor e da sua frescura. Ao sentir o sol na nuca, pensou que, 
se tentasse conseguiria contar cada raio que o tocava. Como 
era estranho que todos os nervos e fibras do seu ser 
estivessem to vivos e to prximos da morte!
Mas foi atingido por um pensamento horrvel. Dado estar to 
desperto, seria capaz de ver a lmina do carrasco brilhando 
no ar ao descrever o seu arco indolente. Conseguiria sentir 
esticar cada fibra dos seus msculos. sentiria os ossos 
arrancados das articulaes, ouviria o

140


estalido da sua prpria coluna vertebral. No mais hediondo 
dos momentos, j com um comprimento muito maior do que o 
normal, veria a cruel lmina mordendo-lhe a carne e separando 
os ossos dos msculos. Ver-se-ia a si prprio cortado ao meio 
e sentiria os seus rgos esguichando terrivelmente.
Conheceria a sua morte no seu aspecto mais horrvel. No 
morreria instantaneamente, como pareceria aos que estivessem 
a observar o espectculo. Morreria com uma lentido 
torturante. Gradualmente. Aflitivamente pouco a pouco.

CAPTULO XVIII

- H semanas que no tendes o excelente aspecto desta manh, 
senhor. - Durwin vira o rei do outro lado do jardim e, antes 
de se aproximar, ficara a observ-lo por alguns momentos. 
Eskevar estava tranquilamente sentado num banquinho de pedra, 
no meio de uma exploso de cor das flores de todos os tons e 
formas possveis. Todas as plantas e arbustos dos cantos mais 
remotos do reino tinham um lugar no jardim do Rei Drago.
Quando o rei levantou a cabea e viu o seu fsico, que se 
aproximava, as sombras desapareceram-lhe do rosto.
- Graas aos tratamentos do meu bom eremita, acho que ainda 
vou incomodar este mundo com a minha existncia.
Durwin lanou a Eskevar um olhar circunspecto.
- Dizeis isso de uma forma muito estranha, senhor. julguei 
que ficareis contente por estardes melhor e afastareis de 
vs as tristezas.
- Ento conheces-me mal. No posso alegrar-me quando os 
rneus... os meus homens, por ordem minha, ainda no esto 
aqui.
- Mas  o Meio do Vero! - disse Durwin, com uma alegria um 
pouco forada. Tambm ele se sentia inquieto por Quentin, 
Toli e os outros estarem fora h tanto tempo. - No me 
admirava nada que estivessem a desfrutar a hospitalidade de 
uma daquelas alegres pvoas martimas.
Eskevar abanou a cabea com gravidade.
- Fazes tudo para me animar, Durwin. Agradeo-te muito a 
tentativa, mas no consegues nada. Sei que se passa qualquer 
coisa em Mensandor, que no vai nada bem.

142

Durwin aproximou-se mais do monarca e pousou-lhe uma mo no 
ombro. O rei fitou os olhos do eremita e sorriu tristemente.
- Senhor, eu tambm sinto um grande medo a rastejar pela 
terra. s vezes, o meu corao comea a palpitar 
inesperadamente ou sinto-me percorrido por um arrepio quando 
estou sentado no quarto.  frente da lareira, e sei que h 
qualquer coisa a solta na terra que no ama a paz. Creio que, 
muito em breve. teremos de enfrentar um inimigo odioso.
"Mas tambm sei que a luz do deus nos ilumina e que no h 
trevas que possam extingui-la.
- Quem me dera ter f para acreditar no teu deus. 
Infelizmente, conheo a religio bem de mais para acreditar. 
- Eskevar suspirou e ps-se lentamente em p. Durwin estendeu 
a mo e ajudou-o a manter-se direito.
Durante muito tempo, os dois velhos amigos passearam em 
silncio, lado a lado, pelos carreiros do jardim. Durwin 
tinha a mo por baixo do brao do rei.
- Creio que no conseguiria sobreviver a outra campanha, a 
outra guerra - disse Eskevar, depois de terem percorrido todo 
o jardim no sentido do comprimento e da largura.
- Estais cansado, senhor. Estivestes muito doente. No 
deixeis que esses pensamentos vos preocupem. Garanto-vos que 
vos sentireis diferente quando tiverdes recuperado a fora.
- Talvez. - O rei voltou a ficar silencioso.
O sol brilhava alegremente. e todo o jardim parecia gritar 
com a exuberncia da vida. A gua de uma fonte corria num 
recanto sombrio, perto de um muro coberto de campainhas 
brancas. Ao passarem por ele, flutuou no ar perfumado uma 
delicada cano. Pararam a escut-la.
- A vossa filha canta to bem, senhor!
- Se no pode fazer mais nada... - O rei riu-se suavemente e 
os seus olhos iluminaram-se. -  mulher e est apaixonada.
Vendo como o seu paciente se animava ao pensar na filha. 
Durwin virou-se e dirigiu os seus passos para a fonte e para 
a jovem vestida de samito branco, que resplandecia como 
umvivo raio de luz.
- Cantas maravilhosamente, senhora - disse Durwin quando se 
aproximaram. Bria, ocupada a entranar uma grinalda de hera 
salpicada de campainhas, levantou a cabea e sorriu.

143

- Pensava-vos srios de mais para dardes ateno s tolices 
de uma jovem - riu-se Bria. A msica encheu o ar e as sombras 
retiraram-se. Lembrando-se, talvez, de uma outra, cujo riso o 
encantava, Eskevar pareceu rejuvenescer. - Vinde para aqui, 
pai. E tu tambm, Durwin. Sentai-vos ao meu lado e dizei-me 
de que tendes estado a falar esta manh.
- Sentar-nos-emos contigo, mas s tu que tens de nos contar 
os teus pensamentos - retorquiu Durwin.
Sentaram-se em bancos de pedra, perto da fonte. Eskevar 
instalou-se ao lado da sua linda filha e no despregou os 
olhos dela. Bria comeou a narrar as trivialidades do seu dia 
e a contar como estava entusiasmada com a aproximao da 
celebrao do Meio do Vero. que se realizaria naquela noite. 
Na sua voz s havia muita alegria e um grande contentamento.
"Como  parecida com a me!", pensou Durwin. "Como  sensata 
e boa! Devia estar com Quentin no pensamento e uma grande 
saudade no corao. ansiando pela sua presena numa altura 
to alegre; no entanto, no deixara escapar nada a no ser a 
maior das satisfaes e das felicidades. Durwin sabia que ela 
o fazia pelo pai.
Passado pouco tempo. Durwin afastou-se silenciosamente, 
deixando o seu paciente nas mos de uma curandeira ainda mais 
hbil do que ele e cuja presena, s por si, j era um 
blsamo.

Ao chegar  estrada, Esme tivera de tomar uma deciso 
difcil. A norte ficava Askelon e a sua meta: a sul, o perigo 
e a probabilidade de voltar a ser capturada. -Mas supunha que 
qualquer ajuda que pudesse arranjar tambm viria do sul. Era 
a direco que os seus protectores, Quentin e Toli, seguiam 
quando a tinham encontrado, pois era de l que esperavam que 
os seus amigos regressassem.
A deciso ocupara-a a maior parte da tarde, desde que deixara 
a vidente. E quando chegara ao trilho,  beira-mar, 
continuara indecisa. O mais provvel era que Quentin e Toli 
estivessem mortos. E era quase certo que os seus amigos, 
fossem eles quem fossem, tinham cado numa emboscada e haviam 
sido mortos. como acontecera aos seus guarda-costas. Afastar-
se naquele momento de Askelon parecia-lhe um gesto ftil: no 
ganhava nada em andar por a a vaguear e a perder tempo.

144

No entanto, as palavras da filha de Orphe martelavam-lhe a 
cabea:

Mas tu fazes isso
E ser assim:
Quando dois forem soltos
A tua misso ter fim.

O que mais poderiam estas palavras querer dizer se no que 
Quentin e Toli (os dois) ainda estavam vivos, mas que no 
permaneceriam assim se ela no fosse libert-los? A acreditar 
na profecia, s cumpriria a sua misso quando os libertasse.
No fazia sentido. "Mas desde quando  que os deuses fazem 
sentido para os mortais?", pensara Esme amargamente.
Por isso, contra toda a lgica, voltara Riv para sul. Com as 
sombras adensando-se e alongando-se ao fim da tarde, tinham 
partido  procura de amigos numa terra pouco amistosa.

A longa noite cheia de frios duradouros transformara-se numa 
manh soturna. O sol vermelho e carregado brilhava sobre a 
linha do horizonte. Esme j estava levantada e a sacudir as 
folhas e o orvalho da capa, quando ouviu o vivo chocalhar de 
cavalos que caminhavam pela estrada. Embora dbil e distante, 
era um som que conhecia bem: o de homens armados deslocando-
se depressa e com algum objectivo. As suas armas tiniam a 
cada passo dos cavalos.
Esme deslizou do caramanchel que fora a sua cama naquela 
noite, e que ficava ligeiramente abaixo da estrada, bem 
escondido ao fundo de uma encosta, e subiu at  beira da 
estrada, sondando-a com o olhar. Como no viu ningum e o som 
desapareceu por um momento, pensou se no teria sido 
imaginao sua. Mas, naquelas redondezas cheias de colinas, a 
estrada subia e rodeava os muitos outeiros ali existentes. 
Por isso, dali a pouco voltou a ouvir o mesmo som.
Esme retirou-se novamente para o refgio coberto de folhas, 
onde foi buscar Riv, que conduziu ao longo de um carreiro 
paralelo  estrada. Desceram para um valezinho e voltaram a 
subir at ao cimo de um pequeno outeiro arborizado. Desse 
ponto, Esme poderia observar a estrada que passava mais 
abaixo, sem ter medo de ser vista.

145

Ficou  espera. O carrancudo Sol erguia-se devagar, lanando 
uma luz mal-humorada; o ar estava hmido, frio e bafiento. 
Embora no se visse nem uma nuvem, o cu dava a sensao de 
estar a preparar uma tempestade. Pensando que dias assim no 
pressagiavam nada de bom, Esme esperou no ter nada para 
lamentar quando chegasse a noite.
Na manh parada, ouviu novamente o mesmo tinido, desta vez 
mais perto e distinto. Pondo-se  escuta, pareceu-lhe ouvir o 
bater dos cascos dos cavalos,  medida que o grupo, que no 
era grande, se ia deslocando estrada fora. Depois, Esme viu o 
brilho avermelhado de uma lmina ou elmo em que o sol bateu 
por um breve instante. Por fin, trepidando, surgiram dois 
cavaleiros, seguidos de perto por mais trs.
Embora ainda observasse os seus movimentos durante algum 
tempo, Esme soube imediatamente que no tinha nada a temer 
daqueles homens. Eles no pertenciam  horda destruidora com 
que se defrontara por duas vezes. Para mais, do seu poleiro 
secreto, conseguiu ver, ainda que indistintamente, o braso 
do escudo de um dos cavaleiros, que pendia ao seu lado, no 
flanco do cavalo: o serpenteante drago vermelho do Rei 
Drago.
Quando o grupo de cavaleiros ficou a par do seu esconderijo, 
Esme puxou Riv cautelosamente e apressou-se a descer at  
estrada, para ir ao seu encontro. Vendo-a deslocar-se 
rapidamente na sua direco, um dos cavaleiros disse qualquer 
coisa aos companheiros e saiu a galope, para a interceptar. 
Ao juntar-se a ela, no falou, limitando-se a observ-la 
prudentemente enquanto a conduzia para o local onde os outros 
tinham parado  sua espera.
Quando, por fim, os alcanaram, houve um momento de silncio. 
Os dois cavaleiros da frente entreolharam-se brevemente. Era 
bvio que no sabiam o que pensar de uma dama que cavalgava 
sozinha pelos montes.
- Chamo-me Ronsard. Sou o comandante-chefe de Mensandor. 
Estou s vossas ordens, senhora. - Tratava-se do cavaleiro 
cujo braso Esnie reconhecera.
A rapariga falou sem hesitar:
- Chamo-me Esme... - comeou. Mas foi interrompida pelo 
segundo cavaleiro, um homem escuro que lhe parecia vagamente 
conhecido.

146

- Eu conheci uma Esme que, na altura, no passava de um 
projecto de rapariga e que era tmida como um veado jovem.
-  um nome muito vulgar - retorquiu ela, na defensiva. Quem 
seria aquele homem? Tinha a certeza de que j o vira.
-  verdade. A Esme que conheci vivia em Elsendor e nunca 
gostou de cavalos, mas vejo que deveis gostar para montardes 
assim. Um sorriso dissimulado brincou nos cantos da boca do 
cavaleiro. Estaria a rir-se dela?
- O reino de Elsendor ainda  grande - volveu ela. - 
Lembrais-vos da casa onde vistes a rapariga que tem o meu 
nome?
- Lembro-me. - O cavaleiro riu-se. - Fiquei l muitas vezes, 
gozando de uma hospitalidade real. - Demorou-se na palavra 
"real", acentuando-a muito.
Ronsard passou curiosamente o olhar de um para o outro:
- No faz mal nenhum perdermos o nosso tempo a dar  lngua, 
mas no haver por a alguma piada escondida que esta cabea 
bronca no consegue apreender?
- Senhor, se  uma piada, no  minha - respondeu ela, um 
tanto confusa. - Tenho uma misso importante que, penso, diz 
respeito a amigos vossos.
- Ento, senhora, sugiro que nos digais imediatamente o que 
quereis de ns. Tambm fomos encarregados de uma misso 
importante.
- Ora, ora, Ronsard. No sejas to apressado. Para ti, esta 
dama  uma desconhecida, mas o seu pai no.
- Vs... vs conheceis o meu pai? - Esme observou-o com 
ateno. - As vossas palavras confundem-me, senhor, mas h 
alguma coisa em vs que no me  completamente estranha.
- Sim - disse Ronsard, comeando a ficar impaciente. - Se 
pensas que sabes alguma coisa, diz l o que !
- Muito bem - suspirou Theido. - At pode ser que esteja 
enganado. Se calhar estou mesmo, pois nenhum dos filhos do 
rei Troen deixaria de conhecer aquele a quem chamavam tio.
Os olhos escuros da jovem esbugalharam-se de espanto e ela 
abanou a cabea duvidosamente, agitando a trana esguia que 
tinha na nuca.
- Theido? - Uma alegre expresso de alvio inundou-lhe o 
rosto

147

quando viu o desconhecido escuro atirar a cabea para trs e 
rir s gargalhadas.
Ronsard fez estalar a lngua e rodou os olhos:
- Mas que encontro este!  inacreditvel!
- Pois podes acreditar, Ronsard. Permite-me apresentar-te a 
princesa Esme de Elsendor. Ela pode estar longe de casa, mas 
no est longe dos amigos.
- Theido! Eu tambm no acredito, senhor - disse ela para 
Ronsard. -Juro que ele era o ltimo homem que eu esperava 
encontrar hoje.
- Bem posso dizer o mesmo de ti, Esme. Sabes, Ronsard, passei 
muito tempo com o rei Troen quando o patife do Jaspin se 
apoderou das minhas terras. Fui feito fora-da-lei no meu 
pas, mas a rainha Besmir recolheu-me, embora o seu marido 
andasse na guerra com Eskevar.
- E, no entanto, reconheceste-me? Eu mal me lembro de ti.
- s muito parecida com a tua me e to ousada como o teu 
pai. O nome Esme no  assim to vulgar como nos querias 
fazer acreditar. Quando te vi, percebi logo que eras tu.
Os outros cavaleiros murmuravam, surpreendidos. Virando-se 
para eles, Ronsard perguntou:
- Qual  a admirao, senhores? Sabeis bem que Theido  um 
nome bem conhecido de todas as famlias do reino, sejam elas 
de lavradores ou de prncipes.
Riram-se todos, incluindo Theido, que disse:
- Tenho muitos amigos, e  verdade que h poucos homens em 
Mensandor que nunca ouviram o meu nome, mas isso deve-se mais 
ao meu pai do que a mim.
- Mas o melhor  pormo-nos a caminho. junta-te a ns, 
senhora, e conta-nos a tua misso enquanto andamos. Ns vamos 
para Askelon.
- Por mim, convm-me...
- Parece-me que mencionaste uns amigos nossos, no foi? Que 
notcias tens para nos dar? - O grupo recomeou a jornada.
- Muito ms, senhor. Quem me dera no ser eu a d-las! Se s 
amigo de um tal Quentin e do seu servo e amigo Toli, prepara-
te para o pior. - Esme lanou um olhar temeroso aos seus dois 
companheiros, cujos rostos se carregaram de preocupao ao 
ouvi-la pronunciar aqueles nomes. - Vejo que no me enganei.

148

- Pois no. Conta-nos o que sabes.
- Ns andvamos a vossa procura, senhores, e viajvamos de 
noite. Vimos um incndio... eles disseram que era Illem... e 
corremos a ajudar. Mas encontrmos um inimigo terrvel, e o 
Quentin e o Toli foram apanhados. Eu consegui escapar.
Profundos sulcos apareceram em volta da boca de Theido. 
Ronsard avanou o queixo.
- Agrada-me a vossa sorte - disse este ltimo. - E mais ainda 
a franqueza das vossas palavras.
- O meu pai disse-me muitas vezes que as notcias amargas no 
se adoam na boca e que o melhor  cont-las depressa. Se 
soubesse que as minhasmaneiras vos chocariam, ter-vos-ia 
poupado.
- No, no nos poupeis. Dizei-nos s se ainda podemos ter 
esperanas.
- Ontem pensava que no, mas, por acaso, encontrei uma 
vidente ao p de um lago. E ela deu-me razes para ter 
esperanas e para vos procurar.
- Uma vidente, dizes? - Theido encolheu os ombros. - Bom, 
para a aflio em que estamos, qualquer ajudinha serve. Mas 
no devemos demorar-nos mais. Os meus gracejos j fizeram com 
que nos atrasssemos muito. Vamos na direco de Illem. 
Teremos de esperar para ouvir o resto da tua histria, 
senhora, que deve ser muito interessante.
- Vamos para Illem! - gritou Ronsard para os seus cavaleiros.
Todos sacudiram as rdeas e esporearam os flancos dos 
cavalos, que partiram  desfilada pelas colinas, na direco 
do crculo queimado e enegrecido que outrora fora Illem.

CAPTULO XIX

A luz do crepsculo demorava-se a dourar as rvores. Durwin 
estava de p no grande torreo sobranceiro ao magnfico 
jardim do rei, naquele momento iluminado por mil lanternas. A 
msica dos menestris, uma delicada tapearia de melodia, que 
parecia tecida com as ptalas das flores estivais, flutuava 
sobre todas as coisas.
jovens nervosos escoltavam felizes meninas ao longo das 
veredas do jardim. Crianas brincavam entre os caramanchis e 
o seu riso, lmpido e cristalino, parecia msica tocada. em 
instrumentos de prata. Nobres senhores e finas damas de 
vestidos alegres deslocavam-se graciosamente por entre os 
pavilhes s riscas azuis e amarelas, onde se serviam 
acepipes. Cheirando o perfume das flores, que impregnava o 
ar, Durwin pensou que a celebrao do Meio do Vero no 
castelo de Askelon era uma festa para os sentidos e de uma 
beleza rara.
- Porque ests to triste, bom eremita? - A voz era to leve 
como a brisa que levantava docemente as folhas no jardim. 
Durwin virou-se e fez uma vnia  sua rainha.
- Senhora, os vossos olhos so to apurados como belos - 
suspirou ele.
- O que te preocupa num dia como o de hoje? Estamos na noite 
em que se sonha tudo o que h de bom... e tu bem sabes que, 
s vezes, os sonhos podem tornar-se realidade.
- Ser mesmo assim? s vezes, o bem parece to frgil contra 
o mal, a luz to impotente contra as trevas... - A sua voz 
arrastou-se e o pensamento ficou por acabar.

150

Isso no  do Durwin que eu conheo. Parece mesmo que 
estiveste a aconselhar-te com o rei.
- AI! e estive. O esprito do homem  to instvel, to 
dependente das suas emoes! Um catavento que gira conforme a 
direco dos ventos. - De repente, ru-se, recuperando alguma 
alegria. - Ora, ora Que tolo sou! Para que serve um fsico 
que recusa os seus prprios remdios?
Alinea deu-lhe suavemente o brao e encaminhou-o para os 
grandes degraus que desciam at ao jardim.
- Passeia um pouco comigo, meu bom amigo. Tambm eu preciso 
de ouvir palavras que me consolem. - Uma sombra atravessou-
lhe o rosto gracioso. Durwin sentiu-a como uma pontada.
- Se as palavras podem ajudar-vos, podeis crer que as direi.
- Hoje tenho andado preocupada. A alma pesa-me com uma subtil 
inquietude, que no percebo. No tenho razes para isso. 
Muitas vezes, dou comigo a pensar no Quentin.
- Se pudesse, acalmar-vos-ia, mas sei que as minhas palavras 
no o faro. Tambm eu tenho andado todo o dia a pensar no 
Quentin... e em pouco mais. Quando chegastes ao p de mim, 
embora ainda no o soubesse, estava a pensar outra vez nele e 
no Toli.
- Achas que podem estar numa situao difcil? Parece tolice, 
bem sei...
- De modo nenhum, senhora, de modo nenhum.  natural que o 
Altssimo junte os nossos coraes com os dos nossos entes 
queridos tanto em tempo de aflio como em tempo de alegria. 
Embora sem saber o que  deles, tenho rezado todo o dia.
Gostava de ter o conhecimento do Altssimo que tu possuis, 
para no me sentir to vulnervel s tolices de um corao de 
mulher.
- Mas tendes uma coisa igualmente preciosa: a capacidade de 
acreditar sem necessidade de razes ou de grandes sinais e 
portentos. A vossa f  forte.
- E a tua?
- A minha  forte, mas tem por trs anos de lutas ntimas e 
de esforos vos. Cheguei  minha f por um caminho muito 
serpenteante e rochoso, e no sei o que  melhor. Penso que o 
deus d a cada alma aquilo de que ela necessita, e a 
diferena reside a.

151

- Apesar de tudo, gostava de saber o que aprendeste na tua 
busca. No faz mal saber.
-  verdade, senhora. Tendes razo. De bom grado vos 
ensinarei o pouco que sei. Mas no vos admireis se, no vosso 
corao, j souberdes a verdade. Acontece muitas vezes.
Quando desceram o ltimo degrau e entraram no festivo mundo 
dos folies do Meio do Vero, estavam silenciosos. Alinea 
virou-se e, com toda a seriedade, fitou o rosto largo e 
marcado pelo tempo de Durwin:
- O que podemos fazer pelo Quentin e pelo Toli?
- Nada que no tenha sido j feito: rezar. O que no  pouco.
- Deixa-me ir ter contigo quando a celebrao acabar. 
Rezaremos juntos. Se um s corao pode ter algum efeito, 
ento dois podem acelerar a cura. E a segurana das tuas 
oraes guiar as minhas.
- Como quiserdes, minha rainha. Ficarei  vossa espera.
Precisamente nesse momento, o som das trombetas ribombou do 
torreo que tinham acabado de deixar e eles viraram-se para 
verem os pajens do rei, de compridas trombetas na mo, pondo-
se em sentido. O rei Eskevar debruou-se na balaustrada de 
pedra, observando os festejos.  medida que todos os olhos se 
foram voltando para ele, o silncio caiu lentamente sobre o 
jardim- At as crianas que brincavam ficaram caladas ao 
sentirem que estava para acontecer alguma coisa de 
importante, que, no entanto, era para elas mais uma 
interrupo dos jogos do que uma ocasio solene. Os mais 
velhos entreolharam-se interrogativamente, pois no era 
costume o rei dirigir-se assim aos seus convidados.
todos ficaram  espera de ouvir o que ele tinha a dizer.
- Cidados de Mensandor, meus amigos. No vos afastarei por 
muito tempo dos vossos festejos. Em breve, eu prprio me 
juntarei a vs. Mas quero dizer-vos algumas coisas que tm 
andado no corao do vosso rei.
Houve um murmrio de preocupao, em parte devido a estas 
palavras e em parte por causa do aspecto do rei, a quem o 
vesturio festivo no conseguira disfarar as feies 
macilentas.
- O que vou dizer-vos pode causar-vos alguma preocupao, mas 
quero que saibais que no  minha inteno inquietar-vos nem 
provocar alarmes desnecessrios.
- O que est ele a fazer - sussurrou Durwin.

152

- No sei. - A rainha Alinea abanou a cabea. Uma ruga de 
preocupao apareceu-lhe na testa. - No falou de nada 
comigo.
- Como vosso rei - continuou Eskevar, com uma solenidade que 
desceu sobre o jardim como uma chuva de chumbo - seria muito 
injusto se, sabendo que o reino corre perigo, no avisasse 
imediatamente o meu povo de que a sua segurana est a ser 
ameaada.
Elevou-se um clamor e uma voz gritou:
- Essa piada do Meio do Vero no tem graa nenhuma!
Uma outra disse:
- Deixai o rei falar! Quero ouvi-lo em paz!
- No  nenhuma brincadeira- leais arnigos. O meu corao no 
pode rejubilar quando do outro lado da bela Mensandor se 
renem os cruis e irados ventos da guerra. - Ergueu a mo 
para silenciar o burburinho levantado por esta revelao. - 
Neste momento, os meus generais esto em campo, para me darem 
notcias deste inimigo, de modo a sabermos a sua fora e 
podermos armar-nos contra ele. Pela nossa terra, lutaremos 
contra qualquer inimigo e venceremos!
A voz do rei adquirira um tom declamatrio, que o fazia 
parecer um tanto louco, embora as suas palavras fossem de uma 
grande sanidade. Um silncio pasmado caiu sobre os folies do 
Meio do Vero. Eskevar pareceu voltar a si e percebeu o que 
fizera. A mo tremia-lhe ligeiramente quando disse:
- Agora retomai os festejos, pois podem ser os ltimos que 
teremos durante muitos dias de trevas. - Girando nos 
calcanhares, afstou-se da balaustrada e desapareceu dentro 
do castelo, deixando os convidados a tartamudear de confuso 
e alarme.
- Qual  o significado disto? Oh, Durwin... - Alinea virou-se 
para o eremita com os olhos marejados de lgrimas. - Ele est 
... ?
- No, no. No vos alarmeis. Ele est tanto no seu juzo 
perfeito como eu ou vs... ou talvez ainda mais. O grande 
corao dele sente mais esta terra do que o de qualquer outra 
pessoa.  como se fosse parte dele: quando a terra est 
ferida, ele sente a dor. Mas tenho a certeza de que no estou 
a dizer-vos nada que no saibais j.
- Talvez, mas  bom ouvir outra pessoa diz-lo. H muito 
tempo que sei que ele  incapaz de se divertir quando existe 
alguma infelicidade que pode curar, mas nunca chegou a 
extremos destes.

153

- Rezai para que me engane, senhora, mas pode acontecer que 
muito em breve consideremos o despropositado aviso de Eskevar 
um acto de uma alma corajosa e nobre. julgo que ele sente 
qualquer coisa que ainda no  aparente para ns. E temo que 
no falte muito para partilharmos os seus pressgios.
- D-me licena, Durwin, mas tenho de ir ver se ele precisa 
de alguma coisa. Ele deve estar indignado consigo prprio por 
causa da sua exploso. Vai precisar de uma mo que lhe 
refresque o rosto.
Durwin. fez uma vnia, e a bela Alinea afastou-se 
apressadamente, com um frufru, das saias de seda. Virando-se, 
viu que todos os olhos se tinham voltado para a rainha depois 
do estranho discurso de Eskevar. Durwin fez o sorriso mais 
aberto que pde, levantou as mos e, com a jovialidade que 
foi capaz de arranjar, gritou:
- Amigos, voltemos  nossa celebrao! Pode ser que venham a 
muitos problemas, mas este  um bom dia e  possvel que em 
breve precisemos desta alegria. Por isso, enchamos os nossos 
coraes de felicidade e deixemos as tristezas para amanh!
Durwin fez um floreado com a mo. Como se esperassem a sua 
deixa, os menestris recomearam a tocar e a msica foi 
aumentando de volume at encher o jardim. Sentindo que a 
interrupo das suas brincadeiras acabara, as crianas deram 
largas  sua alegria temporariamente reprimida, fazendo ouvir 
os seus risos em todos os cantos. Dali a pouco, o jardim 
estava transformado num cenrio de alegria e divertimento. 
Aquela nuvem agoirenta passara to rapidamente como fora 
inesperada ao aparecer.

A noite chegou como um sonho. Quentin tinha uma vaga 
lembrana de um dia que parecera estender-se eternamente, sem 
fim. Toli e ele tinham sido atirados para dentro de uma das 
carroas e deixados a pensar no seu destino. No havia um 
nico momento daquele dia interminvel que no o fizesse 
reviver o horror do que sofrera ao nascer do Sol.
A um sinal do chefe dos guerreiros, fora empurrado atravs da 
roda. A meio caminho do sangrento local, vira o carrasco 
afastar-se. Olhara em volta: o comandante caminhava pela 
multido de soldados, que dispersavam; a roda estava a 
desfazer-se. De repente, percebera

154

que o comandante dera ordem para acabar com as execues. Por 
qualquer razo que s mais tarde viria a conhecer, Toli e ele 
haviam sido poupados. No entanto, s ficara aliviado quando 
vira o gigantesco carrasco afastar-se, esfregando a cruel 
lmina do seu machado com uns farrapos de roupa do morto.
Pouco depois de a carroa se ter posto em movimento, com um 
rudo surdo, Quentin mergulhara num sono profundo, 
interrompido apenas pelas persistentes cotoveladas de Toli, 
que insistia para que comesse. De facto, por sorte, tinham 
sido atirados para uma carroa que transportava provises 
tiradas de Illem. Alargando um pouco as cordas, Toli 
conseguira chegar a alguns alimentos, e queria que Quentin 
comesse para poder recuperar uma parte da sua fora e 
preparar-se para o que viesse a seguir.
Depois de uma refeio de gro seco, queijo de cabra e po 
duro, Quentin adormecera novamente e s voltara a mexer-se ao 
pr do Sol do Dia do Meio do Vero.
- Decidiste permanecer ainda algum tempo neste mundo? - 
perguntou-lhe Toli quando abriu os olhos. Estavam sentados 
entre um desordenado amontoado de alimentos,  meia-luz da 
carroa tapada.
- Parmos! - Quentin tentou endireitar-se, mas foi como se 
facas quentes se lhe espetassem no ombro e no brao. Doa-lhe 
o corpo todo. - Au!
- Descansa enquanto podes, Kenta. J parmos h algum tempo. 
Acho que esto a montar o acampamento. Daqui a pouco, vm 
buscar provises.
- O que ser de ns nessa altura? - Olhando para o seu servo, 
sempre expedito, abanou a cabea. - Pensei que estavas morto. 
Devias ter fugido enquanto podias.
O rosto de Toli iluminou-se com um sorriso:
- Bem sabes que era impossvel. No podia fugir sem o meu 
Kenta. Isso  ji'yanasb... impensvel.
- Bem, amanh podemos pagar os dois com as nossas vidas, mas 
ainda bem que ests aqui comigo, Toli. Esme, pelo menos, 
conseguiu escapar.
- Pois foi - retorquiu Toli sem entusiasmo. Quentn sentiu 
que tocara numa ferida aberta.

155

- Pensei... ahh! - Quentin contorceu o rosto numa careta de 
dor.
- Di muito?
- A dor vai e vem. Parece-me que me tiraram os ossos, os 
meteram num saco e os misturaram bem misturadinhos e os 
recolocaram por ordem do que primeiro vinha  mo.
- Quando te vi atado  roda da carroa, tive medo de que 
tivesses morrido. - Tornou a sorrir, e Quentin perguntou-se 
como podia estar to animado numa altura daquelas. - Mas 
estavas mais sensato e cuidadoso do que normalmente. Se no 
fosse o miservel daquele guarda, ter-te-ia soltado e j 
estaramos longe.
- Pagou o seu erro com a vida. - Quentin calou-se, pensando 
no hediondo espectculo que testemunhara e no qual no 
participara por uma unha negra. - Se calhar, era s um aviso 
e ele no tencionava nada matar-nos... pelo menos, por 
enquanto.
- O importante  que agora temos tempo para fugir outra vez. 
Hoje  noite vamos ter uma oportunidade excelente.
- Hoje  noite?
Toli fez que sim com a cabea.
-  o Meio do Vero... vo estar ocupados nas suas folias. As 
sentinelas estaro descontradas e desatentas. Talvez 
tenhamos uma hiptese.
A cabea de Quentin doeu-lhe ao lembrar-se da sua anterior 
tentativa de fuga. Pareceu-lhe recordar-se de qualquer coisa 
relacionada com o Meio do Vero, qualquer coisa que 
despertava nele uma breve sensao de prazer, mas que se 
desvaneceu mal ele se esforou por a agarrar.
- O meio do Vero... Achas que estes.---- no sabia como 
havia de lhes chamar - que estes brbaros tambm o festejam?
- Eu diria que  muito provvel que sim. Os Jher tambm 
celebram o Dia do Longo Sol.  assim com quase todos os 
povos; este no deve ser diferente.
- Quem  esta gente? Porque  que veio para Mensandor?
Antes de poderem meditar melhor no assunto, apareceram dois 
soldados, que puxaram a grade da parte de trs da carroa. Os 
prisioneiros foram sacudidos para fora do ninho e cada um 
deles arrastado para uma roda,  qual foi atado de braos 
estendidos e pernas abertas e amarradas at ao joelho. 
Imobilizados naquela posio, s conseguiam virar a cabea e 
entreolhar-se com um ar indefeso.

156

Depois, os dois guardas foram postar-se ali perto, o que lhes 
permitia vigiarem atentamente os prisioneiros. Sentando-se 
num tronco de madeira, a pouca distncia, ficaram a olhar 
para eles com uma malevolncia fria. Era bvio que nenhum dos 
guardas estava muito contente com aquela tarefa que, 
possivelmente, considerando o que acontecera de manh a um 
deles, era muito arriscada.
Dado que os soldados os vigiavam to de perto, Quentin 
decidiu no fazer quaisquer movimentos para tentar libertar-
se; por isso, ignorou os guardas e tentou compreender a 
intensa actividade que se desenrolava  sua volta.
O exrcito escolhera um prado plano, encimado por um renque 
comprido e baixo de choupos e faias, para acampar. Alguns 
soldados andavam ocupados a arrastar as rvores cadas do 
renque e a lan-las para um grande monte no meio do campo. 
j tinham sido acesas algumas fogueiras para cozinhar, e o 
fumo prateado pairava no ar parado do fim da tarde. Outros 
levavam os cavalos at um regato que ficava fora do ngulo de 
viso. Quentin vislumbrou por duas vezes o comandante, que 
cavalgava pelo acampamento, dirigindo o trabalho dos seus 
homens, e que nem sequer lanou um olhar na direco dos seus 
prisioneiros.
A azfama do acampamento foi diminuindo  medida que o cheiro 
a comida se elevava das fogueiras. Os soldados apertaram-se 
em volta das fogueiras e, a pouco e pouco, formaram grupos 
mais pequenos. Os homens sentaram-se no cho com trinchos de 
madeira e comearam a comer com as mos. Quentin e Tol 
ouviam-nos a estalar os lbios e a lamber ruidosamente as 
escudelas.
Quentin decidiu tentar contar os soldados. Havia vinte 
fogueiras espalhadas pelo prado e, segundo os seus clculos, 
cada uma servia cem homens ou mais. Mas andavam outros por 
ali, tratando dos cavalos, apanhando lenha e cumprindo vrias 
outras tarefas. Sendo assim, os soldados deviam ser, pelo 
menos, dois mil mas, possivelmente, eram muitos mais.
Tambm reparou que o comandante tinha um corpo de segurana 
especial, constitudo por cerca de cinquenta homens, todos 
ocupados perto da sua tenda circular e em forma de cpula. 
Estes soldados comiam  parte e no faziam nenhuma das 
tarefas inferiores dos outros.

157

Precisamente quando Quentin observava a tenda, saiu da sua 
abertura em forma de tnel um homem que se dirigiu para eles. 
Mesmo  distncia, Quentin pde ver que ele tinha qualquer 
coisa de diferente: era vagamente distinto dos outros 
soldados que apinhavam o largo campo. Havia alguma coisa no 
seu porte e na sua aparncia que o fazia sobressair.
O homem, alto e envergando uma tnica larga de um azul muito 
escuro ornamentada com correntes de ouro, usava um invulgar 
chapu mole e liso, de um tipo que Quentin nunca vira. Por 
baixo do chapu aparecia um rosto orlado por uma barba curta 
e spera. A barba era escura como breu, no que contrastava 
nitidamente com as suas feies claras e at um tanto 
amareladas. Com passos largos, dirigiu-se decidida e 
directamente  carroa,  frente da qual parou de mos nas 
ancas, fitando os prisioneiros com ar de poucos amigos. 
Quentin fixou ousadamente os olhos pretos e impertinentes do 
emissrio-chefe do comandante (pois foi assim que passou a 
consider-lo), que falou rapidamente para os dois guardas, 
sem, no entanto, virar a cabea nem deixar de observar os 
cativos.
Em resposta ao barbudo, os guardas resmungaram com maus 
modos. Este tornou a falar-lhes asperamente e lanou-lhes um 
olhar apressado por cima do ombro. Os soldados puseram-se 
imediatamente em p, de um salto, e, ainda a resmungar, 
comearam a desamarrar os prisioneiros, soltando-os das rodas 
da carroa. Depois, o emissrio deu meia volta e dirigiu-se 
novamente  tenda.
Quentin e Toli foram postos de p aos saces e empurrados 
atrs dele. Os guardas no pareciam nada contentes por terem 
esta tarefa a seu cargo. Quentin s gostaria de saber o que 
quereriam deles. Enquanto marchavam pelo acampamento Toli 
devolveu-lhe o olhar de interrogao. Quentin reparou que os 
soldados por quem passavam os seguiam com olhares onde se 
misturavam o medo e o temor.
Quando o emissrio e os dois prisioneiros se aproximaram da 
tenda do comandante, dois soldados abriram e seguraram na aba 
da entrada. O homem alto inclinou-se e entrou sem uma 
palavra; Quentin e Toli foram empurrados l para dentro. 
Contentes por se terem livrado dos seus fardos, os guardas 
foram jantar a correr.
Como teve de se inclinar muito, Quentin arfou de dor, 
tropeou e vacilou hesitantemente. Tinha as mos rgidas e 
entorpecidas por causa

158

das cordas. Quando se recomps, viu que o interior abobadado 
da tenda era escuro e semelhante ao cu nocturno. Pequenas 
lanternas douradas, suspensas de correias douradas, ardiam 
vivamente, e cada uma era como uma estrela acesa na abbada 
celeste. O emissrio da tnica virou-se para eles e levantou 
a mo, indicando-lhes, assim, que deviam permanecer onde 
estavam. Depois, deu meia volta e desapareceu por trs de um 
reposteiro ricamente bordado.
- Nunca vi nenhum pavilho de comandante como este - disse 
Quentin, observando aquela decorao estranha e um tanto 
fantstica. Para onde quer que se virasse, dava com os olhos 
no suave brilho do ouro e da prata.
- Isto  um palcio real ambulante. - Tambm Toli se mostrava 
surpreendido pelo contraste existente entre o temvel chefe 
dos guerreiros e os seus homens e a riqueza da sua tenda.
Nesse momento, o emissrio barbudo voltou a aparecer e fez-
lhes sinal para avanarem, afastando o cortinado. Quentin deu 
um passo em frente e o mordomo-mor socou-o violentamente no 
pescoo, indicando-lhe que devia baixar a cabea na presena 
do comandante.
Quentin entrou de olhos baixos no santurio interior. Durante 
algum tempo, ficaram de p ao lado um do outro, em silncio. 
Ningum se mexia nem falava. Da sua frente e de um pouco 
acima chegava-lhes aos ouvidos a respirao lenta e regular 
do comandante, e at pareceu a Quentin sentir o seu olhar 
frio, enquanto meditava no destino que havia de lhes dar.
O chefe dos guerreiros proferiu uma ordem e o seu servo 
avanou e fez uma vnia. Depois, fez um discurso tonitruante 
na sua lngua insondvel. O mordomo-mor voltou a inclinar-se 
e disse suave e educadamente:
- O meu senhor decidiu que podeis sentar-vos na sua presena. 
Quer que comais com ele, mas s deveis falar se ele vos fizer 
alguma pergunta; nesse caso, devereis responder sem hesitar. 
Se algum de vs no responder imediatamente, ele saber que 
est a forjar uma mentira, mandar cortar-lhe a lngua e 
obrigar o outro a com-la, para que ele no se esquea de 
no lhe seguir o exemplo.
Bateu as palmas e entraram dois servos com almofadas que 
pousaram aos ps dos prisioneiros.

CAPTULO XX

- Parece que acamparam aqui ontem  noite - disse Ronsard, 
afastando-se das cinzas frias que estivera a examinar.
- E deviam ser perto de trs mil homens, com carroas e 
cavalos. - Os olhos de Theido varreram o amplo prado onde o 
exrcito acampara. Tudo o que existia naquele momento eram os 
vestgios da sua passagem: a erva acamada onde os homens 
tinham dormido, os bocados de solo chamuscados onde haviam 
ardido as fogueiras, os sulcos das carroas e as marcas das 
ferraduras dos cavalos. Mas o exrcito j se deslocara.
- No vai ser difcil segui-los. Os sinais so muito claros - 
comentou Ronsard, lanando um olhar ao Sol, que caminhava 
para oeste. - Quanto achas que um exrcito deste tamanho pode 
percorrer num dia? Quatro lguas? Cinco?
- Talvez quatro lguas. Mais no. No parecem estar com 
grande pressa.  estranho...
- O qu?
- Que uma fora assim se desloque pela terra levando tudo  
sua frente e que, no entanto... - Calou-se,  procura das 
palavras apropriadas.
_ No parecem ter medo de que lhes vo ao encontro e lhes 
faam frente. - A voz pertencia a Esme, que, sentada na sua 
montada, observava os dois cavaleiros e seguia a sua 
conversa.
- Sim,  isso - concordou Theido. - Se eu estivesse a invadir 
um pas estrangeiro, havia de pensar na resistncia que se 
faria sentir

162

mais cedo ou mais tarde. H aqui uma arrogncia que me gela 
at  espinha.
Um dos cavaleiros de Ronsard chamou-os do outro lado do 
prado.
- Encontrou alguma coisa - disse Ronsard. Dirigiram-se todos 
para o local onde o homem estava ajoelhado. Ao aproximarem-
se, repararam na expresso de nojo que contorcia as feies 
do soldado.
- O que foi, Tarkio? O que encontraste?
- Eu... mataram algum aqui, senhor.
o soldado tinha razo. A mancha vermelho-escura do solo s 
podia ter sido feita de uma maneira.
Theido contemplou-a de lbios apertados, formando uma linha 
fina e descolorida.
- Podia ser um veado - sugeriu Esme, sem grande convico. 
Tambm ela temia o pior.
- O que fizeram ao corpo? - A voz de Ronsard estava tensa. 
Quando se desviou da feia ndoa da erva, Esme reparou no 
claro escuro e irado que lhe fluminou o olhar.
- Parece-me que sei o que lhe fizeram - redarguiu Tarkio, num 
tom de voz vazio de qualquer expresso. Falou de uma maneira 
to estranha que os outros o fitaram e, depois, lhe seguiram 
o olhar at s rvores que ficavam ali perto.
- Por Azrael!
- Os demnios!
- Desvia os teus olhos, senhora. Isto no  espectculo 
prprio para uma mulher - disse Ronsard, lanando a Theido um 
olhar cheio de aflio. Por um momento, pairou entre eles uma 
pergunta que ningum fez. - Tem de ser - pronunciou baixinho. 
- Precisamos de ter a certeza.
- Eu vou contigo - volveu Theido calmamente. - Fica aqui com 
o Tarkio, Esme. Vimos j.
Theido desmontou e, juntamente com Ronsard, encaminhou-se 
para um grande carvalho de ramos largos, onde balouava o 
cadver do infeliz soldado.
No se assemelhava mais a um corpo humano do que  carcaa de 
algum animal pendurada para secar. Os pssaros tinham andado 
a picar-lhe a cara todo o dia e as suas entranhas no 
passavam de uns

163

farrapos. As duas metades estavam penduradas lado a lado num 
ramo baixo e baloiavam lentamente na corda que atava os ps 
e as mos.
- Um deles? - perguntou Theido em voz rouca, com uma 
expresso de repulsa.
Ronsard assentiu.
- Este aqui no nasceu em Mensandor. - Desviando o olhar 
daquela viso macabra, continuou: - Estou satisfeito. Pode 
ser que o Quentin e o Toli ainda estejam vivos, embora eu no 
acredite muito nisso.
- Eu tambm no. Mas, pelo menos, temos uma esperana para 
continuarmos a nossa perseguio. - Theido olhou para o cu, 
que, naquele momento, brilhava com o tom dourado do Sol que 
se punha. - Ainda temos umas horas de luz. Podemos continuar.
- E vamos cavalgar toda a noite. Devemos apanh-los antes de 
amanhecer.
Sem mais palavras, regressaram ao local onde eram esperados 
por Esme e Tarkio, aos quais se haviam juntado os outros dois 
cavaleiros.
- Podes ficar descansada, senhora. Aquele miservel nunca foi 
nosso amigo. Provavelmente, era um deles. - Ronsard lanou um 
olhar interrogador aos dois cavaleiros, que, como Tarkio, 
tinham passado o local a pente fino, na tentativa de 
descobrirem sinais do destino dos cativos. Mas eles 
limitaram-se a abanar a cabea, pois no tinham visto nada. - 
Ento, vamos continuar. O caminho no  difcil. Da prxima 
vez que virmos gua, paramos para os cavalos descansarem. O 
.N'obren e o Kenby vo  frente e, depois, o Tarkio e a Esme. 
Eu e o Theido seguiremos atrs. - Enquanto os outros 
montavam, virou-se para Theido: - Precisamos de ter um plano 
antes de chegarmos ao acampamento.
Theido fez que sim com a cabea.
- Vamos rezar para que nos lembremos de alguma coisa durante 
o caminho. No sei o que mais podemos fazer.

Fixados em mastros compridos colocados de ambos os lados do 
palanque baixo de Gurd, dois crnios humanos fitaram Quentin 
com o seu olhar vazio. O prprio Gurd parecia um crnio, s 
que um pouco mais animado. Estava sentado imvel, e a suave 
luz das lanternas

164

enchia-lhe de sombras as depresses do rosto chupado. S as 
cintilantes rbitas dos seus olhos pretos mostravam que dera 
pela sua presena.
Tal como os seus relutantes convidados, o guerreiro 
encontrava-se sentado numa almofada. Tinha o peito nu, pois 
envergava um colete curto, aberto at  cintura, muito 
ornamentado com brocados que formavam delicadas figuras, as 
quais Quentin nunca vira. Mas foi o peito do homem que atraiu 
a ateno de Quentin, pois at  luz bruxuleante das 
lanternas se via que era uma massa de cicatrizes compridas, 
denteadas e horrveis. Nem acidentes nem ferimentos de 
batalha poderiam t-las causado com tal abundncia; umas 
eram, obviamente, mais recentes, pois sobrepunham-se a 
outras, e havia algumas com muito pouco tempo. Com um 
sobressalto, Quentin percebeu que as feridas, aquelas 
mutilaes horrveis, eram auto-inflingidas.
O mordomo-mor, sentado  direita do comandante, entre os 
prisioneiros e o seu amo, bateu as palmas, e logo entraram 
dois escravos com grandes tigelas de comida. Um outro escravo 
pousou umas tigelas mais pequenas, que os outros comearam a 
encher com a comida das maiores. Quando acabaram, os escravos 
deixaram as tigelas em frente dos convivas e retiraram-se 
apressadamente.
O comandante pegou na sua e desatou imediatamente a comer, 
sem olhar para os seus convidados.
A comida, uma espcie de gro cozido com bocados de carne e 
um molho espesso, muito condimentado, estava a fumegar. Para 
o paladar pouco conhecedor de Quentin, pareciam alimentos 
exticos, de outro mundo, que, uma vez engolidos, deixavam um 
travo quente na lngua. Comeram com os dedos, encostando as 
tigelas aos lbios. Quentin conseguiu equilibrar a sua na 
parte interior do joelho e comeu com a mo esquerda, visto 
que no podia usar a direita, que pousara no regao.
A meio da refeio, apareceu um escravo com um jarro e 
comeou a encher umas latas douradas com um lquido cor de 
mbar, que pousou em frente de cada um antes de partir. A 
bebida era uma espcie de vinho. Quentin reconheceu o seu 
travo ligeiramente metlico, mas nunca saboreara nada 
semelhante: era uma bebida aveludada, quase espessa e 
maravilhosamente doce. Bastava um gole para apagar o fogo 
deixado na lngua pelos condimentos da comida.
O comandante comeu vorazmente duas tigelas sem levantar o

165

olhar. Quando acabou, pousou a tigela, colocou as mos sobre 
os joelhos, arrotou uma vez e disse qualquer coisa muito 
depressa.
- A refeio acabou - informou o mordomo-mor. Embora a tigela 
de Quentin ainda estivesse meio cheia, este colocou-a  sua 
frente e, imitando o dono da casa, pousou a mo no joelho.
- O meu senhor Gurd quer que saibais que s come na presena 
de quem respeita e que s partilha a sua comida com aqueles 
que admira. - O emissrio fez-lhes um sinal de cabea, 
indicando-lhes que se esperava deles uma resposta de natureza 
semelhante.
- Quem somos ns para ele nos respeitar ou admirar?
O emissrio traduziu a pergunta de Quentin e o comandante 
soltou um rsinho abafado e proferiu uma resposta curta.
- O meu senhor Gurd diz que a vossa coragem vos enobreceu. 
Tu, de pele clara, sobreviveste  prova da roda. Se fosses um 
cobarde, terias morrido. Tu - prosseguiu, dirigindo-se a Toli 
- arriscaste a vida para salvares o teu amigo. Mesmo sendo 
uma loucura,  um feito valioso. O meu senhor Gurd admira a 
coragem. Vai ter pena de vos matar na devida altura, mas o 
vosso sangue correr por ele, como oferenda  sua 
imortalidade. Isso agrada-lhe.
Esta resposta confundiu e zangou Quentin, que abriu a boca 
para responder, mas que, ao sentir o brao tocado ao de leve 
por Toli, inquiriu:
- Porque invadis a nossa terra? Quem sois vs?
O mordomo-mor falou para o comandante, que sorriu 
ligeiramente, como uma serpente.
- Informei o meu senhor Gurd de que vos sentis honrados por 
ele vos julgar dignos de estar ao seu servio. - Em resposta 
ao olhar cortante e irado de Quentin, acrescentou: - Mais 
vale no o fazer zangar, ou ainda vos manda arrancar as 
tripas para lhe devolverdes a comida que comestes com ele.
- O que  que ele quer de ns? - indagou Toli.
- S ele sabe.
Gurd pegou na sua taa e bebeu o lquido doce. Depois, fez um 
longo discurso para o emissrio, que o traduziu assim:
- O meu senhor Gurd quer saber a que distncia fica a grande 
cidade a que chamam Askelon, como so as suas fortificaes e 
por quantos soldados  guardada.

166

- Porque pensa ele que eu sei responder a essas perguntas? 
volveu Quentin.
Depois de uma breve consulta ao seu amo, o homem replicou:
- O meu senhor Gurd sabe que tendes cavalos e que, portanto, 
sois homens importantes. Viu as vossas armas e roupas e 
acredita que pertenceis a uma alta linhagem. O facto de 
terdes atacado sozinhos os seus soldados diz-lhe que 
conheceis bem os assuntos militares e que, de facto, at 
estais bem treinados.
Quentin hesitou. Os pensamentos de Toli eram insondveis.
- Se estais a pensar se haveis de responder ou no, deixai-me 
lembrar-vos que, como vos disse, para o meu senhor Gurd, as 
respostas onde haja alguma hesitao so mentiras. Para o 
acalmardes, respondei-me imediatamente.
- Askelon fica longe daqui, a muitas lguas de distncia.  
verdade que  uma grande cidade. No h nenhuma como ela. O 
castelo de Askelon nunca foi nem nunca ser conquistado.
- E quantos soldados defendem esse lugar?
- Diz ao teu senhor Gurd que o exrcito do Rei Drago  
suficiente para qualquer eventualidade.
O chefe dos guerreiros observou atentamente esta troca de 
palavras, e no ficou muito satisfeito com a reaco de 
Quentin, mas assentiu de bom grado quando o intrprete acabou 
de traduzir. Depois, sorriu para Quentin e Toli e dirigiu-se-
lhes na sua lngua densa e incompreensvel.
- O meu senhor Gurd est satisfeito com as vossas respostas. 
Por isso, decidiu deixar-vos viver at chegarmos a Askelon, 
onde sereis sacrificados para que ele conquiste a cidade mais 
rapidamente. Ele quer
garantr-vos que o vosso sangue correr s para ele, o que  
uma grande honra.
-  uma honra a que preferamos renunciar - disse Quentin,
numa voz perpassada por um tom subtilmente sarcstico -, mas 
talvez possamos vir a retribuir essa distino.
O emissrio sorriu dissimuladamente e traduziu as respostas 
de Quentin ao seu amo, que se inclinou ligeiramente e 
bocejou. Depois, acenou com a mo para o servo, o qual se 
levantou, dizendo:
- A audincia chegou ao fim. Fazei uma vnia e recuai, no 
lhe virando as costas.

167

Recuando, retiraram-se todos da presena do chefe dos 
guerreiros, para o outro lado do cortinado, atravessaram a 
tenda e saram novamente l para fora. As sombras da noite 
adensavam-se e Quentin sentiu que a atmosfera do acampamento 
palpitava com uma excitao mal contida. Os soldados 
acotovelavam-se em vrios grupos e por toda a parte se ouviam 
risos roucos. O sol estava mesmo a pr-se e o cu adquirira 
um tom carmesim para as bandas do oeste. "Quando a luz 
desaparecer", pensou Quentin, - estes brbaros vo entrar num 
frenesim louco." Como se lhe tivesse lido os pensamentos, o 
mordomo-mor disse:
- Vai haver uma grande celebrao, porque  Hegnrutha. a 
Noite dos Espritos Animais.
Falas bem a nossa lngua, senhor - observou Quentin 
cautelosamente.
Os olhos escuros adquiriram uma expresso manhosa.
- Falo muito bem onze lnguas.
- O que disseste l dentro? - perguntou Quentin, vendo os 
seus guardas apressando-se na sua direco para os levarem.
O criado pessoal do comandante sorriu, pondo  mostra uma 
fila de dentes brancos, que pareciam brilhar  luz que se 
desvanecia.
- Disse-lhe que era uma honra que vs retribuireis de bom 
grado. Ele sentiu-se muito lisonjeado.
- Porque nos proteges? - indagou Toli, enquanto os guardas 
voltavam a amarrar-lhes as mos. - O que te interessa a nossa 
vida ou a nossa morte?
- Agora no tenho tempo para explicar. Irei ter convosco esta 
noite, quando o caos se tiver instalado. - O emissrio girou 
nos calcanhares e voltou a entrar na tenda. Quentin e Toli 
foram obrigados a marchar de volta s carroas, mas, desta 
vez, Quentin sentiu que se movimentavam rodeados de uma aura 
de respeito. Os olhares dos soldados pelos quais passavam 
eram temerosos e quase reverentes. Vendo-os, Quentin pensou 
que, provavelmente ao contrrio da maioria dos que entravam 
na tenda, eles tinham sado vivos.

CAPTULO XXI

Durwin permaneceu junto dos convivas o tempo suficiente para 
lhes apaziguar o medo causado pelo estranho comportamento do 
rei. Andara por ali, a todos saudando como se fosse o prprio 
rei, e a sua presena parecera acalmar os sentimentos de 
inquietao criados pelo discurso do rei. A msica trinava e 
rodopiava, qual rio ondulante, afastando as preocupaes do 
momento.
O chefe dos menestris deu incio a um cotilho e os pares 
comearam a escolher os melhores danarinos presentes para o 
dirigirem. Como nem Eskevar nem Alinea tinham regressado, 
Durwin aproveitou para se escapulir discretamente. 
Preocupava-o vagamente que alguma coisa de mais grave pudesse 
ter transpirado.
Assim, subiu depressa as escadas de pedra e encaminhou-se 
para a entrada da galeria do castelo; as grandes portas de 
madeira estavam escancaradas e filas de tochas acesas 
iluminavam o largo corredor. Alguns convivas curiosos 
passeavam pela galeria, maravilhando-se com o interior do 
castelo de Askelon. Sem querer parecer estar com pressa, 
Durwin estugou o passo at aos aposentos do rei. Tinha poucas 
dvidas de que Eskevar estaria a.
Quando Durwin irrompeu pelo corredor, Oswald estava  porta.
- Oswald, est tudo bem?
Oswald baixou ligeiramente a cabea,  laia de vnia, e 
respondeu:
- Sim, senhor. O rei e a rainha esto l dentro. Chegou um 
mensageiro.
As sobrancelhas de Durwin arquearam-se.

- Quem?
- No sei. No o vi chegar. A sentinela trouxe-o logo para 
aqui.
- Muito bem, ento vamos ver o que se passa.
Oswald abriu a porta e entrou. Quando se preparava para 
seguir o velho camareiro, Durwin sentiu que lhe tocavam ao de 
leve no brao.
- Bria, pensei que estavas no jardim.
- Vim atrs de ti. - A sua testa macia enrugou-se de 
preocupao. - O que ?
- Chegou um mensageiro. Espera s um bocadinho que eu j 
venho dizer-te o que puder.
- No. Quero ir contigo. - Dizendo isto, atravessou a soleira 
da porta e arrastou Durwin com ela.
- Durwin! Ia mandar-te chamar. - Eskevar estava sentado numa 
cadeira grande e esculpida. Alinea encontrava-se de p, com a 
mo pousada no seu ombro. Ambos olhavam atentamente para o 
cavaleiro, esfarrapado, exausto e com as roupas e a armadura 
leve sujas da poeira da estrada. De p,  sua frente, o 
soldado vacilava de cansao.
-  o Martran, um cavaleiro do Ronsard - indicou Eskevar com 
a mo aberta. - Ele ia mesmo agora comunicar-nos a sua 
mensagem.
O cavaleiro fez uma vnia e anunciou, com a voz rouca devido 
ao p que engolira:
- O meu senhor Ronsard manda dizer: "Continuamos a nossa 
misso e lamentamos o atraso em voltarmos para Askelon. 
Regressaremos logo que tivermos obtido aquilo que procuramos 
ou pudermos ter respostas satisfatrias."
 tudo, senhor cavaleiro? Podes falar  vontade.
-  tudo, meu senhor.  esta a minha mensagem.
Com os olhos cheios de tristeza e preocupao, Eskevar afagou 
o queixo com a mo.
- Porque  que ele te mandou com uma mensagem assim, meu 
bravo?
- Suponho que tinha medo de que a sua longa ausncia vos 
alarmasse. Theido sugeriu que eu voltasse com uma mensagem a 
dizer se podiam continuar a sua misso.
- Mas porqu... no vistes nada digno de ser relatado?
- No, Vossa Majestade. No vimos nada de anormal. Mas... -

171

hesitou, como se no soubesse se a sua posio lhe permitiria 
dizer mais.
- Mas o qu, meu amigo? - perguntou Durwin, aproximando-se. - 
Fala sem medo. Nada do que possas dizer te far incorrer no 
desagrado do teu rei. Mas pode ser um erro no nos dizeres o 
que ests a pensar. Fala, por favor, e deixa-nos ser ns a 
julgar.
- Muito bem, senhor. - O cavaleiro fez uma vnia dirigida a 
Durwin. -  isto: senti que alguma coisa estava a preocupar 
os meus senhores. Eles andavam a procurar no sei o qu, mas 
no encontravam nada. Isto inquietava o meu senhor Theido, 
que andava furiosamente de um lado para o outro e queria 
cavalgar toda a noite. Mas o meu senhor Ronsard no o 
deixava. Falavam muitas vezes os dois sobre isso.
"Mas, ao vir para c, vi uma coisa que me baralhou. Acho que, 
se o meu senhor Theido a tivesse visto, haveria de ser ainda 
mais inflexvel.
- O que foi que viste? - perguntou suavemente Eskevar, que 
observava o mensageiro com olhos de guia.
- Uma das aldeias que tnhamos atravessado uns dias antes 
estava vazia quando voltei a passar por ela. Achei estranho 
no ver ningum, mas tambm no parei para investigar.
- Vazia?
- Sim, Vossa Majestade. Completamente abandonada.
- E que mais? No viste indcios de nada?
- No. Parecia que tinha sido abandonada muito depressa, 
embora sem razes aparentes. Mas, como disse, no parei para 
investigar. Continuei o meu caminho.
- Estou a ver. Muito bem, Martran, podes ir deitar-te. 
Mereces bem o teu descanso.
"Oswald, leva o Martran para a cozinha, d-lhe de comer e 
arranja-lhe uma cama onde no possa ser incomodado. - 
Virando-se para o cavaleiro, acrescentou: - No te afastes 
muito; posso querer fazer-te mais algumas perguntas. Agora 
vai e descansa.
Oswald acompanhou o cavaleiro, que cambaleava.
- S mais uma coisa - observou Durwin, quando Oswald abria a 
porta. - No nos disseste se encontraste o Quentin e o Toli 
na estrada. Mas deves ter passado por eles. Saram daqui h 
quinze dias para vos irem procurar.

172

O cavaleiro abanou a cabea.
- No passei por ningum, o que tambm achei estranho. At 
chegar a Hinsenby, tive as estradas por minha conta.
- Obrigado, Martran. Dorme bem.
Durwin fitou o rei com um olhar cheio de interrogaes.
- O que ele nos contou  mesmo muito esquisito. No sei o que 
hei-de pensar.
-  como eu disse: passam-se coisas estranhas na terra. O mal 
cresce, mas ns no o vemos.
- Entretanto, o que aconteceu ao Quentin? - indagou Bria, 
mostrando-se preocupada.
- No sabemos, senhora - respondeu Durwin. - Mas a terra  
grande. Eles podem ter seguido por outro caminho. - O tom de 
voz no lhe saiu to tranquilizador como gostaria.
- De qualquer forma, em breve saberemos. Proponho-me a ir  
sua procura - declarou Eskevar. O rei Drago ps-se em p e 
deu uns passos em frente, como se quisesse partir 
imediatamente.
- No digas isso, senhor! - suplicou Alinea. - Ainda no 
recuperaste suficientemente as tuas foras para te pores em 
cima de uma sela.
- Se quiserdes, ide, Vossa Majestade. A escolha  vossa. Mas, 
se fordes, arriscais-vos a perder o regresso do vosso 
enviado. E por onde ireis comear a procur-los?
Eskevar lanou um olhar magoado ao eremita.
- Que hei-de fazer? No posso ficar aqui para sempre  
espera, enquanto o inimigo se vai fortalecendo.
- Ningum viu nenhum inimigo - comentou a rainha.
Eskevar virou-se para ela e resmungou:
- Pensas que no existe? Mas existe! - Bateu no peito. - 
Sinto-o aqui. Ele vem a... sinto-o.
- Mais uma razo para esperardes. Recuperai as foras. Se 
isso que dizeis for verdade, em breve tereis a aco que 
quereis procurar.
Frustrado, o rei Eskevar deixou-se cair outra vez na cadeira. 
O seu nobre semblante fervilhava de desespero. Enfiou as mos 
pelo cabelo.
- Mensandor chama o seu protector, que fica na cama a tremer 
de medo! Quem nos salvar da nossa fraqueza?

173

- Ide-vos embora - disse Alinea, tomando Durwin e Bria de 
parte. - Eu trato dele.  o dever de uma esposa e rainha.
- Com vossa licena, senhora, retiro-me para os meus 
aposentos. Se precisardes de alguma coisa, mandai-me chamar. 
- Durwin pegou no brao de Bria e conduziu-a para fora do 
quarto.
- Nunca o vi assim - comentou Bria, com a voz embargada pelas 
lgrimas.
- Estes so tempos difceis e ele no est muito habituado s 
dificuldades. Mas no te preocupes. Vi nele sinais de 
recuperao. Ele vai voltar a ser o Rei Drago.

A grande mo fechou-se sobre o corpinho branco da ave e 
retirou-se da gaiola, no meio de um bater de asas minsculas 
e de um trinado de surpresa. A pomba debateu-se debilmente, 
com a cabea espreitando atravs do crculo formado pelo 
polegar e pelo indicador gigantescos. Um olhinho de contornos 
vermelhos fitou aterrorizadamente o rosto distorcido do 
poderoso Nin.
Nin, o Imortal, sentiu na mo o rpido bater do coraozinho 
da pomba e o seu corpo quente e macio. Depois, apertou. A ave 
debateu-se e guinchou. Nin apertou mais. O bico amarelo 
escancarou-se e a pequena cabea rolou para o lado. Nin, 
cujas frotas se estendiam por toda a largura de Gerfallon, 
abriu a mo lentamente. O monte de penas estremeceu e 
imobilizou-se.
Com um grito de satisfao, Nin, o Destruidor, atirou o 
pssaro morto para o outro lado da sala, onde aterrou, perto 
da porta, com um baque suave. Um redemoinho de penugem branca 
flutuou docemente at ao cho, e desceu como flocos de neve 
em redor do corpo sem vida.
Nin continuava a olhar para a sua obra quando ouviu o som da 
sineta do outro lado do corredor. A grotesca cabea de Uzia 
espreitou da porta.
- Trago notcias,  Imortal. - Os olhos do ministro vaguearam 
at ao pequeno monte de penas brancas que jazia no cho  sua 
frente.
- Entra e fala. - A voz de Nin parecia um trovo.
Uzia avanou em bicos de ps e prostrou-se perante o seu amo.
- Levanta-te.  o teu deus que to ordena. Fala, UzIa, e que 
da tua boca saiam palavras de adorao ao Eterno.

174

- Quem se compara ao nosso Nin? Como hei-de descrever a sua 
grandeza, mais brilhante do que os mais brilhantes feitos dos 
homens? A sua sabedoria  eterna. - UzIa ps as mos no 
rosto, como se quisesse proteger os olhos dos penetrantes 
raios do Sol.
- As tuas palavras agradam-me. Agora dize-me: que notcias 
trazes? Askelon j foi conquistada? Estou a ficar impaciente 
com esta espera. Dize-me o que eu quero ouvir, UzIa.
- Talvez as minhas notcias sejam mais apropriadas noutra 
altura e noutro lugar, muito nobre Nin. No sei nada de 
Askelon, mas que seja como dizeis.
- Ento o que ? Fala depressa... estou a ficar cansado dos 
teus disparates.
- O comandante da vossa frota em Elsendor mandou dizer que 
estamos a vencer. Os barcos do rei Troen foram destrudos e a 
batalha em terra j comeou.
O grande rosto sem plos dividiu-se num amplo sorriso de 
satisfao, a carne das suas faces rolou para os lados como 
montanhas formando-se ao longo de um abismo profundo. Os seus 
olhos escuros e sinistros reduziram-se a pequenos buracos 
pretos e o seu queixo afundou-se nas pregas do pescoo.
- Muito bem! Quantos prisioneiros me foram sacrificados? - A 
sala abanou com a alegria da sua voz de trovo.
O olhar de UzIa adquiriu momentaneamente uma expresso de 
consternao.
- No sei, Majestade Infinita. O comandante no disse, mas 
creio que podemos deduzir que foram muitos.  sempre assim.
- Pois, pois. Estou satisfeito. Vou fazer uma festa para 
comemorar!
- Posso atrever-me a lembrar  Luz Suprema do Universo que 
hoje  Hegnruffia? Hoje  noite h uma festa, que j est a 
ser preparada.
- Ah,  verdade! Veio mesmo a calhar. Ento vai e dize-me 
quando estiver tudo pronto. E ordena aos escravos que 
preparem o meu banho de leo. Quero ungir-me antes de a 
celebrao comear. Hoje  noite, os meus sbditos vo encher 
os olhos com o meu esplendor.  esta a minha vontade. Ouve e 
obedece.
UzIa prostrou-se de novo e recuou para fora da sala. A sua 
voz quebradia ouviu-se dali a pouco, reunindo os escravos 
para prepararem

175

os perfumados leos nos quais o seu soberano ia banhar-se.
Nin ergueu o seu rosto de lua cheia e deu uma gargalhada; as 
notas profundas saram-lhe da garganta e vibraram em todos os 
cantos do enorme navio-palcio. Os que as ouviram 
estremeceram. Quem, de entre eles, seria chamado a divertir o 
Imortal durante a noite? Provavelmente, 1 quem quer que 
tivesse essa honra na noite de Hegnrutba no voltaria a ver 
um outro dia.

CAPTULO XXII

A torre de chamas erguia-se bem alto na noite, derramando-se 
na vasta escurido e maculando as estrelas com o seu brilho 
escarlate. Embora se encontrassem bem afastados do braseiro, 
Quentin e Toli, acorrentados s rodas da carroa, sentiam no 
rosto o calor da enorme fogueira.  medida que as chamas se 
lanavam para o cu, a pndega levantava voo com as suas asas 
maldosas, tomando uma forma febril e inflamada.
O tumulto fora aumentando progressivamente ao longo do fim da 
tarde e, naquele momento, os bosques em redor ecoavam com os 
gritos desenfreados dos celebrantes. A tumultuosa massa 
contorcia-se em volta da fogueira numa roda cada vez mais 
frentica. A Quentin e Toli, que tudo observavam mudos de 
espanto, parecia que alguma coisa se apossara dos espritos 
dos soldados, puxando-lhes cada corda como um menestrel 
enlouquecido tocando o seu instrumento num xtase torturado.
Ao claro da fogueira, Quentin viu alguma coisa a mover-se na 
escurido, para l do crculo do acampamento. Por entre os 
tremeluzentes lenis de calor libertados pelo fogo, entreviu 
o que lhe pareceu um bicho colossal, uma silhueta escura 
surgida da escurido que a rodeava e que se arrastava pesada 
e vagarosamente.
- Olha ali... do outro lado - sussurrou para Toli. No sabia 
bem a razo por que se dera ao trabalho de sussurrar, pois os 
guardas nem sequer fingiam estar a vigi-los. Continuavam 
sentados nos seus postos, tinham-se entregado s celebraes 
dos seus camaradas e estavam era mortinhos por se juntarem ao 
barulho.

178

- O que ? No consigo ver bem.
- Espera, est a aproximar-se. - Mal Quentin acabara de 
falar, a criatura emergiu do seu escuro cativeiro. surgindo 
no turvo crculo de luz. Com o claro das chamas brilhando-
lhe na hedionda pele preta, agigantou-se  luz bruxuleante. 
Era uma criatura de uma beleza terrvel, pavorosa e tremenda; 
parecia um habitante do abandonado mundo subterrneo de 
Heoth, uma coisa destilada de mil pesadelos. E surgiu 
cambaleando da floresta para o meio dos celebrantes, como se 
tivesse sido chamada das profundezas do seu mundo 
subterrneo. para reinar sobre o revoltante Hegnruffia.
Ao princpio, Quentin pensou que estivesse viva. mas,  
medida que se aproximava. viu que estava amarrada a cordas 
puxadas por cerca de cem homens, que se apinhavam aos seus 
ps. Por fim, chegou  beira da fogueira, onde ficou de mos 
estendidas em perptua bno ou praga.
Tratava-se de uma esttua: era a enorme imagem esculpida de 
um animal com pernas e tronco de homem, cabea de leo e 
barriga de chacal. Dois grandes chifres curvos saam-lhe de 
ambos os lados da cabea e tinha a boca aberta, num rugido de 
raiva.
-  o dolo deles - disse Toli, com os olhos cheios da viso 
que tinha  sua frente. Quase gritou, pois, com a presena do 
gigantesco dolo. O frenesim irrompera num clmax de 
exuberncia e insanidade. A terra quase tremeu com o 
pandemnio. Os seus dois guardas deram um salto e comearam a 
danar, agitando os braos e guinchando num abandono 
histrico.
Depois, os soldados atiraram mais lenha para a base da 
esttua e
empurraram-na para as chamas. Enquanto Quentin e Toli 
observavam
as lnguas de fogo rodeando o monstruoso dolo, uma sombra 
destacou-se da mirade de projeces vacilantes e encaminhou-
se para eles ao longo do crculo do acampamento. Dali a 
pouco, e sem sentir a presena de ningum, Quentin ouviu um 
sussurro rouco:
- Vou soltar-te as mos. No te mexas.
Quentin obedeceu e sentiu as cordas carem. O seu brao 
direito balanou, inerte, e ele pegou-lhe com a mo esquerda 
e segurou-o contra o peito. Sem esperar por mais instrues, 
rolou e escondeu-se debaixo da carroa.

179

juntaram os trs as cabeas ao abrigo da caixa da carroa. 
Toli esfregou os pulsos e perguntou:
- Porque fazes isto?
Quando o emissrio do comandante sorriu, viu-se um breve 
claro branco na escurido.
- Eles tambm me prenderam a mim. H muito que planeio fugir, 
mas, para sobreviver, preciso da ajuda dos que conhecem este 
pas. Com os olhos cintilando  luz da fogueira, fitou-os a 
ambos: - No podemos perder tempo. Temos de ir.
Se se afastassem das carroas, teriam poucas hipteses de 
serem descobertos. Naquela noite, ningum estava de 
sentinela, mas havia grupinhos de folies reunidos em volta 
de fogueiras mais pequenas, no permetro do acampamento, e 
ouviam-se outros batendo os bosques num xtase histrico. Os 
seus gritos rasgavam a noite, deixando a Quentin poucas 
dvidas da realidade dos espritos animais, aos quais a noite 
era dedicada.
As trs figuras agachadas percorreram a orla do acampamento, 
correndo furtivamente atravs do jogo de luz e escurido. Nas 
rvores que os rodeavam, as enormes sombras alongadas 
cabriolavam, numa imitao grotesca dos ritos selvagens, cuja 
intensidade no diminua.
A travessia do permetro exterior do acampamento foi um 
trabalho moroso, mas, por fim, conseguiram chegar ao bosque, 
onde as sombras os cobriram como uma capa.
- Escondi os nossos cavalos mesmo ali. - O mordomo-mor fez um 
gesto de cabea na direco onde as sombras se adensavam 
ainda mais. - Consegui recuperar a tua montada - olhou para 
Quentin
mas no encontrei a tua.
Toli riu-se e replicou:
- Aquele cavalo no era meu... tirei-o do meio dos que 
estavam amarrados.
Apesar da escurido, Quentin viu as sobrancelhas do seu guia 
arqueando-se de surpresa e os seus olhos brilhando de 
divertido descrdito.
- Eu bem tinha razo. A manha tambm faz parte das vossas 
habilidades. No me enganei na escolha dos meus parceiros.
O ar parecia mais fresco nos bosques. Embora por toda a parte

180

retinissem os uivos e os guinchos dos celebrantes de 
Hegnrutha, comearam a deslocar-se cada vez com mais 
confiana. Os bosques pareciam desolados e entregues s 
sombras sem lar que vagueavam na noite.
Quentin tremia interiormente e lutava para acompanhar os 
outros. Quando chegaram aos cavalos, que esperavam 
pacientemente numa pequena galeria coberta de giestas, 
Quentin arfava de fraqueza. O bocadinho de foras que ainda 
conseguira reunir chegara praticamente ao fim.
- Agora, segui-me. Sei por onde se sai do bosque - disse o 
emissrio. - Depois, sigo-vos eu a vs.
- Muito bem - retorquiu Toli. - Vai em frente.
Montaram os dois rapidamente e guiaram os cavalos para norte 
e para longe do acampamento. Toli lanou um olhar por cima do 
ombro e viu Quentin pendurado na sela com uma mo, 
demasiadamente fraco para conseguir subir para o cavalo.
- Espera! - gritou Toli, deslizando da sua montada. - Meu 
amo, desculpa... Eu devia ter percebido...
- No... eu estou bem. Ajuda-me s a subir.
Ao luar que inundava docemente o bosque, Toli viu a camada de 
suor que luzia na testa de Quentin.
- Anda comigo. Podemos ir os dois no meu cavalo.
- Eu fico bem logo que sairmos daqui - insistiu Quentin.
- Despacha-te. Ajuda-me a subir para a sela. No h tempo 
para discusses.
Toli prendeu o p do seu amo e iou-o. Bem via que o brao 
direito de Quentin lhe pendia inutilmente do ombro. Quentin 
agarrou nas rdeas com a mo esquerda, puxou a direita para o 
colo e segurou-a por baixo da capa.
- Vamos embora - disse roucamente.
Toli saltou para a sua montada e seguiram em frente. Pisando 
o tojo, os cavalos avanaram na direco da floresta. "Apesar 
da sua aventura, o Blazer parece estar na mesma", pensou 
Quentin, aliviado por estar novamente na sua sela. Ao menos, 
com Blazer no precisava das duas mos para montar, pois 
parecia que o cavalo adivinhava as ordens do seu amo. Quentin 
s tinha de se aguentar, e tentou desesperadamente consegui-
lo.

181

Dali a pouco, estavam na floresta, onde os grossos troncos 
das rvores dividiam o luar prateado em raios espalhados a 
toda a volta. Como as vozes que se ouvem em sonhos, atrs 
deles os gritos dos folies enfraqueciam, diminuindo 
rapidamente com a distncia e com o adensamento da floresta. 
"Isto  um sonho", pensou Quentin, seguindo os passos das 
silhuetas esquivas que voavam  sua frente por entre os jogos 
de luz e sombra, "um sonho horrvel que vai acabar quando eu 
acordar". Mas a vergastada ocasional de um ramo e a frescura 
do ar da noite no seu rosto eram muito reais. Sabia que se 
tratava de um sonho que no se esvaneceria  luz do dia. O 
pesadelo era real e abatera-se em fora sobre Mensandor.

CAPTULO XXIII

" altura de fazer alguma coisa", disse para si prprio o 
sumo sacerdote de Ariel, percorrendo a cela nua de um lado 
para o outro. " altura de agir." A vela grossa pingava de 
cada vez que Biorkis passava, agitando o ar  sua volta. Uma 
pilha de rolos de pergaminho baloiava precariamente na mesa, 
roagando como folhas outonais ao sabor da brisa.
" tempo...  tempo". repetiu. Depois precipitou-se para a 
porta da cela, entrou no corredor sombrio, atravessou a 
correr o templo vazio e passou por uma entrada lateral usada 
apenas pelos sacerdotes. Percorreu ento o trio banhado pelo 
luar, abriu um porto estreito fixado no muro e parou de um 
dos lados do planalto, contemplando o silencioso vale que se 
estendia a seus ps. Voltando-se, virou os seus velhos olhos 
de guia para o oriente. Tinha a Lua acima da sua cabea, 
mas, a leste, uma estrela brilhava intensamente, com uma luz 
mais forte do que a de qualquer das suas irms.  sua volta 
parecia juntar-se uma pelcula de luz, que flua do centro da 
estrela. A poro da noite onde se encontrava a estrela 
brilhava com uma luminosidade plida e, fosse para onde fosse 
que a vista vagueasse ao examinar aquela cpula escura, 
voltava a ser atrada para a estrela: a Estrela do lobo.
- Sim! Sim,  tempo de agir! - gritou Biorkis, cuja voz ecoou 
no ptio vazio e na colunata do templo, do outro lado do 
muro. Depois, virou-se, passou a correr pelo amontoado de 
rochas, voltou a atravessar o ptio e entrou de novo no 
templo. Esbaforido, caminhou com as suas

184

pernas curtas e robustas at um dos muitos gongos do templo. 
Pegou no instrumento para lhe bater e. ao cabo de uma ltima 
pausa para reflexo, malhou vrias vezes no gongo, numa 
rpida sucesso.
- Isto deve faz-los vir a correr - disse. E tinha razo.
Dali a pouco, o vestbulo estava cheio de sacerdotes 
ensonados, que esfregavam os olhos e resmungavam por o seu 
sono ter sido interrompido.
- Amigos sacerdotes! - A voz de Biorkis estava muito alta 
para os seus ouvidos cheios de sono. Mas ele gritava de 
propsito para os despertar completamente. - H duas noites 
que a minha cama fica vazia, bem podeis aguentar s este 
bocadinho. Quero falar-vos. - Ouviu-os resmungar entre os 
sacerdotes.
- Para que  isto tudo, Biorkis?
- Porque nos arrancaste s nossas devoes?
- As tuas vsperas e ressonadelas no so importantes - 
atirou Biorkis ao seu insolente interlocutor. -  tempo de 
agir! Sabeis da estrela que brilha l fora e que cresce a 
cada noite que passa? J sei o seu significado.
- E isso no podia esperar at amanh? - Quem assim falou foi 
PluelI, o subsumo sacerdote e seu prprio assistente. Pelo 
menos, este tinha, tal como Biorkis em tempos, o privilgio 
de interrogar o sumo sacerdote.
- Penso que no. j esperou tempo de mais. Enquanto 
contemplvamos s cegas o seu significado, a estrela crescia 
e, com ela, a fora do mal que pressagia. Mensandor est 
cercada por foras de pases distantes. O mundo que 
conhecemos treme  beira da destruio.
Ouviu-se um murmrio entre os sacerdotes. Pluell inclinou-se 
para conferenciar com vrios dos seus irmos.
- Admira-me que estejas to preocupado, Biorkis. No  nada 
teu. Tu sempre nos disseste que era loucura pensarmos muito 
nos reis mortais e nas suas desprezveis preocupaes.
"Assusta-me ouvir-te falar assim. No devamos primeiro 
discutir isto um com o outro?
Biorkis levantou a cabea ao ouvir esta sugesto:
- Porque ser que sinto na tua voz uma nota de ambio, 
Pluell? Porque no ho-de os nossos irmos ouvir o que tenho 
a dizer?

185

O subsumo sacerdote aproximou-se do seu superior e pousou-lhe 
uma mo no brao, como se quisesse pux-lo de lado.
- No  altura de te dares esses ares infundados  frente dos 
nossos irmos. Anda comigo. Ests cansado, e a vigilia 
tornou-te... digamos, um tanto irracional.
- Irracional? Nunca estive to lcido nesta minha vida to 
longa e cheia de acontecimentos. No percebo os teus modos. 
Por que me olhas assim?
-  tarde, irmos. Voltai para as vossas celas e descansai. 
De certeza que amanh vamos ter uma discusso mais 
proveitosa.
Alguns sacerdotes fizeram meno de partir e outros 
hesitaram, sem saberem se haviam de ficar ou de ir, como lhes 
fora ordenado.
- O sumo sacerdote sou eu! - gritou Biorkis iradamente. - Ou 
j vos esquecestes? Ficai todos onde estais e ouvi-me! 
Proponho que o rei Eskevar seja informado da nossa 
descoberta.
- Da tua descoberta, Biorkis. Com certeza no esperas que a 
aprovemos. - A voz calma de Pluell no mostrava quaisquer 
sinais de sono ou de cansao.
De repente, Biorkis percebeu o que se passava: Pluell dava 
largas  sua desmedida ambio, contida durante muito tempo. 
Estava a jogar a sua cartada para arrebatar o sumo 
sacerdcio. Biorkis tremeu de clera quando a compreenso 
deste facto o atingiu como uma facada. "Que tolo tenho sido", 
pensou. "Enquanto fico acordado  procura de uma resposta 
para o enigma daquela estrela, ele manobra para me tirar o 
poder."
- No ser assim, vbora! - gritou Biorkis. A sua inesperada 
exploso deu lugar aos olhares de interrogao dos sacerdotes 
ali reunidos. - Tira a tua mo de cima de mim! Ouvi-me, 
irmos. Eu sou o sumo sacerdote e vs conheceis-me h muito 
tempo. Alguma vez vos propus uma insensatez ou a desonra do 
deus que servimos?
Por todo o lado houve olhares lamentosos e um grande barulho 
de ps batendo no cho. Ningum se atrevia a falar. Pluell 
estava calado  direita de Biorkis, com os olhos franzidos de 
dio.
- Porque h-de a minha sugesto de uma mensagem para o rei 
causar tanta preocupao a alguns dos nossos irmos? - 
Enquanto falava, o sumo sacerdote olhou em volta e percebeu 
que se encontravam

186

ali pessoas que deviam pertencer  faco de Pluell. Sabia 
que estava em grande desvantagem, mas a clera aqueceu-lhe o 
corao, clarificando-lhe o pensamento. - Que problema h em 
eu informar o rei? Ser que h gente que tem razes para 
guardar para si o conhecimento do que vai acontecer? Ser que 
querem retirar ao Alto Templo o estatuto de servo dos 
sbditos do reino?
Pluell soltou uma gargalhada, mas no havia alegria na sua 
voz:
- Vs como s, Biorkis? No h nada que te impea de 
comunicares com o rei, se quiseres.
- Claro que no. Eu sou o sumo sacerdote. Os meus votos 
sagrados conferem-me a autoridade de ir a Askelon, pois assim 
o quero. E darei a mesma autoridade a quem quer que me sirva.
- Ento porque no vais tu prprio? - sibilou PluelI.
- Eu? Eu sou velho. Um jovem pode ir mais depressa. Vou pr o 
meu selo numa carta que deve ser levada por quem eu escolher.
- No me parece que encontres ningum assim to ansioso por 
quebrar os seus votos.
- j disse que ningum vai violar os seus votos. Porque 
insistes? - De repente, Biorkis sentiu-se fraco e doente. 
Embora Biorkis no tivesse percebido a altura em que isso 
acontecera, o facto era que o manhoso Pluell virara a 
discusso a seu favor. O sumo sacerdote sabia que estava 
condenado, mas no percebia como.
- Quem melhor do que um sumo sacerdote para falar com um rei? 
Que sejam os teus lbios a proferir as notcias.
- -Muito bem - disse Biorkis; iradamente. - Eu vou. Quem vem 
comigo? - Passeou o olhar encolerizado pelo crculo de rostos 
confusos.
Ningum se ofereceu.
- O qu? Ningum quer acompanhar o sumo sacerdote nesta rdua 
jornada? Posso ordenar a cada um de vs que v!
- Talvez agora seja melhor falarmos  parte - tornou a 
sugerir Pluell. Parecia brilhar de satisfao.
- No tenho mais nada a dizer-te! - Biorkis ergueu o seu 
basto e bateu com ele no cho de pedra.
- Como quiseres, irmo. Ento, no me resta seno informar os 
sacerdotes de Ariel das transgresses feitas pelo sumo 
sacerdote e aconselhar-me com eles.

187

Que transgresses? Podes diz-las... no tenho medo, Em toda 
a minha vida de sacerdote sempre fui fiel aos meus votos e ao 
meu deus.
- Obrigas-me a isso. Ouvi ento, sacerdotes - disse Pluell. 
fazendo um gesto de cabea para um sacerdote que se 
aproximara e que lhe estendeu um rolo. Pluell pegou nele e 
desenrolou-o vagarosamente, para que todos vissem. Em voz 
estridente e acusadora, o subsumo sacerdote comeou a ler uma 
lista de crimes imaginrios que Biorkis alegadamente cometera 
contra o templo e os seus votos. Os sacerdotes pareciam 
divididos; alguns aprovavam as acusaes, acenando com a 
cabea, e outros tinham no rosto expresses de espanto e 
descrdito.
Quando acabou de ler, Pluell virou-se para Biorkis:
- O que tens a dizer sobre estas acusaes?
- Que Azmel fique com as tuas acusaes! No so verdadeiras. 
Quem quer que me conhea, sabe-o bem. Mas parece-me que no 
interessa nada o que eu possa dizer. Tu j decidiste como  
que isto vai acabar. Podes continuar.
Pluell virou-se para a assembleia e disse, nos seus modos 
afveis e imperturbveis:
- Ouvistes com os vossos prprios ouvidos que ele no 
tenciona negar as acusaes. Portanto, s podemos fazer uma 
recomendao: que o Biorkis seja banido do sacerdcio e que 
um novo sumo sacerdote assuma os seus deveres. O biorkis deve 
ser expulso de entre ns. H aqui algum que esteja contra 
esta recomendao?
A sala ficou silenciosa como um tmulo. Ningum mexeu um 
nico msculo.
O tempo passou. Por fim, Pluell virou-se para Biorkis e falou 
com um ar decidido e calmo, numa voz perpassada por uma falsa 
tristeza:
- Tenho pena de que tudo acabe assim. Teria sido melhor para 
ti que te tivesses ido embora sozinho enquanto podias. Eu 
ter-te-ia poupado a esta indignidade.
- No me poupes, falso amigo! Partirei imediatamente, mas, 
antes, ouvi-me, sacerdotes de Ariel. - Fitou-os um por um. 
Muitos deles eram bons amigos que, envergonhados pelo seu 
silncio, desviaram os olhos do seu rosto escaldante. - O mal 
entrou esta noite neste templo. Se vs no o arrancardes e o 
expulsardes imediatamente, destruir-vos- um por um.

188

Em resposta a um sinal de Plueli, quatro guardas do templo 
avanaram com as suas tochas e agarraram nos braos de 
Biorkis.
- Vou-me embora - gritou o sumo sacerdote. - Mas no vos 
esqueais das minhas palavras. Uma sombra caiu sobre a terra. 
Em breve nenhum lugar ser seguro... nem sequer o Grande 
Templo de Ariel. No quereis segur-me e fazer o que tem de 
ser feito, pelo menos olha com olhos de ver para aquele a 
quem escolhestes.
"O povo do reino vai procurar a vossa proteco e implorar ao 
deus que os defenda. E vs no podereis faz-lo, pois as 
vossas preces no sero escutadas.
- Levai-o! - gritou Pluell. - Est outra vez a delirar.
Os guardas obedeceram; as grandes portas de madeira do templo 
j estavam abertas. O ar da noite soprou entre os sacerdotes 
reunidos, provocando-lhes um arrepio, como se quisesse 
lembr-los das terrveis previses de Biorkis.
Os guardas do templo desceram os longos degraus de pedra, 
carregando o seu anterior chefe no ar, e empurraram-no para o 
ptio. Biorkis deu alguns passos vacilantes e, depois, virou-
se para os seus acusadores, que se tinham espalhado pelos 
degraus para o verem partir. O ancio de cabelo branco ergueu 
o seu basto, que os guardas se tinham esquecido de lhe 
arrancar, e disse, numa voz cortante e dura como o ao:
- Aproxima-se o fim da idade em que vivemos. Salvai-vos por 
vs prprios, pois os deuses no vos ajudaro. Este templo 
no vai ficar de p!
Com estas palavras, atirou o basto para o cho, onde se 
quebrou em mil bocados. Depois, virou-se e desapareceu a 
coxear na noite.

CAPTULO XXIV

- Se os olhos e os ouvidos no me enganam, o acampamento do 
inimigo  naquele bosque. - Ronsard inclinou-se sobre a 
maaneta da sela e fitou a plancie arborizada que se 
estendia l em baixo e que, ao luar, parecia negra e 
sinistra.
- Bem podes apostar - replicou Theido. Tambm ele estava 
cansado e, para esticar os msculos doridos, arqueou as 
costas.
Os cavaleiros de Ronsard tinham desmontado e andavam de um 
lado para o outro, descontraindo as pernas. S Esme se 
mantinha to fresca como quando tinham recomeado a 
caminhada, de manh bem cedinho.
- Que rituais sero estes? - indagou Esme, ouvindo o terrvel 
estridor que lhes chegava do bosque. Os gritos trespassavam a 
noite como os berros dos torturados e dos moribundos.
-  difcil dizer, senhora. Mas talvez seja melhor para ns. 
Assim, podemos aproximar-nos enquanto eles esto entretidos 
com a sua folia selvagem.
- Se o Quentin e o Toli estiverem ali, havemos de os 
encontrar - disse Ronsard resolutamente. - Vamos? - Mexeu na 
espada embainhada; a lmina deslizou com toda a facilidade, 
lanando um claro prateado  luz da Lua. Depois, virou-se 
para Esme: - Senhora, seria um grande descanso para mim se 
ficasses aqui  nossa espera.
- Nada temas, senhor. Talvez preciseis dos meus parcos 
servios. O meu brao no  forte como o vosso, mas a minha 
lmina  cortante e mais rpida do que o dente da serpente.

190

- Como quiseres. No vou desencorajar-te. Parece-me bem que 
sabes tomar conta de ti. Portanto, segue-me e faz o que eu 
disser. Ronsard abanou as rdeas e gritou aos cavaleiros: - 
Montai! Vamos aproximar-nos do bosque em fila. Que as lminas 
e os escudos no se vejam. Vamos deixar os cavalos no bosque 
e seguimos a p para o acampamento. Se correr tudo bem, pode 
ser que consigamos fugir sem nos detectarem.
_ Meu senhor Ronsard - interrompeu um dos cavaleiros -, est 
algum ali no bosque. Ali... Ao longo daquela ravina, para l 
das rvores.
- Estou a ver' - replicou Theido. - So trs. Achas?... - 
Lanou a Ronsard um olhar esperanado.
- Pelo menos, vale a pena descobrir quem so. - Ronsard 
observou as trs figuras, que cavalgavam para fora do bosque 
a uma velocidade considervel e que no passavam de umas 
formas plidas flutuando sobre o mar cinzento constitudo 
pela erva que crescia mesmo acima da linha preta de um regato 
seco. - Acho que podemos encontrar-nos com eles ali. - 
Apontou com a mo enluvada para uma curva onde a ravina 
rodeava o sop de um monte. - Vamos. Vejamos quem assim foge 
desta gente horrvel durante a noite.

S a sua fora de vontade fazia com que Quentin se mantivesse 
agarrado  sela. Sentia-se esgotado e fraco. A sua fora 
fora-se esvaindo durante a fuga. Por isso, deixara de guiar 
Blazer e concentrava-se apenas em manter-se direito na sela. 
Sabia que no ia poder continuar por muito mais tempo: dali a 
pouco, teria de parar para descansar. Mas pensava que teria 
de se aguentar at ao nascer do Sol, pois nessa altura j 
estariam suficientemente longe e a paragem no os poria em 
perigo.
Portanto, agarrado  sela, deixava-se levar por Blazer, que 
seguia tilintando e balanando. Parecia que o seu crebro 
entorpecido entrara num sonho no qual montes, cu e bosques 
se tornavam os seus perseguidores, soltando atrs dele gritos 
de raiva e fria. Ele fugia atravs de uma nvoa cinzenta num 
cavalo que voava como o vento, mas no conseguia acabar com a 
perseguio. No seu sonho acordado, viu um exrcito surgindo 
nos montes e abatendo-se sobre o seu flanco. Com um barulho 
de trovo, os cavaleiros do sonho desceram para os

191

interceptar: quando se aproximaram, viu-lhes o rosto ao luar 
e sentiu na cara o bafo quente dos cavalos. Parecia magia.
Mas havia qualquer coisa de esquisito no sonho. Para o 
espantar. Abanou a cabea e tornou a olhar: o sonho 
continuava ali. Quentin fez um esforo para distinguir tudo 
com mais nitidez. Mas viu outra vez os cavaleiros, que 
desciam a encosta na sua direco.
- Toli! - gritou. cambaleando na sela e pondo o brao bom de 
lado. O jher lanou um olhar rpido por cima do ombro e 
deixou-se atrasar at ficar ao lado de Quentin. - Eles 
descobriram-nos! - berrou. Toli virou a cabea na direco 
que Quentin apontava e o seu olhar espantado confirmou 
imediatamente que no se tratava de um sonho. Estavam a ser 
perseguidos. Ento. lanou um assobio agudo, que fez o 
mordomo-mor dar meia volta, e todos os trs viraram 
imediatamente os cavalos para o outeiro que tinham ao lado.
Apoiados nas poderosas patas, os cascos de Blazer martelaram 
a terra macia, levantando-a para o cu. O cavalo esticou o 
pescoo e comeou a subir a encosta. Num esforo para manter 
o seu precrio equilbrio, Quentin deitou-se sobre o pescoo 
de Blazer. As patas dos cavalos dos desconhecidos troavam 
mais perto e pareceu-lhe ouvir um grito. Inclinando-se mais, 
olhou para trs e viu dois cavaleiros descendo a ravina 
baixa. Um outro saltou-a e continuou.
Durante este momento de desateno. a montada de Quentin deu 
um salto em frente e tropeou numa pedra mais saliente, 
atirando o seu cavaleiro para o lado e debatendo-se para se 
manter de p. Os dedos de Quentin, fechados com toda a fora 
em volta da maaneta, soltaram-se. e ele sentiu-se a deslizar 
para trs, por sobre os quadris do animal. O seu brao ferido 
ergueu-se sem vida e a mo boa tentou agarrar-se  brida. Mas 
no foi suficientemente rpido. Mesmo antes de saber o que 
estava a acontecer, deu um trambolho da sela e estatelou-se 
na encosta do outeiro.
O choque esvaziou-lhe o ar dos pulmes. De repente, a noite 
piscou com a luz de estrelas brilhantes, cujos raios 
cintilantes lhe atravessaram o crebro. Rolou, sem flego, 
tentando fazer o ar entrar-lhe novamente nos pulmes. 
Apoiando-se com esforo num joelho, puxou a capa, que se lhe 
enrolara  volta do brao. Com um sobressalto, percebeu que 
no tinha nenhuma espada nem nenhum punhal com que se 
defender.

192

Ouvindo algum gritar, olhou para o outeiro e viu Toli 
rodando o cavalo para ir em seu socorro. Mas j era tarde de 
mais. Quando se virou outra vez, deu com os olhos no primeiro 
dos seus perseguidores. O cavalo recuou e o cavaleiro baixou 
o olhar para ele.  luz plida da Lua, pareceu a Quentin 
reconhecer aquele rosto; havia nele alguma coisa de familiar, 
mas no tinha a certeza. Abanou devagar a cabea que quase 
lhe estourava, e ouviu atrs de si a sua montada a relinchar.
- Ests ferido? - inquiriu o cavaleiro, agigantando-se por 
cima de si. Quentin nem acreditava no que ouvia: uma lngua 
que conhecia. O cavaleiro inclinou-se e fitou-o de perto.
Sim, o rosto parecia-lhe conhecido, como um que vira num son 
h muito tempo. Mas era real e perscrutava-o atentamente, com 
olhos brilhando  luz suave.
- Quentin? Pelas barbas do deus, Quentin! - gritou o 
cavaleiro, saltando do cavalo.
Estonteado, Quentin abanou a cabea e passou a mo pela 
frente dos olhos.
- Quem s?
Ouviu um grito atrs de si:
- Theido!  verdade? - A voz pertencia a Toli, que, dali a 
pouco estava ao seu lado, abanando-o.
- Theido? Como .... ? - Quentin no conseguiu falar mais. 
Caiu para trs. Cobriram-no pesados vapores de escurido e 
foi perdendo rapidamente os sentidos. Ouviu muitos gritos e 
vozes e o som do galope dos cavalos. Debateu-se para 
continuar com os olhos abertos, mas as plpebras pesavam-lhe 
como chumbo e j no tinha foras para lutar. Pareceu-lhe que 
ficara leve como uma pluma, pois sentiu-se levantar como por 
uma rajada e voou nas asas do vento, que lhe soprou aos 
ouvidos.

CAPTULO XXV

Ao sentir uma mo fresca tocando-lhe na testa, Quentin 
despertou do sono mais profundo que jamais conhecera. Algures 
por cima dele, ouviu uma voz dizer:
- Vede! Voltou a si. Heoth no o quis!
Abrindo os olhos, viu um crculo de rostos que lhe sorriam. A 
bonita testa de Esme, cheia de rugas de preocupao, 
rapidamente se desanuviou.
- Parece que no consigo ver-me livre de ti - comentou 
Quentin, fazendo um esforo para se sentar. Ouviram-se risos 
a toda a volta e estenderam-se vrias mos para lhe dar umas 
palmadinhas nas costas.
- Ns sabamos que no ias conseguir fugir-nos por muito mais 
tempo - disse Ronsard. - Por Ariel,  bom ver-te de novo.
- Ronsard, Theido... Ainda devo estar a sonhar. Como  que 
nos encontrastes?
- Isto no  nenhum sonho, jovem senhor. Se no fosse esta 
dama - Ronsard fez um gesto de cabea na direco de Esme, 
sentada a seu lado -, teramos passado por vs, a caminho de 
Askelon, sem darmos por nada. E, se no te tivssemos 
encontrado, talvez no escapasses, porque ests muito 
debilitado.
- Tu voltaste - disse Quentin.
- Tinha de proteger os meus protectores, no achas? - 
replicou Esme. O sorriso dela pareceu aquec-lo por dentro. - 
Alm disso, como j tinha perdido uma escolta, estava 
decidida a no perder outra. - De repente, os seus olhos 
escuros ficaram marejados de lgrimas. -

194

Desculpa-me por te ter abandonado. Quando te vi puxado do 
cavalo quis ir em teu socorro. mas s consegui pensar na 
minha misso. Desculpa.
Toli enfiou a cabea no meio das que o rodeavam. O cheiro da 
comida que levava fez lembrar a Quentin a fome que tinha.
- Come, Kenta. Ns j comemos. Podemos falar enquanto 
dejejuas. - Toli pousou-lhe  frente uma tigela fumegante e 
Quentin atirou-se a ela, cheio de apetite.
- O Myrmior esteve a contar-nos a vossa captura. Tendes muito 
que lhe agradecer - disse Theido.
- Myrmior? - Quentin no conhecia aquele nome.
- Quer dizer que ele arriscou a vida para te tirar do 
acampamento inimigo e que tu nem sequer sabes o seu nome?
- No havia tempo para salamaleques. j bastava tentarmos 
manter-nos vivos. E mesmo assim...
- Mas eu tenho uma grande vontade de sobreviver. - A voz 
profunda e ressonante pertencia ao mordomo-mor. - Tenho muito 
prazer em conhecer-te, meu senhor Quentin.
- No sou o teu senhor, Myrmior.
-  mais do que isso - interveio Ronsard. -  o prprio filho 
do rei.
- O seu protegido - corrigiu Quentin.
- Protegido ou filho, vejo que escolhi bem a quem salvar. 
Daqui para a frente, estou s vossas ordens, senhores. 
Sentir-me-ei ofendido se no me permitirdes servir-vos como 
quiserdes. - Myrmior inclinou-se numa vnia e tocou na testa 
com as pontas dos dedos.
- J serviste suficientemente o Rei Drago. Poders escolher 
a tua recompensa quando chegarmos a Askelon e o rei Eskevar 
souber que salvaste os seus de uma morte certa.
- Isto tambm me conveio a mim, que fui preso contra minha 
vontade pelos terrveis Ningaal. Mesmo assim, o risco era 
pequeno. Myrmior sorriu abertamente para Quentin e 
acrescentou: - Sejam quais forem os deuses que governam esta 
terra, o facto  que abenoaram este aqui com os seus 
favores. Nunca vi um homem sobreviver  roda, e foi isso que 
me permitiu convencer Gurd a poupar-te a vida.
"Quanto a ti - continuou, virando-se para Toli -, a tua 
tentativa

195

quase custou a tua cabea e a minha. Mas aqui o Myrnior  
cheio de manhas. Consegui virar o bico ao prego, mas tiveste 
de superar a angstia de assistir  execuo do guarda e de 
temer a proximidade da tua.
- Pelo menos, no foi to grave como podia ter sido se eu 
fosse executado - retorquiu Toli.
- Como apareceste no meio dos... que nome lhes deste? 
Ningaal?
- O nome Ningaal significa o terror de Nin, o seu exrcito. A 
maneira como fui ter ao meio deles no  segredo nenhum, mas 
trata-se
de uma histria que prefiro contar ao vosso Rei Drago.
- Aposto que tens muito que contar - interrompeu Ronsard - 
mas o Sol j vai bem alto e  prudente pormos o maior nmero 
possvel de lguas entre ns e os Ningaal. O rei Drago 
aguarda-nos em Askelon e no podemos esquecer as terrveis 
notcias que temos para lhe contar. Teremos muito para 
discutir quando nos sentarmos juntos. Por ora, devemos chegar 
ao rei o mais rapidamente possvel.
- Tambm penso assim, bom amigo.
-  claro que o Quentin no pode montar. Se quiserdes, 
ficarei com ele e partiremos amanh, quando ele estiver mais 
capaz de suportar a jornada - ofereceu-se Esme.
Ronsard coou o queixo:
- No me lembrei de que ele no ia ser capaz...
- Eu consigo montar. No estou assim to mal. - Para provar 
as suas palavras, Quentin debateu-se para se pr em p, 
vacilou hesitantenente, deu dois passos e cambaleou para a 
frente. Theido estendeu a mo para o amparar, mas ele caiu 
redondo no cho.
-  o teu brao, no ? No o consegues mexer.
Quentin ps-se de joelhos e embalou o brao ferido:
- Isto passa. No  nada.
-  o suficiente. Porque  que no disseste nada? - Theido 
inclinou-se para observar o brao magoado, que estava 
inchado, sem cor e quente.
- Bem, aqui no podemos fazer nada, mas o aspecto do brao 
no me agrada. Se calhar, o Toli e a Esme deviam ficar 
contigo, mas tenho de confessar que ainda gosto menos dessa 
soluo.
- No fica ningum e o meu amo tambm no precisa de montar

196

- disse Toli. - Ronsard, manda dois cavaleiros buscar dois 
vidoeiros novos para fazer uma deroit.
- Excelente! - gritou Ronsard. - Eu j devia saber que havias 
de ter uma soluo: uma padiola. Os meus cavaleiros iro 
buscar tudo aquilo de que precisares.
Apesar dos protestos de Quentin, que se iam tornando mais 
fracos com o passar do tempo, a padiola foi construda ao 
estilo dos nmadas jher. A deroit, acabada, foi amarrada a 
Blazer e. antes de o Sol ter percorrido o espao 
correspondente a uma hora, os viajantes tornaram a partir 
para Askelon. Esme montava Mazer. Quentin resmungava por ser 
transportado como simples bagagem, mas, de si para si, 
agradecia a Toli ter-lhe proporcionado uma maneira de 
descansar durante a viagem.  que, apesar do que dissera a 
Theido, o seu brao preocupava-o muito, pois no conseguia 
mex-lo, de facto, at nem o sentia. Lembrava-se muito bem de 
ter sentido qualquer coisa a partir-se quando cara no 
matagal, na noite da fuga mal sucedida; nessa altura, deixara 
de conseguir mexer o brao ou de sentir fosse o que fosse 
desde o ombro s pontas dos dedos.

Os viajantes, cansados, deixaram para trs a floresta que 
haviam percorrido durante todo o dia. Quando saram de 
debaixo dos ramos das rvores e entraram no caminho de terra 
batida que os levaria s portas de Askelon, o Sol declinava 
envolto numa neblina escarlate, por entre as nuvens em fogo.
- Esta noite vamos dormir em camas feitas de lavado - disse 
Ronsard. - E vamos jantar no salo do Rei Drago.
- Oxal o fizssemos com o corao mais leve - suspirou 
Theido. - Como lamento as novas que lhe levamos! So um fardo 
que no desejo a ningum.
- Creio que tambm ns teremos de o carregar - cismou 
Ronsard.
Os viajantes descreveram uma curva da estrada e chegaram  
beira de um vale largo e pouco fundo. Do outro lado, ficava a 
grande cp de rocha sobre a qual se erguia o castelo de 
Askelon, que o anoitecer transformava numa cidade de luz. A 
comprida sombra que se estendia atravs do vale ainda no 
chegara  rocha que suportava Askelon; o castelo surgia da 
sombra prpura e luzia  luz cor de rubi. Parecia uma

197

jia com espiras e torres e graciosos torrees empoleirados 
nos seus altos muros.
Como  lindo! - exclamou Esme, com a voz respeitosa e sem 
flego, devido  admirao. - Nunca sonhei---
-  o palcio de um deus! H ali seres mortais? - comentou 
Myrmior. - Nem as lendas que o descrevem conseguem captar o 
seu brilho.
Quentin, pesadamente deitado na deroit, estendeu o pescoo 
para ver os familiares contornos do seu amado Askelon, que 
nunca se cansava de ver e que conseguia sempre comov-lo 
estranhamente.
- Sim,  maior do que as histrias que os homens contam dele. 
Que palavras conseguem descrev-lo completamente? - observou, 
contemplando orgulhosamente a magnfica estrutura, que o azul 
cada vez mais escuro do cu crepuscular tornava rsea. Toli, 
que cavalgara sempre ao lado do seu amo, fitava 
impassivelmente a jia cintilante que se erguia do outro lado 
do bonito vale.
- O que dizes, Toli? Estamos quase em casa.
Toli no olhou para Quentin quando finalmente falou, numa voz 
distante:
- Parece-me que agora est to longe como quando comemos 
esta jornada.
Como de costume, Toli via qualquer coisa muito diferente dos 
outros. E Quentin j aprendera que no valia a pena tentar 
descobrir o que o Jher queria dizer com as suas afirmaes 
msticas, Ronsard, que seguia  cabea, espicaou a montada. 
Os outros seguiram-no e todos comearam a descer a suave 
encosta. Os penugentos tufos de neblina da noite erguiam-se 
no vale. O ar, parado e silencioso, era como um doce suspiro 
sobre a terra. Ao contemplarem o vale, que as searas dos 
camponeses iam tornando verde, e ao percorrerem com o olhar a 
larga plancie j envolta nas sombras da noite que se 
estendia para leste, nenhum deles poderia fazer uma descrio 
que desse uma imagem to perfeita de paz.
De toda aquela imobilidade surgiu o pungente trinado de 
despedida de uma ave que esvoaou para o ninho. Com ele, a 
tristeza abateu-se sobre o grupo de viajantes. Pareceu a 
Quentin que fora pronunciada alguma palavra final e que 
Askelon nunca mais voltaria a ser o mesmo.

CAPTULO XXVI

- Vieste mesmo a tempo, meu rapaz. - De olhar carregado, 
Durwin examinava o brao inchado de Quentin. - Parece que o 
osso do brao se partiu e comeou a soldar.
- Isso  bom, no ? - perguntou ansiosamente Bria, que, 
aninhada contra Quentin, segurava a sua mo esquerda, 
enquanto o eremita lhe apalpava o brao direito ferido. 
Quentin tirara a tnica suja e enrolara  volta do peito um 
manto macio. Tinha o brao pousado numa almofada colocada 
numa mesa baixa que fora empurrada at  sua cama.
- Vou ficar bom, no vou, Durwin? - Quentin obrigou-se a 
formular a pergunta que mais temia fazer, mas Durwin ignorou-
a e respondeu antes  de Bria.
- Parece-me que no  bom, senhora. Geralmente, , mas desta 
vez no. Tal como est, o brao nunca ficar em condies.
- Oh!
Durwin apressou-se a acalm-los aos dois:
- Mas j tive casos assim. O brao vai ficar bom... - fez uma 
pausa, para avaliar o efeito das palavras que ia proferir a 
seguir - mas tenho de o partir outra vez e de o ajustar como 
deve ser.
Quentin estremeceu e formou-se uma lgrima no canto do olho 
de Bria.
- Di-me ver-te sofrer, meu amor - disse ela.
- A dor no  muita. Ao princpio, sim, mas agora no. Eu 
aguento bem.
Durwin. voltou a inclinar-se e a examinar-lhe o brao e o 
ombro.

-  isso que me preocupa, Quentin. Devia doer-te... e muito. 
Nunca soube que fosse de outro modo. Tenho medo de que aqui 
haja qualquer coisa mais grave do que um osso partido. O qu, 
no sei.
Ouviu-se bater  porta e Theido entrou no quarto.
- Ento, Durwin? A asa do nosso jovem guerreiro vai voltar a 
voar? - Mas, ao ver a expresso preocupada de Durwin, 
acrescentou: - Se falei de mais, peo desculpa.
- No, no. Tens razo - redarguiu Durwin. - Estou a ser um 
velho tonto. Claro que o brao vai ficar bom. Vamos p-lo j 
direito.
-j? - Quentin fechou os olhos.
-  melhor.
- Pelo menos, depois do jantar - sugeriu Theido. - A refeio 
est a ser servida no salo.  melhor fazer as coisas de 
barriga cheia, no achas?
- No h mal nenhum. Tinha-me esquecido de que fizeste uma 
longa viagem.  verdade, vai haver uma excelente refeio 
para comemorar o vosso regresso. Podemos esperar at depois 
de comermos.
- Ento, vamos j - volveu Theido. - Eu, pelo menos, preciso 
de alegria hoje  noite. Vai haver pouca nos dias que esto 
para vir.
- Isso quer dizer o qu? - perguntou Durwin.
- Eskevar anunciou um conselho de guerra. Comea amanh.
- To cedo?
Theido fez gravemente que sim com a cabea e saiu.
Durwin e Bria ajudaram Quentin a levantar-se, puseram-lhe o 
brao ferido ao peito e envolveram-no com a capa. Depois, 
encaminharam-se juntos para o grande salo do Rei Drago.
O salo, iluminado por uma centena de tochas douradas, era 
ainda maior e mais esplndido do que Quentin se lembrava. 
Parecia-lhe que tinham passado muitos anos desde a ltima vez 
que estivera ali. linpregnado de uma majestade dramtica que 
despertava a emoo, era o seu lugar preferido em todo o 
castelo e intrigava-o profundamente desde a primeira vez que 
o vira, ainda em criana.
Os estalidos da fogueira ouviam-se na enorme lareira, e as 
chamas brilhavam nas filas de colunas de pedra preta 
dispostas a todo o comprimento do salo. Grandes mesas postas 
a partir do centro terminavam na plataforma onde se erguia a 
mesa do rei, sobre a qual pendia graciosamente

201

um baldaquino azul debruado a prateado, com o braso do rei.
O grande salo estava cheio de gente. Criados passavam 
apressadamente aqui e ali, transportando enormes pratos de 
carne, peixe, aves, veado, porco e dezenas de espetadas. 
Cavaleiros e senhores, alguns com os seus falces nos braos, 
passeavam com as suas damas. Menestris vagueavam por entre a 
multido ou tocavam para grupos mais pequenos, quando lhes 
pediam. Donzelas com flores no cabelo namoriscavam 
recatadamente os jovens que passavam. O salo era uma 
twbulncia de cor, uma sinuosa corrente de alegria.
Quentin sentiu o corao inchado ao observar o esplendor do 
salo do Rei Drago.
Quando entraram os trs, dois criados aproximaram-se 
rapidamente deles com uma bacia da forma de um drago, que 
continha gua quente perfumada com rosas. Quentin mergulhou 
nela a mo boa e Bria lavou-lha e limpou-lha com uma toalha 
de linho macio que um dos criados lhe estendeu. Depois de 
Durwin ter lavado as mos, os dois jovens servos afastaram-se 
depressa para irem oferecer os seus servios a outros 
convidados recm-chegados.
Mesmo quando se juntavam  corrente dos joviais convidados, 
as trombetas soaram do outro lado do salo.
- Chegmos mesmo a tempo' - disse Durwin. - Vamos para os 
nossos lugares.
Com Quentin e Bria atrs de si, encaminhou-se imediatamente 
para a mesa alta. Toli e Esme juntaram-se-lhes quando subiam 
o estrado. Os servos davam corridinhas, enchendo as taas de 
nix de vinho e cerveja. Esme quase brilhava com o seu 
vestido coberto de jias. Quentin pensou que, ao menos 
daquela vez, tinha o ar da princesa que de facto era.
- Isto  lindssimo - arrulhou ela. - Bria, foste muito 
amvel em me emprestares um dos teus lindos vestidos. Depois 
de tantos dias passados a cavalo,  bom sentir-me mulher 
outra vez. - As duas jovens riram-se. Olhando-as, Quentin e 
Toli sorriram. - O Toli tem andado a mostrar-me o castelo e 
estou muito impressionada. j ouvi muitas histrias sobre a 
riqueza de Askelon, mas isto nem por sombras se lhes compara.

202

- s muito bem-vinda, Esme - disse Bria calorosamente. - Um 
dia destes, temos de conversar as duas. Parece-me que vamos 
ser muito boas amigas.
- Gostava que assim fosse. Cresci no meio dos meus irmos, e 
na casa do meu pai falta um toque feminino. Quando acabar o 
que vim fazer, talvez me demore aqui contigo.
- Isso dar-me-ia muito prazer.
- Parece que as nossas duas jovens so muito parecidas, no 
achas, Toli? Enquanto as senhoras cavaqueavam alegremente, 
Quentin aproximara-se do seu servo.
- As nossas jovens? - Toli corou subitamente.
- A Bria e a Esme, claro. Pensas que no vejo a maneira como 
olhas para a Esme? j vi essa cara de parvo no dia em que a 
pescmos.
- No  do brao que no ests bom;  da cabea. No sabes o 
que dizes; se calhar, eu devia chamar o Durwin. para te 
levar. Esta atmosfera perturba-te o juizo.
- A minha cabea est muito bem e os meus olhos no se 
enganam, meu bom amigo.
Toli corou outra vez. Ouviu-se o ltimo toque das trombetas, 
e Bria disse:
- Sentemo-nos. Toli e Esme, tendes de vos sentar ao p de 
ns. Eu trato disso.
Depois de uma certa agitao, sentaram-se todos juntos. 
Quentin olhou para o outro lado da mesa, para l dos pratos 
de carne e pastis, dos trinchos de peltre e prata, dos 
cestos de po e das terrinas de legumes, e examinou os 
convivas que partilhavam a mesa principal. Sentado com 
Myrmior de um lado e Theido do outro, Ronsard viu o seu olhar 
e acenou-lhe, mas, dali a pouco, j estava outra vez na 
conversa com o cavaleiro magro e alto que tinha ao lado. 
Durwin encontrava-se sentado  esquerda de Toli e  direita 
do rei, cuja cadeira delicadamente embutida permanecia vazia. 
Ao lado encontrava-se a cadeira da rainha, mais pequena mas 
igualmente elegante e tambm vazia.
Quentin espreitou por trs do baldaquino, esperando que o rei 
surgsse a qualquer momento. Mas nesse instante o silncio 
caiu sobre o barulhento salo. As trombetas produziram um som 
floreado e o rei

203

Eskevar e a rainha Alinea entraram e atravessaram lentamente 
o salo at  mesa principal, parando de vez em quando para 
saudarem os seus convidados.
Quentin sentiu-se muito aliviado ao ver que Eskevar, embora 
srio e magro, andava com uma certa vivacidade e com a cabea 
bem direita; a coroa rodeava-lhe a cabea com um penetrante 
aro de ouro vermelho. Pelo menos, a recente doena do rei 
dera-lhe um aspecto de fora, determinao e invencibilidade.
O casal real subiu para o estrado e, antes de ir ocupar o seu 
lugar, parou perto de Quentin, do outro lado da mesa.
- Alegra-me ver-te outra vez a salvo debaixo do meu tecto, 
meu filho. - O rei pousou as mos nos ombros de Quentin. - 
Deixa-me repetir que lamento muito o que te aconteceu.
-  sempre uma grande alegria sentar-me  mesa convosco, 
senhor. j falmos que chegue das provas que eu e o Toli 
tivemos de passar. E tambm sei que, daqui a pouco, o meu 
brao vai ficar como novo.
- Que boas novas, Quentin! - exclamou Alinea, sorrindo com um 
calor que os fez sentir a todos bem-vindos e  vontade.
- Anda ter comigo hoje  noite, depois dos jogos, para nos 
sentarmos a conversar - disse Eskevar. Quentin ia a falar, 
mas Alinea antecipou-se-lhe rapidamente.
- Meu senhor, esqueces-te que os jovens tm coisas mais 
divertidas a fazer numa noite de Vero to agradvel do que 
sentarem-se num quarto a conversar.
- Claro! - Eskevar riu-se. - Desculpa.  verdade, tinha-me 
esquecido. Temos tempo para conversar. Diverti-vos, meus 
jovens amigos. Ver-nos-emos amanh.
Quando se afastaram, Bria inclinou-se para Quentin e 
murmurou:
-  a tua primeira noite aqui e eu tinha medo de que fosses 
prisioneiro do meu pai. - Os seus olhos verdes mergulharam 
nos dele. - Oh, nunca mais voltes a partir!
- No h lugar onde eu mais quisesse estar do que aqui 
contigo. Mas parece-me que, embora Eskevar no tenha planos 
para mim, tem-nos o Durwin. j te esqueceste?
- Meu pobre querido, desculpa-me. Sou muito egosta. Quero 
ter-te

204

sempre para mim. Mas no podemos dar s uma voltinha pelo 
jardim?  to bonito e eu tive tantas saudades tuas!

Uma volta pelo jardim deu lugar a outra e depois a outra. Os 
dois jovens casais tinham partido juntos, mas Quentin no 
tardou a perder de vista Toli e Esme entre os carreiros 
sinuosos.
O ar estava brando, quente e cheio do perfume das plantas e 
das flores, cujos matizes claros brilhavam docemente ao luar. 
Tinham falado de nada, dito tolices e rido das suas 
brincadeiras ntimas, mas, naquele momento, passeavam em 
silncio.
- Foi muito mau? - perguntou Bria de repente, de uma maneira 
abstracta, que fez Quentin pensar no que ela quereria dizer.
- Ser capturado? Foi. Espero nunca mais passar por aquilo.
- H outro tipo de cativeiro que tambm  terrvel.
- E qual ?
- No saber. Quando algum que amamos est longe e no 
podemos ir ter com ele nem estar com ele, quando no sabemos 
o que pode acontecer-lhe... eu estava preocupada contigo. 
Sabia que tinha acontecido uma coisa horrvel.
Continuaram a andar sem voltarem a falar durante muito tempo. 
Bria soltou um suspiro profundo e Quentin murmurou:
- Tens mais alguma coisa, meu amor. O que ? Diz-me.
- Sinto-me envergonhada por o pensar - admitiu Bria 
relutantemente. - Sei que vai haver uma guerra...
- Quem te disse isso?
- Ningum, e tambm no  preciso que ningum mo diga. Sei-o. 
Desde que voltastes que s vejo o olhar carregado do Theido. 
Quanto ao Ronsard, passa a vida a mandar mensageiros para 
trs e para a frente. Como tu tambm no o negas, deve ser 
assim.
-  verdade.  muito possvel que haja guerra. - concordou 
Quentin.
-  quase certo - corrigiu ela. - No quero que vs. Como 
ests ferido, ningum te obrigar a ir. Podias ficar aqui 
comigo.
- Sabes to bem como eu que isso no  possvel.
- Sei-o bem de mais. H muito que as mulheres da minha 
famlia mandam os seus homens para a guerra... algumas at 
cavalgaram ao

205

seu lado.  por isso que me sinto to envergonhada, No quero 
saber de nada disto... s que estejas em segurana.
- h, Bria! Conheo-te to mal! Tens uma vontade de ferro e 
um esprito que treme por tudo o que acontece nos cus. No 
duvido de que fosses capaz de lanar mil navios e de mandar 
legies inteiras para a guerra... e, no entanto, tremes s de 
pensar na partida de um simples soldado,
-  verdade, como me conheces mal, se pensas que, para mim, 
no s mais do que um soldado! - A voz saiu-lhe magoada e 
zangada.
Quentin, pouco satisfeito por ter feito um comentrio to 
desajeitado, ia fazer mais uma tentativa para a acalmar, 
quando um berro de Durwin troou atrs deles.
- Ests a! Bem me queria parecer que te encontraria aqui, no 
nico lugar onde os namorados podem estar respeitosamente a 
ss.  natural que queiras adiar o que te espera, mas quanto 
mais depressa melhor para ti.
- Embora o teu remdio no me agrade l muito, tens razo, 
Durwin. Vamos. - Virou-se para Bria com o intuito de lhe 
pedir licena para se retirar.
- Eu tambm vou. Pode ser precisa a mo de uma mulher. Alm 
disso, se no tiveres ningum ao p de ti, Durwin, podes 
partir o brao que est bom.
- Por favor! - gritou Quentin, fingindo-se horrorizado. -  
do meu brao que ests a falar. Tem tento no que dizes! - 
Bria soltou uma gargalhada, Quentin ps-se srio, e 
afastaram-se os trs.

CAPTULO XXVII

- Quentin, ests a dormir? - Toli aproximou-se 
silenciosamente do leito alto e amplo no qual descansava o 
seu amo. Quentin abriu os olhos quando Toli chegou ao p de 
si.
- No, s a descansar. - Olharam os dois para o brao ligado 
de novo, com talas feitas de lascas de osso e envolto em 
tiras de linho lavado.  volta do brao, que tinha pousado no 
peito, haviam-lhe posto uma ligadura verde, para condizer com 
a capa.
- Chegou o momento?
- Chegou. O conselho vai comear daqui a pouco. Queres que v 
em vez de ti?
- No. Sinto-me muito melhor. Vamos os dois. j chegou toda a 
gente? - Quentin soergueu-se e passou as pernas para fora da 
cama. Toli ps-lhe a mo por baixo do brao e ajudou-o.
- Os senhores das terras planas ainda no chegaram, mas  
natural que venham atrasados. Tm uma longa jornada pela 
frente. Mas o rei Eskevar acha que  melhor no adiar nada.
"Os outros, ou j esto aqui ou vo chegar em breve. j vi o 
Rucid, o Dilg, o Benniot e o Fincher, o Wertwin, o Ameronis e 
o Lupollen.
- Chegam para ratificar qualquer deciso que o rei possa 
tomar. Mas acredito que no haver oposio.
- No estejas muito certo disso. Mensandor est em paz h 
muito tempo, e os homens amolecem. Alguns vo querer evitar o 
conflito a qualquer preo.
- Ento, temos de os fazer ver que  impossvel. - Quentin 
olhou

208

tristemente para o amigo. - Toli, sabes muito bem que no 
gosto da guerra. -Mas vi o suficiente para saber que teremos 
de a enfrentar, quer queiramos quer no. Para esta terra 
permanecer livre, no temos escolha.
Saindo dos aposentos de Quentin, encaminharam-se para a 
abobadada cmara do Conselho, na torre norte, passando pelo 
trio murado, onde, por vezes, o rei fazia viglias, quando 
queria meditar em assuntos mais graves. O trio, inundado de 
sol, estava limpo e fresco.
Ao entrarem, viram Theido e Ronsard, que discutiam 
apaixonadamente um com o outro e que lhes acenaram.
- Quentin! Parece que o Durwin. no te poupou. Como te 
sentes?
- Muito bem. Ele queria dar-me uma poo para eu ficar na 
cama, mas recusei. O tempo j  um bom elixir.
- Conheces o senhor Wertwin? - Theido apresentou o homem que 
estava com eles.
- Tem umas histrias interessantes para contar no Conselho 
acrescentou Ronsard.
- Pois, as tuas terras ficam a sul daqui, no ? - perguntou 
Quentin.
-  verdade. Para l de Pelgrin, acima de Persch. - O homem 
sorriu calorosamente e Quentin reparou que lhe faltava um 
dente de baixo, o que, juntamente com o rosto de pele dura e 
batida pelas intempries, lhe dava a vigorosa aparncia de um 
tenaz combatente.
- Senhor, no leves a mal a minha pergunta, mas como 
conseguiste chegar to cedo? Um mensageiro precisa de dois 
dias para chegar at ti.
- Normalmente, sim. Mas eu j estava a caminho... como dizia 
ainda agora ao Theido e ao Ronsard.
Quentin nem precisou de perguntar a razo da viagem de 
Wertwin, mas reparou na sua oportunidade. Conversaram durante 
mais algum tempo, at que um pajem surgiu da entrada da 
torre, atravessou o ptio e lhes pediu que entrassem e 
tomassem os seus lugares.
Seguiram em fila para dentro da torre e subiram um curto 
lano de escadas em espiral, at um andar superior. Uma luz 
difusa entrava pelas finas seteiras, iluminando a estreita 
passagem que dava para uma grande cmara redonda de soalho 
polido. As janelas, escancaradas para deixarem entrar a luz 
do Sol, davam  cmara um aspecto aberto e arejado,

209

quase fazendo esquecer que a rodeavam paredes de cinco metros 
de espessura.
No meio da sala encontrava-se um crculo de cadeiras, uma 
para cada membro do Conselho. Mas havia outras. "Quem. ir 
ocup-las?", pensou Quentin. Por trs de cada cadeira via-se 
um estandarte com as armas e o braso de cada participante. 
Alguns membros do Conselho j estavam sentados e, por trs 
das suas cadeiras, encontrava-se um escudeiro ou um pajem, 
pronto a acudir  vontade do seu amo. Outros membros do 
Conselho tinham-se afastado e, de cabeas juntas, conversavam 
em voz baixa; por toda a sala se ouvia o zunzum das suas 
conversas.
Quentin encaminhou-se para a sua cadeira, marcada com o seu 
braso: uma espada em chamas por cima do emblema de um 
pequeno drago. Quando o viu, sorriu de si para consigo. S 
via a sua divisa quando estava em Askelon. Ao lado da sua 
cadeira encontrava-se a de Tol, cujo emblema era um veado 
branco correndo num campo verde. Depois, identificou o de 
Ronsard: uma clava e um malho cruzados e erguidos por uma mo 
enluvada. O de Theido reconhecia-se logo: um falco preto de 
asas abertas. Havia outros que Quentin nunca vira e vrias 
cadeiras que nem sequer tinham estandarte.
O crculo era constitudo por quinze cadeiras, mas havia 
mais, encostadas  parede, caso viessem a ser necessrias. Um 
a um, os restantes membros do Conselho tomaram os seus 
lugares e a sala ficou silenciosa. Todos esperavam a entrada 
do rei.
Passado pouco tempo, uma porta lateral que se abria para uma 
cmara privada girou nos seus gonzos de ferro e Durwin surgiu 
sem cerimnia, seguido pelo rei. "Tem um aspecto to 
cansado!", pensou Quentin. "No  rei para encorajar os seus 
nobres a pegarem em armas."
Eskevar encaminhou-se para a sua cadeira e Durwin sentou-se 
na que estava ao seu lado, e que no tinha nenhum estandarte. 
O rei comeou imediatamente:
- Meus nobres amigos, obrigado por terdes vindo. - Olhou um a 
um todos os que se encontravam no crculo. - O corao pesa-
me com o pensamento do que deve ser feito hoje. A guerra no 
me  estranha e no sou cobarde. Alguns de vs estivestes 
comigo em muitas campanhas gloriosas e noutras onde no houve 
glria para nenhum dos lados.

210

"Os homens prudentes no buscam a guerra, que no traz nada 
bom. Mas os homens de valor no a evitam quando so chamados 
a defender a sua ptria de inimigos rapaces.
" este o caso presente. Mensandor est a ser invadida. Neste 
momento, exrcitos estrangeiros incendeiam as nossas cidades 
da costa meridional. As gentes dali no tm senhores que as 
protejam; por isso fogem para os montes e para as montanhas.
Esta ltima afirmao provocou um burburinho de surpresa e 
indignao entre os nobres ali reunidos. Lupollen, cujas 
terras ficavam no norte, abaixo de Woodsend, elevou a voz 
acima das outras e perguntou:
- Que inimigo  esse? No sei de invaso nenhuma.
Depois de todos terem voltado a acalmar-se, o rei respondeu:
- Como tinha certas suspeitas, mandei o comandante-chefe e o 
nobre Theido, um amigo em quem deposito toda a confiana, 
tentarem descobrir a origem das minhas preocupaes. Eles vo 
dizer-vos o que descobriram.
Ronsard foi o primeiro a falar:
- Meus senhores: acompanhados por quatro cavaleiros, eu e o 
Theido dirigimo-nos primeiro para sul. No vimos nada de 
anormal at chegarmos ao desfiladeiro martimo que fica 
abaixo de Persch, onde encontrmos um grupo de aldees que 
fugia para norte pela calada da noite.
-Estes aldees falaram-nos de um inimigo que se movimentava 
para norte, ao longo da costa. Tambm nos disseram que 
Halidom tinha sido completamente destruda. Por isso, 
resolvemos ir a Halidom ver com os nossos prprios olhos a 
veracidade desta histria. Os aldees pareciam aterrorizados 
e talvez estivessem a exagerar.
- Halidom, estava mesmo destruda? - perguntou um dos 
senhores.
- Estava. De Halidom s existia um bocado de terra 
chamuscada.
- O qu? Deves estar a brincar.
- De maneira nenhuma. - A voz pertencia a Theido. -  como 
ele disse. E no foi s Halidom. Illem tambm desapareceu.
- Mas no viste esse inimigo?
- No vimos inimigo nenhum, mas apenas um sobrevivente da 
destruio, que morreu  nossa frente.
- Isto  ridculo. Queres que acreditemos... - vociferou 
Lupollen.

211

Acredita no que quiseres, senhor - cortou Ronsard. S dizemos 
o que os nossos olhos viram.
- Devo dizer-vos que estou consternado com estas novas, Vossa 
Majestade - disse Ameronis. - Parece impossvel! H mais de 
dez anos que estamos em paz e h muito mais que um inimigo 
no ousa pr os ps no solo de Mensandor. Estamos perante um 
grupo de assaltantes que aterroriza as aldeias? Isso pode ser 
atalhado imediatamente e no  preciso nenhum conselho de 
guerra para o ratificar.
-  verdade - concordou Rucid. -,  como quando os Vrothgar 
subiram o Plinn de Baixo e entraram nas Terras Selvagens. 
Logo que tiveram quem se lhes opusesse, partiram bem 
depressa.
Eskevar levantou as mos a pedir silncio.
- Por favor, meus compatriotas, se eu achasse que um resoluto 
corpo de cavaleiros bastava para deter esta ameaa, t-lo-ia 
posto imediatamente em marcha. Mas tenho razes para 
acreditar que o perigo que ora enfrentamos  maior do que o 
representado por uma mo-cheia de brbaros assaltando o nosso 
gado e as nossas searas. - Fez um aceno de cabea para 
Wertwin.
- Nobres amigos, vim aqui hoje de minha livre vontade e 
encontrei o mensageiro do rei no caminho. Concordo com o rei 
Eskevar: isto merece ser considerado com muita seriedade. H 
talvez mais de quinze dias que recebo nas minhas defesas um 
considervel nmero de refugiados. Alguns de perto, de 
Persch, e outros de longe, de Dom: aldees, mercadores, 
camponeses. Chegaram pedindo refgio e proteco contra um 
terrvel inimigo que os atacou... na verdade, diga-se que 
poucos deles o viram.
Rucid desafiou-o em voz alta:
- No  nada estranho que uns poucos de camponeses se agitem 
sem razo nenhuma. O facto de ningum ter visto este inimigo 
temvel e misterioso prova bem que, se existe, no passa de 
um bando de rufies que pode ser esmagado de um s golpe. - 
Quando Rucid. acabou de falar, houve murmrios de aprovao e 
um acenar de cabeas em sinal de assentimento.
- Eu vi este inimigo! - disse Quentin ousadamente. Todos os 
olhos se viraram para ele. - E posso dizer que no  um mero 
bando de rufies ou de brbaros em busca de carne e de 
cereal. Eu e o Toli

212

fomos capturados em Illem, na noite em que esta cidade foi 
saqueada e incendiada.
Esperou que as suas palavras assentassem.
- Estivemos presos durante dois dias, e s fugimos com a 
ajuda de um oficial do prprio inimigo. - Fez uma pausa, para 
medir cuidadosamente as suas palavras.
"O que vimos naquele acampamento chegou-nos para perceber que 
o exrcito de Nin no  nenhuma tribo de ladres brbaros nem 
um punhado de assaltantes em busca de pilhagens. Os Ningaal 
so um exrcito altamente treinado e disciplinado, que est a 
marchar contra toda a Mensandor.
- No acredito! - gritou Lupollen iradamente. - Se tal 
inimigo existisse, com certeza que o saberamos.
- , obviamente, de uma astcia inacreditvel! - invectivou 
Ameronis sarcastica e friamente.
- Acreditai! - A voz aguda e cortante pertencia a uma mulher. 
Todos os nobres se viraram ao mesmo tempo nas cadeiras, para 
verem quem se atrevia a invadir a cmara do Conselho do Rei.
Quentin viu Esme de p em frente da porta da antecmara. A 
jovem entrara sem ter sido detectada e ouvira o que fora 
dito.
- Quem  esta mulher, Vossa Majestade? Mandai-a embora! O 
conselho de Guerra no  lugar para mulheres. - Ouviram-se 
outros protestos de natureza semelhante.
- Meus senhores, ouvi-a. Fui eu que lhe pedi para vir at 
aqui e, j agora, podemos ouvir a sua histria. Continua, 
senhora, mas, primeiro, deixa-me informar esta assembleia de 
que est perante a princesa Esme, filha do rei Troen de 
Elsendor.
Esme, com toda a aparncia da princesa que, de facto, era, 
com um fino aro de prata na testa e envolta num vestido 
escarlate-escuro, sem dvida pertencente a Bria, aproximou-se 
da cadeira do rei e enfrentou o Conselho. O cabelo escuro 
caa-lhe em anis at aos ombros e os seus olhos pretos 
cintilavam com uma chama intensa.
- Vim a Askelon por ordem do meu pai, para fazer um aviso e 
pedir ajuda. O que hoje ouvi faz-me temer pelas nossas duas 
terras.
- j esta Primavera ia adiantada quando um dos barcos do meu 
pai foi atacado no mar, mas conseguiu repelir o atacante e 
regressar ao

213

porto. Troen mandou que descobrissem quem era este inimigo e 
ordenou ao comandante da sua embarcao pessoal que 
procurasse e enfrentasse o pirata. O navio nunca mais voltou, 
mas a resposta veio na mesma: dois dias mais tarde, um barco 
de pesca avistou uma centena de barcos inimigos na nossa 
costa meridional. O meu pai mandou a frota ao seu encontro; 
os meus irmos assumiram o comando dos nossos barcos. Eu fui 
mandada para aqui com o aviso de que um grande e poderoso 
inimigo se levantara e se apoderaria das nossas terras. E 
tambm vim pedir ao rei Eskevar que nos ajude em tempo de 
necessidade.
Depois da narrativa de Esme, ningum disse nada. Por fim, o 
rei Eskevar perguntou:
- Ento? No tendes nada a dizer relativamente a estas novas?
"Embora eles no acreditem na minha histria, tm de 
acreditar na dela", pensou Quentin. Esme falara com tanta 
fora e determinao!
- Contado por ti, senhora, parece um conto muito convincente. 
Mas queres dizer-nos que acreditas que o suposto inimigo que 
temos dentro das nossas fronteiras  o mesmo que enfrentou a 
frota do teu pai? Acho isso muito pouco provvel. - Com este 
discurso, Ameronis ganhou um acenar de cabeas, em sinal de 
assentimento.
Eskevar teve uma exploso de ira:
- Pareces inclinado a repudiar quaisquer provas que te 
apresentemos. Porqu, Ameronis?
Ameronis replicou friamente:
- H muitos anos que o reino est em paz. No quero ver 
desfazer-se assim to facilmente esta paz ganha  custa de 
tanto esforo. Eu, pelo menos, no vejo razo para reunir 
tropas e enfrentar um inimigo que ningum viu e cujas 
intenes so inexplicveis.
- Ah! Por fim, chegamos ao mago da questo! - disse o Rei 
Drago, com a testa e o rosto muito vermelhos. Os seus olhos, 
encovados e com olheiras devido  sua longa doena, brilhavam 
vivamente. Eskevar fez um sinal de cabea para um dos pajens, 
que desapareceu na antecmara e reapareceu passado pouco 
tempo na companhia de um forasteiro alto. Este entrou, 
envolto num vesturio solto, azul, com correntes de ouro  
volta do pescoo, e inclinou-se profundamente perante os 
senhores ali reunidos. A sua barba preta parecia-se com os 
espinhos de um ourio-cacheiro e os seus olhos eram 
penetrantes e directos.

214

- Apresento-vos Myrmior, primeiro-ministro do grande-suserano 
de Khai-I-Quair. Foi ele que possibilitou a fuga do meu 
pupilo e do seu servo. Diz-nos o que tens a dizer, meu bravo.
Myrinior tornou a fazer uma vnia e tocou na testa com as 
pontas dos dedos.
- No era minha inteno apresentar-me assim perante vs, 
mas, como o rei o quis, eu obedeo. - Falava suavemente, mas 
as suas palavras afiadas acertavam em cheio no orgulho dos 
senhores ali reunidos, que o fitavam iradamente.
"Fui capturado h quatro anos, quando a minha ptria foi 
dominada por Nin, a quem chamam o Destruidor. Depois de uma 
guerra longa e sangrenta, que durou cinco anos, o grande-
suserano foi decapitado como um ladro na praa pblica. Eu, 
seu ministro, tornei-me escravo de um dos comandantes de Nin.
"V muito nestes anos de cativeiro. Vi cair nao aps nao; 
os reinos dos poderosos foram esmagados; terras inteiras 
foram devastadas por Nin. e pela sua horda. Cada vitria 
torna os Ningaal mais fortes e espicaa a fome insacivel do 
seu chefe por conquistas ainda maiores. O seu imprio j vai 
de Sanarrath a Pelagia e de Haldorland  Artasia. E no 
parar at governar o mundo, at todas as terras serem suas e 
todos os homens seus escravos.
"Agora, virou os olhos para oeste, para as naes dos reis 
poderosos. Se as conquistar, como conquistou todas as outras 
terras onde soltou os seus guerreiros, nunca mais ningum o 
far parar. Conseguir realizar os intentos do seu corao 
maldoso: Nin ser o deus perante o qual todos os homens se 
inclinam em adorao.
A voz de Myrinior fora-se elevando  medida que este 
discursava. Naquele momento, as suas ltimas palavras troaram 
por toda a cmara do Conselho. Ningum se mexia nem 
respirava. Todos os olhos estavam postos neste misterioso 
mensageiro do caos.
- No vos iludais, senhores de Mensandor. No podeis 
esconder-vos nos vossos castelos atrs dos vossos muros. 
Assim como a cobra apanha a ratazana, assim ele vos tirar c 
para fora e vos destruir.
"Ouvi as minhas palavras e tende cuidado! Ele virou-se para o 
vosso reino e quere-o para si. No h nada que ele no possa 
fazer e nada a que no se atreva, pois a sua estrela est a 
crescer e no tarda que todos os homens conheam o terror do 
seu nome.

CAPTULO XXVIII

- A culpa no  vossa, Majestade. Fizestes tudo o que era 
possvel
fazer. Tentaremos de novo - disse Theido apaziguadoramente.
Estavam todos sentados, com um ar sombrio, em volta de uma
grande mesa de carvalho, na cmara privada do rei. Eskevar 
fitava apaticamente as mos, que tinha juntas  sua frente. 
Encolerizara-se, zangara-se, ameaara: em vo. O conselho de 
Guerra acabara num beco
sem sada. Lupollen e Ameronis haviam-se mostrado abertamente 
contra o levantamento de um exrcito, Wertwin e Fincher 
tinham-nos
apoiado e os restantes haviam ficado indecisos.
Eu devia ter esperado pelos outros. Fui demasiado apressado
demasiado apressado.
- No - objectou Durwin. - Agistes bem. Os outros s devem
chegar amanh ou depois. E ns temos de fazer qualquer coisa 
imediatamente. Quem sabe o que pode trazer-nos um atraso de 
dois dias? j
houve reinos que caram em menos tempo.
- Entretanto, o Lupollen e o Ameronis tm muito tempo para 
purem os outros para o seu lado. - Eskevar suspirou e a sala 
pareceu
ficar mais escura.
- Viro todos para junto de ns quando virem o perigo - 
observou Ronsard.
- Mas no ser tarde de mais? - interveio Theido. - Por mim,
acho que devamos mandar os cavaleiros do rei fazerem frente 
aos invasores e deterem-nos at levantarmos um exrcito. No 
podemos deixar que cheguem a Askelon sem oposio.

216

- Nobres senhores, posso fazer uma observao? - Era Myrmior, 
que estava sentado em silncio desde que o conselho privado 
comeara. O seu apaixonado apelo perante o Conselho fora em 
vo; por isso, tal como os outros, fechara-se num mau humor 
carrancudo.
"S a fora total pode det-los. Os exrcitos de Nin esto 
bem treinados e prontos para a batalha. E h muitos mais do 
que imaginais. O exrcito que aprisionou o Quentin e o Toli  
apenas um dos quatro que esto neste momento dentro das 
fronteiras de Mensandor e que se movimentam, na direco de 
Askelon por caminhos diferentes.
_ Mas porqu? - perguntou Ronsard. - Porque  que no vm em 
massa?
- Nin aprendeu h muito tempo que, ao invadir uma terra 
estranha cujas foras desconhece, o melhor  movimentar-se em 
formaes mais pequenas, que, assim, dividem a defesa.
"Um punhado de homens valorosos, dispondo de vantagem 
tctica, podem fazer face a muitos... no  assim? - Um 
acenar de cabeas em volta da mesa confirmou estas palavras. 
- Mas  quase impossvel fazer uma defesa em quatro frentes 
ao mesmo tempo. E  isso que vos propondes fazer.
- E com muito poucos cavaleiros - comentou o rei amargamente.
A nossa causa est perdida mesmo antes de as trombetas terem 
sido tocadas ou as espadas desembainhadas.
- No digais isso, Majestade. Podemos fazer muito com os 
homens que temos. Os outros vo apoiar-nos quando perceberem 
que a ameaa  real e no imaginada. - Ronsard deu um murro 
na mesa e olhou em volta, procurando apoios para o seu ponto 
de vista.
- O ronsard tem razo - disse Durwin lentamente. - Podemos 
fazer muita coisa. E quanto mais cedo comearmos, melhor.  
do nosso interesse...
Precisamente nessa altura, ouviu-se uma pancada na porta do 
aposento. Entrou uma sentinela, que disse, depois de fazer 
uma vnia:
- Majestade, est ali fora um sacerdote que vos quer falar 
imidiatamente. j lhe foi dito que estais em conselho, mas 
ele no desiste.
- Ele identificou-se? - inquiriu o rei.
- Diz que se chama Biorkis - volveu a sentinela.

217

- O sumo sacerdote? Aqui? - Quentin olhou para Toli, que se 
limitou a assentir misteriosamente.
- Que o sumo sacerdote entre. Vamos receb-lo.
A porta foi aberta de par em par e, pouco tempo depois, 
Biorkis entrou, envergando as suas grosseiras vestes 
castanhas. Afivelara um sorriso triste no rosto enrugado e 
branco:
- Vejo que Ariel no abandonou o seu servo. Est tudo como eu 
queria.
Durwin deu um salto que fez com que o seu banco tombasse no 
cho com estrondo:
- Biorkis! Por fim renegaste os teus votos? - O eremita 
precipitou-se para junto do seu velho amigo e abraou-o.
O sacerdote abanou a cabea tristemente; a sua barba branca e 
entranada balanou de um lado para o outro.
- Fui libertado dos meus votos, quer quisesse quer no. - As 
sobrancelhas de Durwin arquearam-se. - Isto  - continuou o 
sacerdote
fui expulso do templo.
- Mas porqu? S podia ser por uma ofensa muito grave... 
vinda de ti, no posso imaginar qual seja.
Durwin empurrou-o para a mesa, e o antigo sumo sacerdote 
virou-se para os outros, fazendo uma saudao especial a 
Quentin.
- Foi por uma ofensa gravssima, senhores. Fui culpado de 
entravar o caminho a uma grande ambio. As acusaes foram 
apenas trivialidades; insisti em ver perigo onde no havia e 
em ler nas estrelas pressgios que ameaavam a segurana do 
templo.
Durwin assentiu compreensivamente:
Ns hoje fomos derrotados mais ou menos pelas mesmas razes. 
Mas falaremos disso mais tarde. Sei que o que vieste dizer-
nos no foi atenuado pelos teus problemas. Sumo sacerdote ou 
no, uma vez que tomes uma deciso, o teu corao mantm-se 
inabalvel.
- Lembras-te bem de mim, Durwin. Sempre soubeste ler no mais 
ntimo de um homem.  verdade, vim com uma mensagem, mas, ao 
ver-vos aqui, acredito que cheguei tarde de mais para que a 
minha mensagem vos seja de alguma utilidade.
- Mas di-la - insistiu Eskevar -, e deixa-nos julgar o seu 
valor. O facto de te ter custado o teu lugar no templo  um 
dado bem

218

importante, mas falaremos disso mais tarde. O que queres 
dizer-nos?
Biorkis; fez uma vnia na direco de todos eles. Durwin. 
apanhou o banco, p-lo direito, ofereceu-o ao sacerdote e foi 
ele prprio buscar outro. Quando se sentou, Biorkis; espalmou 
as mos em cima da mesa e comeou:
- Senhores, na minha posio de sumo sacerdote, trabalhei 
incansavelmente no exame dos elementos, para descobrir o 
destino dos homens e das naes. Acredito que a religio deve 
servir assim o homem.
"Quando se apresenta um pressgio,  cuidadosamente estudado, 
em ordem  determinao da sua importncia e consequncias. 
Digo isto por causa do seguinte: surgiu um pressgio como 
nunca houve outro no nosso tempo. Trata-se de uma estrela, 
vulgarmente conhecida por Estrela do Lobo. Imutvel desde o 
incio dos tempos, comeou agora a crescer com um brilho 
pouco habitual. Cresceu to depressa que at  inacreditvel 
para quem no a tiver seguido como eu.
-  a estrela de que falaste, no ? - Eskevar virou-se para 
Myrmior, que se limitou a baixar a cabea em sinal de 
assentimento.
- Vejo que sabeis o que se passa. Portanto, no preciso de 
vos dizer como o facto  curioso. Andei  procura nos 
registos do templo... cada vez mais para trs no tempo, at 
onde vo os registos... h milhares de anos. - Biorkis sorriu 
e inclinou a cabea branca na direco de Quentin.
"Fi-lo depois da tua visita daquela noite. A tua curiosidade 
sobre a estrela mostrou-me que o estudo podia revelar alguma 
coisa mais do que a simples novidade.
- Se bem me lembro, as tuas previses foram bastante lgubres 
- retorquiu Quentin. - Disseste que era o mal.
- Ah, pois foram! Agora sei que tinha razo. Os registos 
sagrados do templo mostram que j houve sinais assim. 
Aconteceu por duas vezes: h muito tempo, houve estrelas que 
cresceram no cu. E, embora a escrita antiga seja de difcil 
discernimento e o significado das palavras pouco claro, posso 
afirmar com toda a certeza que estes pressgios anunciavam as 
piores catstrofes para a humanidade.
- O fim de uma era! - exclamou Durwin.
- O fim de uma era - concordou Biorkis. - No meio do caos e

219

da morte. Uma destruio a que nem homem nem bicho conseguem 
sobreviver. So varridas naes da face da Terra e reinos 
desaparecem num abrir e fechar de olhos, para nunca mais 
voltarem. O planeta muda para sempre. Terras erguem-se dos 
mares e continentes inteiros ficam submersos. Tudo o que 
existia muda com o temvel trovo provocado pelos cus a 
rasgarem-se. As estrelas caem e os mares elevam-se. Os rios 
ardem e a Terra esboroa-se.
" assim o fim de uma era. Um fim que se aproxima.
As declaraes de Biorkis fizeram com que Quentin se 
lembrasse vivamente da conversa que tivera com Toli nos 
aposentos de Durwin, quando tinham chegado a Askelon. A 
conversa prosseguia em volta da mesa; as vozes de Ronsard, 
Theido, Eskevar e Durwin soavam-lhe aos ouvidos, mas Quentin 
no lhes prestou ateno. Foram cada vez mais diminuindo de 
intensidade, at no as ouvir mais.
Pareceu-lhe ento que entrava num sonho acordado:
Estendia-se perante si um horizonte escuro e ilimitado. As 
trevas murmuravam e retorciam-se como um bicho esfomeado  
espreita da sua presa. Quentin viu uma figurinha brilhante 
subindo uma encosta rochosa e postando-se no cimo de um 
monte. Era um cavaleiro de armadura. Ao olhar mais 
atentamente, viu que esta brilhava com um fogo frio, como se 
tivesse sido feita de um nico diamante; o cavaleiro tinha um 
escudo que faiscava com uma cintilao fria, espalhando a luz 
como um prisma. O cavaleiro virou-se de frente para as trevas 
sussurrantes, ps a mo no punho da espada, desembainhou-a e 
esta faiscou com uma ardente luz branca.
O cavaleiro levantou a espada e as trevas recuaram. Depois, 
com um poderosssimo arremesso, atirou-a para o ar, onde 
ficou a girar, soltando linguas de fogo que encheram o cu. 
Ao mesmo tempo, gritou, numa voz ressonante que pareceu ecoar 
nos ouvidos de Quentin:

A arder com chamas de fogo.
As trevas morrero,- conquistadas, fogem com asas dofalco.

A conversa  volta da mesa interrompeu-se. Todos os olhos se 
voltaram para Quentin, que, de p, abanava a cabea e 
pestanejava, como se acordasse de um sonho. A surpresa 
estampada em cada rosto e as

220

bocas abertas de espanto fizeram-lhe saber que no se 
limitara a ouvir estas palavras: tambm as pronunciara em voz 
alta  frente de toda a gente. O som que ecoava nos seus 
ouvidos era a sua prpria voz.
- O que  que ele disse? - sussurrou algum, no meio do 
silncio aterrado que se fizera na sala.
- Eu... eu peo desculpa, senhores - gaguejou Quentin. Toli 
examinou-o de olhos semicerrados. Por todo o lado se viam 
olhares de espanto.
- Onde ouviste isso? - Inquiriu Durwin, dando um salto.
- No sei. Ouvi-o agora mesmo... num sonho. Parece que tive 
um sonho enquanto vs falveis. No sei porqu.
- Eu sei! - Biorkis quase gritou. - Isso  das Crncas dos 
Reis do Norte.
- Pois . A "Profecia do Rei Sacerdote". - Durwin agigantou-
se sobre Quentin, olhando-o de cima. Os seus olhos faiscavam 
com uma ferocidade que nunca ningum lhe vira. Quentin 
remexeu-se desconfortavelmente no banco, sentindo-se tolo e 
irreflectido.
"Diz-me que nunca o leste em lado nenhum nem nunca o ouviste, 
e eu acreditarei em ti.
-  verdade, Durwin, nunca. Sejam de onde forem, como dizes, 
estas palavras no significam nada para mim. No as conheo.
-  possvel que as tenhas ouvido em Dekra - matutou Durwin - 
Mas acho que no. Se assim fosse, havias de lembrar-te delas.
- O que  isto? - perguntou Eskevar num tom de voz espantado.
Theido e Ronsard limitavam-se a observar com surpresa o que 
estava a acontecer  sua frente; Myrmior, de olhos 
semicerrados, passava distraidamente a mo pelo queixo.
- Meu Deus,  um prodgio! Um sinal dos mais poderosos. - 
Biorkis fechou os olhos e comeou a recitar a antiga 
profecia. A cabea do velho sacerdote abanava com a cadncia 
e a sua voz aumentou de volume at encher a sala.
"As estrelas vigiaro os actos dos homens e produziro sinais 
e prodgios.
"As cidades de outrora ainda se vem: o destro trabalho de 
gigantes, a habilidade do trabalho em pedra.
"O vento  o mais veloz dos mensageiros. As nuvens voaro 
livres para sempre.

221

O trovo fala com uma voz poderosa; os templos oscilam nas 
suas fundaes. A rocha sagrada abrir-se- em duas.
"A espada batendo no escudo far a guerra.
"A guia subir com asas de fora; as suas crias sero 
honradas entre os homens.
"A coragem estar no guerreiro. O anel ter uma jia alta e 
grande.
"O homem bom ter actos de glria no seu pas. A serpente 
ser trespassada nos seus aposentos.
"O valor do cavaleiro ser de ferro; o seu nome  cantado nos 
sales dos seus pais.
"O lobo da floresta ser cobarde. O javali dos bosques  
ousado na fora das suas presas.
"O rei ter um trono. O sacerdote usar uma coroa.
"A espada arder com chamas de fogo. As trevas morrero; 
conquistadas, fogem com asas de falco.
"Debaixo do monte, o drago ser antigo, majestoso, ousado e 
destemido.
"Os deuses de altos lugares sero destronados; deles ser a 
raiva da morte. O altssimo no suportar mais a sua 
presena.
"Ele chamou o seu servo de fora do templo; os seus desgnios 
sero exaltados.

CAPTULO XXIX

Quando saram da cmara do Conselho, tinham Bria e Esme  sua 
espera. Embora no estivesse muito bem-disposto, Quentin 
sorriu ao v-las. As duas jovens haviam-se tornado to amigas 
que eram vistas juntas em todo o lado, e agradava a Quentin 
pensar que, embora fossem muito diferentes, tambm tinham 
muito em comum, especialmente no que dizia respeito  
determinao de ferro em assuntos que as tocavam bem fundo. 
"So a imagem viva da palavra "princesa"., reflectiu.
Quentin ainda no falara desde que saira da cmara. Sentia-se 
fraco e assustava-o o que pudesse dizer a seguir. A viso e a 
profecia tinham-no enervado, fazendo-o sentir que j no 
podia confiar que se comportaria normalmente. Toli conduzira-
os para um local tranquilo na cozinha, onde poderiam sentar-
se, mordiscando umas mas, e estar sozinhos.
Passado algum tempo, Quentin recuperou algum do seu bom humor 
habitual e comeou a falar do que acontecera. Falou da 
conversa havida em volta da mesa, do seu sonho, da profecia 
que proferira e da excitao de Durwin e de Biorkis depois de 
a terem ouvido. Foi ento que Esme relatou a sua experincia 
com a filha de Orplie e a profecia que esta lhe fizera em 
troca da refeio que ela prpria cozinhara.
Esme recitou a estranha profecia e Quentin at ficou chocado 
com a estranha semelhana que ela tinha com a que ele prprio 
dissera: ambas falavam de uma espada de poder que venceria os 
invasores de um s golpe. Quando Esme acabou a sua histria, 
ficaram todos calados durante muito tempo, no se atrevendo a 
quebrar o encantamento que descera sobre o pequeno grupo.

224

Quentin apreciou muito aquele tempo de silncio, durante o 
qual pensou e repensou nas palavras, agarrando-as  medida 
que lhe surgiam no esprito. A viso que lhe fora dado ter, 
havia tanto tempo, na sua bno dos Ariga no templo de Dekra 
parecia estar a tomar forma, a revelar-se e a lev-lo com 
ela. A sua viso! Durante muito tempo, meditara nela e 
guardara-a no corao. Uma parte dele queria correr para ela 
e abraar o que estivesse  sua frente, pois Quentin sabia 
que s assim ficaria em paz. Mas outra parte queria afast-
la, correr para longe da sua glria terrvel e feroz. E 
Quentin sentia-se dividido entre as duas.

Quentin e Toli pararam na passagem que a noite escurecera e 
bateram. Ouviram um arrastar de ps do outro lado da pesada 
porta e esta abriu-se lentamente. O rosto largo e agradvel 
de Ronsard devolveu-lhes o sorriso.
- Entrai, amigos - disse. - Estamos  vossa espera.
- Que chamado  este, que nos tira da cama? Ou antes, que no 
nos deixa deitar. Ronsard, Theido, que secretismo  este? - 
Quentin entrou nos aposentos de Durwin, rseos  luz de 
grandes velas dispostas em volta da sala nos seus altos 
suportes.
- Muito em breve vais arrepender-te dessas palavras to 
desagradveis, senhor - retorquiu Theido calmamente. Quentin 
falara a brincar, mas, embora Theido sorrisse, ele bem via a 
inquietude dos modos do cavaleiro.
- Vs ides embora! - exclamou Quentin, consternado. 
Passeando-lhes rapidamente o olhar pelo rosto, soube que 
adivinhara.
- Pois vamos - replicou Ronsard amavelmente. - Antes do 
nascer do Sol.
- Mas... no compreendo. Porqu to depressa?
- Tem de ser - explicou Theido. - Vamos conduzir os 
cavaleiros do rei contra os Ningaal. Temos de ir j, antes de 
eles terem tempo de reunir foras.
- Entra e senta-te. Ainda temos algum tempo para nos 
despedirmos como amigos - disse Durwin calorosamente.
Quentin avanou inexpressivamente para uma cadeira colocada 
em frente da lareira apagada. Toli instalou-se no brao da 
cadeira pousada

225

ao seu lado. Embora os seus olhos tivessem endurecido, no se 
distinguia qualquer sentimento no rosto do Jher dos olhos 
escuros.
- Sei que  um choque para ti, Quentin, mas  assim que tem 
de ser. - O tom de voz de Theido era calmo e confiante. - Sei 
que querias vir connosco, mas acho que no percebes que no 
pode ser. Com o brao assim, no aguentarias nem o primeiro 
embate.
Quentin sentiu-se lisongeado ao pensar que Theido tinha a sua 
coragem em to alta estima. Na verdade, no tinha vontade 
nenhuma de voltar a encontrar-se com os brutais Ningaal.
- Embora me sinta muito honrado, no  essa a causa das 
minhas apreenses. No podeis enfrentar os Ningaal s com o 
squito do rei: seria um desastre! So muitos soldados e 
muito disciplinados. Eu vi-os.
- No nos atrevemos a esperar mais - disse Ronsard. - Cada 
dia a mais que passemos aqui pode vir a custar-nos muito 
caro. Mas no te preocupes muito; no vamos totalmente 
sozinhos. O Wertwin ir ao nosso encontro com as suas 
tropas... vai mobilizar cem vigorosos cavaleiros e dar armas 
a todos eles.
- O que so quatrocentos ou quinhentos contra os milhares do 
Gurd? E, se o Myrmior disse a verdade, ele  apenas um de um 
total de quatro.
- Parece-me que podemos dizer que o Myrmior no mentiu - riu 
Ronsard. - Ele vai connosco, para nos ajudar a planear a 
nossa estratgia contra os guerrilheiros de Nin.
- E no  pouco - acrescentou Theido. - No tenho dvidas de 
que a sua ajuda ser preciosa. - Inclinando-se para a frente, 
examinou o rosto de Quentin com os olhos escuros muito 
srios.
- Temos de ir, Quentin. Temos de ganhar tempo at o rei 
Eskevar trazer os outros senhores para o nosso lado.
"No espervamos que os nossos pares se comportassem assim. 
Mas  a vida! No fim, vero que a guerra chegou e juntar-se-
o a ns. Disso no tenho medo.
- Mas entretanto, enquanto eles se decidem, vs sereis todos 
mortos! - disse Quentin amargamente. - Isto no me agrada.
- Mas ser assim - volveu Ronsard, levantando-se, dirigindo-
se a Quentin e pondo-lhe a mo no ombro. - No temas por ns, 
pois ns no tememos. Um cavaleiro s pode morrer uma vez, e 
ou  com honra

226

ou no vale a pena. j vi batalhas que chegassem para no ter 
medo delas. Estou satisfeito.
-No temos intenes de sermos imprudentes. Na verdade, no 
haver dois homens mais cautelosos e prudentes do que ns. 
Mas temos de dar ao rei tempo para reunir os senhores; seno, 
a nossa causa estar perdida antes de comear. Pelo menos, o 
Myrmior mostrou-nos isso.
"Alm disso, tambm no me parece que vs ficar ocioso. Se 
bem percebi, o Durwin tenciona empregar os teus esforos. Nem 
vais ter tempo para pensar em ns.
Quentin levantou-se da cadeira e agarrou o brao de Ronsard 
com a mo boa.
- Hei-de pensar sempre em vs! Vs os dois fostes mais do que 
meus companheiros. Quem me dera ir convosco e estar sempre ao 
vosso lado! Gostaria muito de poder voltar a estar convosco 
no campo de batalha.
- E hs-de estar. Aposto que ainda teremos batalhas que 
cheguem para todos. - Theido ps-se ao lado de um Quentin 
lacrimejante.
- Vou sentir muito a vossa falta. - Quentin passou o brao em 
volta de Ronsard e deu-lhe umas palmadinhas nas costas. 
Depois, abraou Theido, enterrando o rosto no ombro do 
cavaleiro. As lgrimas rolavam-lhe pelo rosto, mas eram 
lgrimas masculinas, e ele no tinha vergonha.
- A pancada que me faz ficar aqui foi mais dolorosa do que 
pensava. Ide e que o Altssimo vos proteja.
- E a ti - disseram os dois cavaleiros em unssono.
Encaminharam-se relutantemente para a porta. Toli, que seguia 
atrs de Quentin, apertou-lhes as mos e desejou-lhes, na sua 
lmgua nativa, "espadas que cantam e escudos que nunca caem.. 
Depois voltando-se para Durwin, indagou:
- Bom eremita, queres pedir ao Altssimo pelos nossos irmos?
- Claro que sim. Eu prprio ia sugeri-lo. - O eremita de 
Pelgrn avanou e levantou as mos  frente dos dois 
cavaleiros. Ronsard ps um joelho em terra e Theido ajoelhou-
se ao seu lado.
- Deus Altssimo, que guiais os nossos passos e ouvis as 
nossas preces - disse suavemente -, ouvi-nos agora. Sede para 
estes nossos valentes companheiros a lmina afiada, a fora 
do seu brao e a proteco

227

do seu escudo. Fazei com que sejam poderosos perante o 
inimigo; fazei com que sejam audazes e destemidos. Ide  sua 
frente para a batalha como uma lana, para afastar o mal das 
nossas costas. Servi-lhes de conforto e de guia; animai-os 
quando estiverem cansados e apoiai-os quando j no 
conseguirem ter-se em p.
"Bani o medo dos seus coraes e dai-lhes sabedoria para 
conduzirm os seus homens  vitria. Sede para eles a glria 
que brilhar por entre as trevas e trazei-os de volta para 
ns.
Os cavaleiros levantaram-se devagar.
- Esse teu deus, Durwin, consegue fazer assim tanto? - 
perguntou Ronsard suavemente.
- Consegue fazer tudo, meu amigo. No hesites em o invocar se 
tiverdes necessidade. Ele responde sempre ao chamado dos seus 
servos.
- Ento, daqui para a frente vou servi-lo, a esse Deus 
Altssimo. Riu-se para Quentin. - Vs, no s o nico a dar 
ouvidos a este eremita tagarela. A minha alma tambm me 
preocupa.
- Ento, v l se te preocupas em mant-la intacta at 
voltarmos a ver-nos, bravo cavaleiro. - Quentin avanou e 
estendeu-lhes a mo. -Adeus, meus amigos.
- Adeus, Quentin. Adeus.

CAPTULO XXX

Por muito triste que fosse a despedida de Theido e Ronsard, 
no foi nada comparada com a dor da partida de Quentin e Toli 
de Askelon. Depois do adeus dos cavaleiros, haviam passado 
dois dias a reunir provises e a preparar-se. Chegado o dia 
da partida, bem cedinho, antes de o Sol se ter erguido acima 
dos compridos contornos escuros de Pelgrin, Toli conduziu os 
cavalos e os animais de carga para o ptio interior, passou a 
cortina interior e entrou no ptio exterior, onde o esperavam 
Durwin e Quentin.
Alinea, Bria e Esme tinham ido ali ao seu encontro. As 
mulheres punham-lhes gulodices nas mos e trocavam beijos.
- O eskevar pediu-me para me despedir de vs - disse Alinea.
- Ele gostaria de vir em pessoa, mas um rei no diz adeus. 
Por isso, despeo-me por mim e por ele. Que viajeis depressa 
e volteis sos e salvos. Os nossos coraes vo convosco.
Depois, Bria e Quentin afastaram-se um pouco, para falarem 
dos sentimentos especiais que os uniam. Esme, que tinha 
flores no cabelo, pegou numa e deu-a a Toli, que a prendeu no 
cinturo e a ps por cima do corao.
As trs mulheres acompanharam-nos at ao outro lado da ponte 
levadia e ficaram ali. As suas lgrimas escorriam para o 
cho como chuva miiudinha. De braos erguidos, acenaram-lhes 
at as ruas estreitas de
Askelon os esconderem de vista.
A tristeza da partida ficou a pesar na alma de Quentin. 
Durante a
mior parte dos trs dias que se seguiram, nas horas em que 
estava

230

acordado, no deixou de pensar nela. Quentin falava pouco e 
andava como se estivesse a dormir. Por isso, no reparou que 
Toli e, de certa forma, Durwin se comportavam exactamente da 
mesma maneira.
Na sua meditao solitria, Quentin cismava e voltava a 
cismar nos acontecimentos dos movimentados ltimos dias 
passados em Askelon e, especialmente, na reunio havida nos 
aposentos de Durwin, que se arrastara por quase toda a noite. 
Agora, parecia-lhe nebulosa e indistinta, como se observasse 
fios de fumo curvando-se e erguendo-se no ar da noite. Mas, 
na altura, fora bem real. Alis, era devido a esse 
acontecimento que estavam, naquele momento, apressadamente a 
caminho.
Enquanto atravessavam os carreiros escuros da floresta de 
Pelgrin, verdejantes devido ao Vero, que descera em fora 
sobre cada um dos galhos das rvores, Quentin reviu mais uma 
vez os acontecimentos dessa noite.

Depois de Theido e Ronsard terem deixado os aposentos de 
Durwin, mas antes de o som dos seus passos haver diminudo no 
corredor, Biorkis irrompera por ali dentro carregado de 
rolos, pergaminhos e mapas. Este desaparecera desde o 
conselho privado com Eskevar, no dia anterior; Quentin no o 
vira desde que ouvira o velho sacerdote recitar a antiga 
profecia que ainda lhe martelava nos ouvidos.
Como tinham vindo a descobrir, Biorkis fechara-se no ateneu 
do castelo, onde, sem parar nem para comer nem para dormir, 
desenterrara os estranhos materiais com que lhes aparecera.
"Encontrei aquilo de que precisamos, Durwin. No foi fcil: a 
biblioteca do rei nem por sombras est to organizada como a 
do templo... mas era de esperar. Nem uns olhos conhecedores 
conseguem distinguir alguns destes textos, que esto bastante 
incompletos. Mas onde os pergaminhos falharem ajudar-nos- a 
minha memria e, claro, a tua, Durwin."
O velho sacerdote afadigava-se num frenesim to prodigioso  
volta dos seus textos que Quentin se rira alto:
- No me digas que vamos ter de aguentar uma das tuas 
interminveis lies! Poupa-nos!
Biorkis inclinara a cabea para um lado:
- No te fazia mal nenhum, senhor. Provavelmente, esqueceste 
tudo o que te ensinei.

231

- Depois do conselho do rei, eu e o Biorkis; pusemos as 
nossas cabeas a funcionar - explicara Durwin. - Penso que te 
interessar saber o que descobrimos. - Embora Durwin no o 
tivesse dito, Quentin percebera, pelo brilho que iluminara os 
olhos do eremita e pela atmosfera de excitao que, de 
repente, percorrera a sala, que o assunto daquela reunio 
tinha a ver com a profecia e com a estranha maneira como a 
proferira no dia anterior.
-  verdade, est tudo aqui. Ou, pelo menos, o suficiente 
para agirmos, embora gostasse de ter acesso aos meus livros 
que ficaram no templo. - Biorkis; suspirara tristemente.
- E eu aos meus, que deixei em casa - acrescentara Durwin.
- No entanto, li-os tantas vezes que me atrevo a dizer que os 
sei de cor.
- Isso quer dizer que vs acreditais que essa tal "Profecia 
do Rei Sacerdote" tem alguma coisa a ver connosco? - indagara 
Quentin, indicando-se a si prprio e a Toli.
- Connosco, no, senhor - retorquira Biorkis jovialmente.
- Contigo!
Quentin quase conseguira afastar de si a tremenda sensao de 
responsabilidade originada pelo pensamento de que podia ter 
sido escolhido para alguma grande misso. Quase se sentia 
novamente ele prprio... quase, mas no inteiramente, pois a 
inexprimvei noo de ter sido apanhado na rpida corrente da 
Histria, de estar a ser empurrado por uma mo invisvel para 
um destino desconhecido e de que tudo isto tinha a ver com a 
sua viso da espada em chamas no deixava de o assaltar, 
escondendo-se por trs dos seus pensamentos como uma sombra 
ou pairando como um sonho.
-Como sabes, existem muitos sinais que nos permitem 
avaliarestas coisas - continuara o sacerdote. - Digamos que 
passei um dia e uma noite a vasculhar tudo o que  conhecido 
da profecia e dos acontecimentos envolventes e que no tenho 
nenhuma razo para duvidar que os sinais apontam para ti.
- E tambm h boas razes para acreditarmos que  chegado o 
tempo de a profecia ser cumprida - acrescentara Durwin. Nessa 
altura, Toli erguera a voz:
- Embora nunca tenha sabido da profecia antes de a ouvir na

232

cmara do rei, posso dizer-vos que tambm os Jher tm uma 
lenda que fala de um rei de raa branca que surgir para 
introduzir a idade da luz. Ser chamado Lotheneil, o Fazedor 
do Caminho, porque guiar o esprito dos homens para Winoek, 
o Deus altssimo. - Toli fitara o amo com um olhar sabedor e 
cruzara os braos, como se o assunto estivesse resolvido.
- No julgueis isto m vontade da minha parte - volvera 
Quentin
mas tendes de me mostrar em que  que isto me diz respeito. 
No sei nada da profecia...
- E, no entanto, citaste-a palavra por palavra, ou quase. No 
original,  mais ou menos assim:

A espada ardr co'chamas de foigo
As trevvas morrero; derribadas, voaro nas asas do falco.

"Teria ficado muito surpreendido se a tivesses dito no 
dialecto antigo. Mesmo assim, fiquei muito impressionado. No 
h quatro homens em Mensandor que saibam e consigam citar 
esta obscura profecia. Que dois deles estivessem na mesma 
sala na altura em que foi proferida... bem,  espantoso. 
Incrvel.
- Eu no disse a profecia toda... s parte. - Quentin 
remexia-se na sua cadeira de costas altas e Toli encontrava-
se empoleirado ao seu lado, como uma ave de rapina. - Pode 
ter sido coincidncia.
- Quentin - ralhara brandamentc Durwin -, sabes to bem como 
eu que, para os servos do Altssimo, no existem 
coincidncias. E a citao de uma linha que seja de uma 
profecia equivale  invocao do todo. Os ancies de Dekra 
devem ter-te ensinado isto.
Era verdade; ouvira muitas vezes os ancies referindo vrios 
acontecimentos dos textos sagrados, citando uma parte e 
implicando o resto. Sabia que Durwin conseguiria detectar 
qualquer tentativa da sua parte para se distanciar dos 
acontecimentos que se formavam de todos os lados. Parecia-lhe 
que uma teia de circunstncias se apertava cada vez mais  
sua volta. Em breve seria apanhado por um destino que no 
previra e que no tinha a certeza de conseguir cumprir.
Mas, para alm da sua relutncia pessoal, que lhe pesava nas 
costas como uma pedra, tambm sentia que, se o que Biorkis e 
Durwin

233

diziam era verdade, tinha a responsabilidade de seguir em 
frente, fosse para onde fosse. Se, de facto, tinha algum 
papel na salvao do reino, devia aceit-lo e fazer o que 
fosse necessrio, independentemente dos seus sentimentos.
Fora este Quentin mais racional que respondera:
- Muito bem. Vamos l ver aonde  que os vossos boatos nos 
levam. Parece que no h outro remdio.
- Parece que ests a comear a pensar, no, Quentin? Isso  
bom. Muito bom. - Biorkis cofiara a comprida barba branca e 
entranada. - Vou dizer-vos o que descobri.
As horas seguintes tinham parecido o tremeluzir da chama de 
uma vela. Um pestanejar, um acenar de cabea... e haviam 
passado. Logo que o seu antigo professor comeara a falar, 
Quentin sentira-se enfeitiado, petrificado pelo indizvel 
mistrio da histria de estranhos acontecimentos havia muito 
esquecidos, que se tinham passado vrias eras atrs. Apenas 
alguns sbios ainda se lembravam dela e, naquele momento, 
reviviam-na na sua presena. Ele escutava atentamente, sem 
perder nenhuma palavra, como um homem sequioso abre a boca 
ressequida para a chuva, no deixando escapar nem uma gota.
Biorkis e Durwin, com o rosto corado de excitao, tinham-lhe 
falado da espada, uma espada diferente das outras, com 
poderes sagrados, de minas secretas por baixo de montanhas 
escondidas em terras meio esquecidas, da bigorna de ouro 
usada para forjar a poderosa arma, da nsia com que as 
pessoas tinham esperado, gerao aps gerao, acreditando 
que veriam a espada e aquele que a empunharia, e das canes 
e oraes que, em tempos de trevas e de desespero, suplicavam 
que a mo digna de empunhar a espada se erguesse e fizesse 
justia.
O nome que os antigos haviam dado  espada era Zhaligkeer, a 
Brilhante.
Quentin pronunciara este nome antigo para si prprio. O facto 
de o saber ligava-o queles que tinham vivido e morrido  
espera de verem a espada. Quantos homens teriam murmurado 
este nome numa hora de aflio? E quantos teriam desesperado 
de a verem e se haveriam afastado?
Quando a histria chegara ao fim, Quentin levantara-se, 
espreguiara-se

234

e comeara a andar de um lado para o outro da sala, em passos 
rpidos e inquietos:
- Ento, sugeris que vamos procurar a espada, que est 
escondida numa caverna dos altos Fiskills?
Biorkis abanara a cabea com um ar cansado:
- Procur-la, no. A espada no existe. Tem de ser feita. A 
Zhaligkeer tem de ser forjada a partir da mo que a 
empunhar.
Quentin suspirara:
- Perdoai, mas no compreendo. Vs no me falastes de 
bigornas de ouro, minas secretas e por a fora? Pensei que 
fazia tudo parte da lenda.
- E faz - retorquira Durwin. - Mas acreditamos que as lendas 
indicam a maneira como a espada deve ser feita, e no como 
foi feita. Penso que nunca ningum fez mesmo a espada.
- Porque no? No percebo qual seria a hesitao. O que  que 
impedia algum de tentar?
Durwin inclinara a cabea para um lado e sorrira 
presunosamente.
- Nada... e tudo. Sem dvida que muitos tentaram, aplicando a 
profecia a si prprios e ao tempo em que viviam. Mas para que 
a espada se torne Zhaligkeer, a Brilhante, so precisas duas 
coisas: o metal das minas secretas e a mo daquele que  
mencionado na profecia. Mesmo que o metal tenha sido 
encontrado, o que  natural que alguns hajam conseguido, 
ficou a faltar aquilo que faria da espada a Zhaligkeer: a mo 
do escolhido. Sabes, o que d poder  espada no  s a 
lniina;  tambm a mo do Altssimo.
- Se, como dizes, h muito que os homens procuram a 
Brilhante, porque  que nunca ouvi falar dela at agora
- Isso no tem nada de anormal, senhor! - rira Biorkis.
-  sempre assim. Quando tudo corre bem, os homens no pensam 
na mo que os ajuda. S quando os tempos vo maus  que 
clamam por justia. Em Mensandor, os anos trouxeram ao povo 
paz e prosperidade. Os homens esqueceram-se dos velhos tempos 
em que os pais lutavam pelas terras. Esqueceram-se da espada. 
Se no fossem uns poucos, a profecia ter-se-ia perdido 
completamente.
Quentin passara a mo boa pelo cabelo. Tinha os olhos a 
arder. Sentia-se cansado. A noite j ia avanada e precisava 
de dormir.

235

No sei como se fazem espadas nem o caminho para as minas 
secretas do alto dos Fiskills. E mesmo que j tivesse a 
espada, no sei o que faria com ela, pois no tenho mo para 
a empunhar.
Durwin atravessara o aposento e pousara-lhe a mo firme no 
ombro:
- Ests cansado. Devias ir descansar, como ali o Toli. - 
Durwin fizera um aceno de cabea na direco do Jher, que se 
enroscara num assento vazio e dormia a sono solto. - Vai para 
a cama. j falmos o suficiente para uma noite. Amanh 
conversaremos mais. Acredita que ainda temos muito a discutir 
antes de partirmos.
Quentin acreditara. Tinha mil perguntas esvoaando-lhe em 
volta da cabea como corvos sobre um campo acabado de semear, 
mas sentia-se exausto e s pensava em dormir.
- Mais algum sabe da... da... - Faltavam-lhe as palavras. j 
no conseguia pensar.
- No, por enquanto no, embora o Ronsard e o Theido saibam 
que no ficaremos parados. Mencionei ao rei Eskevar as minhas 
suspeitas relativamente a estes acontecimentos, mas ele no 
sabe nada da espada. Ningum, para alm de ns os quatro, 
sabe nada daquilo que falmos esta noite.
- Boa noite, Quentin. Vai para a cama. Voltaremos a falar 
amanh de manh.
Como se obedecesse a um sinal, Toli acordara e deslizara at 
 porta, levando o seu amo consigo. Dali a pouco, Quentin 
afundava-se no seu leito. Atirara-se para cima da cama sem se 
dar ao trabalho de se despir, e parecera-lhe que mergulhara 
num mar quente e silencioso. Adormecera quando as ondas se 
haviam fechado sobre ele.

O dia seguinte fora um amontoado de mapas e pergaminhos, to 
velhos e cheios de p que ningum se atrevia a respirar em 
cima deles, e de estonteantes conversas. Sentindo que se 
aproximava rapidamente a altura de viajar, Toli comeara a 
escolher animais e provises para a jornada. Quentin vira 
vrias vezes Durwin e Toli de cabeas encostadas, verificando 
um ou outro pormenor do plano de Toli.
Quentin perguntava-se porque no era consultado sobre os 
preparativos, mas, ao mesmo tempo, sentia-se satisfeito por 
no ter de pensar

236

neles. j tinha tantas coisas com que se ocupar, que quase 
sentia a cabea a estalar. Alm disso, sentia a falta de 
Bria. S a via de fugida durante as refeies que tinha de 
engolir apressadamente.
Sabia bem que ela percebera que ele ia partir. Diziam-lho os 
seus olhares silenciosos, os seus sorrisos amargos e os seus 
gestos furtivos. Mas ela no lhe falava em nada nem tentava 
ret-lo perto de si. mesmo uma caracterstica da sua maneira 
de ser que ela, na medida humanamente possvel, pusesse os 
seus sentimentos de lado e tentasse tornar-lhe os ltimos 
dias mais fceis. E Quentin amava-a ainda mais por isso.
Quando, por fim, reunira coragem suficiente para lhe dar a 
terrvel notcia da sua partida, Bria pousara-lhe os dedos 
nos lbios, dizendo:
- No fales. Sei que tens de me deixar. Soube-o logo que te 
vi sair da cmara do Conselho. Tens muito a fazer, grandes 
misses a cumprir e eu no te prenderei com promessas.
"Vai, meu amor. E, quando regressares, encontrar-me-s  tua 
espera. As mulheres da minha posio esto habituadas a 
esperar. No te preocupes comigo, meu querido. Passarei 
melhor este tempo se te souber em paz.
Apesar do brao partido, Quentin cingira-a a si durante muito 
tempo, pensando se alguma vez voltaria a v-la.
Com a pressa que tinham, dispunham de pouco tempo para a 
meditao ou para a tristeza... isso viria depois. Naquele 
momento, havia muito a fazer. Em dois dias, tinham conseguido 
fazer aquilo que normalmente levaria uma semana.
Haviam passado muitas horas reunidos em conselho com o rei 
que, embora com alguma hesitao, imediatamente aprovara o 
seu plano. Com as colinas e os campos transformados em 
esconderijo dos Ningaal, que ningum sabia onde estavam 
exactamente, Eskevar sentia uma certa relutncia em deix-los 
partir sem uma escolta armada.
Mas, por fim, haviam conseguido convenc-lo de que isso s 
viria dificultar a sua misso. Era melhor passarem pelo mundo 
sem serem anunciados e sem terem de movimentar muitos homens 
e cavalos em segredo.
Quentin, Toli e Durwin iriam. Biorkis, demasiadamente velho 
para aguentar os rigores da jornada, ficaria em Askelon para 
ajudar e

237

aconselhar no que fosse preciso. Se houvesse batalha, as suas 
aptides de fsico seriam necessrias para socorrer os 
feridos. Alm disso, e embora no o dissesse a ningum, 
Durwin receava que Eskevar, ainda no completamente 
recuperado da sua misteriosa doena, precisasse de ser 
vigiado por algum competente durante a sua ausncia. Se no 
fosse isso, Durwin teria partido com o corao mais leve.

Os carreiros escuros e frescos de Pelgrin, encimados por 
galhos frondosos, que s no impediam a passagem dos raios de 
sol mais determinados, foram acalmando o esprito de Quentin. 
O pesar abandonou-o a pouco e pouco e foi substitudo pelo 
entusiasmo da sua misso. Embora ainda lhe fosse difcil 
aceitar que tinha um papel crucial a desempenhar (afinal de 
contas, sentia-se o mesmo Quentin de sempre), deixou-se 
embalar, numa espcie de xtase, pela histria da poderosa 
Zhaligkeer, a Espada do Fogo Sagrado.

CAPTULO XXXI

- Onde vamos arranjar um mestre armeiro que nos ajude a 
forjar a espada? No me lembro de teres falado nisso. Ou 
ests  espera de que o faamos sem nenhuma orientao? - 
Quentin descansava com as costas encostadas a um tronco 
musgoso, numa clareira verde situada no corao de Pelgrin. 
Toli andava atarefado a espreitar os fardos dos animais de 
carga, para arranjar alguma coisa para comerem. j cavalgavam 
desde o nascer do Sol e aquela era a primeira vez que 
paravam.
- Parece-me que sei onde poderemos encontrar algum 
competente - retorquiu Durwin, com as mos por trs da cabea 
e os olhos virados para o cu. - O nome Inchkeith. faz-te 
lembrar alguma coisa?
- Inchkeith! Diz-se que nunca houve armeiro mais hbil. Foi 
ele que fez a armadura do primeiro Rei Drago e que concebeu 
as vestes que o rei Eskevar levou para as guerras contra o 
Goliah. Toda a gente conhece esse nome! Mas ele ainda  vivo?
- E bem vivo! Mas faze-lo mais velho do que realmente . Foi 
o pai dele, Inchkeith, o Vermelho, quem fez a armadura do 
primeiro Rei Drago e de vrios reis antes dele. H muito que 
descansa no seu tmulo.
"Mas o filho continuou o trabalho comeado pelo pai e tornou 
o nome ainda mais conhecido. No admira que as lendas abundem 
sempre que haja homens a apertar caneleiras e gorjais. Diz-se 
que as armaduras feitas pelo Inchkeith so as melhores do 
mundo.
Durwin sorriu e pestanejou em resposta ao olhar de completo 
espanto de Quentin:
- Ento, que dizes? Achas que serve para fazer a espada?

240

- Feita pelo mestre Inchkeith, at uma fisga serviria! Claro 
que sim!
Comeram a refeio e falaram do caminho a percorrer. Toli 
esteve quase sempre calado, e Quentin suspeitou que ele 
estava concentrado na reactivao da sua adormecida 
habilidade de caminhante: havia muito que o astucioso jher 
no tinha oportunidade de praticar as lendrias aptides do 
seu povo. As pequenas jornadas de e para Askelon no 
contavam, pois a estrada era boa. Mas para onde iam 
precisariam da sua destreza quase animal, porque no existiam 
estradas, nem caminhos, nem sequer carreiros. Havia mil anos 
que os homens no punham os ps naqueles lugares to altos.
Quentin pensava em tudo isto quando percebeu que, da mesma 
maneira que no sabia como ia fazer a espada, tambm no 
tinha um conhecimento exacto do stio para onde se dirigiam.
- Durwin, onde ficam as minas? Como vamos encontr-las?
- Trouxe comigo uns mapas, tirados tal e qual dos pergaminhos 
antigos. Posso mostrar-tos agora. Esto ali. - O eremita foi 
at um dos animais de carga e regressou com um comprido rolo 
de couro.
" por aqui que vamos - disse, desenrolando-o. - Este mapa  
muito antigo e a terra est mudada: desapareceram rios dos 
seus cursos e houve outeiros que ficaram planos, florestas 
que se extinguiram e cidades que foram construdas e 
destrudas. Mas servir para nos guiar.
Quentin apalpou a pele curtida na qual o mapa estava pintado.
- No parece assim to antigo como dizes. Durwin. Tem ar de 
ter sido feito ontem.
- E foi! - Durwin soltou uma gargalhada. - No me atrevi a 
trazer o original. Ou antes, os originais, porque este mapa 
foi feito a partir de fragmentos que eu e o Biorkis; 
encontrmos ao longo dos anos. Estava fora de questo trazer 
esses fragmentos, devido  sua idade, pois desfazer-se-iam 
logo que soprasse a primeira brisa.
"No, este mapa foi feito por mim e pelo Biorkis, e ainda  
melhor exactamente por causa disso. Ele tinha informaes que 
eu no possua e vice-versa. Foi uma sorte ter aparecido. 
Mesmo que no faa mais nada, j ajudou muito.
- Durwin - ironizou Quentin -, no sabes que sorte e 
coincidncia so palavras que no existem para os servos do 
Altssimo?

241

O eremita riu-se e levantou as mos:
-  verdade! Rendo-me! O aluno deu uma lio ao professor.
- Vs que nem sempre sou tapado? - Quentin tornou a olhar 
para o mapa, que pouco mais parecia do que um esboo. - Seja 
como for, isto no nos indica quase nada. Nem sequer vejo 
minas assinaladas aqui.
- Pois . Mas no temos mais nada... alm do enigma.
- Enigma? - inquiriu Toli, indo pr-se ao p deles a olhar 
para o mapa.
- No vos falei do enigma? No? Ento falo agora. Houve tanto 
que fazer em to pouco tempo que no me admira que vos 
sintais pouco preparados para iniciardes esta jornada. Pensei 
que vos tinha falado do enigma.  assim:

Em cima de dentes, por baixo depatas, vai com cuidado.
Onde as montanhas dormem, mantm-te vigilante e vers melhor
o caminho.
Quando ouvires risos entre as nuvens, uma cortina de vidro 
vers.
No cuides de nada, ou nunca passars.
A cortina e o trovo dividirs e o caminho estreito 
procurars;
O dia pela noite dars e a luz reters.
E assim o dia ganhars.

- Parece muito fcil - disse Quentin. - Onde o descobriste?
- Veremos. Tenho a certeza de que nos vai parecer bastante 
mais difcil quando chegar a altura de desvendarmos o seu 
significado. Quanto ao stio onde o descobri, j devias 
saber.
- Como?
- Foi em Dekra que descobri o pouco que sei disto. O Yeseph 
traduziu-me o enigma.
- Ele nunca me disse nada.
- Porque havia de dizer? Foi h muitos anos, quando eu, ainda 
rapaz, no lhe largava os livros, feito um rato de 
biblioteca. Dei com o enigma por acaso, num livro que 
mencionava as minas dos Ariga.
- So as minas que procuramos?
Durwin assentiu:

242

- Sabes, a espada tem de ser feita de lantbanil.
- A pedra que brilha - acrescentou Toli. - O meu povo j 
ouviu falar dela. Diz-se que, antigamente, os Ariga davam aos 
Jher presentes de pedra brilhante, em reconhecimento pela sua 
amizade no tempo da morte branca. Quem tocasse na pedra 
ficava curado e sem ferimentos. Chamavam-lhes khoen ravish, 
pedras que curam.
- Pelo menos disso tambm ouvi falar. Mas pensei que, tal 
como muitos conhecimentos dos Ariga, tambm o lantbanil tinha 
desaparecido deste mundo.
-Julgo que no, mas vamos ver - retorquiu Durwin - O 
altssimo mostrar-nos- se tenho razo. No nos esqueamos de 
que  ele que nos guia. No precisamos de nos afligir muito 
com aquilo que no podemos prever. Sem dvida que j nos 
bastam as coisas que temos  frente dos olhos.

Theido e Ronsard, seguidos por trezentos cavaleiros montados, 
dirigiam-se para sul o mais depressa que os seus corcis 
conseguiam cavalgar. Queriam encontrar-se com Wertwin no 
terceiro dia e, depois, ir ao encontro do inimigo antes de 
este poder deslocar-se muito mais e fortalecer-se com os 
despojos de Mensandor.
Ao meio-dia do terceiro dia chegaram ao local de encontro. 
Enquanto esperavam que o exrcito de Wertwin chegasse, os 
cavaleiros desmontaram e espalharam-se pelo campo de erva. Os 
escudeiros foram dar de beber aos cavalos e cuidar das 
armaduras dos seus amos; alguns puseram-se a polir couraas e 
a pintar divisas apagadas pelo tempo e outros a tirar as 
pedras para afiarem lminas que havia muito no eram usadas; 
nas suas carroas, os ferreiros alisavam as mossas dos elmos 
e dos braais sobre as suas bigornas.
O dia era preenchido pelo rudo de um exrcito cuidando do 
seu armamento. Theido e Ronsard tinham ido pr-se  sombra de 
uma rvore, onde esperavam o seu camarada.  medida que a 
tarde se ia aproximando, Ronsard adormeceu e Theido comeou a 
passear para trs e para diante.
- Ele ainda no chegou? - perguntou um Ronsard sonolento, 
levantando-se e espreguiando-se.
- No, e estou aqui a pensar se no ser melhor mandarmos urn

243

batedor ver o que lhe aconteceu. Ele devia estar aqui  nossa 
espera e, em vez disso, somos ns que esperamos e ele no 
aparece.
"Vou mandar o Tarkio um bocadinho  frente, para ver se 
consegue descobrir o que aconteceu ao nosso atrasado amigo. 
Talvez nada. No  fcil mobilizar uma fora de cavaleiros 
num nico dia. Se calhar, comeou tarde.
- Esperemos que tenha sido isso - volveu Theido, que nem 
precisou de mencionar a outra explicao que lhe veio  
ideia, pois ambos sabiam qual era e nenhum deles queria falar 
ou acreditar nela.
Ronsard mandou um escudeiro chamar o cavaleiro e ficaram os 
dois  espera que o mensageiro estivesse pronto.
- Ests a abrir um caminho na erva. Os teus passos puseram a 
terra a descoberto.
- isto agrada-me cada vez menos, Ronsard. Aconteceu alguma 
coisa. Sinto-o aqui. - Deu com o punho no estmago liso.
Ronsard contemplou o seu sombrio amigo:
- Quando se trata de batalhas, os teus instintos so 
apurados. O que pensas que devemos fazer?
Antes de Theido poder responder, ouviram uma trombeta de 
batalha no bosque. Os seus toques de alarme pareciam rode-
los. Virando-se e olhando para o outro lado do campo, viram 
um cavaleiro surgindo do bosque. Um dos seus f-lo parar; 
houve um agitar de armas. Depois, o cavaleiro olhou para eles 
e esporeou a montada. Dali a um momento, galopava na direco 
de Theido e de Ronsard.
- Nobres cavaleiros, senhores! Venho da parte do meu senhor 
Wertwin - anunciou o soldado a ofegar, saltando da sela. - 
Quando vnhamos para aqui, o inimigo cortou-nos o caminho... 
- Engoliu em seco; o suor escorria-lhe do pescoo para dentro 
da tnica. Tinha a armadura amolgada e manchada de sangue.
- Muito longe daqui? - perguntou Ronsard.
- A cerca de uma lgua, senhor - arquejou o cavaleiro.
- Para que lado pendia a sorte quando te mandaram vires ter 
connosco?
O cavaleiro abanou lentamente a cabea; a sua expresso era 
grave:
- As esperanas so poucas. O inimigo  forte e numeroso. O 
meu

244

senhor foi rodeado por trs lados e ficou de costas para o 
lago situado no princpio da floresta.
- No h tempo a perder! - gritou Ronsard. - Tocai a 
trombeta! Partimos imediatamente! - Precipitando-se para o 
cavalo, desatou a berrar ordens aos homens que se tinham 
reunido para saberem a razo de toda aquela agitao.
Num abrir e fechar de olhos, o campo transformou-se numa 
confuso de cavaleiros afivelando as armaduras e subindo para 
as selas. Mas do caos surgiu uma hoste temvel e a postos 
para a luta. Theido e Ronsard tomaram os seus lugares, cada 
um  cabea de uma coluna, e o exrcito partiu a galope, 
deixando os armeiros e os escudeiros a carregarem as 
carroas. Mais tarde segui-lo-iam.
O clamor da batalha ouvia-se muito antes de se ver, As foras 
do rei desceram a encosta arborizada e penetraram na 
depresso larga e cheia de erva, salpicada de montculos 
verdes, que constitua o lado mais alto da bacia do lago. Uma 
vez abaixo do nvel das rvores, viram que, realmente, o 
inimigo cercara as tropas de Wertwin e tentava empurr-las 
para o lago.
Theido e Ronsard desdobraram o exrcito ao longo da orla da 
bacia e, quando os cavaleiros ficaram em posio, mandaram 
tocar a atacar. Depois, desceram rapidamente do bosque, 
rodearam o campo e lanaram-se sobre o grosso das foras 
inimigas. Os espantados Ningaal viraram-se, deram de caras 
com uma carga inesperada e encontraram-se frente a frente com 
um inimigo fresco que nem uma alface. Ronsard tinha algumas 
esperanas de que, ao verem os numerosos cavaleiros do rei 
descendo sobre eles, os soldados da horda fugissem em 
debandada para o bosque, onde seriam abatidos como coelhos.
Mas os homens do comandante Gurd estavam acostumados  
batalha: atirando-se de cabea, aguentaram a carga de frente. 
Houve muitos que perderam a vida neste primeiro ataque. Mas, 
com uma ousadia aparentemente imune ao medo, os que 
sobreviveram  chacina limitaram-se a passar por cima dos 
corpos dos seus camaradas e continuaram a lutar.
Theido abriu  fora uma passagem para a borda do lago e foi 
dando golpes a torto e a direito at ao stio onde Wertwin 
lutava, mesmo no corao da batalha. Quando Theido l chegou, 
viu que as patas traseiras do cavalo do bravo comandante j 
estavam dentro de gua. Vrios

245

valorosos cavaleiros haviam cado das selas e, incapazes de 
se levantarem, tinham-se afogado em guas pouco profundas.
Havia baixas por todo o lado. Tanto o sangue de amigos como 
de inimigos manchava de um vermelho ferrugento os seixos 
cinzentos.
Ronsard conduziu o seu contingente para a retaguarda, 
entalando o inimigo entre as suas foras e as de Theido.  
custa de muita fora (Os cavaleiros estavam montados e o 
inimigo a p), Ronsard juntou-se rapidamente a Theido, 
conseguindo dividir os Ningaal em duas metades isoladas.
- Eles so mais do que ns! - gritou Ronsard quando se 
aproximou o suficiente para o seu camarada o ouvir.
- Os nossos cavalos e armaduras equilibram a balana' - 
retorquiu Theido.
As espadas dos cavaleiros faiscavam ao sol e os seus escudos 
suportavam o embate de poderosos golpes. Montados, os 
cavaleiros eram quase invulnerveis, fortalezas vivas de ao, 
cujas armaduras s no aguentavam os golpes mais directos. A 
p, no entanto, o peso das armaduras tornava-lhes os 
movimentos lentos, pondo-os em desvantagem relativamente aos 
Ningaal, mais mal protegidos mas muito mais geis.
A sorte da batalha pendia ora para um lado ora para o outro. 
O rudo do ao entrechocando-se e os gritos dos feridos e dos 
moribundos enchiam o ar. Tendo provado o sabor do sangue no 
vento, aves necrfagas voluteavam no cu. A um sinal 
desconhecido, os Ningaal soltaram um grito terrivel e 
lanaram-se, de repente, para o outeiro que Theido e Ronsard 
haviam conseguido conquistar. Esta tctica permitiu-lhes 
reunir as duas metades que tinham sido divididas.
- No vamos aguent-los por muito tempo - disse Ronsard de 
dentes cerrados; a espada assobiava-lhe em volta da cabea. - 
Ou atacamos agora ou ficamos outra vez encurralados entre 
eles e o lago.
- Pois . Tens alguma sugesto? - resmungou Theido, rodando 
na sela e desferindo golpes de espada  esquerda e  direita.
- Carregamos  beira da gua e depois voltamos para os 
bosques! - berrou Ronsard.
- Retiramos? - perguntou Wertwin. - Prefiro morrer com os 
meus homens.
- Digamos que vamos lutar para um terreno mais favorvel - 
gritou

246

Theido. - Se ficarmos aqui muito mais tempo, seremos 
novamente empurrados para o lago. Eles so muito fortes para 
ns. - Virando-se, gritou as suas ordens ao corneteiro, que, 
obedientemente. fez soar a trombeta.
Os cavaleiros do Rei Drago reuniram-se e abriram caminho ao 
longo da linha de gua do lago azul; os que estavam 
espalhados por mais longe pararam de lutar e seguiram-nos. 
juntaram-se-lhes vrios cavalos sem cavaleiro e cavaleiros a 
p, que no queriam ficar para trs.
Quando chegaram ao bosque, onde o terreno comeava a subir, 
Ronsard fez alto e mandou os seus homens virarem-se novamente 
de frente para o inimigo. Os cavaleiros de Theido e de 
Wertwin passaram por eles e foram embrenhar-se no bosque. 
Ronsard gritou aos seus cavaleiros que se preparassem para 
desmontar logo a seguir ao primeiro embate. Ali mesmo, no 
espao apertado do bosque, decidira que seria melhor os seus 
homens combaterem a p, tirando proveito da maior elevao do 
terreno.
Mas os Ningaal no os seguiram at ao bosque.
- O que  isto? Eles esto a retirar! - gritou Ronsard, 
incrdulo.
Theido ps-se a seu lado num abrir e fechar de olhos:
- No compreendo. Ainda falta muito para o Sol se pr e eles 
j esto a retirar...
- Vamos atrs deles! - sugeriu Wertwin.
Mas Ronsard, cauteloso, retorquiu:
- Deix-los ir. No creio que seja por medo que no nos 
seguem. Ali em baixo, lutaram de igual para igual. Eles no 
esto a fugir. Pode ser uma armadilha.
- Mas ns esmag-los-amos! - protestou Wertwin.
- Nem pensar, senhor! - objectou Theido. - Ainda h pouco 
estvamos em dificuldades. E isso no mudou s porque eles 
optaram por retirar. O ronsard tem razo: no  por fraqueza 
que eles retiram do campo de batalha.
Theido passeou o olhar pelo campo verde, onde agora jaziam os 
corpos dos mortos e dos moribundos. No cimo do outeiro que 
tinham acabado de deixar, viu uma figura solitria montada 
num robusto cavalo preto. A figura levantou a viseira do elmo 
emplumado e virou o rosto para o bosque, na direco de 
Theido, Wertwin e Ronsard. Depois, saudou-os, erguendo bem 
alto a cruel espada de lmina curva.

247

-  o comandante - disse Theido.
- Est a desafiar-nos! - acrescentou Wertwin.
- Talvez seja uma saudao... ou um aviso - replicou Ronsard 
sombriamente.
O guerreiro baixou a espada, virou-se e seguiu atrs do seu 
exrcito, que se deslocava ao longo do outro lado do lago, 
deixando o campo entregue s aves e aos gemidos dos feridos e 
dos moribundos.
- Que um grupo de soldados v recolher os nossos feridos e 
retirar as armaduras aos nossos mortos. Hoje no vai haver 
mais nenhum ataque - disse Theido. - Depois, voltemos ao 
acampamento para nos reunirmos em conselho. Gostaria de saber 
o que Myrmior tem a dizer sobre o que aconteceu hoje aqui. 
Pode ser que ele tenha muito a contar.

CAPTULO XXXII

Os senhores de Mensandor, reunidos em conselho, encontravam-
se sentados nas suas cadeiras de espaldar, sob os seus 
estandartes azuis, dourados e vermelhos. Com as mos finas e 
nodosas apertadas como garras em volta dos braos do trono, 
colocado em cima do palanque, Eskevar lanava um olhar 
colrico ao Conselho.
- O inimigo fortalece-se a cada dia que passa. Quanto tempo 
mais esperareis, senhores? Quanto tempo? At aos vossos 
castelos arderem? At o sangue das vossas mulheres e filhos 
tingir a terra de vermelho?
"E para qu? Pensais que ao esconder-vos dentro das vossas 
portas salvareis o vosso precioso ouro? Pois digo-vos que 
no! O inimigo vem a! Aproxima-se.  tempo de agir!
As palavras do Rei Drago ecoaram com uma fora e um vigor 
surpreendentes para um homem que, de to alquebrado pela 
doena, no parecia ele nem sombra dele. Os senhores ali 
reunidos, naquele momento na totalidade (excepto, Wertwin, 
que j tomara a sua deciso e estava com Theido e Ronsard), 
permaneceram em silncio. Ningum queria ser o primeiro a ir 
contra o rei.
- Duvidais de que seja necessrio? - perguntou Eskevar num 
tom de voz mais suave. - Eu digo-vos: mandei a minha escolta 
pessoal, os meus trezentos homens, contra os Ningaal. So 
conduzidos pelo Theido e pelo comandante-chefe Ronsard, aos 
quais se juntou o Wertwin com o seu exrcito de cem homens. 
So cavaleiros galantes e corajosos... mas no chegam. Se 
queremos esmagar os Ningaal e expuls-los das nossas costas, 
temos de os apoiar com dez vezes mais cavaleiros
homens armados.

250

Num tom de voz calmo, Ameronis disse:
- Esse  precisamente o ponto que gostaramos de ver melhor 
explicado, Majestade. Esse inimigo... esse Nin, ou l como se 
chama... no sabemos nada dele. Como podemos ter a certeza de 
que ele  to forte e que tem tantos homens? Parece-me que 
seria mais prudente mandarmos uma fora de batedores saber 
estes e outros pormenores antes de embarcarmos numa guerra 
total contra um inimigo imaginrio, de fora desconhecida.
- Como falas bem, Ameronis! Como tiveste muito tempo para 
ordenar os pensamentos, imagino que j sabes muito bem o que 
hs dizer. - O rei fez uma pausa, para que o seu sarcasmo 
atingisse o alvo.
"O Ameronis ops-se a pegar em armas! - gritou Eskevar de 
repente - Quem mais desafia o seu rei?
Vendo que Eskevar desmascarara a subtil oposio de Ameronis, 
a assembleia ficou chocada e, nesse momento, vrios senhores 
que tinham concordado em constituir uma coligao de nobres 
contra a formao e o financiamento de um exrcito comearam 
a hesitar. Era perigoso desafiar assim um rei, especialmente 
um rei to poderoso como Eskevar. No fim, talvez no pagasse 
o ouro que poderiam poupar.
Mas Ameronis recuperou rapidamente:
- Compreendeis-me mal, Majestade. No me oponho a uma aco 
claramente necessria. Quando chegar a altura de ir para a 
batalha, estarei  frente dos meus cavaleiros e ao vosso 
lado.
Lupollen, vizinho e amigo de Arneronis e o seu mais fiel 
aliado no Conselho, falou a seguir:
- Se o inimigo  to poderoso como dizeis, Majestade, no  
estranho que nunca tenhamos ouvido falar dele?  isso que me 
confunde.
Ouviu-se um mumrio de assentimento. Eskevar lanou um olhar
cortante a Lupollen e retorquiu:
- A ti tambm te conheo, senhor. O facto de o rei ter 
mandado os seus cavaleiros para a batalha deveria bastar como 
prova queles que so leais  Coroa. Porque duvidas do teu 
rei?
A seguir aos comentrios de Eskevar, fez-se silncio. o rei 
fitou  vez cada um dos seus senhores, como se quisesse 
gravar na memria a posio exacta de cada queixo e a 
expresso estampada em cada rosto.

251

- Disse tudo o que podia, senhores de Mensandor. E, quando o 
julguei mais vantajoso, deixei que outros falassem. - 
Referia-se a Esme, que, mais uma vez, pedira ajuda ao 
Conselho nesse dia. - No tenho mais nada a dizer.  
convosco. Se quisermos que Mensandor sobreviva, no podemos 
ficar de braos cruzados.
Descendo do estrado, Eskevar penetrou no crculo das cadeiras 
do Conselho. Depois, num gesto pouco caracterstico do Rei 
Drago (o que no deixou de produzir efeito), estendeu as 
mos e implorou:
- No espereis muito. Entrego o assunto nas vossas mos.
Deixou o Conselho de Guerra num silncio total. Ningum se 
atreveu a falar at ele estar bem longe. S ento comeou um 
duro debate: Ameronis, Lupollen e os seus amigos opunham-se 
ao chamamento s armas do rei, e Benniot, Fincher e vrios 
outros apoiavam-no com igual firmeza.
A discusso foi amarga, acalorada e longa: durou todo o dia. 
Eskevar regressou aos seus aposentos para meditar 
sombriamente na teimosa cegueira dos seus independentes e 
auto-suficientes senhores.

Cada lgua que percorriam aproximava-os do sop dos Fiskills, 
que passaram de um violeta nebuloso a azul, acima do verde 
mosqueado dos montes arborizados. O grupo partira para leste, 
em direco ao grandioso corao da acidentada cordilheira 
montanhosa. Naquela regio de Mensandor, os FiskilIs pareciam 
erguer-se abruptamente das colinas ondulantes que subiam 
suavemente at ao seu sop. Eram uma muralha, como fora a 
inteno de Celbercor, uma fortaleza alcandorada nas alturas, 
que s no desencorajava os mais tolos ou os mais 
determinados. Foi esta fortaleza que Quentin, Toli e Durwin 
ousaram assaltar. A terra elevava-se a cada dia que passava. 
Quentin imaginava que sentia o vento a ficar mais frio e o ar 
fresco nas alturas a soprar sobre eles em momentos 
inesperados. Na paz do campo, com as suas aldeias pequenas e 
bem tratadas, tornava-se cada vez mais difcil acreditar nos 
ameaadores acontecimentos que, em Askelon, tinham sido fonte 
de tantas preocupaes. At a experincia de Quentin no 
acampamento dos Ningaal parecia que acontecera a uma outra 
pessoa e que ele s ouvira falar disso. Se no fosse o seu 
brao ferido, pendurado ao peito, no acreditaria em nada.

252

S  noite era espicaado pela lembrana, que lhe chegava sob 
a forma da estrela, ligeiramente maior a cada noite que 
passava e que, por essa altura, parecia ofuscar o brilho de 
qualquer outra estrela, seu quadrante. Slida e brilhante, 
lanava um halo de raios leitosos a partir do seu centro 
quente e branco. "Agora, todos a devem ver", pensava Quentin 
 noite, enrolado na sua capa. "De certeza que todos sentem o 
mal que pressagia."
Mas, com a chegada da manh, a Estrela do Lobo desaparecia, 
assim como todas as outras luzes menores do cu. O feitio da 
cintilante estrela quebrava-se com o nascer do dia.
- Falta muito para chegarmos a casa do Inchkeith? - perguntou 
Quentin uma manh, quando se preparavam para partir.
- Se tivermos sorte, esta noite dormiremos em colches de 
penas - respondeu Durwin.
- Ento estamos assim to perto? - Quentin no fazia ideia 
onde ficava a casa do lendrio armeiro, mas parecia-lhe que 
as rochosas terras altas que, naquele momento, atravessavam 
no eram lugar onde se encontrasse um mestre da sua arte.
Durwin subiu a p a encosta do pequeno monte onde haviam 
acampado. Quentin seguiu-o, semicerrando os olhos quando a 
luz da alvorada carmesim lhe bateu em cheio no rosto.
- Ests a ver aquele cume rochoso do outro lado do vale?
Quentin fez que sim com a cabea ao ver a muralha escarpada 
cinzenta que lanava uma sombra preta sobre a cortina verde 
do vale coberto de pinheiros.
- Ele vive do outro lado do cume?
- Do outro lado, no... vive no cume! - riu Durwin. - Ou 
antes, quase, como vais ver. O Inchkeith  um homem estranho, 
com maneiras estranhas. Mas  dele que precisamos.
- Tu conhece-lo, Durwin? At h bem pouco, nunca te tinha 
ouvido falar nele. - Embora no fosse nada improvvel que 
Durwin mantivesse relaes com um homem assim, Quentin 
observou o eremita seu amigo com uma certa desconfiana.
- H muita coisa de que nunca me ouviste falar, meu jovem. Na 
minha cabea s cabe metade do que sei de cada vez! - Piscou 
o olho e soltou uma gargalhada, que fez a sua voz ecoar na 
lmpida manh.

Toli assobiou l de baixo. Quando se lhe juntaram, estava 
tudo pronto.
- Para dormirmos hoje  noite em colches de penas e no em 
agulhas de pinheiro,  melhor partirmos. Vede como as sombras 
j se alongam. - Os olhos escuros de Toli faiscavam de bom 
humor, pois ele encontrava-se mais uma vez no seu elemento 
natural. A cada dia que passava, parecia voltar mais a ser a 
pessoa calma e enigmtica que era quando Quentin o conhecera, 
anos atrs. "Com as peles de veado e a faca de osso", pensou 
Quentin, "voltaria a ser um prncipe jher."
- Aposto que preferias as agulhas de pinheiro, Toli. Mas 
vamos embora! Como tu dizes, o dia est a fugir-nos! - Com 
alguma dificuldade, mas sem ajuda, Quentin saltou para a sela 
de Blazer e virou o rosto para o calor do Sol nascente.

L para o meio-dia, passavam por cima deles imensos bancos de 
nuvens empurrados do norte, cinzentos como fumo, em baixo, e 
brancos como algodo, em cima. A massa em turbilho crescia e 
ondulava, formando um tecto alcandorado no cume, que os 
fortes ventos achatavam.
- Vai chover - disse Toli.
- Achas que o tempo ainda se aguenta assim at chegarmos ao 
nosso destino?
-  possvel - replicou Toli, olhando de esguelha para o cu.
- Mas j est a ficar mais fresco. O trovo sussurra no 
vento. No sei se chover j.
Quentin no ouvia nenhum trovo, mas, a partir do momento em 
que Toli o mencionara, pareceu-lhe reparar que a suave brisa 
que levantava as folhas das rvores estava, de facto, mais 
fria.
- Ento,  melhor no ficarmos parados a dar  lngua! - 
gritou Durwin. - Se pudermos manter-nos secos, tanto melhor. 
Se no comermos agora, desforrar-nos-emos depois com um 
jantar quente.
- Concordo plenamente! - exclamou Quentin, esporeando Blazer 
- Vamos embora!
Durwin incitou o seu cavalo castanho e Toli seguiu-o com os 
dois animais de carga; Quentin foi atrs deles, sempre de 
olho nas nuvens que se juntavam l em cima. Nessa manh, 
tinham andado bem, pois s haviam parado para renovar a gua 
dos odres num regato impetuoso,

254

no corao do vale. Sempre que Quentin erguia o olhar 
parecia-lhe que a grande muralha de pedra cinzenta, 
indistinto baluarte entre os recortados ramos dos pinheiros, 
se aproximava cada vez mais depressa.
Por fim, Quentin ouviu o chapinhar que a gua de um ribeiro 
fazia ao passar sobre as pedras. O grupo deixou o abrigo dos 
pinheiros e chegou a um canal rochoso, escavado por um rio 
pouco profundo, que fazia espuma ao ressaltar sobre as pedras 
pretas e redondas como pes. Apesar da sua impetuosidade, a 
gua mal chegava aos topetes dos cavalos, mas o rio era da 
largura do ptio interno de um castelo. Durwin percorreu a 
margem barrenta e virou para nascente. paralelamente ao cume.
Ao longo da margem, as peas de gua espelhavam as imensas 
nuvens negro-azuladas. O vento estava mais frio e Quentin 
sentia na terra o cheiro bafiento da chuva.
O ribeiro descrevia uma curva ladeada por pinheiros altos, 
muito finos. de agulhas compridas, que sussurravam ao vento 
que se levantava.
- A chuva vem a! - gritou Durwin.
- Espero que ainda no falte muito - retorquiu Quentin, 
pondo-se ao seu lado. - Se calhar, devamos abrigar-nos e 
esperar que o primeiro aguaceiro passasse.
- Se no me engano, no temos muito que andar. Olha ali  
frente. - O eremita apontou para os penhascos cinzentos que 
tinham novamente  frente. - Ests a ver o ponto em que a 
gua sai da base da parede do cume?  mesmo em frente.
- Parece uma parede toda inteira - observou Quentin.
- Vais ver, vais ver.
- Se no nos despachamos, Inchkeith, o armeiro, vai receber 
trs viajantes encharcados - comentou Toli. Quando acabou de 
falar, as primeiras gotas de chuva, muito grossas, comearam 
a cair nas poas e no caminho, levantando pequenas nuvens de 
poeira.
Com um vigor renovado, esporearam as montadas. As pesadas 
gotas pingavam  sua volta e faziam-lhes manchas escuras na 
roupa.
Ao aproximarem-se do local indicado por Durwin, Quentin viu 
na parede rochosa uma dobra em que ainda no reparara. No 
ponto em que o ribeiro aparecia  superfcie, o lado esquerdo 
do penhasco curvava abruptamente e o direito sobrepunha-se-
lhe. Vista de longe, a

255

parede parecia contnua, Mas, de facto, ao seguirem o rio em 
direco  vasta base rochosa, abriu-se  sua frente.
Ao encontrar-se com a cumeeira, o terreno elevava-se 
ligeiramente, os pinheiros cresciam mesmo at  face da 
parede cinzenta. Os cascos dos cavalos martelaram num talude 
de pedra e atravessaram o penhasco. Assim, chegaram a uma 
paisagem de tirar a respirao. Apesar das gotas de chuva que 
caam  sua volta, Quentin, maravilhado, parou para admirar a 
vista. Um vasto campo ondulante e muito verde estendia-se de 
cada lado do ribeiro, agora mais estreito e profundo. 
Rodeando o prado e encimando-o por todos os lados, erguiam-se 
suaves muralhas de pedra muito lisa, azuis, sob o cu negro. 
Do outro lado do prado, que Quentin calculou ter uma lgua de 
largura e meia lgua de comprimento, erguia-se uma enorme 
casa de pedra branca, luzindo como as velas brancas de um 
barco num mar cor de esmeralda.
- Aquela  a casa do Inchkeith - indicou Durwin. - Chegmos 
mesmo a tempo.
O barulho de um trovo atravessou o cume e fez ouvir a sua 
voz ribombante por todo o prado. A erva alta comeou a 
baixar-se e a elevar-se como as ondas de Gerfallon ao sabor 
do vento.
Com a chuva, agora mais violenta, picando-lhes o rosto, 
galoparam pelo lindo prado. Quentin sentiu um arrepio de 
excitao quando um relmpago cruzou os cus, imprimindo 
neles uma faiscante linha em ziguezague. O trovo que se 
seguiu encheu o desfiladeiro azul e ribombou atravs do vale, 
atrs deles.
A casa de Inchkeith tinha o tamanho de um castelo pequeno, e 
esta impresso era reforada por uma nica torre imponente, 
que servia de porto de entrada para um ptio grande, com 
pavimento de pedra. Em volta da casa principal viam-se vrias 
estruturas mais pequenas. tambm da mesma pedra branca. O 
ribeiro, de curso profundo e calmo atravs do prado, formava 
uma graciosa cascata ao cair da superfcie nua da rocha, por 
trs da habitao do mestre armeiro. Do outro lado, no stio 
em que a gua descia para o prado, uma grande roda girava 
lentamente na rpida corrente.
Quando os viajantes se detiveram em frente da torre, no se 
via ningum. Uma grade de ferro finamente trabalhado barrava-
lhes o caminho para o ptio.

- No h nenhum guarda, porque ele no espera viajantes e tem 
poucas visitas - observou Durwin.
O eremita deslizou do seu cavalo e encaminhou-se para a 
arcada. De um nicho de pedra pendia uma corda entrelaada. 
Durwin agarrou-a e puxou-a duas vezes, muito depressa. Ouviu-
se uma sineta repicando no ptio.
- Isto deve chegar para virem a correr ver quem  - disse 
Durwin. A chuva caa com mais fora; dali a pouco, estariam 
encharcados at aos ossos. Do outro lado do prado, de onde 
tinham vindo, grandes lenis brancos e cintilantes de chuva 
dirigiam-se para eles, empurrados pelo vento como se fossem 
velas. A gua formava poas em volta das patas dos cavalos e 
escorria pelas paredes da manso.
- Quem quer entrar na casa do meu amo? - Quentin no vira o 
jovem franzino sair de uma porta e atravessar o ptio a 
correr. Naquele momento, com a capa por cima da cabea, 
espreitava atravs das grades trabalhadas.
- Diz ao teu amo que o santo eremita de Pelgrin, Durwin, e os 
seus amigos Quentin e Toli esto aqui ao servio do rei, para 
lhe falar. Diz-lhe que lhe pedimos respeitosamente a 
hospitalidade devida aos viajantes. E diz-lhe tudo isto 
depressa, para no ficarmos num estado lastimvel. - Durwin 
limpou o fio de gua que lhe escorria pelo nariz.
O jovem pareceu pesar cuidadosamente a sua deciso:
- Vs no pareceis indisciplinados. Entrai e abrigai-vos da 
chuva enquanto eu vou falar com o amo. - Dizendo isto, 
desapareceu num recanto ao lado da grade; dali a momentos, a 
pesada porta de ferro comeou a subir suavemente, sem um 
nico estalido ou rangido. Era bvio que fora feita com a 
maior habilidade.
Os molhados viajantes apressaram-se a abrigar-se debaixo do 
arco do porto  espera que o jovem servo voltasse. Quentin e 
Toli desmontaram e ficaram a pingar no escuro tnel da 
arcada. Quentin estava impressionado com a simplicidade de 
tudo o que via ao seu redor. Nem postes nem portais possuam 
um bocadinho que fosse de ornamentao. Em volta do ptio no 
havia nada que parecesse deslocado e o prprio ptio estava 
impecvel. A manso de Inchkeith era toda feita de linhas 
direitas e ngulos bem desenhados; via-se que fora construda 
com todo o rigor. No havia fendas nem buracos por lado 
nenhum.

257

No conjunto, o efeito fazia lembrar a Quentin a arquitectura 
de Dekra, embora nem por sombras derivasse dela. Mas 
impressionava-o a aparncia perfeita de tudo o que os seus 
olhos encontravam, pois revelava umas mos que no deixavam 
nada por fazer e um esprito que se preocupava com todos os 
pormenores. Quentin ouviu um grito e viu o jovem servo 
acenando-lhes de dentro da entrada abobadada do salo da 
manso. Correndo pelo canto do ptio, juntaram-se-lhe todos 
por baixo do prtico.
- Vinde comigo. No vos preocupeis com os cavalos. Mandarei 
algum tratar deles. O meu amo convida-vos a acompanh-lo  
mesa, no grande salo, se assim o desejardes.
- Claro que sim! - quase gritou Quentin. Tinha fome e frio e 
estava molhado. Naquele momento, uma refeio quente parecia-
lhe a coisa mais deliciosa do mundo. - Vamos!
O jovem magricela, de ossos compridos, conduziu-os ao longo 
da curta passagem que dava para a entrada do salo, empurrou 
a porta de gonzos de ferro e mandou-os entrar. O salo era 
amplo e gracioso, mas obedecia ao mesmo estilo simples, quase 
severo, do exterior. Admirado, Quentin olhou em volta. Vrios 
servos atarefavam-se de um lado para o outro, preparando tudo 
para a refeio. Em frente de uma nica mesa comprida, com 
bancos corridos de ambos os lados, encontrava-se uma lareira 
larga, na qual ardiam vivamente vrios troncos dispostos com 
perfeio. A chamin devia ter uma excelente tiragem, pois 
Quentin reparou com satisfao que no se viam vestgios de 
fuligem nas paredes ou no tecto do salo. Estava tudo to 
limpo como se nunca tivesse sido usado, mas, ao mesmo tempo, 
quente e acolhedor.
O aspecto da morada de Inchkeith desenhou no esprito de 
Quentin a imagem de um senhor (assim passou a consider-lo) 
severo, rigoroso e de porte real., de um homem irascvel, com 
uma vontade to forte como a porta de ferro que tinha  
entrada e uma capacidade de julgamento precisa e sem falhas, 
de uma pessoa que nunca aceitaria de nimo leve a imperfeio 
ou a desonra. De um homem poderoso, forte e gracioso. De um 
homem de uma perfeio inflexvel e fervorosa, obedecido por 
todos os que o rodeavam com uma eficincia silenciosa e uma 
cortesia sem falhas.
- Durwin! Meu velho resmungo! - troou atrs deles uma voz

258

clamorosa. - Bem-vindos! Bem-vindos, bons amigos! Bem-vindos 
 Manso Branca!
Quentin virou-se, esperando ver o homem que imaginara, A 
imagem que desenhara to cuidadosamente no seu esprito ruiu 
completamente quando o jovem deu com os olhos no senhor da 
Manso Branca.

CAPTULO XXXIII

- Devieis ter-me deixado acompanhar-vos - disse Myrmior.
- Eu podia ter-vos ajudado contra eles.
- No. - Ronsard abanou a cabea severamente. - s um aliado 
demasiadamente precioso. Ajudas-nos mais com o teu 
conhecimento dos Ningaal do que com o teu brao forte. Se 
tivesses sido morto hoje, como o foram muitos homens bons, 
no teramos ningum para nos ajudar a preparar-nos contra 
eles.
- Como quiseres, meu senhor Ronsard. Obedecer-te-ei. Mas 
queria que soubesses que no tive medo e que, quando chegar a 
altura de erguer a minha espada contra os meus antigos 
algozes, f-lo-ei com toda a coragem.
- Ns no duvidamos do teu valor, bravo Myrmior. Claro que, 
na altura apropriada, irs connosco. Mas o Ronsard tem razo: 
vales mais para ns como guia para os pensamentos e o corao 
dos Ningaal do que como guerreiro. Homens decididos temos 
muitos, mas tu s nico.
Wertwin, sentado ali perto, no falava. Estava pesaroso com a 
perda de tantos homens bons; como fora ele que aguentara o 
embate da batalha, via-se agora privado de quase metade das 
suas tropas.
Depois do ousado salvamento do exrcito de Wertwin pelas 
foras de Theido e de Ronsard, tinham voltado todos ao campo, 
para a acamparem durante a noite. Enquanto estavam sentados 
trocando opinies, o ferreiro e o fsico reparavam armas e 
homens, e ouviam-se por todo o acampamento as pancadas do 
martelo na bigorna e os gemidos dos feridos. Para a viglia 
da noite, haviam-se colocado sentinelas nos seus

260

postos e acendido fogueiras. Theido, Ronsard, Myrmior e 
Wertwin voltaram mais uma vez a sua ateno para os brutais 
acontecimentos daquele dia.
- No podemos voltar a ir contra eles como fomos hoje - 
observou Ronsard sombriamente. - Eles so muito fortes e 
disciplinados.
- Disciplinados! - resmungou Myrmior. - O que acontece  que 
tm mais medo do seu chefe do que de vs. S podeis mat-los, 
mas ele tem poder sobre as suas almas!
- Ele  assim to poderoso? No meu tempo, ouvi coisas assim - 
volveu Theido.
Myrmior encolheu os ombros:
- Se  verdade ou no, no sei, mas  o que os Ningaal 
acredtan por isso, tanto para eles como para vs, vai tudo 
dar ao mesmo. Eles preferem lutar at  morte a renderem-se. 
E acreditam que cada inimigo que matarem  mais um degrau que 
sobem na longa escadaria da imortalidade.
- Seja o que for que lhes d tanta ferocidade,  indomvel. 
No estou a ver como vamos enfrentar um inimigo assim. Embora 
as suas arma< sejam ligeiras e os nossos homens estejam bem 
protegidos, eles esmagam-nos em nmero. S hoje perdemos 
setenta e cinco bravos cavaleiros.
- No vos esqueais de que s vistes uma fraco do total. 
Fora das vossas fronteiras, h mais trs comandantes com os 
seus exrcitos. Quando se reunirem novamente, nada os deter 
- anunciou Myrmior sombriamente. Wertwin lanou-lhe um olhar 
zangado e praguejou:
- Por Azrael! Que queres que faamos, meu selvagem? Camos 
sobre as nossas espadas e acabou? Se sabes tanto, porque no 
nos orientas? Em vez disso, atormentas-nos com as tuas 
mentiras!
Myrmior ouviu esta exploso em silncio. A sua expresso s 
mostrava compreenso pela difcil situao do comandante:
- S disse o que disse para que no crieis falsas esperanas 
e no penseis que podeis vencer os Ningaal no campo de 
batalha - retorquiu calmamente. - Eles no podem ser vencidos 
assim. Pelo menos, no com as tropas de que dispomos.
Fez uma pausa. O silncio caiu sobre a tenda. L fora, o 
crepsculo adensava-se e, com a chegada da noite, o cu ia 
ficando negro-aZulado. Ouviam-se as pancadas do martelo no 
ao e os estalidos de uma

261

fogueira ali perto. As sombras dos homens projectavam-se nos 
lados da tenda, fazendo parecer que estavam rodeados pelos 
fantasmas dos seus camaradas cados em combate.
- Durante o meu longo cativeiro, no me deixei arrastar pelo 
cio. Aprendi muito da maneira como os homens fazem a guerra. 
Estudei os que foram vencidos pelos Ningaal e observei as 
coisas que do mais esperanas de vitria, que, no entanto, 
so muito poucas.
Ento diz-nos - implorou Ronsard. - O que podemos fazer?
 bom no esquecer que daqui a pouco teremos mais homens. O 
conselho ainda est reunido e penso que dentro em breve 
teremos ajuda - acrescentou Theido esperanadamente.
- No devemos contar com isso - objectou Myrmior. - O que vou 
propor agora servir-nos- para esperarmos tanto por muito 
como por pouco tempo.
- Isso mesmo. Ento, diz l. Estamos prontos a ouvir a tua 
sugesto.
- Os soldados do vosso pas conhecem bem o manejo do arco e 
da flecha? - perguntou Myrmior.
- Claro que sim! - riu Ronsard. -  uma coisa til, embora 
no seja arma em que se confie no campo de batalha, por ser 
muito imprecisa e no ter hipteses contra o ao da armadura 
de um cavaleiro.
-  mais apropriada para aborrecer as criaturas da floresta e 
para atacar de uma distncia segura. No  arma para um 
cavaleiro - concordou Theido. - No pode manejar-se o arco da 
sela de um cavalo a galope.
Wertwin s resmungou:
- Arcos e flechas! Hum!
- Pelo menos, tendes essas armas - interveio Myrmior 
rapidamente. - No condeneis o meu plano antes de o ouvirdes 
por inteiro.
"No proponho que levemos archeiros para o campo de batalha, 
mas tambm no proponho que voltemos l. Vou ser muito 
franco: hoje, tivestes muita sorte. Os vossos deuses 
sorriram-vos. Em todo o tempo que estive com o guerreiro 
Gurd, nunca o vi mostrar piedade nem abandonar o campo de 
batalha se houvesse a mnima hiptese de vitria.
"O que ele fez hoje  raro, mas no inverosmil. Ele deu-vos 
a oportunidade de vos reagrupardes e preparardes para outra 
batalha,
porque, mais do que a prpria batalha, ele adora um opositor 
 sua altura. Para ele, no tem piada nenhuma matar um 
inimigo fraco e

262

indefeso. Isso  s uma chacina, e no se conquista grande 
imortalidade a tirar a vida aos fracos.
"Vs enfrentastes o seu exrcito, e ele respeita-vos por 
isso. Quando retirastes, reconheceu em vs inimigos 
ardilosos, cuja morte lhe traria muita honra. Ele quis que 
vs vos reagrupsseis para saborear a satisfao pela vossa 
derrota.
"Tal como o viticultor que, cheio de cuidados, prova o fruto 
das suas vinhas, assim o chefe guerreiro vos experimentou, 
encontrando um oponente digno da sua arte.
- E o que  que isso tem a ver com arcos e flechas? - 
perguntou Wertwin com um ar carrancudo. Tinha o corao 
apertado e o humor sombrio carregava-lhe as feies.
- So a arma que nos vai permitir arrebatar essa saborosa 
vitria da pana desse guerreiro.
- Derrot-los com brinquedos de criana? Ah!
- Espera - interveio Theido. - Deixa-o falar. Parece-me que 
estou a comear a perceber.
Myrmior fez uma vnia na direco de Theido:
- s muito astuto, senhor. Proponho que no voltemos ao campo 
de batalha para combater os Ningaal... pelo menos, no por 
enquanto, no por bastante tempo. Em vez disso, no lhes 
demos sossego de noite, assaltando-lhes o acampamento e 
atirando-lhes uma chuva de flechas de cada vez que eles 
tentarem perseguir-nos.
"Se nos recusarmos a enfrent-los, o Gurd arder de raiva. E, 
se tivermos sorte, a sua raiva consumi-lo-.
- Que honra h nisso? - gritou Wertwin. - Atacar pela calada 
da noite, como reles ladres, disparando flechas s sombras! 
 um disparate, um absurdo! No tomarei parte nisso!
- Esta guerra no ser ganha com a tua honra. Os teus homens 
morreram hoje com honra, e agora jazem nos seus tmulos. Em 
que  que isso te pode ajudar? Ouvi-me bem, senhores: apegai-
vos  honra e perdereis a vossa terra!
- O myrmior tem razo - replicou Ronsard lentamente, lanando 
a Wertwin um olhar zangado. - No h honra nenhuma em 
perdermos a nossa terra. Mesmo que morramos como heris, quem 
se lembrar? Quem cantar os nossos louvores na casa dos 
nossos pais?

263

" melhor tratarmos primeiro desta questo, e s depois do 
nosso bom nome. Por mim, gostaria de viver at ver Mensandor 
livre desta ameaa... consiga-se isso como se conseguir.
- Concordo - retorquiu Theido pensativamente -, mas preocupa-
me uma coisa: o que sugeres  bom para este chefe guerreiro e 
o seu contingente. Mas... e os outros? Vamos permitir que os 
seus iguais assolem os campos sem oposio?
Myrmior abanou lentamente a cabea e coou o queixo barbudo 
com a mo plida.
- Essa  a parte mais difcil do plano, senhores. Se o vosso 
conselho mandasse depressa as tropas de que precisamos, tudo 
estaria resolvido, mas, assim, s vejo uma soluo: proceder 
da mesma maneira contra todos os comandantes... um de cada 
vez. Penso que o plano dar resultado, pois no so 
necessrios muitos homens para o porem em prtica. Mas 
precisamos de archeiros.
- A maioria dos nossos cavaleiros est bem treinada no arco, 
embora haja poucos prontos a admiti-lo. Podemos arranjar 
archeiros mandando uma mensagem para Askelon... o que temos 
de fazer para obtermos os arcos e as flechas.
- Ento, faamos isso imediatamente. Entretanto, retiraremos 
e manter-nos-emos um pouco  frente dos Ningaal, at termos 
armas para iniciarmos os nossos ataques.
- O qu? No vamos fazer nada para travar o avano dos 
Ningaal? Vamos ficar parados a v-los marchar livremente 
pelos nossos campos?
- H semanas que eles o fazem, Wertwin - respondeu Ronsard. - 
Se temos de os suportar um pouco mais para conseguirmos os 
nossos objectivos, assim seja. Isso, pelo menos, temos de 
arriscar. Alm disso - acrescentou, com um sorriso malicioso 
-, ficaro a pensar no que estamos a preparar.
-  verdade - concordou Myrn-iior -, a ira do Gurd aumentar! 
O que vamos tentar fazer  atorment-los tanto que eles se 
encolerizem o suficiente para cometerem qualquer disparate, 
qualquer erro de estratgia que possamos aproveitar em nosso 
favor. E, entretanto, provocar-lhes-emos baixas a pouco e 
pouco, como a gua batendo na pedra e erodindo-a com o tempo.
Theido levantou-se e espreguiou-se; fora um longo dia:

264

- O teu plano  bom, Myrmior. Vou mandar imediatamente um 
mensageiro a Askelon. Amanh comearemos a instruir os nossos 
cavaleiros nesta nova maneira de combater. S espero ter 
tempo suficiente para realizar a mudana.
- Ter de ser assim, quer queiramos quer no - retorquiu 
Myrmior. - Acreditai, meus bravos senhores. No h outro 
caminho.
Wertwin fitou os seus camaradas com um ar carregado e, a 
resmungar, saiu da tenda em grandes passadas.
- No lhe ligueis muito - amenizou Ronsard. - O seu corao 
acabar por sarar e, daqui a pouco, estar firmemente ao 
nosso lado. - Depois, tambm ele se ps em p e se 
espreguiou. - Obrigado, Myrmior. Deste-nos conselhos sbios 
e ponderados. Creio que, tal como o Wertwin, no teria 
acreditado em ti se no tivesse visto hoje o inimigo frente a 
frente e sentido a sua astcia e a sua fora. Agora sei que 
tens razo e, assim como o Theido, s rezo para que no seja 
tarde de mais.
- Sem dvida que s um ministro fiel ao teu monarca - 
acrescentou Theido. - Ele deve ter tido os teus servios em 
alta estima, mas no mais do que ns os temos agora. Ainda 
antes de tudo isto acabar, teremos razes para recompensar 
devidamente o teu engenho e lealdade. Talvez um dia possas 
voltar ao teu pas na qualidade de rei.
Myrmior voltou para eles uns olhos grandes e tristes:
- Nunca mais poderei regressar. A terra que conheci e a amei 
desapareceu. Escolhi ficar aqui, como o devia ter feito h 
muito tempo no meu pas. Nessa altura, tive medo, mas isso 
acabou. Convivi diariamente com a morte mais horrvel que se 
possa imaginar e nunca mais voltarei a sentir-me 
aterrorizado.
Os trs homens ficaram a olhar longamente uns para os outros. 
Ningum falou. Um caloroso lao de amizade uniu os dois 
cavaleiros ao homem de Khas-I-Quar. Para o mostrarem, 
puseram-lhe as mos nos ombros.
- Boa noite, senhores. - Ronsard bocejou e esfregou os olhos.
- Amanh, voltarei a pegar na arma da minha juventude. Por 
isso, tenho de descansar.
Theido e Myrrnior soltaram uma gargalhada e foram dormir para 
as suas tendas.

CAPTULO XXXIV

Estarrecido, Quentin fitava o seu hospedeiro de boca aberta. 
Esperava um comandante guerreiro ou, pelo menos, um cavaleiro 
para quem a batalha e as necessidades dos soldados e das suas 
armas no tivessem segredos, mas a pessoa que atravessava o 
salo na sua direco era exactamente o oposto da imagem 
mental de Quentin.
Inchkeith, o lendrio armeiro, era um homem pequeno, de cara 
fina e enrugada. Os tendes, semelhantes a cordas, 
sobressaam-lhe do pescoo, como que a impedirem que a cabea 
quase imvel lhe casse dos ombros fortes. Era baixo e 
apresentava uma inclinao pouco natural, o que, como Quentin 
viu imediatamente, se devia ao facto da coluna vertebral do 
mestre armeiro estar curvada de uma forma grotesca. Caminhava 
sobre as pernas magras, dando uma espcie de saltinhos, e nem 
por sombras tinha o andar lento e digno do homem que Quentin 
imaginara. Mas as suas mos eram as de um artista: largas, 
generosas e destras. Eram mos fortes, de movimentos seguros, 
graciosas, e que nem por um momento estavam quietas. Estas 
mos notveis encontravam-se ligadas a uns braos poderosos e 
a uns ombros bem musculados, que pareciam de um jovem. Para 
Quentin, algum pregara uma partida cruel ao ancio de pernas 
magras, colocando-lhe o peito e os braos fortes de um 
lavrador ou de um soldado no corpo franzino e deformado de um 
moo de cozinha.
- H muito tempo que no tenho o prazer da tua companhia, 
Durwin. Mas agora ests aqui e alegra-me muito ver-te. - 
Inchkeith tinha uma voz profunda, que contrastava 
estranhamente com o seu

266

aspecto mirrado. Com dois saltinhos, encontrou-se nos braos 
de Durwin e os dois homens abraaram-se como irmos que havia 
muito no se viam
-  bom voltar a ver-te, Inchkeith. No mudaste nada. Trouxe 
comigo uns amigos que gostava de te apresentar.
- Estou a ver! Estou a ver! Bons senhores, sois muito bem-
vindos agora e sempre  Manso Branca. Espero que vos sintais 
 vontade para ficardes o tempo que quiserdes. Nunca temos 
muitos hspedes por aqui e, assim, vamos celebrar a vossa 
vinda. - O mestre armeiro fez-lhes uma vnia grotesca e 
piscou-lhes o olho. Quentin no se conteve e riu-se alto:
- Mestre Inchkeith, honras-nos com a tua amvel 
hospitalidade.
- Estes so o Quentin e o seu companheiro Toli - indicou 
Durwin.
- Ah, Durwin, vejo que viajas em boa companhia. - Para 
mostrar o respeito que sentia, Inchkeith virou os olhos para 
cima e ergueu as mos  altura do rosto. - Vs os dois sois 
bem conhecidos por aqui. Dentro destas paredes cantam-se 
muitas vezes os vossos feitos, assim como os grandes feitos 
de todos os bravos.
Em resposta a este cumprimento, Quentin corou e fez uma 
vnia:
- As histrias no contam tudo. Fiz apenas o que qualquer 
homem teria feito, e sem grande bravura.
- Est bem, mas quem o fez foste tu e no outro qualquer. 
Inchkeith apontou o indicador para o ar. - A diferena est 
a! - Nesse momento, abriu-se uma porta de um dos lados do 
salo e entraram vrios jovens marchando como se fossem 
soldados a treinar-se.
- Vinde! - gritou Inchkeith, afastando-se a mancar. - Tendes 
de conhecer os meus filhos. Tenho a certeza de que eles 
tambm querem dar-vos as boas-vindas.
Os viajantes seguiram-no; Quentin e Toli, de sorriso aberto, 
sentam-se irresistivelmente atrados para aquele homem to 
original, to diferente da ordem exacta e escrupulosa que o 
rodeava. Os filhos eram sete, todos rapazes bem constitudos 
e de boas maneiras. S falavam quando o pai lhes fazia alguma 
pergunta ou lhes indicava o momento de responderem a alguma 
questo. Quentin e Toli cumprimentaram-nos um a um, reparando 
que eles eram todos imagens vivas uns dos

267

outros: cabelos e olhos castanhos e suaves, lbios carnudos, 
faces castanhas e testas altas e fortes. E todos tinham 
pernas bem firmes e direitas; nenhum deles herdara a 
deformidade do pai.
- So o meu exrcito, o meu prazer, o meu orgulho - disse o 
seu pai, com o rosto aberto num sorriso, enquanto eles se 
sentavam no banco com as costas direitas e as mos pousadas 
no colo.
"E agora, o meu ouro e as minhas jias! - Inchkeith virou-se 
e acenou com a mo. Como se obedecesse a um sinal, uma mulher 
alta e elegante, vindo do lado mais prximo do salo, entrou 
seguida de cinco lindas raparigas. - A minha senhora e as 
minhas filhas.
As jovens aproximaram-se, sufocando o riso com as mos; ao 
moverem-se todas juntas, os seus simples vestidos de 
musselina produziram um agradvel roagar. Mas quando foram 
apresentadas a Quentin, cada uma,  vez, estendeu a mo, como 
uma senhora bem-nascida, e fez uma vnia. E, embora sentindo-
se um pouco tolo, ele beijou-lhes a mo, obtendo a risonha 
aprovao da me. Toli sentiu-se obrigado a seguir o exemplo 
do seu amo.
- Sois muito bem-vindos  nossa casa, meus senhores - disse a 
mulher de Inchkeith. - Se precisardes de alguma coisa, 
estamos prontos a servir-vos.
- Sois muito amvel...
- Chamo-me Camilla - informou ela, estendendo a mo para 
Quentin, que a beijou, fazendo ela uma vnia. Reparando que a 
mulher era muitos anos mais nova do que o marido, Quentin 
pensou se todos os filhos ali reunidos seriam dela. Era 
possvel: todos eles possuam a sua cor escura; mas, nesse 
caso, ela conseguira manter uma aparncia muito jovem.
- Obrigado pela tua amabilidade, senhora. Ainda mal chegmos, 
e j me sinto bem-vindo.
- Ento, no nos demoremos mais - observou Inchkeith com 
satisfao, esfregando as mos uma na outra, como se quisesse 
aquec-las. - Sentai-vos, bons amigos, e partilhai o nosso 
po connosco.
Inchkeith pegou no brao de Durwin e levou-o consigo para a 
cabeceira da mesa, deixando Toli e Quentin entregues aos 
cuidados das jovens, que os instalaram em frente dos rapazes, 
sentando-se em seguida. Todos comearam imediatamente a 
falar, fazendo perguntas sobre o

268

que se passava na corte, qual era a ltima moda em Askelon e 
que novas do mundo havia.
Mostraram-se to curiosos que Quentin mal conseguiu responder 
a todas as perguntas, para muitas das quais no tinha 
resposta, pois teve de admitir que no sabia mais do que eles 
sobre os seus interesses. Apesar do isolamento em que, 
aparentemente, viviam, as suas perguntas revelavam um slido 
conhecimento do mundo. Em resumo, devido a um interrogatrio 
to cerrado, Quentin mal teve tempo de levar a comida  boca. 
Antes do fim da refeio, Quentin j pensava que aquela era, 
de longe, a famlia mais notvel que jamais conhecera.
Quando todos acabaram de comer a carne, o po, o caldo e a 
fruta, os filhos de Inchkeith saram todos a marchar, e as 
filhas, juntamente com a me, comearam a ajudar os servos a 
levantar os trinchos e as bandejas. Quentin e Toli 
aproximaram-se da cabeceira da mesa, onde Inchkeith e Durwin. 
se encontravam sentados a conversar. Inchkeith puxara de um 
cachimbo comprido e estava a acend-lo.
- Embora me agrade muito a vossa visita, sei que no viestes 
s para ver o velho Inchkeith. - Temos assuntos a tratar, no 
?
-  - assentiu Durwin. - Realmente, temos um assunto a 
discutir contigo.
O arteso aspirou profundamente o cachimbo e as suas faces 
meteram-se para dentro. Depois de terem ido novamente ao 
stio quando ele soltou uma longa e fina baforada de fumo, 
continuou: - Excelente, Mas talvez o vosso assunto no seja 
to urgente que no possa esperar at eu vos mostrar alguns 
dos meus ltimos trabalhos.
- Com certeza que sim - retorquiu Quentin. - Gostaria muito 
de ver as tuas obras.
- Convenceste-me, senhor! - riu Inchkeith, levantando-se da 
mesa. - Segue-me e, atrevo-me a dizer, vais ver coisas muito 
do teu agrado.
Saram do salo iluminado por uma porta lateral e entraram 
imedatamente numa diviso baixa e escura, onde se perfilavam 
em sentido muitas armaduras polidas e vazias, que esperavam 
que os seus cavaleiros lhes dessem vida. Viram tantas 
espadas, broquis, elmos e couraas que lhes pareceu 
encontrarem-se na sala de armas de um rei.
Atravessando esta diviso de traves baixas, penetraram noutra 
mais

269

pequena e mais escura, que continha lanas de todas as formas 
e feitios e um sem nmero de alabardas. As armas de setas 
compridas encontravam-se atadas em feixes, como molhos de 
espigas acabadas de ceifar, prontas a serem debulhadas. Na 
semiobscuridade, Quentin viu, ao passar, as luzidias pontas 
de ao das lanas e as lminas muito afiadas das alabardas.
- Ah! C estamos! Cuidado... Pronto. Este  o meu verdadeiro 
lar: a minha oficina! - gritou Inchkeith, elevando a voz 
acima do retinir que passou a ouvir-se.
Tinham descido para uma diviso quente, devido ao calor da 
forja, e ruidosa, por causa do barulho do ao batendo no ao. 
O compartimento, do tamanho do salo, ou ainda maior, estava 
numa grande actividade, com os filhos de Inchkeith e vrios 
servos afadigando-se na tarefa de transformar o ao e o ferro 
em armas. De uma ponta  outra da sala oblonga vam-se mesas 
e dispositivos esquisitos, capazes de desafiar qualquer 
tentativa de descrio. Rodeado por curiosos instrumentos, a 
cada mesa trabalhava um homem, aqui fixando a lmina ao 
punho, ali cobrindo de pele o escudo de madeira e mais alm 
colocando a couraa numa armadura truncada.
Quentin estava maravilhado, pois nunca vira nada assim. 
Inchkeith conduziu-os atravs daquele labirinto, parando ao 
p de cada mesa para comentar o trabalho do homem que a 
laborava. E, fosse onde fosse que os olhos pousassem, davam 
sempre com um brilhante exemplo da arte do armeiro. Quentin 
duvidou de que houvesse no mundo alguma coisa que se 
comparasse  oficina de Inchkeith.
Quentin olhou para cima da mesa e, entre uma variedade de 
estranhos instrumentos, cuja utilidade s vagamente conhecia, 
viu uma espada comprida e larga, de aspecto muito slido. O 
punho era de ouro, com jias incrustadas e a bainha de prata 
gravada, representando cenas da captura de um urso. Toda ela 
era uma obra excelente, que demonstrava uma grande mestria.
- Gostas? - perguntou Inchkeith, seguindo o olhar de Quentin.
- Se gosto?  uma espada como no h outra, senhor. Um 
tesouro.
- Toma l. Podes examin-la mais de perto.
Com a mo esquerda, e lamentando no poder usar a direita, 
desembainhou a espada e ouviu o raspar frio do ao a deslizar 
na bainha.

270

Fora concebida para ser usada com as duas mos; no entanto, 
no era muito mais pesada do que a sua congnere mais curta e 
apresentava um equilbrio soberbo. Mesmo com a mo esquerda, 
Quentin sentiu a elevao da lmina e a maneira pouco 
esforada como esta seguia o movimento da mo. Quentin passou 
a arma a Toli, que a fez assobiar no ar, e viu a luz de 
admirao que saltou aos olhos escuros do Jher.
- A lmina  de ao especial que comecei a fazer e que at 
corta o ferro. Esta foi feita para o rei SeIric, de Drin. 
Ainda no est acabada. - Falava como se se tratasse de um 
peixe entre mil que tinha na rede. Depois, pousou 
cuidadosamente a espada e virou-se para eles, com os olhos a 
cintilar. - Agora, vou mostrar-vos a minha obra-prima.
Inchkeith saltitou da mesa at uma porta baixa e abobadada, 
que ficava num recanto da parede. Ao passar pelo fundo da 
mesa, pegou numa lanterna e acendeu-a com uma vela. Depois de 
a ajustar, levantou o pesado ferrolho que trancava a porta.
- Por aqui - disse, desaparecendo pela ombreira escura.
Seguindo o seu curvado guia, entraram os trs numa pequena 
cmara redonda. Os seus olhos ainda demoraram um momento a 
ajustar-se  escurido e  luz difusa da lanterna. Quando, 
por fim, conseguiu ver bem, uma exclamao escapou dos lbios 
de Quentin. Tinha perante si a armadura mais elegante que 
podia imaginar. Mas no foi s isso que lhe tirou a 
respirao.
 frente dos seus olhos encontrava-se a armadura da sua 
viso. Era real. Existia mesmo e faiscava  luz da lanterna 
como se tivesse sido feita a partir de um nico diamante. 
Muito polida e brilhante como a gua, cintilava perante os 
seus olhos ofuscados e incrdulos. Como se o objecto lhe 
tivesse acenado do seu suporte, Quentin aproximou-se, sem 
prestar ateno aos outros. A armadura, de brilho claro e 
prateado  luz da lanterna, no possua qualquer ornamento. 
Todas as suas superfcies, com o brilho puro e lmpido de uma 
gema, reflectiam uma luz radiosa. O elmo era magnfico: tinha 
uma viseira simples, com uma ranhura, e era todo liso da 
testa  nuca. Incompreensivelmente, dos ombros pendia uma 
capa feita da cota de malha mais requintada que Quentin 
alguma vez vira. No resistiu a tocar-lhe: apalpou-a com a 
ponta de um dedo, e a cota ondulou como prata lquida, 
cintilando e danando  luz bruxuleante. Os minsculos aros 
da malha estremeceram

271

com o seu toque e suspiraram como neve a cair sobre o solo 
gelado.
-  leve como a penugem de um ganso - disse-lhe uma voz ao 
ouvido. Inchkeith espreitava por cima do ombro de Quentin, 
com a face iluminada de prazer pelo indescritvel espanto de 
Quentin.
- Para quem ? - conseguiu Quentin soletrar com esforo.
- Ah, o mais espantoso  isso! - A voz do arteso no passava 
de um suspiro. - Para ningum... pelo menos, por enquanto. 
Copiei-a de um sonho que tive. Vi-a e soube que tinha de a 
fazer. Acredito que o seu proprietrio vir reclam-la um 
dia. At l... - Deixou a frase por acabar.
- Reparei que no tinha espada - observou Quentin de repente. 
- Porque no?
Inchkeith, o mestre armeiro, inclinou a cabea para um lado e 
franziu as sobrancelhas:
- Tocaste no ponto certo, senhor. Como no vi nenhuma espada 
no sonho, no fiz nenhuma.
- Ento, anda, mestre Inchkeith. - interveio Durwin. -  
altura de conversarmos.

CAPTULO XXXV

Eskevar percorria a antecmara com passos compridos e 
impacientes. Tinha as mos atrs das costas e os olhos postos 
no cho.
- Os loucos! Os loucos! - murmurou para si prprio. - Vo 
destruir o reino.
Havia dois dias que estava na sua torre a andar, preocupado, 
de um lado para o outro. Durante esse tempo, comera e dormira 
muito pouco, e as suas feies, mais angulosas e marcadas do 
que nunca, mostravam os efeitos da sua aflio. j houvera 
muitas ocasies em que se angustiara com a teimosia dos seus 
nobres, mas, naquele momento, via claramente que o destino da 
nao estava nas suas mos e que eles pareciam indiferentes  
ameaa.
Lamentava e tornava a lamentar o poder, ou a falta dele, que 
no o deixava tomar medidas mais drsticas. Outrora, teria 
mandado os seus vassalos para a batalha com um simples aceno 
de mo; e eles teriam de obedecer, sob pena de perderem as 
terras e os privilgios. E em tempos ainda mais recuados, no 
reinado do primeiro Rei Drago, a terra era governada pela 
vontade do todo poderoso monarca; nessa altura, no houvera 
senhores a questionar as ordens do rei.
Mas, antes disso, fora o tempo dos reis do Norte, quando 
qualquer homem podia ser rei, dependendo da fora da sua 
espada, e o reino estava dividido em vrios territrios de 
dspotas conflituosos, que se consideravam muito importantes 
e que se vangloriavam dos seus principados, prejudicando-os 
por uma batalha ou pela oportunidade de aumentarem as suas 
terras, destronando os monarcas dos arredores.

274

Depois, os reis do Norte tinham-se unido, formado uma aliana 
e estabelecido a ordem em grande parte do reino, pois todos 
agiam em harmonia e para o interesse comum. Ningum ousava 
opor-se-lhes, porque rejeitar ou desafiar um era recusar e 
declarar guerra a todos. Os mesquinhos reis do Sul no tinham 
conseguido fazer-lhes frente. Por fim, depois de muitos anos, 
o poder havia-se consolidado no Norte e a tinha ficado.
Eskevar cismava em tudo isto enquanto andava de um lado para 
o outro do aposento ou se sentava a meditar na grande cadeira 
esculpida. De uma vez, parou  janela, escancarada para 
aquele esplendoroso dia de Vero, e suspirou ao contemplar as 
familiares colinas verdes e o azul-esverdeado mais escuro da 
floresta e a preguiosa curva do Herwydd, que descrevia um 
arco prateado e se dirigia sem pressa para sul, em direco 
ao seu imutvel destino.
- Os problemas dos reis e dos reinos no te dizem respeito, 
grande rio. Se calhar, no tm mesmo nenhuma importncia.
O mensageiro que bateu  porta, e entrou. encontrou-o ainda  
janela, contemplando a distncia.
- Vossa Majestade, querem falar convosco.
Eskevar pareceu no ouvir; por isso, o pajem repetiu a 
mensagem. Quando, por fim, o rei se virou para o perplexo 
jovem, tinha um sorriso triste no rosto cansado.
- Que entrem para a antecmara. Vou j receb-los.
"j chegaram a uma concluso", pensou Eskevar. "Qual ser?"

L fora, a chuva caa incessantemente; o som do seu chapinhar 
no ptio era entremeado pelo rudo dos troves, que marchavam 
nos cus a lutar contra os picos das montanhas. Quentin 
imaginou que as montanhas eram gigantes, e o trovo a voz com 
que lhe gritavam. Chamavam-no, desafiando-o a ir arrebatar-
lhes o seu segredo... se tivesse coragem para isso.
Havia muito que ningum falava. Toli estava enroscado como um 
gato numa enorme cadeira estofada, colocada perto da lareira. 
Durwin. encontrava-se sentado com as mos em cima da barriga 
e a cabea baixa. Quentin achava-se afundado na cadeira, com 
o queixo apoiado na palma da mo. S Inchkeith parecia ainda 
alerta e activo. Inclinado

275

para a frente, com as mos agarrando o comprido cachimbo, 
soltava baforadas de fumo que lhe pairavam em volta da cabea 
e olhava periodicamente para os seus convidados.
- Eu f-la-ei! - exclamou por fim, dando um salto. - Pelas 
barbas do deus. f-la-ei!.
O inesperado desta exploso fez Quentin dar um salto e Durwin 
endireitar-se bruscamente.
- O que foi? - Durwin abanou a cabea grisalha. - Oh, 
Inchkeith, assustaste-me. Devo ter adormecido. O dia foi 
longo. Desculpa.
- Podeis ter a certeza de que pensei cuidadosamente no 
assunto - disse o mestre armeiro. - Irei convosco procurar o 
lantbanil e farei a espada. Como posso recusar? - O deformado 
arteso sorriu e Quentin viu a sua inquieta energia brotando 
desse sorriso. -  a oportunidade de uma vida... de muitas 
vidas. Se no estais enganados e as minas existem mesmo, pago 
o que for preciso para trabalhar o lantbanil. Vs pondes  
minha disposio o maior sonho do arteso. Sim, por todos os 
deuses que possam existir, f-la-ei.
- Sabia que podamos contar contigo, Inchkeith. Tenho a 
certeza de que encontraremos as minas. A profecia est a ser 
realizada. - Durwin indicou Quentin com a mo.
- Pouco me interessa a profecia ou se aqui o Quentin  o Rei 
Sacerdote de que falas. Mas interessa-me muito que o nosso 
reino no seja tomado pelos brbaros. Por Orphe!, claro que 
sim. E se a espada que vou fazer representar um golpe para 
eles, se puder mudar a sorte da batalha, ento farei uma arma 
como nunca nenhum homem viu. Eu farei a Zhaligkeer!
Quentin ouvia os dois homens a conversar e no dizia nada. 
Escutara toda a noite e falara pouco. A inquietude apoderara-
se novamente dele, mas. desta vez, sabia qual era a causa: o 
seu brao.
Durwin parecia ter esquecido que Quentin, o escolhido para 
desempenhar o papel principal quando chegasse a altura de 
erguer a espada contra o inimigo, tinha o brao partido ou 
at pior. No seu ntimo, Quentin desconfiava que era mesmo 
pior, que o seu brao ferido no tinha apenas um osso 
partido. Havia muito que no sentia nada no brao, que 
parecia entorpecido, morto.
Nunca falara a ningum das suas suspeitas. Nem sequer Durwin

276

percebera que ele no sentira nada na noite em que lhe pusera 
o osso no stio e lhe ligara o brao, pois ele fizera caretas 
e gemera (sobretudo por causa do nervoso e do medo), como se 
lhe tivesse dodo muito. Tinha qualquer coisa de muito grave 
no brao, naquele momento, com a noite preenchida por espadas 
e profecias, sentia-se obrigado a encar-lo.
Enquanto cismava nesta infelicidade, ocorreu-lhe o pensamento 
de que, afinal de contas, talvez no fosse o temvel Rei 
Sacerdote das lendas. Talvez o Altssimo nunca o tivesse 
designado, e sim a outro, ainda desconhecido.
Por muito estranho que fosse, esta ideia aliviou Quentin. 
Sim, claro era isso. Sem brao para o fazer, no era possvel 
empunhar a lendria espada. A verdade da profecia indicava um 
outro. Talvez Eskevar, que afinal de contas, era rei. E a 
profecia da velha adivinha dizia que a espada devia ser 
empunhada por um rei. Era isso.
Quando, por fim, se levantaram para se irem deitar, Durwin 
aproximou-se de Quentin e disse:
- Estiveste muito calado toda a noite, meu rapaz. Porqu?
- No temos problemas que cheguem, Durwin?
- Isso  verdade. Mas pareceu-me que ests preocupado com 
outra coisa qualquer. - Inchkeith acercou-se deles com uma 
luz que brilhava vivamente numa lanterna de contornos 
delicados. Durwin aceitou-a e comentou: - Ns daremos com o 
caminho, senhor. Obrigado. No te preocupes mais connosco.
- As preocupaes s agora comearam, senhor! - riu 
Inchkeith. - Mas h muito que escolhi o meu campo. Descansai 
bem, senhores. Amanh, estarei pronto para vos acompanhar na 
vossa jornada.
- Muito bem. Partiremos o mais cedo possvel. Mas no antes 
de comermos mais uma vez  tua mesa.
- Para variarmos das sementes e das bagas do Toli - gracejou 
Quentin. - Mas no devemos ficar tempo de mais.
- Estranho, nunca te vi recusar a minha comida - observou 
sarcasticamente Toli, que acordara e fora para junto deles. - 
A chuva parar antes da manh, mas o regato subir durante a 
noite. Logo bem cedo, irei ver se podemos pass-lo.
- No  preciso. De manh j se poder passar.  sempre 
assim.

277

No tenhas medo. Amanh partiremos secos, pelo menos. E no 
te preocupes com os cavalos. Terei tudo pronto. Os meus 
filhos trataro disso. Agora, boa noite.
Pegando na vela que estava em cima da mesa, Inchkeith 
saltitou pelo salo escurecido; a esfera de luz seguia  sua 
frente como uma estrela que o guiasse.
Um homem extraordinrio - disse Durwin.
 verdade, extraordinrio - concordou Quentin. E todos se 
arrastaram at s suas camas, onde adormeceram embalados pelo 
longnquo som da chuva batendo nas pedras da Manso Branca.

CAPTULO XXXVI

O enorme navio-palcio de Nin, o Destruidor, Divindade 
Imortal, Imperador Supremo, Conquistador dos Continentes, Rei 
dos Reis, balouava suavemente nas ondas, que subiam e 
desciam como a respirao ritmada de um gigantesco animal 
marinho, chapinhando contra as traves largas dos lados e 
sussurrando ao longo da poderosa quilha.
O barco, de casco quadrado, tinha trs gigantescos mastros e 
dois grandes lemes a meio. Era, verdadeiramente, um palcio 
martimo, feito com madeiras caras e cheio de ornamentos 
exticos vindos dos vrios pases que Nin subjugara. O convs 
era de teca e pau rosa das ilhas Haphasian. Os adornos de 
lato que, por toda a parte, brilhavam como ouro vermelho, 
tinham vindo da Deluria e das Beldenlands Orientais. Sedas e 
lustrosos samitos da Pelagia esvoaavam em delicados biombos 
colocados no convs e nos aposentos em forma de favo. As 
cordas grossas e as amplas velas azuis haviam sido feitas em 
Katah, com as matrias-primas de Khas-I-Quair.
O prprio barco fora feito nos estaleiros de Tarkus, sob a 
direco do mestre Syphrian. Os seus construtores tinham 
previsto todas as necessidades e desejos do principal 
habitante do barco, realizando-os das maneiras mais 
engenhosas. A bordo do barco, -no faltava nada para 
satisfazer os muitos e vorazes apetites de Nin.
O barco flutuava bem assente na gua. Qualquer onda pequena o 
embalava docemente, mas nem a pior das tempestades 
conseguiria vir-lo. E, se se deslocava muito lentamente, 
como o seu proprietrio, que mal havia nisso? 0 tempo no 
significava nada para o imortal Nin.

280

O Imperador dos Imperadores estava deitado num leito com 
almofadas de seda, escutando a respirao regular do mar e 
balouando com a mnima inclinao do convs. O seu Corpo 
volumoso elevava-se e balanava Perigosamente para um lado e 
para o outro. o movimento estava a enjo-lo e a irrit-lo. A 
cada movimento do barco a sua cabea enorme, de boi, rolava 
apaticamente. Os seus olhos fitavam o vazio num Sofrimento 
crescente. Por um supremo esforo de vontade, Nin soergueu-
se, apoiando-se num cotovelo, pegou num macete que se 
encontrava pendurado numa correia dourada que tinha perto da 
cabea, fez um movimento de rotao para trs COM o pulso e o 
macete bateu num gongo de bronze martelado. Enquanto as 
vibraes se repercutiam por todo o aposento, deiXou-se cair 
outra vez nas almofadas, com um gemido, pondo a mo enorme na 
testa, num gesto de imenso sofrimento.
Dali a pouco, ouviu-se uma voz tmida, abafada pela posio 
prostrada do seu dono:
- Chamastes-me,  Poderoso? Que ordenais que faa?
Com esforo, _Nin virou a cabea e fitou a forma pattica do 
seu ninistro:
- Uzla, meu co! Porque demoraste? H horas que estou  tua 
espera. Vou mandar esfolar-te vivo para saberes o que  andar 
depressa. - Os grandes olhos fecharam-se sonolentamente.
- Permiti-me, Vossa Omnipotncia, lamentar o meu atraso e a 
cegueira que me impediu de prever o vosso chamado. No 
entanto, encontrava-me mesmo aqui, e estou pronto a obedecer 
s vossas ordens.
- Porco arrogante! - trovejou Nin, voltando  vida. - S por 
me teres dirigido a palavra assim devia mandar-te limpar o 
convs com a tua lngua podre.
- s vossas ordens,  Generoso Mestre. Obedecerei. - Uzla fez 
meno de sair para ir comear a lamber o convs do navio-
palcio.
- Sou eu que te digo quando deves ir e quando deves vir. No 
te chamei aqui? ouve.
- Sim,  Imortal. - A voz de Uzla tremia devidamente.
- Os meus comandantes no mandaram nenhuma mensagem?
- Lamento informar Vossa Alteza que no. Mas, como 
provavelmente deveis saber, talvez venha alguma mensagem a 
caminho.

281

- Nin no espera que as mensagens cheguem! Nin sabe tudo! 
Louco!
-  a minha fraqueza,  Grandiosidade. Far-me-eis um grande 
favor se me mandsseis arrancar a lngua.
Nin apoiou-se novamente no cotovelo e ficou a oscilar, como 
uma montanha pronta a ruir ao mnimo toque.
- Chamo os vossos carregadores, Supremo Conquistador? Eles 
ajudam-vos a levantar-vos.
- Estou a ficar cansado de esperar, Uzla. - Os olhos 
sonolentos semicerraram-se dissimuladamente. - No quero 
ficar mais aqui.
- Deveis querer estar noutro lado,  Amo do Tempo e do 
Espao. Comunico os vossos desejos ao vosso comandante?
- j fui paciente de mais com este pas despovoado. A 
conquista est a demorar muito. - Com a mo papuda coou 
impacientemente o queixo lustroso. - Vamos subir a costa para 
norte e preparar-nos para entrar em Askelon, a minha nova 
cidade. Tenho dito. Ouve e obedece.
- Assim ser, meu amo. Vou dizer ao comandante para iar 
imediatamente as velas.

- Sinto-me um vulgar ladro - resmungou Wertwin, em voz 
baixa. - Preferia muito mais comandar o assalto montado ao 
acampamento.
- j falmos nisso, senhor - explicou Theido pacientemente.
- Para isso, o Ronsard  melhor do que qualquer de ns. A sua 
experincia nas guerras com o Goliah podem ajud-lo.
- Eu tambm estive nas guerras com o Goliah - lamentou-se 
Wertwin.
- Est bem, mas ainda antes do fim da noite e da nossa 
campanha daremos graas pela ousadia do Ronsard. Por mim, 
digo-te francamente que no me agradaria nada atacar o 
acampamento dos Ningaal.
- HumpP. - resmoneou Wertwin, arrastando-se para o posto que 
lhe fora atribudo, numa depresso cheia de arbustos, onde os 
seus homens, agora armados com arcos e flechas, estavam 
escondidos.
O exrcito do Rei Drago tinha andado a treinar-se com as 
novas armas, recuperando habilidades um tanto enferrujadas. 
Naquele momento, estava pronto a experiment-las em combate 
com os Ningaal e,

282

com uma astcia e um cuidado extremos. deslocara-se para 
muito perto do acampamento inimigo. Os archeiros encontravam-
se escondidos atrs das rvores e dos arbustos e no meio dos 
tojos e das giestas. Apesar dos resmungos que tinham 
acompanhado o anncio da mudana de tctica, havia no ar uma 
sensao de entusiasmo enquanto os homens se preparavam para 
a emboscada.
- Theido, os teus archeiros j esto em posio? - murmurou 
Ronsard. inclinando-se na sela para melhor ser ouvido. Era 
muito tarde; para ocidente, a Lua j ia baixa no cu, s 
ligeiramente acima do horizonte. O rosto do cavaleiro 
brilhava tenuemente e as suas feies mal se distinguiam.
- Esto. - Por um breve instante, os dois homens olharam um 
para o outro. Theido estendeu a mo e apertou o brao do seu 
amigo. - No corras riscos desnecessrios. As coisas j so 
arriscadas que chegue.
- No te preocupes. Desta vez, pelo menos, a surpresa est do 
nosso lado.
- Que o Deus Altssimo v contigo, meu amigo.
Ronsard inclinou ligeiramente a cabea:
- Achas que ele se importa com coisas como esta?
- Acho que sim. Porque perguntas?
-  que nunca orei a nenhum deus antes de uma batalha. No 
considerava prprio invocar a ajuda dos poderes celestes em 
questes terrenas. Se o assunto  humano, deve ser resolvido 
pela mo do homem.
- O altssimo preocupa-se com o bem-estar dos seus servos. S 
a sua mo nos apoia em tudo o que fazemos.
Ronsard endireitou-se na sela, puxou as rdeas e fez o cavalo 
dar meia volta.
- Tenho muito que aprender sobre esse novo deus, Theido. 
Espero ter tempo para isso!
O cavaleiro regressou ao local onde o esperavam os seus 
homens, j montados e ansiosos por entrarem em aco. Ronsard 
olhou em volta, para ver se tudo estava a postos. A fim de 
poderem ter os movimentos mais livres e geis, ordenara aos 
seus cavaleiros que, das armaduras, envergassem apenas a cota 
de malha e a couraa. Alm disso, cada

283

um deles tinha uma espada e, nos antebraos, um pequeno 
broquei em forma de lgrima.
No fim da inspeco, Ronsard assentiu com a cabea:
- Pela honra! Pela glria! Por Mensandor!
Dizendo isto, deu meia volta e conduziu os seus homens para 
dentro da mata arborizada onde os Ningaal estavam acampados. 
Theido observou o amigo a desaparecer no bosque escuro e 
pareceu-lhe, que ele erguia a mo direita num gesto de 
saudao. Os quinze homens montados a cavalo, os melhores de 
Ronsard, deslizaram para a escurido. Ao v-los passar, 
Theido rezou por eles e, depois. tambm ele assumiu a sua 
posio, de espada em riste.
Esperou. De repente, a noite ficou muito quieta. No entanto, 
no ouvia nada, excepto os suspiros do vento por entre as 
rvores e o piar de um noitib que voava por entre as nuvens 
dispersas.
Por fim, ouviu um grito de espanto, logo interrompido. 
Passado um bocado, mais gritos e o frio retinir do ao no 
ao. Depois, os sons tornaram-se confusos: cavalos 
relinchando e homens soltando gritos de batalha. Dali a 
pouco, ouviu o som dos cascos dos cavalos no bosque, mas 
fazendo muito mais barulho do que quando tinham entrado.
- L vm eles! - gritou Theido aos archeiros, erguendo a 
espada acima da cabea. Da escurido surgiu um cavaleiro, que 
galopava inclinado na sela e que, em vez de parar ao chegar 
junto dos archeiros escondidos, continuou a descer o vale 
pequeno.
- Preparai os arcos! - berrou Theido. Num abrir e fechar de 
olhos, ouviu-se o sussurro das pontas das flechas roando nos 
arcos. Do bosque surgiram mais cavaleiros a galope e ouvia-se 
o inconfundvel som da perseguio.
- Aguentai-vos! - gritou Theido, quando o ltimo cavaleiro 
passou que nem uma seta a um passo do local onde estava 
agachado  espera. Depois, mordeu o lbio: no vira Ronsard 
sair do bosque.
Continuaram  espera, com os arcos retesados.
Subitamente Ronsard apareceu na abertura do bosque por onde 
entrara alguns momentos antes, parou e acenou com a espada. 
Os gritos dos seus perseguidores enchiam o bosque e ecoavam 
no pequeno vale. Theido via as tochas tremeluzindo por entre 
o bosque.
- V! Vai-te embora! - murmurou Theido. Quando o primeiro

284

Ningaal surgiu a correr atrs de si, Ronsard fez meia volta, 
galopou para a clareira e desceu o vale.
- Disparai! - gritou Theido. Nesse instante, a noite encheu-
se de projcteis escuros.
A primeira fileira de soldados de Ningaal caiu para a frente 
e tombou para o cho sem um ai. Os seus camaradas surgiram 
logo atrs e hesitaram, sem saberem o que acontecera aos da 
frente. Nesse momento de incerteza, a morte caiu sobre eles 
na forma de flechas que riscavam os ares em direco aos seus 
alvos. Gerou-se a confuso entre o inimigo, que recuou para o 
escuro do bosque, no meio de pragas e de gritos de terror. 
Quando mais foras vindas do acampamento se juntaram  
primeira, pareceu a Theido ouvir os gritos roucos e 
autoritrios do prprio chefe dos guerreiros. Os Ningaal 
surgiram da floresta quase imediatamente, mas, desta vez, 
quase colados ao cho e com os escudos redondos erguidos  
sua frente, o que os tomava alvos muito difceis para os 
archeiros de Theido.
- Preparai-vos! - ordenou Theido. Os Ningaal deslocavam-se 
agora mais rapidamente.
- Disparai! - gritou Theido. Em resposta s suas palavras, 
ouviu-se o arranhar das pontas das flechas embatendo contra 
os escudos dos Ningaal. Algumas delas atingiram o alvo, e a 
noite foi rasgada por gritos e pragas.
- Retirar! - gritou Theido ao ver o chefe dos guerreiros 
galopar para a clareira, rodeado pela sua guarda pessoal.
O cavaleiro e os archeiros no ficaram  espera que ele se 
aproximasse para o saudarem. Em vez disso, deram um salto e 
correram aos gritos para o pequeno vale, tal como Ronsard e 
os seus cavaleiros tinham feito. Acreditando que tinham posto 
o exrcito do rei em fuga, os Ningaal soltaram um grito que 
atroou os ares e lanaram-se atrs dos archeiros em fuga, 
pisando os corpos dos seus camaradas.
Theido guiou os seus homens pela encosta abaixo, entrou no 
vale, atravessou o pequeno regato que l existia, subiu a um 
outeiro e desapareceu. Os triunfantes Ningaal, berrando a dar 
graas ao seu deus destruidor, lanaram-se em sua 
perseguio, sem quererem saber da escurido que os rodeava. 
Sem pararem para reflectir, precipitaram-se vale adentro.

285

Quando Theido e os seus homens desapareceram do outro lado do 
outeiro, j os primeiros Ningaal, berrando e praguejando, 
passavam o regato a vau. Outras centenas de companheiros 
saram do bosque e seguiram-nos, para se lhes juntarem no 
vale, onde foram momentaneamente detidos pelo obstculo que o 
ribeiro constitua. Nesse momento, a morte voltou a silvar, 
riscando os cus, pois os archeiros de Werwin, escondidos dos 
lados do estreito vale, atiraram as suas setas contra eles. 
Os Ningaal guincharam de dor e de medo, como animais 
aterrorizados mortalmente feridos por assaltantes invisveis.
As flechas choviam sobre eles de todos os lados. Os Ningaal 
que saam a correr do bosque caam por cima dos seus 
camaradas e cortavam o caminho aos que tentavam fugir daquela 
emboscada mortal. E os que desciam o vale no voltavam a 
levantar-se. Dali a pouco, todos os que se haviam precipitado 
para o vale jaziam imveis. No vieram mais Ningaal do 
bosque. Ningum se mexia.
- Vamos fugir enquanto podemos - sussurrou Theido. - Se no 
ficarmos aqui, a vitria ser nossa. Mas eles vo voltar no 
tarda nada.
Sem falar, Ronsard fez um sinal, e os cavaleiros e os 
archeiros comearam a desaparecer na noite, to rpida e 
silenciosamente como as nuvens que passavam  frente da Lua. 
As foras de Wertwn juntaram-se-lhes e todos saram do campo 
de batalha, deixando-o entregue aos Ningaal mortos.
Nessa noite, o comandante Gurd perdeu quinhentos homens e o 
Rei Drago nem um nico.

CAPTULO XXXVII

O cu lavado pela chuva parecia uma cpula azul, alta e 
ilimitada. O ar estava fresco e cheirava a blsamo, a 
pinheiro e a terra molhada. A erva ainda retinha algumas 
gotas de chuva, que cintilavam como diamantes  luz da manh. 
O grupo comera uma excelente refeio  mesa de Inchketh e, 
graas aos filhos do mestre armeiro, partira sem erguer uma 
mo, excepto para beber as taas cheias com a saborosa cidra 
aquecda de Camilla. Quentin, bem alimentado e descansado, 
esquecera as suas apreenses da noite anterior e convencera-
se de que o seu brao estava melhor e que ia sarar 
completamente. Ainda assim, no percebia como queriam que 
empunhasse uma espada antes de os seus ossos soldarem. Por 
isso, o facto de esperarem que fosse o misterioso e lendrio 
Rei Sacerdote parecia-lhe remoto, quase ridculo. A luz de um 
brilhante novo dia, sentiu-se envergonhado e embaraado por 
haver tido a audcia de julgar que o seu papel era imperioso 
para o cumprimento da profecia.
Claro que fora uma presuno encorajada por Borkis, Durwin 
e, tanto quanto supunha, pelo prprio Toli. Mas ele permitira 
que o levassem a pensar que a profecia talvez o indicasse a 
si. Tudo aquilo era uma tolice, um disparate. Naquele 
momento, percebia-o bem. Assim o disse a si prprio e assim 
acreditou.

 primeira luz da manh, os cavalos tinham matraqueado no 
ptio da Manso Branca. Atravs da fenda aberta na parede da 
cumeeira, os dourados raios do Sol penetravam como lminas na 
sombra violeta do

288

desfiladeiro. Enquanto passavam pelo porto e entravam no 
largo prado, com os cavalos galopando branda e alegremente, 
pareceu a Quentin que se deslocavam num trilho de luz, 
dourado, verde e cintilante. Tudo o que via, as rvores, as 
pedras, os picos das montanhas, parecia limpo, novo e 
vibrante de vida. Era como se o mundo tivesse sido criado de 
novo durante a noite e o velho houvesse sido deitado fora, 
como pattica e plida pardia do verdadeiro. Quentin 
imaginou estar a ver tudo pela primeira vez e que, no 
princpio dos tempos, o mundo tinha aquele aspecto.
Ouvindo um som estranho atrs de si, virou-se e,  luz 
dourada, viu o rosto radiante de Durwin, que ria com a boca 
aberta e a cabea atirada para trs. Depois, de repente, 
tambm ele estava a rir. Toli comeou a cantar, dirigindo-os 
a todos numa cano a que chamava Pella Ofia Scear ou Cano 
da Estrela da Manh.
Ao cantarem, as suas vozes subiram a superfcie de rocha nua 
da parede da cumeeira e ecoaram num sussurro. Quando se 
aproximaram da fenda, notaram que a gua do regato corria com 
um vigor renovado, saltando no seu leito rochoso e lanando 
para o ar uma chuva muito brilhante. o ribeiro, ao qual 
Inchkeith dera o nome de Corredor de Pedra, formava uma 
estrada de prata que corria a saudar o dia. Cavalgando por 
entre os abetos perfumados, seguiram o Corredor de Pedra 
durante muito tempo. Depois, com o Sol j mais alto, 
atravessaram-no e seguiram em direco ao rido sop dos 
Fiskills.
- A que distncia ficam as minas perdidas? - perguntou 
Quentin, depois de terem cavalgado algum tempo em silncio. 
Durwin, que seguia  frente, lanou-lhe um olhar por cima do 
ombro e soltou uma gargalhada:
- Se algum o soubesse, meu amigo. no haveria necessidade de 
irmos l, porque, por esta altura, j o lantbanilteria 
desaparecido todo.
- Sabes muito bem o que quero dizer, velho feiticeiro! - 
gritou-lhe Quentin.
- Pois ! Que impaciente! julgo que antes de dez sis se 
porem chegaremos  entrada das minas perdidas dos Ariga. Isto 
, se as montanhas no se tiverem alterado muito desde que os 
mapas foram desenhados. De qualquer modo, no vai ser nada 
fcil dar com elas.
- Temos o enigma - lembrou Quentin.

289

-  verdade, mas sabes to bem como eu que os enigmas 
escondem tanto como revelam. Veremos quando chegar a altura. 
O altssimo ter de nos mostrar tudo muito claramente.
Inchkeith, que estava a ouvi-los, virou-se para eles e disse:
- Sabes, Durwin, quando nos conhecemos, falaste muito dessas 
tuas minas perdidas. Fizeste imensas perguntas sobre o 
lantbanil - querias saber se eu j o vira ou o trabalhara. 
Lembras-te?
- Muito bem. Tambm me lembro da tua resposta, e tu, se 
calhar, no. Olhaste para mim cheio de piedade e disseste: 
"Achas que se eu alguma vez tivesse tocado no metal dos 
deuses ainda usaria a capa de um corcunda?"
"Reconheo que as minhas perguntas eram tolas, mas no te 
esqueas que tinha acabado de saber da existncia do 
lantbanil e que no sabia nada das suas propriedades.
Inchkeith fez um sorriso estranho:
- Ns, os artesos, temos as nossas lendas sobre o lantbanil, 
mas no sei o que h nelas de verdade.
- j ouvi os ancies falarem do lantbanil uma ou outra vez 
disse Quentin. - Para os Ariga, valia mais do que ouro ou 
prata. Os artesos que o trabalhavam eram tratados quase como 
sacerdotes. Mas nunca ouvi ningum referir-se-lhe como uma 
cura.
- Kboen Navish - lembrou-lhe Toli. Quentin virou-se e viu que 
Toli se atrasara para se pr a par com ele e que, naquele 
momento, ouvia a conversa com toda a ateno.
-  verdade, as Pedras Que Curam.
Durwin ps um ar zombeteiro e perguntou:
- No adivinhas a resposta? - Quentin franziu pensativamente 
o sobrolho e, por fim, encolheu os ombros. - Pensa um bocado 
- continuou o eremita. - Os Ariga no precisavam de curas 
para nenhum padecimento. Viviam em perfeita sade, nunca 
caam doentes e jamais se soube de qualquer caso de 
ferimentos. Se a histria do Toli  verdadeira, eles deviam 
saber das propriedades curativas da pedra, mas no as 
mencionam como tal, e isto porque no precisavam delas para 
si prprios.
"Quanto ao facto de os artesos serem sacerdotes... de certa 
maneira, eram. Os artesos ariga tinham jeito para todas as 
artes: digamos

290

que eram poetas. Trabalhavam o metal, a madeira e a pedra 
como os
nossos poetas trabalham as palavras. E, para os Ariga, era 
quase a mesma coisa. Digo "quase" porque os Ariga 
maravilhavam-se com o que era
bem feito, pois at no mais pequeno dos utenslios viam o 
rosto do Altssimo. Por isso, os artesos eram sacerdotes 
porque permitiam que as
pessoas vissem o seu deus nas coisas que as rodeavam. E 
respeitavam
-nos muito. No falaram mais durante muito tempo. Enquanto 
cavalgava, Quentin pensou em Dekra, e percebeu que tinha 
saudades dos amigos que l deixara. O que eles estariam a 
fazer? Tambm sentiriam a
falta dele? O que diria Yeseph se soubesse que o seu 
protegido andava
em busca das minas perdidas dos Ariga? O que diria ele se 
soubesse
que Quentin ia ter um papel importante quando chegasse a 
altura de
forjarem a Zhaligkeer?

Eskevar encontrava-se sentado, de ombros cados, na sua 
cadeira em forma de trono. A sua expresso doentia mostrava 
abertamente o seu desagrado. Os senhores de Mensandor, 
reunidos  sua frente, cerravam os punhos e carregavam 
determinadamente o sobrolho.
- E os outros, senhores? - perguntou Eskevar, sem tentar 
moderar a malcia que lhe perpassava a voz. - Eles tencionam 
ficar sentados junto do campo de batalha, juntando-se ao lado 
que fizer a chacina do dia?
- No sabemos o que os outros senhores tencionam fazer, Vossa 
Majestade - retorquiu Benniot moderadamente. - Quanto a ns, 
viemos aqui pr  vossa disposio as nossas espadas e as dos 
nossos cavaleiros. Bater-nos-emos ao lado do Rei Drago.
- At  morte, se for necessrio - acrescentou Rudd. - Por 
Azrael, o meu rei no combater sozinho enquanto eu tiver uma 
espada. Os meus homens so vossos, Majestade.
- Os meus tambm! - exclamou outro nobre. Os restantes 
presentes tambm declararam a sua lealdade.
- Muito bem, senhores - disse, por fim, Eskevar, que, apesar 
de apreciar muito a deciso dos nobres que lhe eram leais, 
estava irritado com os que, passados dois dias de acaloradas 
discusses, e que eram um grupo considervel, chefiado por 
Ameronis e Lupollen.
permaneciam inabalveis na sua deciso de no participarem 
naquilo que consideravam a guerra do rei.

291

- Vamos imediatamente reunir e armar as nossas tropas. 
Depois, marcharemos o mais cedo possvel. - Enquanto falava, 
Fincher pousou a mo no punho da sua espada curta. - Ser um 
prazer voltar a combater ao lado do Rei Drago.
- No ser prazer nenhum, senhores! Que ningum se iluda! 
replicou Eskevar lenta e cuidadosamente. - Parece-me que este 
ser o teste definitivo ao nosso poder e  nossa fora. Se 
falharmos, o mundo escurecer e a liberdade morrer.
- Ento, deixai-nos ir depressa, Majestade. Regressaremos 
daqui a trs dias - interps Rucid. - E marcharemos convosco 
ao encontro do Theido, do Ronsard e do Wertwin.
- Ide, ide imediatamente. E lembrai-vos, senhores: no 
poupeis nada. Se falharmos, no nos deixaro fortunas que 
valha a pena reclamar. Falarei novamente com os outros, para 
ver se as minhas palavras ainda podem lev-los a mudar a sua 
deciso. Temo bem que, ainda antes de esta guerra acabar, 
vamos precisar de todos os braos fortes.
-Agora, ide. Esperarei aqui por vs, pronto para marchar 
imediatamente.
Ouviu-se um roagar de vesturios brocados quando os nobres 
fizeram uma vnia em simultneo e saram, cada um para, 
juntamente com o seu squito, ir at s suas terras preparar-
se para a guerra.
Depois de partirem, Eskevar chamou Oswald e disse:
- Vai procurar o armeiro. Quero falar com ele.
Osswald hesitou e franziu as sobrancelhas, fazendo com que as 
suas velhas feies se enrugassem numa teia de sulcos e de 
linhas profundas.
_ No me olhes assim! j te disse para ires imediatamente 
procurar o armeiro!

Sem responder, o mordomo-mor fez uma vnia e saiu. Dali a 
pouco, bateram  porta dos aposentos do rei. Oswald entrou, 
seguido por um homem trigueiro, com msculos que se 
avolumavam e tremiam de cada vez que ele se mexia.
- O Tilbert, Majestade. - Oswald apresentou-o e saiu sem 
olhar para o rei.
- Tilbert - disse Eskevar. O homem assentiu com a cabea e 
permaneceu em sentido, com o rosto srio e alerta. - Prepara 
a minha

292

armadura e as minhas armas. Vou precisar delas daqui a trs 
dias. E prepara-te a ti e aos instrumentos que achares 
melhor, porque vais precisar deles.
Nesse momento, a porta abriu-se e a rainha Alinea entrou. 
Tilbe fez-lhe uma vnia.
- Senhor - cumprimentou a rainha, com uma vnia. Parecia 
ligeiramente sem ar. - Porque est este homem aqui? - Indicou 
Tilberi que fez um ar confundido.
- Estou a falar com ele.
- E no  difcil adivinhar sobre o qu. Meu marido, no 
deves estar a pensar em ir para a guerra!
O rei mexeu-se e despediu Tilbert, fazendo um gesto rpido 
com a mo. O armeiro curvou-se pela cintura e fez meno de 
sair.
- Espera! - ordenou a rainha, virando-se novamente para o rei 
e fitando-o com os olhos em fogo. - Como o Durwn no est 
c, pensas que podes fazer o que te apetecer, no ? Ainda 
ests muito fraco, Eskevar! Pensa na tua sade!
- Agora, podes ir, Tilbert - disse Eskevar. O homem saiu 
silenciosamente do aposento. Alinea foi at  cadeira do rei 
e caiu de joelhos ao lado de Eskevar, apertando a mo direita 
dele nas suas.
- Imploro-te, meu rei. No vs! Ser a tua morte!
Eskevar lanou-lhe um olhar furioso; sentia-se ofendido.
- O patife do Oswald foi-te dizer.
- Que interessa isso? Meu querido, estiveste doente e ainda 
no recuperaste totalmente as foras. Pelo menos, espera at 
te sentires mais forte.
Eskevar pousou-lhe a mo na linda cabea e passou-lhe os 
dedos pelo cabelo.
- Senhora, oxal eu pudesse ficar! Mas no posso, assim como 
no posso esperar nem mais um dia depois de ter reunido o 
exrcito.
- Mas porqu? Deixa os teus senhores servirem-te. O Theido e 
o Ronsard dir-te-iam o mesmo se estivessem aqui. Eles j 
esto no campo de batalha; deixa-os assumirem o comando. - A 
voz da rainha tremia, pois ela estava  beira das lgrimas.
- No pode ser - retorquiu ele docemente. - A maior parte do 
Conselho ainda se ope ao meu chamamento s armas. No esto

293

convencidos de que h razes suficientes para irem para a 
guerra e supem que isto no passa de um capricho e de um 
delrio do seu monarca.
"No percebes? Eles julgam que eu estou doente e perturbado. 
Pensam que eu quero lutar contra meras sombras. Por isso, 
tenho de sair  cabea do meu exrcito para os convencer de 
que estou de perfeito juzo e em condies de comandar. 
Talvez nessa altura se juntem a ns. Espero que sim, ou ser 
tarde de mais.
- Mas no h outra maneira? - As lgrimas corriam livremente 
pelas faces de Alinea, caindo em manchas escuras no seu 
vestido azul.
- Tenho de ir.  a nossa nica esperana - volveu suavemente 
o Rei Drago.
- Meu Deus! - chorou Alinea. -  um dia maldito aquele que te 
tira assim de mim.
-  verdade, minha rainha. Bem verdade.

CAPTULO XXXIX

Mal o Sol deslizava para trs do horizonte celeste, a 
ocidente, via-se a Estrela do Lobo cintilando com a sua luz 
fria e brilhante. Era a primeira a ver-se e a ltima a 
desaparecer. Mesmo que no tivessem reparado nela antes, os 
habitantes de Mensandor fitavam-na agora com olhares 
circunspectos. Os arautos da destruio iam de cidade em 
cidade, espalhando rumores de morte e devastao e fazendo 
profecias sobre o fim do mundo. Os fracos de esprito 
acreditavam nestes boatos e refugiavam-se nos templos, 
abrigando-se em solo sagrado, onde os deuses os protegeriam. 
Os cidados mais intrpidos no arredavam p e ficavam  
espera, observando tudo. Mas todos escutavam o vento e faziam 
pausas nas suas tarefas dirias, erguendo os olhos para o 
horizonte distante, como se esperassem a qualquer momento a 
aproximao de algo que no se atreviam a dizer em voz alta.
Tendo enfraquecido o exrcito do comandante Gurd, Theido e 
bnsard tinham virado a sua ateno para o exrcito de Luhak, 
que vanava rapidamente para norte. Um dia em que o inimigo 
viajara dez .gw praticamente sem descansar e acampara j 
muito tarde, as foras, o rei tinham voltado a fazer o seu 
ataque-surpresa da meia-noite. Mais uma vez, haviam apanhado 
o inimigo desprevenido, matando muitos omens.
Na tentativa seguinte, no entanto, um sinal mais confuso 
quase derrotara o exrcito do Rei Drago. As tropas do 
comandante Luhak esperavam numa ravina arborizada e os 
cavaleiros de Ronsard tinham ido ao seu encontro. Mas antes 
de Ronsard se ter retirado, os archeiros

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haviam atacado, matando muitos homens bons. Os homens do rei 
tinham retirado do campo de batalha, deixando os Ningaal 
exultantes.
Quanto a Quentin e ao seu grupo, subiam os quatro os sops 
desertos das recortadas montanhas, escalando-as at s suas 
desoladas alturas. Apesar de terem animais seguros e de 
disporem do conhecimento de Durwin dos stios por onde se 
passava melhor, a caminhada estava a ser lenta e difcil. De 
uma vez, haviam-se perdido e passado trs rduos dias 
atravessando e voltando a atravessar o mesmo trilho, at que 
tinham desistido, acampando no mesmo lugar onde haviam 
acampado trs noites atrs. Um dos animais de carga perdera 
uma ferradura ao passar sobre as rochas e tivera de ser 
solto. Para no sobrecarregarem os outros animais, haviam 
abandonado muitas provises.
As sombras da escurido adensavam-se sobre a terra. Mensandor 
parecia um pas oscilando  beira do precipcio. De dia, as 
estradas enchiam-se de viajantes correndo daqui para ali, na 
tentativa de encontrarem abrigo. Os ptios dos templos 
estavam juncados de camponeses em busca de refgio. O 
carreiro que levava ao Grande Templo, acima de Narramoor, 
transformara-se numa cidade de tendas, que o ocupava 
completamente, desde a base at  parte de cima do planalto. 
Ao longo do caminho estreito, as pessoas acotovelavam-se nas 
suas tendas, esperando o que lhes tinham dito que ia chegar: 
o deus destruidor, que saciaria a sede com o seu sangue. E,  
noite, os habitantes de Mensandor viam a estrela ficar mais 
brilhante e tremiam de medo da iminente destruio assim 
proclamada.
Apesar dos esforos de Theido e de Ronsard, que, corajosa e 
valentemente continuavam a dar luta ao inimigo, os Ningaal 
iam seguindo sempre para norte, aproximando-se de Askelon. Os 
cavaleiros do rei estavam nitidamente em desvantagem e no 
tardara muito que o inimigo passasse a ter cuidado com os 
truques dos engenhosos defensores. Em resultado disto, era 
cada vez mais difcil fazer os Ningaal carem em armadilhas 
ou emboscadas.
Continuando firmemente a abrir caminho, o inimigo acabara por 
conseguir o que o exrcito do Rei Drago mais temia: os 
quatro comandantes haviam reunido as suas foras. Os soldados 
de Boghaz e de Amut tinham-se juntado ao que ainda restava 
das tropas de Gurd e ao regimento, quase intacto, de Luhak,  
entrada da floresta de Pelgrin.

297

No havia memria de invasores que tivessem chegado to 
longe. Nunca nenhum inimigo desafiara os cavaleiros do Rei 
Drago como os Ningaal, cujas foras combinadas humilhavam os 
decididos defensores do reino.
Seguindo a inspirada estratgia de Myrmior, o exrcito do Rei 
Drago refugiara-se na floresta para empreender uma guerra de 
emboscadas e retiradas por entre caminhos que conhecia to 
bem. Isto aumentara a raiva do inimigo, e esta raiva levara-o 
a cometer erros e a perder homens. Apesar de tudo, a 
imparvel caminhada para Askelon continuava lentamente e com 
segurana e uma preciso mecnica. Parecia que nada poderia 
parar o astuto invasor.

- No podemos continuar assim - disse Theido com um ar 
fatigado. Estava-se no fim de outro longo dia de correrias 
por entre os carvalhos de Pelgrin. Os cavaleiros achavam-se 
sentados na tenda de Ronsard, com o rosto cor de cinza devido 
 bruxuleante luz das tochas. Apesar de termos menos baixas 
do que espervamos, graas ao Myn-nior, estamos a ceder muito 
terreno. Julgo que  altura de mandar dizer ao rei que se 
prepare para o cerco. Embora eu esperasse que no chegssemos 
a isto, creio que  melhor que no castelo estejam a postos 
para o nosso regresso.
- Se tivssemos mais homens, parece-me que, com o tempo, 
conseguiramos derrotar os Ningaal - observou Ronsard. - No 
podamos mandar o Wertwin suplicar aos outros senhores que 
pegassem em armas? Ou  agora ou nunca. O facto  que ja no 
podem deixar de reconhecer que o perigo  real.
- Concordo contigo, senhor, mas no tenho esperana de que 
algum consiga persuadir esses chacais a juntarem-se a ns. 
j tiveram muitas oportunidades e nunca o fizeram. E agora 
estamos apenas a dez lguas de Askelon!
- Mesmo assim, deixai-me ir falar com o Ameronis e com os 
outros - pediu Wertwin. - Eles no so cobardes e, quando se 
aperceberem da nossa necessidade, mostrar-se-o razoveis. Eu 
trago-os at ns.
- Ento, vai, senhor. Faz o que puderes. Mas vai depressa. 
No temos muito tempo a perder. Recuamos um pouco a cada dia 
que passa.

O nobre levantou-se e, embora estivesse muito cansado e at 
cambaleasse, disse:
- Partirei esta noite com apenas dois homens. Os outros 
ficaro sob o comando do Ronsard. - Com uma vnia rpida, 
saiu. Os outros voltaram uma vez mais ao seu exerccio 
nocturno, conduzido por Myrmior, que escutava atentamente a 
narrativa do ataque do dia, concentrando-se depois na criao 
de uma nova estratgia para o dia seguinte. Myrmior parecia 
ter um sexto sentido, que o ajudava a prever as movimentaes 
do inimigo, e uma grande habilidade para imaginar manobras de 
diverso e de surpresa, que permitiam aos homens do rei 
assustar e atormentar os Ningaal.
- Pelo que me contastes, vejo que os Ningaal cerraram as suas 
fileiras e marcham agora com os seus mais intrpidos 
guerreiros  cabea - observou Myrmior, contemplando o mapa 
que tinha  frente. Isso  bom; significa que os nossos 
ataques comeam a preocup-los. Mas tambm quer dizer que, 
daqui para a frente, ser muito mais difcil encurral-los e 
impossvel fazer-lhes qualquer emboscada.
- Como se j no fosse difcil - comentou Ronsard. - Creio 
que o tempo de desafiarmos a fora do inimigo chegou ao fim. 
E, no entanto, no nos atrevemos a enfrent-lo cara a cara. 
Se ao menos soubssemos que em breve teramos mais tropas...
- No sei o que havemos de fazer - replicou Theido. - Mas 
tens razo. No podemos carregar contra eles nem enfrent-los 
como estamos acostumados a fazer. Por enquanto, submeto-me 
aos conselhos do Myrmior.
-  muita honra, senhores. No tenho segredos e digo-vos 
livremente o que sei, para que percebais como a nossa posio 
 perigosa. A situao  muito grave, meus amigos. No estou 
a ver nenhuma fraqueza que possamos explorar. Desta vez, eles 
precaveram-se contra todas as nossas artimanhas.
Myrmior tornou a olhar para o mapa, com a cabea inclinada 
para baixo e os olhos vermelhos das noites sem dormir, 
estudando e ponderando as movimentaes do inimigo, que lhe 
eram relatadas pelos companheiros.
- A que distncia estamos deste rio? - perguntou, apontando o 
mapa com um dedo.

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- Deixa ver - retorquiu Theido. - Isso  um afluente do Arvin 
e fica duas ou trs lguas a oeste. No  to grande como 
parece no mapa, garanto-te.
- Mesmo assim, descobri um plano que talvez nos faa ganhar 
mais algum tempo. - Myrmior sorriu triunfantemente. - Um 
plano muito subtil.

CAPTULO XL

O vento frio que soprava por entre as afiadas salincias 
rochosas chicoteava o rosto de Quentin, j ensurdecido pelos 
uivos que produzia ao passar pelos picos nus e ao descer, 
silvando, para lugares infinitos e desrticos. Quentin, com a 
capa virada para cima, de modo a tapar as orelhas, s 
desejava ter levado roupa mais quente. Embora s tivessem 
passado quatro dias desde que tinham atingido a parte mais 
alta dos Fiskifls, parecia-lhe que havia sculos no sentia o 
calor do sol nem via o verde das colinas estivais. Via sempre 
o mesmo para onde quer que voltasse o olhar: uma imensido de 
picos cinzentos e brancos nitidamente recortados no cu azul-
claro.
Os dias eram muito semelhantes uns aos outros: frios e sempre 
ventosos.  noite, acampavam sob o cu estrelado, em 
rebordos, fendas ou fissuras abrigadas do vento, mas as 
rochas eram frias e duras. De manh, acordavam com a luz 
penetrante e branca de um sol que no aquecia o dia, excepto 
quando, por acaso, descobriam algum local abrigado do vento, 
onde podiam parar e comer alguma coisa antes de prosseguirem 
viagem. Nessas alturas, Quentin sentia-se invadido por um 
pouco de calor, que, como as chamas bruxuleantes de uma 
fogueira, lhe provocava formigueiros na pele.
Mas as pausas eram raras e nunca duravam o suficiente, pois 
Durwin, cada vez mais silencioso e obstinado, impunha um 
ritmo impiedoso ao longo do caminho feito de rochas 
escarpadas. Os viajantes, ao princpio cheios de vontade e de 
boa disposio, arrastavam-se agora lugubremente, cada um 
perdido nos seus prprios pensamentos,

com o rosto to cinzento e desanimado como a rocha nua que os 
rodeava.
Os pensamentos de Quentin voltavam-se para Theido e Ronsard e 
para as batalhas que imaginava estivessem a travar l longe. 
Desejava encontrar-se a seu lado, em vez de andar a chafurdar 
ali, perdido num mundo rochoso, de luz branca e penetrantes 
cus azuis, frequentemente toldados por farrapos de nuvens 
cinzentas, que se rasgavam nos picos e deixavam cair uns 
chuviscos gelados, que apagavam qualquer centelha de 
esperana de verem o fim de uma jornada aparentemente 
interminvel.
 noite, ficava acordado a observar a medonha estrela 
lanando os seus terrveis raios atravs do ar rarefeito das 
alturas. A sua luz j iluminava todo aquele quadrante e. com 
excepo da prpria Lua, era o objecto mais brilhante do cu. 
Quentin comeava mesmo a acreditar que a estrela ia crescer 
cada vez mais, consumindo o cu e a Terra, e que acabaria por 
tocar no mundo, provocando a conflagrao que iria preparar a 
Terra para a nova idade. Estes e outros pensamentos davam a 
Quentin uma sensao de desespero como nunca tivera. E,  
medida que a busca entre as rochas prosseguia dia aps dia, 
comeava a pensar que a destruio acabaria por chegar e que 
j era muito tarde para evitar o inevitvel.

Uma manh, Quentin foi sacudido dos seus sinistros devaneios 
por Toli, que se adiantara para verificar o caminho, que 
ameaava ficar mais estreito e fazer com que os cavalos 
escorregassem.
Ouvindo um grito, levantou a cabea e viu Toli,
que, corado de excitao e do cansao da corrida, voava por 
cima das pedras do caminho.
- Lindo! - berrou Toli, quando chegou ao alcance dos seus 
ouvidos. - Vinde ver! Um vale... - Parou para recuperar o 
flego. -  maravilhoso! Vinde!
O rosto de Durwin fluminou-se instantaneamente:
- ? Creio que, por fim, encontrmos o que procurvamos!
E Durwin comeou a subir o caminho atrs de Toli, que 
saltitava, ligeiro como uma cabra das montanhas, por cima das 
lascas de pedra lisa, apontando e acenando freneticamente.
Quentin virou-se e fitou Inchkeith.

- Bem, parece-me que uma paisagem mais suave seria bem-vinda 
para estes olhos em fogo... - disse o curvado armeiro - mesmo 
que no seja o fim da nossa viagem.
- Ento, contemplemos a paisagem! - respondeu Quentin em tom 
sarcstico. - Quero ver o que arrancou tantos louvores ao 
sempre calado Toli.
Ignorando o comentrio de Quentin, Inchkeith virou-se e 
lanou-se por cima das pedras, em perseguio de Toli, que, 
naquele momento, desaparecia do outro lado do cume. Quentin 
ficou maravilhado com a fora e a agilidade do deformado 
armeiro, que, apesar do corpo defeituoso e do andar 
saltitante, conseguiu aguentar-se mesmo nas passagens mais 
difceis.
Sombriamente. Quentin comeou a subir com dificuldade o 
ngreme carreiro, que no era mais do que uma estreita fenda 
aberta na rocha por um riacho que transportava a neve 
derretida da Primavera. Quando se aproximou do cimo, j no 
viu nenhum dos outros. Depois de l chegar, ainda deu uns 
passos pela encosta oposta abaixo antes de se lembrar de 
levantar os olhos. O panorama que tinha perante si 
estarreceu-o tanto que teve de se sentar.
Atravs de um vasto e ilimitado precipcio de nvoa prateada, 
viu uma depresso enorme, orlada a toda a volta por picos 
cheios de neve, semelhantes a dentes brancos. E a depresso, 
com bordos que encurvavam suavemente, tinha uma vegetao 
cintilante, macia e musgosa, da cor das esmeraldas ao serem 
batidas pela luz do Sol. Escavando o meio do lindo vale, 
corria um rio que ondulava graciosamente, brilhando como 
prata derretida, e que enchia uma bacia, formando um lago do 
feitio da ponta de uma lana. O lago, de um azul profundo e 
cristalino, reflectia os picos cobertos de branco que orlavam 
o insondvel cu azul.
Mas Quentin s assimilou tudo isto um pouco depois. No seu 
primeiro olhar de xtase, s viu o temvel esplendor das 
imensas quedas de gua, espumantes e magnficas, que 
alimentavam o rio e formavam o lago.
- So as cataratas de Shennydd Vellyn - dir-lhe-ia Durwin 
mais tarde - As cataratas do Espelho do Senhor do Cu. O lago 
 o espelho, claro, e Senhor do Cu  outro nome que os Ariga 
davam a...

304

- Whist Orren, j sei - replicaria Quentin, num tom de voz 
maravilhado - j ouvi falar em Shermydd Vellyn. -Mas nunca 
pensei...
- Pois,  difcil acreditar que uma beleza assim ainda exista 
no mundo dos homens - interviria Toli em voz baixa, como se 
tivesse medo de quebrar o encanto.
- Ainda  mais difcil acreditar que do outro lado destas 
montanhas abandonadas h homens a lutar e a morrer - 
observaria Inchkeith. Dos trs, seria o que parecia menos 
afectado pela paisagem.
Mas tudo isto viria depois; naquele momento, Quentin sentia-
se subjugado pela mais espectacular paisagem de beleza 
natural que alguma vez lhe fora dado contemplar. A gua das 
cataratas saa de alguma nascente escondida na vertente da 
montanha e mergulhava no lago depois de percorrer trs 
grandes ressaltos. Era esta a origem da nvoa prateada que 
flutuava como gaze, emprestando ao ar rarefeito o seu brilho 
cintilante, como se houvesse um arco-ris sempre ao alcance 
da mo.
Contemplando tudo isto, Quentin acreditou que os Ariga se 
tinham outrora sentado onde ele estava naquele momento e 
haviam observado o mesmo que ele. Nesse instante, pareceu-lhe 
que a imensa barreira do tempo que o separava da feliz poca 
em que os Ariga tinham caminhado sobre a terra, fora 
empurrada para o lado. Inexplicavelmente, aquietou-se no seu 
peito a constante nsia que sentia. nem que fosse por um s 
vislumbre, desse tempo desaparecido. Por fim, ali estava, 
intacto, o que restava de outrora.
Quentin desatou ento a correr pelo ngreme declive abaixo, 
em direco ao lago cristalino, rindo e gritando de alegria.

Alinea despediu-se a chorar de Eskevar, que partia ao 
encontro dos exrcitos reunidos dos seus nobres. Por muito 
que quisesse mostrar-lhe uma expresso corajosa, o certo  
que no conseguiu. Em toda a sua vida de rainha, nunca se 
despedira dele com lgrimas nos olhos; independentemente do 
que pudesse ter chorado de medo e solido depois de ele 
partir, no queria que ele levasse consigo uma ltima 
recordao de uma mulher chorosa.
Mas, desta vez, no conseguiu reprimir os seus sentimentos. 
As lgrimas brotaram-lhe do corao e correram-lhe pelas 
faces brancas, cintilando  luz da manh.

305

Eskevar, habituado ao rosto intrpido que a mulher sempre 
mantivera. pareceu confundido com o que considerava ser uma 
sbita mudana.
- Senhora, no fiques triste. Voltarei logo que puder. Isto 
no  nada que nunca tenhamos vivido antes, meu amor.
- Temo que seja, senhor. - Com um pedao de renda, enxugou os 
cantos dos olhos cor de esmeralda. O rei tirou-lhe o lencinho 
e enfiou-o dentro da couraa.
- Guardarei isto junto do corao, para no me esquecer das 
lgrimas que derramars durante a minha ausncia. Assim, no 
me esquecerei de me apressar para enxugar os teus olhos o 
mais cedo possvel. Erguendo a mo enluvada, afagou-lhe o 
cabelo castanho-aloirado e fitou-a intensamente nos olhos. - 
 a ltima vez, Alinea. Prometo-te que nunca mais te 
deixarei.
Ela contemplou-o, de p, no ptio interior do castelo, mesmo 
em frente da porta de guerra, e pareceu-lhe que os anos no 
tinham passado e que, atravs das lgrimas, voltava a ver o 
jovem Rei Drago fitando-a de olhos brilhantes e em fogo, 
ansioso por partir em defesa do reino.
- Vai, senhor. Mas no digas que  a ltima vez, pois sei bem 
que tens sempre de estar onde a maldade ameace o teu reino. 
Vai e no tenhas pena de me deixar. Promete-me s que 
regressars depressa, mal tenhas conseguido restaurar a paz 
na terra.
Quando acabou de falar, Alinea lanou-lhe os braos em volta 
do pescoo e beijou-o. Ele cingiu-a a si, apertando a sua 
carne macia contra a armadura de ao.
- Adeus. minha rainha.
Ela virou-se e atravessou a correr a pequena porta abobadada 
aberta na parede. Eskevar ficou a v-la desaparecer e, 
depois, voltou-se para a sentinela, que, de olhos desviados, 
segurava as rdeas da sua montada. O rei subiu os trs 
degraus de pedra e iou-se para a sela. A sentinela correu 
para o porto de ferro e empurrou-o. Do outro lado, estavam  
espera o armeiro e os escudeiros do rei.
Sem proferir uma s palavra, o rei conduziu-os atravs da 
casa das sentinelas, passou por cima da prancha e comeou a 
descer a comprida ladeira serpenteante e muralhada que 
constitua a entrada das traseiras

306

de Askelon. Depois, atravessaram o fosso seco e seguiram pela 
plancie ao encontro dos senhores de Mensandor e dos seus 
exrcitos reunidos, que esperavam pelo rei no meio de 
esvoaantes estandartes e do brilho do ao.

- Vem alm o Rei Drago! - gritou Rudd, que perscrutava a 
plancie com os olhos semicerrados por causa do sol. - Tocai 
a trombeta!
O cornetim chegou a trombeta de batalha aos lbios e lanou 
para o ar um toque longo e lmpcio. Imediatamente se ergueu 
um grito:
- O rei Drago! Vem a! O rei Drago cavalga connosco! - Os 
cavaleiros reunidos na plancie martelaram com as espadas nos 
escudos, numa saudao barulhenta, e gritaram de alegria.
-  bom que ele venha - disse Benniot, inclinando-se ao 
ouvido de Rudd. - Os rumores de que estava a morrer quase 
tiraram a vontade de lutar aos meus homens.
- E aos meus - acrescentou Fincher. - Mas, agora, podem ver 
com os seus prprios olhos que ele no se esconde no alto da 
sua torre nem jaz na cama. Pelos deuses, como  bom voltar a 
v-lo escarranchado num cavalo!
Os trs nobres observaram o seu rei, que atravessava a 
plancie a galope, na sua direco. Atrs dele, os escudeiros 
transportavam um esvoaante estandarte com a inconfundvel 
divisa do rei: o terrvel e serpenteante drago vermelho. Na 
parte de cima do elmo trazia uma coroa de ouro, que brilhava 
ao sol como uma fita de luz  volta da sua cabea.
Eskevar cavalgou para o meio do seu exrcito, por entre as 
aclamaes dos cavaleiros e dos soldados. A sua recepo foi 
to ruidosa que ainda lhe levou algum tempo a acalm-los para 
conseguir fazer-se ouvir. Mas, por fim, o exrcito, 
constitudo por mais de dois mil homens, ficou silencioso e 
aguardou ansiosamente as suas palavras.
- Leais sbditos, homens de Mensandor! - Mais aclamaes. 
Vamos marchar hoje ao encontro de um inimigo forte e mortal, 
As mensagens dos que j o esto a combater indicam que ele 
chegou aos limites da floresta de Pelgrin, apenas dez lguas 
a leste daqui. - A multido foi perpassada por uma onda de 
murmrios de surpresa e incredulidade. - O inimigo deixou 
atrs de si um rasto de destruio,

307

devastou as nossas cidades e as nossas aldeias e matou os 
inocentes. Ouviram-se gritos de clera e de vingana.
Eskevar passeou o olhar pelos rostos voltados para cima dos 
soldados reunidos  sua frente. -Muitos deles estavam 
ajoelhados, apertando o punho da espada com a mo direita. 
Ento, desembainhou a espada e ergueu-a bem alto:
- Por Mensandor! - gritou em voz forte.
- Por Mensandor! - responderam muitas vozes ao mesmo tempo.
- Pela honra! Pela glria! - berrou o Rei Drago.
- Pelo rei e pelo reino! - volveram os soldados.
Com a espada apontada para leste, Eskevar esporeou o cavalo 
por entre os exrcitos reunidos.  sua frente abriu-se um 
caminho, ladeado por espadas e lanas erguidas e muralhado 
com escudos e esvoaantes estandartes coloridos. O rei Drago 
passou por entre esta exibio de armamento, no meio das 
aclamaes dos soldados. O caminho fechou-se atrs dele e os 
cavaleiros e os soldados de infantaria pegaram nas armas e 
seguiram o seu rei para a batalha.

CAPTULO XLI

- S por isto, os trabalhos que passmos valeram bem a pena 
disse Quentin alegremente, sentado num local cheio de erva e 
agitando os ps descalos na gua fria e lmpida de Shennyeld 
Vellyn. - No h recompensa como esta. - Sentia que o cansao 
da dura jornada e a fadiga dos dias aparentemente infindveis 
passados na sela e, ultimamente, a p, conduzindo os cavalos, 
iam desaparecendo, levados por aquelas guas calmantes. 
Sentia-se reviver.
-  verdade! Mas, embora me parea que, por fim, estamos num 
lugar onde podemos comear a procurar as minas, o certo  que 
ainda no as encontrmos. - O eremita achava-se mais uma vez 
debruado nos mapas e apontamentos, procurando a chave ou 
qualquer sinal que o iluminasse e o pusesse no caminho da 
descoberta das minas.
Toli, alegre e transbordante de animao, quase inebriado 
pela beleza que o rodeava, aproximou-se deles a passos 
largos:
- Soltei os cavalos para pastarem  vontade. Vede como 
correm! Na verdade, os cavalos cabriolavam como potros no ar 
balsmico da grande depresso do vale. Galopavam, saltavam e 
empinavam-se por cima da erva macia e espessa, verde como os 
primeiros e delicados rebentos da Primavera.
- Vamos ter um trabalho a tentar apanh-los outra vez - 
resmungou Inchkeith. Quentin e Toli entreolharam-se. 
Inchkeith resmungava sombriamente desde que tinham descoberto 
o vale encantado. O seu mau humor fora piorando na proporo 
da boa disposio dos outros, cuja alegria parecia ter asas. 
Naquele momento, estava bastante azedo.

310

- No te preocupes com isso, mestre Inchkeith. Logo que o 
Toli assobiar, viro a correr. Ele tem poder sobre eles. - 
Inchkeith desviou o olhar e no disse nada.
- Agora, ouvi outra vez o enigma - disse Durwin. - E pensai!

Em cima de dentes, por baixo depatas, vai com cuidado.
Onde as montanhas dormem, mantm-te vigilante e vers melhor
o caminho.
Quando ouvires risos entre as nuvens, uma cortina de vidro 
vers.
No cuides de nada, ou nunca passars.
A cortina e o trovo dividirs e o caminho estreito 
procurars;
O dia pela noite dars e a luz reters.
E assim o dia ganhars.

Durwin olhou-os um a um, pestanejando sem perceber.
- Bem - suspirou, exasperado. - Tal como eu pensava. Agora 
no  assim to simples, pois no? Agora que chegou a altura 
de resolvermos o mistrio...
- Quanto a mim,  tempo perdido! - cortou Inchkeith 
abruptamente. -  uma loucura andarmos por estes rochedos 
desolados em busca de um sonho. Olhai para ns, a 
balbuciarmos como crianas sobre enigmas e disparates que 
tais. Ali em baixo... - abriu o brao num gesto de clera e 
frustrao - ali em baixo h homens a morrer. O sangue de 
homens bons  derramado e encharca o cho, enquanto ns 
brincamos s adivinhas entre as nuvens!
Quentin escutava de testa franzida e olhos semicerrados. de 
certa forma chocado pela denncia que o armeiro fazia da sua 
misso.
Durwin falou por fim, quebrando o silncio que se fizera 
depois da rancorosa exploso de Inchkeith:
- Ser que os serviramos melhor se pegssemos nas espadas e 
nos lanssemos na luta? Achas que as nossas espadas so 
assim to importantes?
- E  importante resolver enigmas e quebrar os ossos nestas 
malditas montanhas? Para qu?
- Pensava que estavas connosco, Inchkeith - interveio 
Quentin.

311

- Pensava que acreditavas, como ns, na importncia da nossa 
jornada. Tu acreditavas! Tenho a certeza que sim!
- Talvez tenha acreditado. Mas tive tempo para pensar. Foi um 
erro ter vindo. O meu lugar no  aqui. Eu devia voltar para 
a forja e a bigorna. Est a ser travada uma guerra, pelos 
deuses!
Ento Durwin, falando docemente, como se se dirigisse a uma 
criana, disse uma frase surpreendente:
- No tenhas medo, Inchkeith. Aos outros foi destinado 
combater... e morrer. Mas o nosso destino  procurar a espada 
e lev-la ao rei. E ainda que haja s uma hiptese remota de 
a espada ser a Zhaligkeer, creio que no temos melhor maneira 
de despendermos os nossos esforos do que procur-la, 
independentemente de o mundo inteiro se afogar em sangue.
No tenhas medo.
Estas palavras penetraram profundamente no corao de 
Quentin. Sim, era isso. Inchkeith tinha medo de fracassar, de 
nunca encontrar as minas perdidas. E talvez tivesse ainda 
mais medo de o conseguir e de forjar a lendria espada... 
medo de acreditar que a profecia podia ser cumprida. Era 
melhor no saber. No fundo do corao, Quentin tambm se 
sentia assim.
Ao princpio, empolgado pela perspectiva de grandes feitos e 
pela promessa de glria, Quentin, cada vez mais relutante, 
acabara por considerar que a sua misso era pouco meritria 
no que lhe dizia respeito. Sonhar com a possibilidade de ser 
o desejado Rei Sacerdote era uma coisa, mas era outra bem 
diferente partir em busca dos meios que transformassem o 
sonho em realidade.
A aura de fantasia mstica evaporara-se no caminh, levada 
pelo vento uivante e pelas noites passadas sem dormir, em 
cima das rochas frias e nuas, sob o brilho colrico de 
estrelas distantes e pouco amigveis. E a verdade era que ia 
ficando com mais medo  medida que se aproximava a realizao 
dessa promessa.
No tenhas medo.
Embora estas palavras tivessem sido dirigidas a Inchkeith, 
provocavam em Quentin um estranho remoinho de emoes. 
Apeteceu-lhe logo gritar para Durwin: Porque no hei-de ter 
medo? Tenho boas razes para isso. Nunca pedi para ser esse 
novo rei, sobre cujos ombros pesa a responsabilidade da paz 
no mundo. Nunca o quis.

312

Mas Quentin no disse nada. Virando o rosto. contemplou a 
gua cintilante do Espelho do Senhor do Cu.
Nessa noite, acamparam ao lado do lago. A leste, os picos 
cobertos de branco lanavam uma luz rsea sobre a depresso 
verde, agora imersa em sombras azuis muito escuras. A Estrela 
do Lobo, que brilhava com ferocidade no cu, reflectia-se nas 
profundezas cristalinas de Shennvdd Vellvn.
Quentin achava-se sentado sozinho, silencioso e pensativo. S 
se mexia quando os passos leves de Durwin. assinalavam a 
presena do eremita.
- Pronto! - disse Durwin, e a sua voz pareceu ressoar na 
gua. - Por fim, chegaste l.
Quentin lanou-lhe um olhar de interrogao. Pegando na 
tnica, Durwin acocorou-se ao seu lado:
- Chegaste ao local escuro e estreito por onde devem passar 
todos os servos do Altssimo.
Quentin deu um piparote num seixo, que caiu no lago:
- No sei onde cheguei.
- Ai isso  que sabes! E  isso que te preocupa.  um 
bichinho que te anda a roer desde que partimos de Askelon. 
Estava a preocupar-te na noite que passmos em casa do 
Inchkeith. Vi-o claramente nessa altura. At te falei nisso, 
mas tu fugiste  minha pergunta.
- No  possvel estarmos todos enganados quanto  profecia? 
Na minha opinio, no sou eu o escolhido. Se fosse, no o 
saberia?
- Talvez estejamos enganados.  possvel que tenhamos lido 
mal os sinais. Mas no interessa muito se s ou no o 
escolhido.
Quentin inclinou a cabea abruptamente; no estava  espera 
que o eremita dissesse aquilo.
- No - continuou Durwin. - O que interessa  saber se, 
apesar da tua descrena, ests disposto a seguir o Altssimo.
- No... no sei o que queres dizer.
- Claro que sabes. De uma forma ou de outra, passaste a tua 
vida a servir os deuses. Aprendeste depressa a esperar dos 
deuses antigos apenas aquilo que eles so capazes de dar: um 
ou dois sinais insignificantes, um pequeno favor que se pede 
vagamente. Depois, conheceste )"ist Orren, o Deus Altssimo, 
o Deus nico e Verdadeiro. Serviste-o

313

lealmente durante muitos anos e aprendeste muito sobre os 
seus desgnios. Mas agora  a primeira vez que tens de 
confiar realmente nele e de te entregar nas suas mos... e 
ests com medo.
Quentin fez meno de protestar, mas Durwin levantou as mos.
- Sim. medo! Agora, tens de pr a tua f  prova. E que 
prova'.... minas perdidas, espadas chamejantes e o 
cumprimento de profecias.
- Porque  que eu havia de ter medo?
- No  muito difcil adivinhar a razo. Acontece o mesmo com 
todos os homens. Tens medo de pr a tua f  prova. porque 
isso significa pr o Altssimo  prova. Bem no fundo do teu 
corao, receias que ele fracasse. E, se assim for, ficars 
irremediavelmente sozinho. tanto nesta vida como para alm 
dela: e no te restar mais nada em que possas acreditar.
Quentin abanou a cabea.
- No, Durwin. O meu medo no  esse.
- Ento. diz-me qual .
Quentin encheu os pulmes de ar, olhou para o eremita e 
desviou rapidamente a vista:
- Tenho medo de ser o Rei Sacerdote. No sei porqu, mas a 
simples meno de espadas e minas enche-me de pavor. Olha 
para o meu brao! Como posso empunhar a Brilhante com um 
brao morto como madeira para queimar?
- Ao fim e ao cabo,  a mesma coisa, no ? Tens medo de 
aceitar uma coisa que o Altssimo destinou para ti.
-  a mesma coisa como?
- Claro que . O facto de aceitares a coroa de Rei Sacerdote 
significa confiares inteiramente no Altssimo. Quer dizer que 
tens de confiar que ele sabe o que  melhor para ti e que te 
conhece melhor do que tu te conheces a ti prprio. Significa 
confiar nele para alm da confiana, mesmo quando o caminho  
pouco claro... especialmente quando o caminho  pouco claro.
"Quando confiamos assim, necessariamente testamos a 
capacidade do deus de nos conservar junto a si, E no te 
apetece... assim como a nenhum de ns... exigir isso dos teus 
deuses. Se confiarmos s um pouco, ficaremos s um pouco 
desapontados, no '

314

Se eu no acreditar, mas, de qualquer modo, o seguir, isso 
no  escarnecer do Altssimo e desafiar a sua vontade?
- Pelo contrrio, meu amigo. Segui-lo sem ver o que est no 
fim do caminho... sem acreditar, como dizes... , na verdade, 
a maior prova de confiana.
- Apenas uma confiana cega - objectou Quentin. As palavras 
do eremita faziam sentido, mas ele ainda achava que no podia 
aceit-las sem lutar.
- Confiana cega, no. Nem por sombras. Os que confiam nos 
deuses sem poder da terra e do cu... esses  que confiam 
cegamente. Quentin, olha para mim - ordenou o eremita 
docemente. - No podes servir o Altssimo sem confiar 
inteiramente nele, pois haver sempre uma altura em que ele 
te por  prova. Para ele,  tudo ou nada. No pode haver 
meios-termos.  uma das exigncias que faz aos seus 
seguidores.
Por um instante, ambos os homens se calaram. A grande 
depresso do vale adensara-se num crepsculo cor de violeta. 
A ocidente, os picos ainda mostravam um dbil brilho de 
chama, mas tambm isso estava a desvanecer-se rapidamente.
- V as coisas assim: porque havias de ter medo de pr o 
Altssimo  prova? - prosseguiu Durwin. - Se  ele que to 
pede! Tu vs o teu brao ferido como uma prova contra a sua 
vontade. Aquele que criou os ossos no consegue tambm cur-
los? E o que o impede de decidir elevar um aclito rfo  
coroa do reino?
Quentin sorriu com aquelas palavras.
- Queres ento dizer que devo levar para diante tudo isto, 
independentemente dos meus sentimentos.
- Exactamente. No procures esconder nem disfarar as tuas 
dvidas e os teus temores. D-lhos. Deixa-o aceit-los. 
Afinal de contas, fazem parte de ti.
Quentin ficou a pensar durante muito tempo. Depois, 
perguntou:
- O que quiseste dizer quando aconselhaste o Inchkeith a no 
ter medo?
Durwin sorriu:
- Mais ou menos o que estou a dizer-te agora. No devemos 
temer pelo Altssimo, que sabe muito bem tomar conta de si. 
S devemos

315

preocupar-nos connosco e com o facto de permanecermos fiis 
ao seu chamado. Sei que  muito em que pensar s de uma vez. 
Eu levei muitos anos a compreender isto e, agora, peo-te 
para o entenderes nuns breves instantes...
"O Inchkeith no conhece o altssimo, mas no  um ignorante. 
E ainda tem medo de acreditar que possa existir uma coisa to 
boa e to poderosa. Como te disse,  aqui que muitos homens 
desistem.
"Mas, se ultrapassares os teus medos e as tuas dvidas e 
seguires em frente... ah!, podem acontecer coisas estranhas e 
maravilhosas. Sim, os rfos podem vir a ser reis, das 
espadas podem brotar chamas e os grandes inimigos podem ser 
derrotados de um s golpe.
De to perdido que estava nos seus prprios pensamentos. 
Quentin no ouviu Durwin retirar-se. Mas, depois de ter 
erguido o olhar para o cu. naquela altura pululante de 
estrelas luminosas, soube que estava sozinho. Os pensamentos 
incomodavam-no e fervilhavam dentro dele. E, em vez de 
acalmarem o seu esprito perturbado, as palavras de Durwin s 
tinham aumentado a confuso... pelo menos, era o que parecia.
Quentin deitou-se e embrulhou-se na capa. para melhor 
observar a cintilao das estrelas e meditar nas palavras do 
eremita. Ficou a pensar durante muito tempo. Depois, caiu 
lentamente num sono perturbado. E. deitado no espelhado 
Shennydd Vellyn, teve um sonho cheio de pormenores estranhos 
e maravilhosos.

CAPTULO XLI

O lamacento afluentezinho que Myrmior indicara no mapa ficava 
no caminho dos Ningaal, que teriam de o atravessar para 
avanarem mais. Como Theido dissera, no era l muito grande, 
mas era fundo e. ao passar por uma das partes mais densas de 
Pelgrin, tinha as margens ngremes cheias de razes. Pouco se 
falava nele, mas o seu nome era Deorkenrill, devido ao ar 
escuro e sinistro que o rodeava. As suas guas cinzentas e 
trgidas deslizavam silenciosamente, seguindo um curso 
serpenteante. atravessavam lamaais malcheirosos e poas 
estagnadas e nauseabundas e, por fim, desaguavam no poderoso 
Arvin, muitas lguas a norte.
Apesar da sua insalubridade, foi junto dele que Myrmior 
props que o exrcito do Rei Drago fizesse uma paragem 
final, para tentar travar o inexorvel avano dos invasores 
em direco a Askelon.
O plano era simples, concebido para dividir o grosso dos 
Ningaal em grupos mais pequenos, que, depois, poderiam ser 
mais eficazmente combatidos pelos defensores. Mas, tal como a 
maioria dos estratagemas de guerra, o plano de Myrmior tambm 
comportava o seu elemento de risco. Os fatigados defensores 
fechavam os olhos ao perigo e pensavam que valia a pena 
correrem todos os riscos, pois aquela era, provavelmente, a 
sua ltima esperana de travarem os Ningaal antes de estes 
chegarem s plancies de Askelon.
Numa extenso de vrias lguas para norte e para sul, s 
havia um local apropriado para um exrcito atravessar o 
Deorkenrill: uma depresso situada no fundo de um pequeno 
outeiro. onde o regato se abria um pouco, formando um vau 
natural.

318

- Isto  melhor do que eu esperava - observou Myrmior ao v-
lo. - Parece que foi feito especialmente para ns.
- Bem, no  stio que eu escolhesse para combater - comentou 
Theido. passeando o olhar pelo bosque, onde o crepsculo se 
adensava. - Esperemos que os Ningaal pensem o mesmo e no 
suspeitem de nenhuma emboscada aqui.
- -Na verdade, eles andam cada vez mais desconfiados. Agora, 
os seus batedores vo bem  frente do corpo principal e j 
no  fcil evit-los - fez notar Ronsard. - Mas o Theido tem 
razo. Isto no  lugar para combater. Olhai em volta: lama, 
rvores. trepadeiras. Mal se consegue desembainhar a espada.
- Senhores.  exactamente por isso que este lugar  o melhor 
para ns. Quer eles desconfiem quer no, tm de atravessar 
esta gua. E eu proponho que lho dificultemos ao mximo. Mas 
temos de deitar mos  obra. H muito a fazer antes da 
primeira luz da manh. Vamos precisar de trabalhar toda a 
noite.
- Muito bem - disse Theido com um ar decidido. - j dissemos 
o que tnhamos a dizer e no sabemos de nenhum plano melhor.. 
Pomo-nos s tuas ordens. O que queres que faamos?
Myrmior olhou em volta,  luz do crepsculo enevoado. Dos 
vales pantanosos situados ao longo das margens do Deorkenrill 
elevava-se um vapor malcheiroso, que deslizava devagar por 
entre os troncos cinzentos das rvores.
- Mi! - exclamou, apontando para a clareira que o inimigo 
teria de atravessar para chegar ao rio. - Comearemos por 
abrir um canal at  clareira, que encheremos hoje  noite e 
esvaziaremos de manh. Por essa altura, a lama j deve estar 
bem espessa. E mandai alguns homens comearem a carregar gua 
para a outra margem. Quero que ela tambm fique lamacenta e 
escorregadia.
Assim, deram incio aos trabalhos. Embora no estivessem 
preparadas para escavar e transportar gua, as foras do Rei 
Drago serviram-se do que tinham  mo para realizarem estas 
tarefas. Os cavaleiros, mais  vontade na garupa do cavalo do 
que em terra firme, chapinhavam incansavelmente na lama e na 
gua fedorenta, cavando com as suas nobres espadas ou de mos 
nuas, abrindo um canal para levar gua  clareira. 
Trabalhavam  luz bruxuleante das tochas, ouvindo os

319

gritos perdidos dos mochos e de outras criaturas atradas por 
aquela invulgar actividade.
Outros trepavam s rvores mais altas que cresciam nas duas 
margens e construam plataformas de ramos e galhos, de onde 
os archeiros fariam chover as suas flechas sobre o inimigo. 
Enrolando trepadeiras, faziam-se cordas que se esticavam de 
uma rvore at  outra. E, para grande surpresa de Myrmior, 
os homens do rei cortaram trs das maiores rvores que havia 
na margem junto  clareira, deixando-as muito perto de carem 
e, por meio de cordas, ataram os seus ramos superiores s 
rvores vizinhas, para que no tombassem logo. Depois, 
disfararam as marcas do machado, enchendo-as de lama e 
folhas.
Esta actividade prosseguiu pela noite fora. Quando o cu, que 
se entrevia irregularmente por entre as rvores, comeou a 
clarear, Theido, Ronsard e Myrmior foram  outra margem 
observar a sua obra.
- S falta esvaziar outra vez a clareira. E precisaremos de 
carvo em brasa para atar s flechas - disse Myrmior, muito 
satisfeito com o que estava a ver.
- Depois, ficamos  espera. Ainda devemos ter algumas horas 
para os homens descansarem antes de os primeiros Ningaal 
passarem por aqui - observou Ronsard.
- Concordo. Trabalhmos bem. Rezemos para que tenha valido a 
pena - replicou Theido numa voz cansada e rouca, devido s 
horas que passara a gritar ordens. - Vamos fazer o que ainda 
falta e distribuir os homens pelos seus postos.
Dizendo estas palavras, os senhores afastaram-se 
imediatamente, para irem acabar as suas tarefas. Depois, 
quando a luz fraca da manh comeou a filtrar-se no valezinho 
sombrio, instalou-se o silncio. Estava tudo pronto e no 
havia nada que indicasse que as coisas no se encontravam 
como deviam, que no eram o que pareciam. Havia um exrcito 
invisvel  espreita por entre os fetos, em cima das rvores 
e por trs dos outeiros cobertos de erva.

Os primeiros Ningaal que atravessaram a clareira foram os 
batedores. Sem se aperceberem do exrcito que esperava de 
ambos os lados, passaram o rio a vau e prosseguiram no seu 
caminho. Depois, passaram vrias fileiras de cavaleiros. Como 
Myrmior esperava, os cavalos

320

transformaram a clareira num lodaal e fizeram da outra 
margem, j escorregadia com a lama que os homens de Ronsard 
tinham produzido. uma traioeira armadilha. Mas tambm eles 
passaram sem serem incomodados.
A tenso infiltrava-se no ar. Theido no entendia como era 
que o inimigo tambm no a sentia. Quanto a ele. tinha um n 
no estmago e os nervos esticados como as cordas de um arco. 
Embora no visse os seus homens do stio onde estava 
escondido entre os bafientos fetos, sabia que eles deviam 
sentir o mesmo. Forando-se a permanecer calmo, continuou  
espera.
O sol caminhava para o znite quando os primeiros soldados 
comearam a atravessar o vau. Centenas de homens dispostos em 
fileiras chapinhavam com gua pela cintura e resvalavam ao 
subirem com dificuldade a outra margem. Theido via-os 
chegarem  clareira e notou, com satisfao, que os soldados 
iam andando mais lentamente  medida que o atoleiro ficava 
mais profundo e lhes prendia os ps.
Ouviu um som e um grito rpido e, de repente, apareceu um 
cavaleiro junto do vau. Tratava-se de um comandante montado 
no seu corcel preto, e via-se bem que no estava satisfeito 
com o tempo que os seus soldados levavam a atravessar o rio. 
Mesmo sem entender patavina da sua rude lngua, Theido 
percebeu que ele ordenava aos seus homens que se mexessem 
mais depressa, o que era exactamente o que ele faria se 
estivesse no seu lugar. O comandante endireitou-se na sela e 
olhou longamente a montante e a jusante do Deorkenrill. 
Theido susteve a respirao. Teria ele dado por alguma coisa? 
A sua armadilha teria sido descoberta?
Mas o sinistro senhor fez o cavalo dar meia volta e tornou a 
gritar para as dezenas de homens que avanavam com 
dificuldade por aquele pantanal. Depois, entrou no regato, 
atravessou-o e desapareceu do outro lado.
Os soldados de Nin comearam a passar aos cem de cada vez: 
cambaleavam, cheios de lama, at ao vau, passavam-no e 
lanavam-se na subida da outra margem como peixes saltando 
fora de gua.
Apareceu outro comandante. rodeado por vinte cavaleiros. Tal 
como o anterior, ficou a ver os homens atravessando o rio e, 
depois, seguiu atrs deles.

321

A floresta estremeceu com o som de qualquer coisa muito 
pesada esmagando o matagal. "As carroas!", pensou Theido. 
"Preparai-vos!."
Era das carroas que estavam  espera. Ao que Myrmior sabia 
sobre as movimentaes dos Ningaal, estes costumavam viajar 
com as armas e os mantimentos nas carroas. seguindo  frente 
metade dos homens e o resto atrs. Os defensores iam atacar a 
segunda metade da hoste dos Ningaal.
Espreitando cuidadosamente atravs dos fetos da altura de um 
homem, Theido viu os primeiros vages atolados quase at aos 
eixos na clareira, que fora transformada num lodaal pelas 
centenas de ps e de cascos que haviam passado anteriormente. 
Em volta de cada roda, cerca de vinte soldados gemiam, 
esforando-se por empurrar a carroa, e os quatro cavalos que 
a puxavam inclinavam-se para a frente de cada vez que ouviam 
o estalido do chicote do condutor.
A mo de Theido procurou o punho da espada. Ele sabia que, 
naquele momento. mil flechas estavam a ser assestadas nos 
arcos, em preparao para o sinal que no tardaria muito. 
Cada archeiro aprontou a sua latinha com carves em brasa e 
as suas flechas com as pontas envoltas em tecido embebido em 
palbab, ou seja, lquido inflamvel. Ao ver o gesto 
inconsciente de Theido, Myrmior pousou-lhe a mo no brao e 
murmurou:
- Ainda no. D aos outros tempo para se porem a postos e aos 
que passaram agora para se distanciarem da emboscada.
Theido tirou a mo do punho da espada, passou-a pelo rosto 
suado e soltou a respirao por entre os dentes cerrados.
 custa do esforo de muitos homens, os Ningaal tinham 
conseguido iar as carroas e transport-las para junto do 
vau, mas, naquele momento, comearam a entrar na clareira 
outras, que imediatamente se afundaram no atoleiro. Dali a 
pouco, a clareira estava juncada de carroas atoladas e de 
centenas de soldados amontoados  sua volta, esforando-se 
por as tirar dali.
- Agora! - sussurrou Nyrmior com a voz esganiada. - Agora!
Em silncio, Theido desembainhou a espada e saiu calmamente 
do meio dos fetos. Sabendo que todos os olhos estavam postos 
nele, ergueu a espada e baixou-a de repente. O ar foi 
atravessado por um som semelhante ao produzido por um enorme 
bando de pssaros quando

322

levantam voo das copas das rvores. O valezito hmido e frio, 
penmnentemente mergulhado na semiobscuridade, iluminou-se 
instantaneamente com as flechas em chamas, que, como estrelas 
cadentes, descreviam um arco antes de atingirem o seu 
objectivo.
Os Ningaal, que no tinham desconfiado de nada, soltaram um 
confuso grito de alarme quando as setas em fogo chegaram aos 
seus alvos: as carroas. Num abrir e fechar de olhos, os 
vages estavam a arder e os confundidos soldados cegos de 
terror. Mas os archeiros do Rei Drago, sem darem trguas ao 
inimigo, comearam a disparar as suas setas contra eles. Os 
Ningaal tombavam no stio onde estavam, sem verem os seus 
atacantes nem ouvirem o assobio da seta que os abatia.
No entanto, a zaragata mal comeara quando surgiram os dois 
comandantes que faltavam. Um deles, rodeado pela sua guarda 
pessoal, saiu do bosque a galope. Ouviram-se gritos e ordens 
e, dali a momentos, o caos desfez-se, apesar de a maioria dos 
Ningaal continuar sem as armas, arrumadas em vrias carroas 
a arder.
Mas tambm isso foi resolvido. Em resposta a uma ordem do 
comandante, um grupo de soldados precipitou-se para uma das 
carroas, saltou para o meio das chamas e comeou a atirar 
armas aos seus camaradas. Quando um dos homens era consumido 
pelo fogo, um outro saltava a tomar o seu lugar.
O outro comandante, com a sua guarda pessoal montada, apontou 
a espada para o outro lado do rio, e os seus guerreiros 
atravessaram o vau a galope, em direco ao local onde Theido 
e Myrmior esperavam juntamente com uma dezena de cavaleiros. 
As flechas apanharam dois homens a meio do regato, 
arrebatando-os das selas. Um outro cavaleiro conseguiu 
passar, e Theido deu por si a desviar-se de espadeiradas 
selvagens, que cortavam os fetos e faziam voar a vegetao.
Ento, ergueu a espada, para aparar os golpes, e agarrou na 
banda do cavalo do inimigo, puxando-lhe a cabea para baixo. 
O animal caiu de joelhos e Theido atirou-se para cima do 
adversrio, arrancando-o da sela. Antes de o guerreiro 
conseguir desembaraar-se da sua montada cada, o punhal do 
cavaleiro fez o seu trabalho.
No bosque sombrio ecoavam sons de batalha. Os homens lanavam 
gritos de guerra e entravam furiosamente na refrega. As 
espadas golpeavam escudos e elmos e os machados giravam, 
desfazendo o que

323

quer que tentasse travar as mortais lminas. Theido afastou-
se do cavalo sem cavaleiro e viu uma dezena de soldados com 
machados patinhando na sua direco. Alguns deles gritavam 
empunhando os machados, cujos cabos ainda fumegavam.
Quando o primeiro guerreiro levantou o machado, Theido 
acertou-lhe na garganta. Mas ainda no retirara a lmina e j 
um segundo estava sobre ele. Ao ver o brilho da lmina que 
girava no ar, ergueu o escudo, esperando que o golpe iminente 
lhe esmagasse o brao.
Mas o golpe no chegou a ser desferido, Theido desviou-se 
para o lado e viu o rosto familiar de Ronsard, sombriamente 
determinado. O sangue escorria da sua espada e o homem ferido 
que tinha aos ps contorcia-se, agonizante. Por trs de 
Ronsard, surgiram vrios cavaleiros do bosque, onde tinham 
estado escondidos.
- Quero um comandante para mim! - gritou Ronsard, saltando 
para a sela que o cavaleiro que jazia aos ps de Theido 
acabara de deixar vaga.
Enquanto voava atravs do Deorkenrill, o comandante-chefe 
abateu dois Ningaal que carregavam contra ele; naquele 
momento, j boiavam na gua dezenas de cadveres inimigos.
Com um domnio perfeito, o comandante, que usava um elmo de 
pele branca e um penacho feito com a cauda de um cavalo, fez 
a sua montada dar meia-volta, para receber de frente a carga 
de Ronsard. A espada deste ltimo faiscou uma e outra vez, 
mas sem grande resultado, pois o chefe guerreiro foi aparando 
e desviando cada golpe que ele desferia. Nenhum deles 
conseguia ficar em vantagem e, dali a pouco, Ronsard estava 
rodeado por soldados inimigos. Por isso, como no queria ser 
derrubado da sela e esfaqueado atravs de alguma fenda na 
armadura, foi forado a desistir do combate e a correr 
novamente para a outra margem.
Os archeiros disparavam as suas setas, que caam como uma 
chuva mortal sobre o campo de batalha. Quando as revoadas de 
setas cruzavam os ares, tombavam dezenas de Ningaal. As 
aziagas guas do Deorkenrffl tingiram-se de vermelho com o 
sangue dos mortos. E do outro lado, na margem escorregadia 
transformada em armadilha mortal, os que tinham tombado 
jaziam como troncos cortados. No atoleiro da clareira. os 
vivos corriam em frente, pisando os corpos dos seus 
camaradas.

324

O combate fora to bem planeado que era em vo que os Ningaal 
se esforavam por ficarem em vantagem. Myrmior corria ao 
longo da outra margem, gritando ordens, reforando a posio 
dos defensores onde era necessrio e chamando a ateno dos 
archeiros para os novos e ameaadores alvos que iam surgindo 
do bosque mergulhado na semiobscuridade. Se tivesse havido 
mais tempo ou se as foras do Rei Drago fossem mais, os 
corajosos defensores teriam tido o seu dia de vitria. Mas 
no seria assim.
De repente, ouviu-se por trs da posio dos defensores um 
grito terrvel, que ecoou como um trovo no pequeno vale. Ao 
escut-lo, at o mais corajoso dos cavaleiros sentiu o sangue 
gelar-se-lhe nas veias. Tratava-se do uivo enfurecido dos 
Ningaal que j tinham passado o Deorkenrill e que agora 
voltavam, atrados pelo fragor da batalha. Dali a momentos, 
os homens do Rei Drago estavam rodeados e teriam sido 
instantaneamente esmagados se Myrmior, sempre alerta para o 
inesperado, no tivesse planeado um ltimo truque.
O mordomo-mor barbudo, sem querer saber do perigo que corria, 
subiu a uma pequena colina situada na outra margem e ficou l 
a agitar as mos. Ao princpio, pareceu que no ia haver 
qualquer reaco ao seu sinal, pois ningum deu ateno ao 
comandante, que assim se expunha to inesperadamente, mesmo 
no meio da luta. Mas, ento. ouviu-se um rudo tal que 
parecia que a terra estava a rasgar-se, a romper-se por 
dentro. O slncio abateu-se sobre os espantados invasores, 
que pararam  escuta, olhando em volta.
Houve um outro rugido, e mais outro, que cruzaram o bosque 
como um trovo fantasmagrico, acentuado por estalidos, 
estremees e rangidos horrveis, parecia que algum animal 
pr-histrico estava a triturar os ossos da sua enorme presa. 
Depois, o prprio cu pareceu inclinar-se e balouar.
A primeira rvore caiu em cheio em cima de um grupo de 
soldados Ningaal, demasiadamente espantados para fugirem. Os 
seus camaradas desviaram-se para o lado a gritar, mas foram 
apanhados pela segunda rvore, que caiu perpendicularmente  
primeira e calou muitas vozes quando os seus ramos esmagaram 
e pregaram ao cho os que lhe ficaram por baixo.
Parecia que a floresta estava a abater-se sobre os apavorados 
Ningaal.

325

Muitos deles largaram as armas, voltaram a atravessar o rio a 
correr e fugiram para a floresta, onde foram abatidos pelas 
flechas. A terceira rvore tombou sobre o vau, cortando a 
retirada aos que procuravam fugir pelo stio por onde tinham 
chegado. Uma coorte de defensores lanou-se em perseguio 
dos Ningaal em fuga, que corriam aos gritos pelo bosque, e 
matou muitos homens.
No entanto, o terror inspirado por esta ltima armadilha foi 
de curta durao. Dali a instantes, a vontade de ferro dos 
comandantes invasores restabeleceu a ordem entre os seus 
homens. Com uma eficincia terrvel, estes comandantes 
aproximaram-se rapidamente dos tenazes cavaleiros, abrindo 
caminho por entre as suas vacilantes defesas, e a sorte da 
batalha virou-se contra as foras do Rei Drago. Mesmo assim, 
e apesar de se encontrarem em desvantagem numrica e de se 
acharem exaustos, os leais cavaleiros aguentaram-se durante 
todo o meio do dia.
Vrias equipas de soldados Ningaal, alguns com machados e 
outros com escudos em cima da cabea, comearam a cortar as 
rvores onde se encontravam os archeiros, lanando a morte 
aos que estavam em baixo. Assim protegidos, os Ningaal 
conseguiam abater as rvores, mas no logravam deter 
completamente os archeiros que fugiam no ltimo momento, 
balanando-se nas cordas que haviam escondido entre as 
trepadeiras. Mas, por fim, a ameaa vinda das copas das 
rvores acabou por ser aquietada. e os terrveis chefes dos 
guerreiros voltaram a sua ateno para os cavaleiros de 
armadura, que se reagrupavam na outra margem.
-  altura de fugirmos - ofegou Ronsard, que sangrava de uma 
dzia de ferimentos ligeiros e tinha o rosto sujo, coberto de 
sangue e cinzento devido  exausto. -j fizemos o que 
podamos.
Theido fez um gesto de assentimento:
- Vai. meu bom amigo. Leva os teus homens daqui para fora. Eu 
ficarei aqui a cobrir a tua retirada e seguir-te-ei logo que 
estejas a salvo.
Myrmior apareceu, muito plido e a segurar o brao. Tinha uma 
mancha vermelha na manga.
- Infelizmente,  muito tarde, senhores. Acabei mesmo agora 
de fazer um ltimo reconhecimento da nossa posio. Estamos 
cercados por todos os lados. No h fuga possvel.
- Temos a retirada completamente cortada? - perguntou

326

Ronsard. As foras pareceram abandon-lo e a espada tombou-
lhe para o lado.
- Era o que eu temia. Eles so muitos. - Theido desviou o 
rosto severo e ordenou em voz forte que os defensores do 
reino se reunissem e preparassem para fazer pagar bem cara a 
sua morte.
Dali a pouco, o que restava da exausta fora de combate 
reunia-se, a arrastar-se, em volta da colinazita onde Theido 
se encontrava, com a espada erguida. Os Ningaal recuaram, 
reorganizando-se para a chacina final. Por um breve momento, 
deixou de se ouvir o clamor da batalha.
- Corajosos cavaleiros de Mensandor, lutastes como bravos - 
disse Theido. - No deixastes ficar mal a honra do vosso rei 
e do vosso pas. Os vossos feitos sero cantados enquanto os 
feitos de valor foram lembrados. - os cavaleiros, entre os 
quais havia alguns ajoelhados  sua volta, ergueram o rosto.
Theido continuou calmamente:
- Que o momento da morte no vos arrebate a honra que agora 
mereceis. Custa pouco. Depois, vir o descanso e o sono e 
nunca mais conhecereis a dor. No tenhais medo e permanecei 
ousados at ao fim.
- Pela glria' - gritou um cavaleiro.
- Pela honra' - berraram vrios outros.
- Pelo rei e pelo reino! - gritou um coro de vozes chefiado 
por Ronsard, que se colocou  cabea dos seus guerreiros.
Os cavaleiros puseram-se em p, baixaram as viseiras e 
viraram-se para enfrentar o inimigo pela ltima vez. 
Observando-os de todos os lados, os Ningaal fizeram uma 
pausa. Depois, os quatro comandantes ergueram as espadas 
curvas e, com um grito feroz, os Ningaal voltam a lanar-se 
para a refrega.
_ O melhor  que acabe depressa - disse Ronsard, com os 
atacantes formigando  sua volta. - No tenho remorsos de 
nada.
- Nem eu, meu amigo - retorquiu Theido -, mas pesa-me no 
corao que o nosso pas v cair nas mos destes brbaros. 
Fiz o que pude.
- Adeus, bom amigo - volveu Ronsard. - Esta  a estrada 
escura de que me falaste? Como isso parece distante!
- Pode muito bem ser. Mas... espera! - Virando-se, subiu 
mesmo ao cimo da colinazinha. - Cornetim! - gritou. - Toca a 
trombeta! Toca at no poderes mais! Ouves? j te disse para 
tocares!

327

Com o rosto brilhante e novamente animado, virou-se outra 
vez:
- Continuai a lutar, senhores! - gritou, descendo a correr 
para o meio da batalha. - Aguentai-vos!
Ronsard lanou-se de cabea atrs dele e os dois homens, com 
as espadas silvando no ar, foram avanando, como se, 
sozinhos, quisessem expulsar os invasores. Animados pelo 
exemplo dos seus destemidos chefes, os cavaleiros que os 
rodeavam encostaram os escudos uns aos outros e seguiram em 
frente. Se a morte viesse naquele momento, encontr-los-ia 
corajosos at ao fim.

CAPTULO XLII

Quentin levantou-se e ficou a contemplar o outro lado da 
superfcie polida do Espelho do Senhor do Cu. O lindo vale 
encontrava-se envolto no manto da noite e a Lua caminhava 
baixo no cu, por trs dos picos ocidentais dos Fiskills, 
inundando os seus cumes nevados de um brilho branco, que se 
reflectia no insondvel lago. A mirade de estrelas que 
ardiam como fogo de prata na cpula negra do cu tambm a se 
reflectia com uma nitidez espantosa. Ao subtil luar, a erva 
verde-viva do vale parecia cinzenta e as saltitantes quedas 
de gua escorriam como luz lquida, lanando no ar da noite o 
seu fantasmagrico chuveiro encaracolado e turbilhonante.
Na distncia, Quentin ouvia a gua das cataratas caindo entre 
as rochas, produzindo um som semelhante a risos transportados 
pelo vento. Era o nico som que quebrava o silncio do vale. 
Toli, Durwin e Inchkeith dormiam embrulhados nas suas capas; 
estavam to quietos e calados que pareciam pedras ou torres 
de terra.
Quentin nunca soube o tempo que ficou a contemplar a 
paisagem. Parecia que ali, no vale, o tempo no tinha nenhum 
significado especial. De repente, Quentin apercebeu-se de um 
outro som, ou antes, teve a impresso de ouvir um som que j 
se sentia h algum tempo. Talvez fosse o que o acordara.
Era um tinido fino e agudo, como o produzido pelas agulhas ao 
carem num cho de pedra. Ou, se fosse possvel ouvi-lo, o 
som do gelo a formar-se no Inverno. Parecia vir l de cima. 
Virando o rosto para o cu, viu a Estrela do Lobo, que 
brilhava directamente por cima

330

dele e enchia o cu de uma luz em fogo, to viva que lanava 
sombras na terra. Como a luz lhe provocou arrepios, Quentin 
embrulhou-se rnelhor na capa.
No conseguia desviar os olhos da estrela, que, parecendo 
mover-se, estender-se, ficar mais fina e empurrar as outras 
estrelas para a sua dana, girava e brilhava na escurido do 
cu como um ser vivo. -As estrelas fundiram-se num nico raio 
de luz, frio e duro como gelo. Era um raio fino e esguio, que 
ia de oriente a ocidente, de uma ponta  outra da noite.
Quentin percebeu que o tinido no passava da msica das 
estrelas e que o faiscante raio de luz era a lmina de uma 
temvel espada.
Num sbito lampejo, Quentin percebeu que estava a ver a 
Zhaligkeer.
A espada, com o punho feito de cintilantes estrelas douradas, 
incrustado de majestosas jias, rubis, ametistas, topzios e 
esmeraldas, comeou a erguer-se lentamente, inclinando-se 
para cima, como uma espada levantada em triunfo. Depois, a 
ponta mergulhou, deslizou e comeou a cair atravs do vazio 
do cu, girando e iluminando a escurido com clares de fogo.
A Brilhante lanou-se para a terra num arco de fogo branco. O 
brilho daquele mergulho ofuscou Quentin, que, no entanto, 
continuou a olhar sem hesitar. A espada parou mesmo acima dos 
picos, do outro lado do vale, onde as cataratas de Shennydd 
Veflyn jorravam da vertente da montanha. Pairando ali por um 
instante, acabou por deslizar lentamente para baixo, como uma 
espada a ser embainhada. Depois, permaneceu assim por um 
breve momento, enquanto o seu brilho diminua rapidamente e 
se desvanecia na nvoa.
Quando Quentin caiu em si, estava a olhar para as quedas de 
gua e a noite adensava-se  sua volta. As montanhas haviam 
adormecido e s se ouvia o riso da gua a cair. Mas tinha a 
imagem da espada gravada a fogo no crebro. E, sem a sombra 
de uma dvida, soube onde poderia encontr-la.

- Durwin! Acorda! - sussurrou Quentin em voz rouca. - Acorda, 
por favor, antes que seja tarde de mais' - Abanou o ombro do 
eremita adormecido e, depois, ps-se a olhar mais uma vez 
para o redemoinho de nvoa.

331

- O que foi? - indagou Toli, levantando-se silenciosamente.
- O que aconteceu?
- Vi a Zhaligkeer. Sei onde est. Olha para as cataratas! 
Vs?
Durwin balbuciou qualquer coisa e levantou a cabea.
- Ah, s tu, Quentin - disse, ainda estremunhado. - Pensava 
que sabias que d azar perturbar o sono de um eremita.
- Vi a espada, a Zhaligkeer! Sei onde vamos encontr-la.
- No estou a ver nada - observou Toli, ainda a olhar para as 
quedas de gua.
Quentin deu meia volta e apontou com a mo esquerda:
- Est ali. Eu... - No seu rosto estampou-se uma expresso de 
profundo desapontamento. - No, j desapareceu. Mas estava 
ali! Eu vi-a!
Quentin afastou-se apressadamente a passos largos.
- Acorda o Inchkeith, Toli - suspirou o ensonado eremita. - 
Vamos atrs dele, j que no temos outro remdio.
- O Inchkeith j est acordado - disse o armeiro. - O que se 
passa aqui?
- O meu amo teve uma viso - explicou Toli, enquanto corriam 
todos atrs de Quentin. - Diz que viu a Brilhante e que sabe 
onde ela est.
Quentin conduzia-os pela margem coberta de erva do lago, em 
direco s cataratas. A Lua estava escondida por trs das 
montanhas, a ocidente, mas a luz anormalmente brilhante da 
Estrela do Lobo iluminava-lhes o caminho. Quentin no 
despregava os olhos das cataratas, como se tivesse medo de 
no se lembrar do que vira se desviasse o rosto nem que fosse 
s por um momento. Os outros seguiam-no aos saltinhos. Toli 
corria para trs e para a frente, ora pondo-se ao lado do seu 
amo, ora indo dizer aos outros para se apressarem. Depois de 
andarem uma hora quase sem respirarem, chegaram junto da base 
das cataratas. Quentin j estava ao p das gigantescas quedas 
de gua quando Durwin e Inchkeith, ofegantes, se aproximaram 
dele.
O rugido das cataratas j no se assemelhava a risos. Era, 
antes, um poderoso troar que os inundava e lhes fazia 
estremecer os ossos.
Quentin virou-se para eles. Tinha o rosto todo salpicado e 
brilhante, e a nvoa formada pelas minsculas gotas de gua 
enrolava-se-lhe

332

em volta dos ombros. Os salpicos colavam-se-lhe  capa e 
cintilavam como prolas a luz das estrelas.
- Ali! - disse, apontando com a mo boa. - A entrada das 
minas  por ali.
Durwin coou o queixo. Inchkeith franziu as sobrancelhas:
- Impossvel! Que sugeres que faamos? Que nademos pelas 
cataratas acima como salmes?
Toli no disse nada, limitando-se a olhar para a gua que 
rodopiava e observando Quentin com um ar manhoso. Durwin 
fitou Quentin atentamente:
- -No duvido do que viste. Vamos ver se  uma boa soluo 
para o enigma. Vamos ver... - Pondo um dedo no ar, comeou a 
falar:
"Quando, as montanhas adormecerem, mantm-te vigilante e 
vers melhor o caminho.
- E eu vi! A espada caiu do cu e desapareceu dentro das 
cataratas.
- Pensei que no estavas a ouvir, mas isso  bom. E parece 
que se encaixa. "Quando, ouvires risos entre as nuvens ... "
- Eu ouvi. O som das cataratas parecia risos.
- E que risos! - gritou Inchkeith. - No ouo nada do que 
dizes por causa deste barulho!
Quentin ignorou o comentrio:
- "Entre as nuvens ... " No vs como os salpicos formam 
nuvens? O que mais poderia ser?
- Hum... Sim - concordou Durwin. - "Uma cortina de vidro 
vers."
- A gua  uma cortina! - gritou Quentin, com o rosto 
brilhante e entusiasmado banhado pela luz branca. "No cuides 
de mos nem de cabelo ... " - prosseguiu, estendendo a mo. - 
Est molhada! - Passou a mo pelo cabelo. - E tenho o cabelo 
a pingar, assim como a capa. Estou todo molhado.
- Pois !
- Todos ns estamos molhados at aos ossos. Somos bem tolos! 
- resmungou Inchkeith.
- "O trovo dividirs e o caminho estreito procurars" - 
prosseguiu Durwin. - Entrar na queda de gua? Achas?
- Claro!  isso!  o que tenho estado a tentar dizer-te.

333

"O dia pela noite trocars e a luz reters. E assim o dia 
ganhars"
recitou Durwin. olhando em volta. - Bem,  de noite. Mas 
tambm pode querer dizer que a entrada s se pode ver no 
escuro ou que entrar na mina no escuro pode...
- Estou a v-lo! - gritou uma voz fraca por cima deles.
-  o Toli! - disse Quentin. - Onde  que ele est?
Procuraram os trs em volta. mas no viram o destemido jher 
por lado nenhum. Toli desaparecera enquanto eles davam voltas 
 cabea a tentar descobrir a chave do enigma.
- Estou aqui! - gritou novamente.
Olharam todos para as quedas de gua. De repente, Toli 
apareceu, surgindo detrs da gua que caa. como se de uma 
cintilante cortina. Parecia estar de p sobre a rocha nua da 
superfcie do penhasco ou caminhar no meio da nvoa de 
salpicos.
- Subi at aqui. No vos preocupeis com a gua' - disse, 
desaparecendo outra vez.
Quentin j estava a correr atrs dele. Durwin e Inchkeith 
trocaram olhares duvidosos.
- Parece que ficmos sem hipteses de passar uma noite 
tranquila
suspirou Durwin.
- E seca - resmungou Inchkeith. -j agora, vamos tomar banho 
e acabar depressa com isto.
Seguindo atrs de Quentin, rodearam a aresta rochosa do lago 
que ficava na base das cataratas, onde a gua caa em 
turbilho, indo depois derramar-se no regato que alimentava o 
lago, no meio do vale. As rochas estavam molhadas e 
escorregadias, o que tornava difcil e rduo o caminho dos 
dois homens mais velhos. Quentin quase saltava por cima das 
rochas e, dali a pouco, estava mesmo ao p da torrente. 
Durwin viu-o sorrir, olhar para eles por cima do ombro e 
entrar na gua em turbilho.
Depois, ouviram a sua voz gritando:
- Fazei como eu fiz. Esperarei aqui por vs.
- Primeiro tu, bom eremita - disse Inchkeith. - O justo  que 
eu siga atrs de ti. Afinal, a expedio  tua.
- Pois ! - retorquiu Durwin, respirando fundo e entrando na 
cortina de gua a cair.

CAPTULO XLIIII

- Coragem, homens! - gritou Theido. - Continuai a lutar. A 
libertao no tarda! - A trombeta lanou uma nota de 
coragem, que se fez ouvir acima do clamor da batalha e dos 
gritos dos combatentes.
Depois, do cimo da colina que tinham atrs de si, uma voz 
berrou:
-  o Rei Drago! Veio! O rei Drago chegou! Estamos salvos! 
O cornetim, com o rosto sujo brilhando de entusiasmo e os 
olhos abertos de espanto, ergueu outra vez a trombeta e 
comeou a soprar, produzindo fortes e firmes toques de 
esperana.
Os que se encontravam no sop da colina, ouviram as suas 
palavras e voltaram os olhos para o bosque banhado por uma 
luz difusa. Por entre os defensores sitiados passou um 
murmrio semelhante a uma centelha acesa na ponta de um 
rastilho:
- O rei Drago vem a! Estamos salvos! O rei Drago!
Tambm Theido levantou os olhos para o bosque. Muito 
indistintamente, como num sonho, viu o brilho de panos 
dourados e escarlates faiscando por entre os troncos e ramos 
sombrios das rvores, como luz a danar. De repente, viu 
tudo, preto no branco: o feroz drago a contorcer-se, o 
braso do rei, flutuava velozmente na sua direco, voando 
por entre as rvores.
Houve outros que tambm o viram.
- O drago! O rei! - gritaram. O bosque escuro estremeceu com 
o som das trombetas e o barulho dos cascos dos cavalos, que 
corriam pela floresta. Surpreendidos por este acontecimento 
inesperado, os Ningaal recuaram, interrompendo o ataque. Um 
dos comandantes forou as suas tropas a virarem-se e a 
enfrentarem a nova frente de batalha. Por um momento, os 
Ningaal ficaram divididos.
- Atacai, bravos cavaleiros! - gritou Ronsard. - Atacail 
Agora!
Feridos, cansados e muito reduzidos, os cavaleiros puseram a 
espada em riste e avanaram com firme determinao. Incapazes 
de responderem simultaneamente a um ataque vindo dos dois 
lados, os Ningaal debandaram como folhas apanhadas numa 
tempestade. E os valentes defensores viram-se rodeados. no 
pelo inimigo, mas pelos seus camaradas de armas. Enquanto as 
foras dos senhores de Mensandor carregavam contra os 
confusos Ningaal, os cavaleiros, ensanguentados, ergueram as 
espadas com os braos exaustos e saudaram o seu rei.
Theido e Ronsard, cansados e a sangrar, encostaram-se s 
respectivas espadas.
- Graas aos deuses, estais vivos! - Levantando os olhos, 
viram Eskevar, que, do alto do seu grande corcel branco. 
tinha um sorriso de orelha a orelha.
- Pois , tnhamos desistido at da esperana - retorquiu 
Ronsard. - Mas aqui o Theido no pensava assim. - O cavaleiro 
virou-se para o amigo. - Mais um pressentimento?
- No... bem, de certo modo, sim. Ao princpio, pensei que o 
som da trombeta talvez desse coragem aos nossos homens. Alm 
disso, se, por acaso, algum estivesse a passar aqui por 
perto, ouviria o toque e viria em nosso auxlio. `No sei  
de onde me veio tal ideia.
- Seja como for, o vosso clarim guiou-nos directamente at 
vs - volveu Eskevar, observando-o com um ar conhecedor. 
Depois, virou a cabea, e Theido voltou a ver o homem que o 
rei fora: entusiasmado, forte e rpido a chegar ao grosso da 
batalha. - Retirai com os vossos homens pelo bosque. Quanto a 
ns, vamos acabar depressa com isto.
- Majestade! - A voz pertencia a Myrmior, que corria, vindo 
do meio dos combates. Theido e Ronsard no o viam desde que 
tinham estado todos juntos na encosta da colina. Mais uma 
vez, trazia novas pouco reconfortantes. - Sem archeiros que 
os travem, os Ningaal esto a juntar-se aos magotes do outro 
lado do rio. No penseis que os esmagareis com toda a 
facilidade. E esto a tentar ficar em vantagem de ambos os 
lados.
- O qu? - Eskevar fez girar a sua montada, afastou-se alguns

337

passos e regressou dali a pouco: - Pelos deuses! Estes chefes 
guerreiros so lobos bem astutos!
- A no ser que tenhais trazido mais homens dos que os que 
vejo por aqui, sugiro-vos que nos retiremos enquanto temos 
fora e meios para o fazer.
Eskevar lanou um olhar colrico ao ofegante mordomo-mor. A 
penetrante luz da tarde. batendo obliquamente por entre as 
rvores, s servia para realar a obscuridade do campo de 
batalha, que, na sua maior parte, estava envolto em sombras 
cada vez mais densas. Era claro que no lhe agradava a ideia 
de retirar logo ao primeiro contacto com o inimigo, pois isso 
ia contra o seu esprito de lutador. Mas a razo prevaleceu 
sobre o corao.
- Seja como dizes, Theido e Ronsard, passai com os vossos 
homens por trs de ns e ide-vos embora para Askelon, - O rei 
gritou esta ltima ordem por cima do ombro, pois o seu cavalo 
j dera um salto em frente.
Theido e Ronsard reuniram os vestgios esfarrapados do seu 
outrora poderoso exrcito e abandonaram o campo de batalha. 
Os gritos e o barulho foram-se desvanecendo a medida que 
foram atravessando a floresta pelo caminho que Eskevar e os 
seus cavaleiros haviam tomado. Embora estivessem exaustos e 
j nem conseguissem levantar a espada, os cavaleiros iam 
pondo teimosamente um p  frente do outro, arrastando-se 
dali para fora.
Depois de terem andado cerca de meia lgua, a floresta 
comeou a ficar menos cerrada e chegaram junto a um regato de 
gua fresca, onde pararam, ajoelhando-se para beber. Vrios 
cavaleiros puseram-se de joelhos e no conseguiram levantar-
se outra vez. Outros permaneceram de p, cambaleando, com 
medo de se inclinarem, no fossem tambm ver-se em apuros 
para suportar o peso da armadura e sucumbir de exausto.
- Temos de nos apressar - disse Ronsard, lanando um olhar 
preocupado  sua volta. Alguns soldados tinham atravessado o 
regato a patinhar e achavam-se deitados do outro lado, com a 
respirao ofegante. - Se nos demorarmos muito mais, eles 
enterrar-nos-o aqui.
- Se tivssemos cavalos, talvez nos safssemos - observou 
Theido. - Quando Eskevar fizer soar a retirada, eles passaro 
por ns. Um

338

cavaleiro a p no  cavaleiro. Esta armadura no foi feita 
para marchas.
- No me agrada a ideia de ser deixado para trs. Mas, olha, 
Theido. - Ronsard apontou para uma clareira que ficava do 
outro lado do regato, por onde passava com estrondo uma fila 
de carroas. - Basta falares, e pronto. Hoje ests nos teus 
dias, meu amigo.
- Parece-me bem que sim.
Dali a pouco, os fsicos de Eskevar j estavam a correr entre 
eles, removendo gorgis, couraas, caneleiras, braadeiras e 
cotas de malha, para tratarem os ferimentos dos cavaleiros. 
Alguns escudeiros recolheram as armas e levaram-nas para as 
carroas e outros foram ajudar a tirar as armaduras aos 
cavaleiros que, uma vez desembaraados do fardo, atravessaram 
o regato em direco ao prado.
O sol j caminhava para ocidente quando Theido e Ronsard 
entraram no campo, pois tinham esperado at que todos os seus 
homens fossem tratados e houvessem sado da floresta a p ou 
transportados nas carroas. Mesmo na altura em que saram do 
bosque, elevou-se uma aclamao entre os soldados. Olhando em 
volta, viram vrios homens conduzindo uns cavalos. 
Inacreditavelmente, eram as suas montadas. Os animais, 
separados dos seus cavaleiros durante a luta, tinham tomado o 
caminho de casa e haviam sido apanhados pelos escudeiros. 
Muitos dos cavaleiros encontraram os seus cavalos e outros 
ficaram com os dos amigos cados em combate.
- Montai, homens! - gritou Ronsard jovialmente. - Para 
Askelon!
Dando meia volta, cavalgaram para oeste, atravessando 
novament a floresta. Os primeiros soldados do exrcito de 
Eskevar em retirada, de rostos sombrios e fechados, juntaram-
se a eles. Em breve, surgiam do bosque dezenas de cavaleiros. 
Theido identificou as divisas e as cores dos vrios senhores: 
a dupla guia prateada e azul de Benniot, a luva cinzenta de 
Fincher agarrando relmpagos brancos num campo vermelho, o 
touro vermelho em fundo preto de Rudd, o carvalho verde acima 
de clavas cruzadas num campo amarelo de Dilg.
- No estou a ver o Ameronis ou o Lupollen e o seu grupo - 
disse Theido.
- Nem eu, Talvez o Wertwin ainda consiga convenc-los. De 
qualquer modo, esperemos que sim.

339

Theido virou-se na sela:
- Onde  que o Myrmior se meteu? Quero agradecer-lhe pela 
coragem e astcia que demonstrou hoje no campo de batalha.
- Se  que o conheo bem, h-de ser o ltimo a aparecer. - 
Virando-se na sela, Ronsard espreitou um grupo que surgia do 
bosque. - _Mi. Theido' L vem o rei Eskevar e... sim, Mvrmior 
e os senhores esto com ele.
Quando chegaram ao p dos dois cavaleiros, Theido perguntou:
- O inimigo vem atrs de ns?
- Vem - respondeu Rucid. de rosto fechado. Era bvio que a 
ideia de retirar lhe agradava tanto como aos outros ou, se 
calhar, ainda menos. - Mas esto quase todos a p. Se 
continuarmos em frente. no tardaremos a deix-los para trs. 
- Com um brilho desafiador nos olhos, fitou os que o 
rodeavam. - Sugiro que nos reunamos no bosque e que esperemos 
por eles. Podamos...
- Podamos fazer o disparate de nos deixarmos cortar s tiras 
durante a noite - interrompeu Myrmior com uma expresso 
selvagem. Os seus olhos escuros brilhavam como fogo. Estava 
zangado e, depois de olhar colericamente para os cavaleiros 
que tinha  volta afastou-se a cavalo.
- O que ele diz  verdade - suspirou Eskevar. - Desde o 
princpio que subestimamos este inimigo.  melhor no 
fazermos o mesmo duas vezes num s dia. A retirada para 
Askelon  a nica cura para a nossa doena, senhores. Como 
vamos ter pouco tempo para nos prepararmos para o cerco, o 
melhor  aproveit-lo bem.
O regresso a Askelon foi sombrio e silencioso. j estava 
escuro quando o exrcito chegou  plancie que se estendia 
abaixo do castelo e. embora a Lua ainda no tivesse 
aparecido, a aziaga Estrela do Lobo ardia com um brilho muito 
vivo, banhando a terra com a sua luz fria. Nessa noite, o 
exrcito do Rei Drago arrepiou-se com essa luz gelada. Todos 
a observaram tristemente e at homens fortes tremeram 
interiormente de medo, pois sabiam que chegara o dia do mal.

CAPTULO XLIV

Atravessar as quedas de gua era como passar por uma cortina 
de vidro. Na extremidade por onde tinham entrado, a gua no 
caa com a mesma fora que tinha no meio das cataratas. Uma 
vez l dentro, os exploradores encontraram uns degraus de 
pedra escavados numa superfcie rochosa, que os levaram para 
longe da face vertical da parede da montanha. E, embora 
estivessem molhados, escorregadios e cobertos de limo preto, 
eram compridos, largos e to cuidadosamente esculpidos que, 
com cuidado, nunca ningum ali caria.
Os degraus, construdos por baixo de um tecto suspenso de 
rocha, subiam para uma plataforma que formava uma espcie de 
torreo natural. Foi a que Durwin e Inchkeith, depois de 
subirem pesadamente as escadas, encontraram Quentin e Toli  
sua espera.
-  a mina perdida, o segredo dos Ariga! - exclamou Quentin, 
com a voz ecoando junto da grande abertura do tnel. - Olhai! 
- Muito entusiasmado, apontou com a mo esquerda para a 
parede. Apesar da escurido quase total, Inchkeith viu 
esculpidas na pedra estranhas figuras, que brilhavam com uma 
luz fraca e dourada. No entanto, no conseguiu perceber o que 
eram; pareciam letras de uma escrita que no conhecia. Mas o 
facto de as observar f-lo pensar em homens e montanhas, 
cataratas em turbilho, rios e rvores, e na plenitude da 
terra.
Durwin foi at  parede e examinou as inscries em baixo-
relevo, com um aspecto to recente que parecia que o escriba 
acabara de pousar o seu cinzel. As linhas, deixadas intactas 
pelo tempo e pela idade, eram direitas e bem definidas.

342

Durwin comeou a ler:
- "Estas So As -Minas Dos Ariga. Amigos Da Terra E De Todos 
os Seres Vivos." - O eremita virou-se para os outros. 
sorrindo: - Parece que no h dvida que encontrmos o que 
procurvamos. Vamos mais para a frente ou esperamos at de 
manh para trazermos as provises e as ferramentas?
Era uma pergunta desnecessria. A penetrante expresso de 
viva ansiedade estampada no rosto de Quentin e o entusiasmo 
calmo de Toli responderam por eles.
- -Muito bem. Podemos comear j, mas primeiro precisamos de 
luz. Como algum ter de ir buscar as tochas. tambm podemos 
trazer j para aqui as outras coisas todas.
O rosto de Quentin mostrou uma certa desiluso:
- Eu e o Toli vamos l. Tu e o Inchkeith podeis ficar aqui. 
Voltaremos num instante.
Partiram antes de Durwin conseguir sugerir qualquer outro 
plano descendo dois a dois os escorregadios degraus das 
cataratas.
- A noite no est perdida. Ainda podemos dormir um bom sono. 
- riu Durwin. - Eles vo levar, pelo menos, duas horas a ir e 
a vir do acampamento com as nossas coisas. Vamos descansar 
enquanto podemos. julgo que, depois, no dormiremos durante 
muito tempo.
Instalaram-se os dois de encontro  parede que no tinha as 
inscries, e Durwin adormeceu quase imediatamente. Inchkeith 
aconchegou-se melhor no casaco e inspirou o ar frio e 
bafiento das profundezas da terra, que se erguia do poo da 
mina. mergulhado algures na escurido. -Mas o sono 
abandonara-o por completo; estava bem desperto e no 
conseguia despregar os olhos da belssima inscrio que 
brilhava suavemente na parede em frente. Apesar de ser um 
simples sinal indicativo da entrada de uma mina (uma coisa 
to vulgar!), parecia a Inchkeith que nunca vira nada to 
inexplicavelmente belo.

Um grito fez os dois homens levantarem-se de um salto. Durwin 
esfregou os olhos:
- j? Pois ! Sinto-me como se s tivesse passado pelas 
brasas. Como  que eles conseguiram to depressa?
Mas, com cuidadosa dignidade, ele e Inchkeith apressaram-se a

343

descer as escadas, atravessaram a fina cortina de gua e 
saram para a noite, que j se desfazia numa aurora cor de 
prola. O rpido chuveiro de gua fria acabou de despertar 
Durwin:
- Brrr! Que acordar mais abrupto! - disse atabalhoadamente, 
descendo as rochas com cuidado, como um animal acabado de 
sair do seu perodo de hibernao.
Quentin estava a tirar os alforjes de um cavalo e Toli guiava 
o outro, completamente carregado de sacos e ferramentas.
- Eu j devia saber que os ps deles iriam ter asas esta 
noite. Bem, vamos l. Temos muito que fazer.
Inchkeith limitou-se a assentir com a cabea. Desde que 
entrara na mina que andava estranhamente calado.
Dali a uma hora, j tinham transportado para cima todas as 
provises e ferramentas de que iriam necessitar. Apesar de s 
ter um brao em condies, Quentin estava to ansioso por 
comear a busca que transportara a maior parte da bagagem, 
fazendo mais viagens do que os outros. No fazia ideia do que 
ia encontrar nas profundezas das minas, mas entusiasmava-o 
muito voltar a estar num stio por onde os Ariga tinham 
passado e ver novamente as obras produzidas pelas suas mos, 
h muito desaparecidas. Estar ali fazia-o pensar em Dekra.
Depois de empilharem a bagagem toda na boca da mina, 
comearam a dividir as coisas que cada um levaria. Apesar da 
sua deformidade, Inchkeith insistiu em transportar tanto como 
os outros. Durwin tentou explicar-lhe que ele ia precisar da 
sua fora para forjar a espada e que, portanto, devia poupar 
as suas energias enquanto pudesse, pois o caminho j ia ser 
demasiado difcil, mas Inchkeith nem quis ouvi-lo. No fim da 
discusso, pegou nos seus instrumentos e disse:
- Pelo menos, levo as minhas ferramentas. Ningum toca nas 
ferramentas deste mestre a no ser o prprio mestre. - A 
bigorna, os foles e os instrumentos mais pesados ficariam  
entrada da mina. Por fim, o grupo estava pronto para partir.
- Agora, s mais uma coisa antes de comearmos - anunciou 
Durwin. - Enquanto acendo as tochas, quero que cada um de vs 
volte l fora e olhe para o vale  luz da madrugada. A no 
ser que esteja muito enganado, no voltaremos a ver a luz do 
dia durante muito tempo.

344

Quero que enchais os vossos coraes com uma recordao 
agradvel, que vos permita suportar a escurido que vai 
coroar o nosso caminho.
Ento, saram todos a contemplar a depresso verde viva do 
pacfico vale. A luz da manh emprestava  nvoa de salpicos 
um radioso tom dourado e as montanhas pareciam coroadas com 
chamas de um vermelho de ouro. Shennvd VelIvri. suave e 
imperturbvel. espelhava o azul ilimitado de um lmpido cu 
matinal, perpassado por rendilhados farrapos de nuvens 
brancas.
O ar rarefeito da montanha, doce e fresco, tinha um cheiro 
muito diferente do ar hmido e bafiento da mina. -Mas, apesar 
de achar muito sensata a sugesto de Durwin, Quentin estava 
mortinho por partir e, portanto, embora contemplasse 
atentamente o que o rodeava, tinha a cabea to cheia de 
aventuras que pouco viu. Quando. por fim. se viraram para 
voltarem para dentro da mina. Toli foi o ltimo a arrancar-se 
 beleza que o seu olhar abarcava.
Um a um, subiram as rochas em desalinho, molhados pelos 
salpicos da gua que caa. Um a um, aproximaram-se do troar 
das cataratas. E, um a um, dividiram a cintilante cortina e 
penetraram na escurido das lendrias minas.

Esme e Bria achavam-se na alta barbac sobranceira aos 
portes do castelo e  cidade, cujos edifcios se amontoavam, 
como um rebanho de tmidas ovelhas,  sombra do seu grande 
protector. Nesta manh clara, ainda recm-nascida e acabada 
de sair dos braos da noite, as ruas estreitas eram rios de 
cor em movimento, correndo como uma enchente em direco aos 
portes.
Na plancie, at aos escuros limites de Pelgrin, viam-se 
filas de viandantes serpenteando para a cidade, onde iam 
juntar-se s daqueles que caminhavam para o castelo.
- De onde viro? - perguntou Esme em voz suave e atemorizada. 
- Ali em baixo devem estar aldeias inteiras.
-  verdade - replicou Bria. - As notcias espalham-se como o 
vento, no ? Os senhores s anteontem regressaram da 
batalha. V bem. Alguns deles caminharam toda a noite para 
chegarem aqui. -Mas  natural. No seu lugar, faria o mesmo. - 
Pronunciou as ltimas palavras

345

com um desespero to grande que Esme se virou e lhe pousou as 
mos nos ombros.
- Bria, tu e eu somos amigas, no ?
- Claro que sim. Porque ...?
- Ento. tenho de te dizer uma coisa... como amiga. - Esme 
perscrutou o rosto da sua companheira e fitou-a bem nos 
olhos. Bria ficou espantada com a firmeza com que aquela 
beldade de cabelo escuro se lhe dirigia.
- Fala  vontade - retorquiu Bria.
- Ns j somos mulheres. Mulheres reais. Deixemo-nos de 
complacncias de raparigas. Tu viste com os teus prprios 
olhos. No devem faltar muitos dias para o cerco. No podemos 
pensar em ns. Primeiro. temos de nos preocupar com os 
outros. Tem de ser assim. Temos de ser fortes pelos homens 
que combatem, pelas pessoas que procuram em ns esperana e. 
por fim, mas s por fim, por ns prprias. Pelo reino. tem de 
ser assim. A nossa coragem deve ser uma chama que possa 
inflamar os coraes dos que nos rodeiam.  o dever da mulher 
em tempo de guerra.
Envergonhada. Bria baixou os olhos verdes:
- As tuas palavras tocam-me bem fundo, boa amiga. O que dizes 
 verdade. Tenho andado orgulhosamente triste nestas ltimas 
semanas... desde que o Quentin se foi embora. Tenho sido 
egosta. Tenho andado desesperada pelo destino que nos levou 
os nossos entes queridos. sem perceber que h outros que tm 
mais razes do que eu para estarem aflitos. - Levantando 
novamente os olhos, fitou a amiga.
"Mas isso acabou. Esme, acabou. Falaste-me claramente, como 
amiga. Vou-me deixar de infantilidades e de tolices. Serei 
forte, para dar fora aos que me rodeiam. e no andarei a 
tentar consolar-me quando h coisas mais importantes para 
fazer. Serei forte. Esme.
Bria lanou os braos ao pescoo de Esme e as duas jovens 
abraaram-se.
- Anda. vamos ver o que podemos fazer para acomodar os 
aldees que procuram refgio dentro destas paredes - sugeriu 
Bria.
Afastando-se da barbac, comearam a caminhar ao longo das 
ameias viradas a sul.
- Sinto-me to tola. Esme! Desculpa.

346

No te censures. No falei para te criticar, pois o teu 
corao  muito mais sensvel do que o meu.
- Se fosse assim, devia ser eu a consolar-te, Esme. Ests 
longe de casa, e sem novas nem dos combates que l se 
desenrolam nem da tua famlia. Deves andar muito preocupada.
-  verdade, mas o plano do meu pai foi mandar-me para aqui 
afastando-me, assim, da ameaa da guerra. Honro-o mantendo-me 
no caminho que traou para mim, mas tenho a certeza de que 
nem lhe passou pela cabea que a poderosa Askelon ia acabar 
por ser cercada.
Esme lanou a Bria um olhar cauteloso e, depois, corou e 
desviou o rosto.
- O que foi? Fala  vontade. O que aconteceu?
- Bem, para te dizer a verdade, no tenho pensado tanto na 
minha famlia como noutra pessoa - disse Esme lentamente.
- O Toli?
- Sim, o Toli. - Observou Esme atentamente. - Porqu? Tem 
algum mal?
- No, no. Longe disso, Esme. S me admira um pouco, mais 
nada. O Toli  sempre to calado, to invisvel... Quase nem 
reparo nele. Mas a verdade  que ele e o Quentn so 
inseparveis, e, como eu s tenho olhos para o Quentin, no 
devia ficar surpreendida por outra pessoa ver no Toli aquilo 
que eu vejo.
- Acredita que o que estava mais longe de mim era apaixonar-
me assim to facilmente. Eu andava em misso, mandada pelo 
meu pai, e nesses dias de viagem... Bria, devias ter visto a 
maneira como me protegeu quando encontrmos os Ningaal. E, 
depois, quando o vi vivo, entreguei-lhe o meu corao. E sei 
que ele tambm gosta de mim.
A conversa levara-as at ao grande cortinado que separava o 
ptio interior do exterior. Por algum tempo, ficaram a olhar 
para baixo, para o ptio exterior, cheio de pessoas que 
andavam de um lado para o outro, construindo tendas e 
alojamentos temporrios. Tambm se via gado, porcos e 
galinhas, que alimentariam os sitiados caso o cerco se 
prolongasse. O guarda do ptio e os seus homens corriam de um 
lado para o outro, guiando o afluxo de gente para um lado e 
outro, tentando manter os caminhos desimpedidos para os 
soldados que necessitassem de os atravessar.

347

- O castelo pode abrigar estas pessoas todas? - perguntou 
Esme.
- Eu nunca vi nada assim. Diz-se que, na Guerra do inverno, 
ficaram aqui sitiadas cem mil pessoas durante todo o Inverno. 
Mas isso foi h muito, muito tempo.
Os mugidos das vacas e os grunhidos dos porcos, misturados 
com os berros e os gritos dos camponeses e dos aldeos, 
originavam um barulho ensurdecedor. Contemplando a populao 
assustada, as princesas esqueceram os seus cuidados, pois, no 
meio da pattica confuso dos refugiados, ouviram crianas a 
chorar.
- De certeza que queres ir l abaixo? - indagou Esme.
- De certeza. Talvez possamos fazer pouco por eles, mas, pelo 
menos. faremos esse pouco.
Com estas palavras. entraram na torre virada a sul e 
comearam a descer as escadas em espiral, em direco ao 
ruidoso caos do ptio exterior.

CAPTULO XLV

Quentin nunca experimentara uma escurido como aquela. Muito 
mais espessa do que a mais negra das noites, era palpvel, 
primitiva, insistente. Quase viva, escondia-se por trs de 
cada esquina e em todos os lados,  espera de asfixiar os 
intrusos no seu abrao de veludo. As tochas que transportavam 
pareciam frgeis e ridculas. No passavam de simples 
brinquedos contra um inimigo incansvel, de uma astcia 
estpida e selvagem.
No entanto, apesar de parecerem estar sempre  beira de se 
apagarem completamente, deixando-os mergulhados num vazio to 
negro como a morte, as bruxuleantes tochas conseguiam, mesmo 
assim, afastar um pouco esta terrvel escurido. Cada um 
deles tinha uma tocha, excepto Inchkeith, que ia avanando 
teimosamente, sobrecarregado pelas suas ferramentas de 
escavar, como lhes chamava. Durwin seguia  frente, tendo 
como guia o seu fraco conhecimento da maneira como os Ariga 
faziam a extraco mineira. Quentin, de brao ao peito, mas, 
no entanto, carregando um grande saco, caminhava atrs de 
Durwin. Inchkeith saltitava atrs de Quentin e Toli seguia na 
retaguarda, rangendo os dentes a cada passo que dava em 
direco ao negro corao da montanha.
Depois de terem caminhado na escurido ao longo de um 
corredor baixo e largo, de pedra slida, durante o que lhes 
pareceu dias a fio, Durwin parou e disse:
- Sem dvida que vs, rapazes, podeis continuar a andar at 
o prprio Heoth vos fazer parar, mas penso que  altura de 
descansarmos. E tambm no seria m ideia comermos alguma 
coisa.

350

- No pares por minha causa, eremita - observou Inchkeith.
Apesar das suas palavras, Quentin reparou que ele pousara a 
sua carga.
- S quero sentar-me por mim e por mais ningum, senhor. Os 
ps dizem-me que  altura de descansar um bocado e a minha 
barriga concorda.
Quando comeram, Quentin percebeu que, afinal de contas, 
estava cheio de fome. Enquanto mastigava, pensava se seria 
dia ou noite l fora. Mas, na sua cabea, imaginava as coisas 
exactamente como as vira pela ltima vez. Durwin tivera 
razo: ao irem para aquele buraco escuro, era bom as pessoas 
transportarem com elas um pouco de sol.
Toli comeu pouco e falou ainda menos. Fora ficando srio, 
refugiando-se em si prprio e, se  que era possvel, 
tornara-se ainda mais calado do que o habitual. Quentin 
fingiu no reparar no comportamento do amigo, pois isso s 
serviria para lhe tornar as coisas ainda mais dolorosas. 
Alis, sabia precisamente o que incomodava Toli: o jher no 
gostava dos limites asfixiantes da mina. Toli, nascido entre 
um povo que vagueia  vontade pela terra, seguindo as 
criaturas selvagens, tivera um acto de suprema coragem ao 
entrar naquele lugar odioso, que, para ele, era pior do que o 
tmulo.
Mas havia qualquer coisa da sua inquietude que tambm 
incomodava Quentin. S que, nele, assumia a forma de uma 
certa confuso. Os Ariga, cujas obras eram uma cano visvel 
e palpvel, tinham construdo um poo de mina perfeitamente 
detestvel. No esperava que as amplas galerias de cores 
vivas de Dekra tivessem sido reproduzidas debaixo da terra, 
mas pensava ir encontrar ali as marcas do notvel bom gosto 
que, normalmente, se manifestavam at nos artigos mais 
mundanos da sua vida quotidiana. Mas tudo o que via era um 
tnel preto de pedra que rebrilhava nos stios onde a gua 
escorria pelas paredes.
- Se no me engano, ainda estamos no poo da entrada. Creio 
que em breve chegaremos ao primeiro nvel. Mas no sei 
quantos nveis existem nem em qual deles est o lantbanil - 
disse Durwin. Vamos vasculhar todos os nveis e todas as 
galerias at o encontrarmos. No entanto, desconfio que est 
bem fundo e que vamos ter de descer at ao nvel mais baixo.
Ouvindo estas palavras, Toli fez um esgar estranho, como se 
estivesse

351

a comer um fruto muito amargo. Tratando-se de outra pessoa, 
Quentin at se teria rido, mas sabia como aquela experincia 
estava a torturar o seu amigo. Por isso, virando-se para 
Durwin, desviou a conversa:
-j que mencionaste o lantbanil, fala-nos mais dele, pois s 
sei o pouco que me disseste e o que me lembro de Dekra, que 
est to envolto em lendas que chega a ser inacreditvel.
- No tenhas tanto a certeza disso.  verdade que as 
histrias que os homens contam sobre estas coisas vo sempre 
crescendo e ficando mais exageradas, mas a Pedra da Luz ( o 
que a palavra significa, mais ou menos)  uma substncia 
fantstica, com muitas propriedades exticas e poderosas.
- Se quereis acreditar nas histrias que por a se contam, 
ento ouvi esta - comeou Inchkeith, fitando a escurido. - 
H muitos anos, o meu pai, ainda rapazinho, foi correr mundo 
com o pai dele, em busca dos segredos das armas e armaduras e 
da maneira como se forjam e se formam metais raros e como se 
encastoam as pedras preciosas... enfim, da arte dos armeiros.
"Em Pelagia, encontraram um mercador que vendia armas, e 
ficaram amigos quando o mercador viu uma amostra do trabalho 
do meu av. Ao perceber que estava a falar com um grande 
arteso, o mercador levou-os para as traseiras da sua loja, 
pois, nesse pas, havia tendas com o exterior coberto de 
toldos, e no interior, onde viviam e trabalhavam os 
mercadores e os artesos, guardavam-se os melhores artigos. 
Ser-se convidado l para dentro era uma honra considervel.
"O tal mercador, homem muito conhecido e respeitado (no me 
lembro se alguma vez ouvi o seu nome), levou-os para dentro e 
conduziu-os a um quartinho muito pequeno da sua grande casa. 
Depois de tirar a tranca da porta, convidou-os a entrarem. O 
meu pai dizia que estava muito escuro e lembrava-se de que as 
paredes do quarto eram extremamente grossas e a porta muito 
pesada, pois rangia nos seus gonzos de ferro como uma ponte 
levadia.
"O mercador fechou a porta, tirou um cofrezinho de um 
esconderijo
e pousou-o na mesa. O cofre, muito pequeno, tinha correntes e 
estava fechado  chave. Depois de o abrir, tirou de l de 
dentro um objecto einbrulhado em tecido. O meu pai dizia que 
no era grande e que no

352

parecia ser muito pesado, pois o homem pegou nele com 
facilidade, mas muito reverentemente.
"Sem falar, o mercador desenrolou o tecido, pondo  mostra 
umm clice de uma beleza incomparvel. Mas o mais 
interessante... e foi a coisa que o meu pai recordou mais 
nitidamente at  sua morte... era a maneira como brilhava na 
escurido, como se o iluminasse um brilho interior. O meu pai 
dizia que era to belo que chorara s de olhar para ele... 
mas tambm no passava de um rapazinho.
"Ento, estendeu a mo para tocar na brilhante taa, mas o 
mercador afastou-a, dizendo que estava encantada e que tocar-
lhe com as mos nuas lhe diminuiria o poder. Tambm afirmou 
que era muito antiga e que o seu poder, ainda grande, no 
passava da sombra do que outrora fora. Ao que parecia, os 
cordiais bebidos por aquele clice curavam imediatamente e 
todas as enfermidades saravam quando se lhe tocava.
"Ento, o pai do meu pai fez uma coisa muito pouco habitual 
nele. Apesar do orgulho que tinha no seu trabalho, prometeu 
ao mercador o seu melhor punhal se este o deixasse, a ele e 
ao filho, tocar no clice. O meu pai reparou que, ao fazer o 
pedido, se estampou uma expresso estranha no rosto do meu 
av. O punhal era de um trabalho finssimo. Tinha o cabo de 
ouro com rubis incrustados. Valia muito. Mesmo assim, o 
mercador hesitou. Mas, por fim, cedeu e deixou-os tocar no 
clice. O meu pai lembrava-se como a luz que saltou do 
belssimo clice fluminou o rosto do seu pai, parecendo dar-
lhe um novo poder de criao e uma maior compreenso da sua 
arte... claro que o meu pai s entendeu tudo isto bastante 
mais tarde. Quando o pai lhe passou o clice, ele teve medo 
de lhe tocar, mas o pai insistiu e ele obedeceu. Dizia que 
nunca sentira tal fora e integridade e que, depois, nunca 
mais na vida voltara a sentir a mesma emoo. Embora no 
passasse de um rapazinho, mesmo assim soube que nunca mais 
teria a mesma sensao nem veria beleza que se lhe 
comparasse. Por isso. guardou tudo no seu corao.
"O meu pai passou o resto da vida a tentar atingir na sua 
arte a beleza que viu naquela taa. E ele viveu muito para 
alm do tempo normal de vida de um homem. Dizia sempre que 
isso se devia ao clice e que at cem punhais de ouro seriam 
uma soma mesquinha para pagar a dvida daquele toque.

353

O tom de voz de Inchkeith baixara, at no passar de um 
sussurro. Tambm Quentin, Toli e Durwin estavam extasiados, 
escutando com espanto a histria do armeiro. Ningum falou 
durante muito tempo. Por fim, Quentin quebrou o silncio:
- O que aconteceu ao teu av? Em que  que isso o afectou?
Inchkeith demorou a responder. Quando. por fim, abriu a boca 
para falar, fitou-os com os olhos cheios de tristeza:
- No teve um fim feliz. Tambm ele prosperou e viveu muito. 
mas obcecava-o a ideia de encontrar outro clice ou qualquer 
objecto feito com o misterioso metal. Como no conseguiu, 
tentou fazer um, mas foi sempre uma desiluso. Nem sequer o 
facto de as suas obras se terem tornado as mais apreciadas do 
reino lhe trouxe alguma satisfao. Morreu amargurado e 
alquebrado, consumido pelo desespero. Houve quem dissesse 
que, no fim, foi o desespero que o matou.
- E com o teu pai no se passou a mesma coisa?
- De certa forma. Depois de ter tido o clice nas mos, 
tambm ele nunca se satisfez com o seu trabalho. Mas  
preciso no esquecer que ele era um rapazinho. Creio que o 
seu corao ainda era inocente e desconhecia a vida e o 
mundo. Em vez de o conduzir  amargura, o clice inflamou-o 
com um ardente desejo de procurar essa beleza.  verdade que 
morreu sem a encontrar, mas no foi por causa disso que 
partiu infeliz.
- A tua histria  muito comovente - comentou Durwin.
- Agora percebo porque  que o Altssimo te escolheu para nos 
acompanhares nesta jornada. Parece que a tua famlia tem 
algum papel a desempenhar aqui. - Olhando em volta, disse:
- Bem, j descansmos e conversmos o suficiente. Vamos 
continuar a nossa busca. Em frente!
Lentamente. quase dolorosamente, voltaram a pr as suas 
cargas ao ombro, pegaram nas tochas e retomaram a lenta e 
vagarosa descida da mina.

Se os ptios exteriores estavam cheios de cidados frenticos 
e assustados, os interiores encontravam-se atulhados de 
soldados. preparando-se febrilmente para o cerco iminente. Na 
base da torre virada a sul formara-se uma fila compacta de 
soldados, que surgiam das

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masmorras com braadas de lanas e molhos de setas. Outros 
grupos mais pequenos encontravam-se debruados a trabalhar no 
cho objectos de madeira, corda e ferro: estavam a montar as 
mquinas de guerra. Outros ainda faziam feixes de palha e 
cosiam pesados bocados de tecido e de pele uns aos outros.
Os cavalos eram conduzidos para os estbulos situados em 
volta do ptio, onde os escudeiros, sentados nas pedras de 
amolar, afiavam espadas, lanas e alabardas. As provises, 
vindas da cidade em carroas, eram empilhadas nas cozinhas e 
nas despensas pelos cozinheiros e seus ajudantes. Os ces 
perseguiam bandos de gansos e galinhas, que fugiam a 
cacarejar, e as crianas, pouco inibidas pelo perigo e 
excitadas por aquela roda-viva, corriam e brincavam, 
desviando-se das pernas dos adultos e encenando batalhas a 
fingir.
Eskevar percorria as ameias como uma sombra. Parecia estar em 
todo o lado ao mesmo tempo. Os seus comandantes viam-no a 
observ-los enquanto treinavam as tropas; o guarda das 
masmorras encontrava-o a inteirar-se do nvel da gua do 
reservatrio e a mergulhar ele mesmo a vareta que servia para 
o medir: e os escudeiros aprendiam a afiar melhor as lminas 
com uma personagem que usava na mo o sinete real. Ao fim do 
dia, parecia que no havia ningum dentro daquelas paredes 
que no o tivesse visto.
- Vossa Majestade, devo protestar! - disse Biorkis, dando 
estalidos com a lngua. - Se o Durwin estivesse aqui, dir-
vos-ia ele mesmo, mas, assim, digo eu no seu lugar. Se no 
quereis ouvir-me a mim, ao menos, ouvi-o a ele: tendes de 
descansar. Ainda, s recuperaste metade das foras e a vossa 
incurso na batalha cansou-vos. Repito-vos que descanseis. 
Deixai os vossos comandantes prepararem o que  necessrio.
Eskevar fitou-o com um olhar sinistro:
- No deves fazer ideia do perigo que corremos. Se no for o 
rei, quem vigiar todos os preparativos?
Biorkis, avisado por Durwin do obstinado orgulho do seu 
paciente, no se deixou demover:
- Que bem fareis ao vosso povo se o cansao vos fizer cair de 
cama e vos no deixar nem levantar a cabea, quanto mais 
empunhar uma espada ou gritar uma ordem? Descansai agora, 
enquanto podeis.

355

O rei carregou ferozmente o cenho:
- Pois digo-te que me sinto muito bem! No tens nada a ver 
com as minhas foras. - Mas, enquanto falava, cambaleou um 
pouco.
- Como dizeis, Majestade? Todos os homens e crianas deste 
reino, que querem ver o seu rei libert-los do abrao mortal 
do inimigo, tm a ver com isso. Precisais de descansar. Reuni 
foras, para que o dia que se aproxima no vos encontre 
enfraquecido.
- Enfraquecido' V como falas com o teu rei, pelos deuses! - 
interveio Eskevar violentamente. -No seu rosto estampara-se 
uma fria tal que Biorkis achou melhor deixar as coisas como 
estavam. - H muito que fazer e algum tem de ver se fica bem 
feito - resmungou Eskevar, afastando-se novamente. E, embora 
se postasse perto dos seus aposentos  espera que 
regressasse, Biorkis no tornou a ver o rei naquele dia.

CAPTULO XLVI

Era estranho acordar na vasta escurido da mina. Quando 
Quentin abriu os olhos, ficou sem saber se os abrira mesmo.
A sensao de cegueira era to grande que o corao lhe bateu 
fortemente no peito at ele se lembrar onde estava e como 
chegara ali. S para se certificar, pestanejou vrias vezes, 
mas no notou diferena nenhuma. Por isso, e como no lhe 
apetecia andar aos encontres para acender uma tocha, deixou-
se ficar deitado no cho de pedra dura e irregular. A julgar 
pelos sons de respirao profunda e ritmada que quebravam o 
esmagador silncio daquele stio, os outros ainda estavam a 
dormir. Portanto, esperaria.
Tinham feito mais duas longas marchas at a fadiga se 
apoderar deles. Nessa altura, Durwin decidira que deviam 
dormir antes de continuarem. Haviam chegado ao primeiro nvel 
pouco depois de terem parado a primeira vez para descansar e 
comer.
O corredor baixo acabava num declive muito ngreme, que dava 
para uma diviso que tinham calculado de tamanho 
interminvel, devido aos ecos que as paredes de pedra lhes 
devolviam de cada vez que falavam. Mas no possuam luz que 
desse para verem as dimenses da diviso, pois a luz da tocha 
no conseguia ilumin-la toda.
Depois, tinham atravessado a grande diviso, passando por 
enormes colunas de pedra avermelhada, esculpidas na rocha 
existente no corao da montanha, que se erguiam do cho como 
rvores monstruosas elevando-se do solo, cujas extremidades 
superiores se perdiam na escurido de breu. Quentin contara 
vinte pilares destes at ao outro

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lado da diviso, que ento se afunilava. formando um grande 
arco, por baixo do qual tinham passado. O arco tinha as 
marcas inconfundveis dos canteiros Ariga. Quentin teria 
gostado de ficar a admir-lo. mas haviam-no passado 
rapidamente.
O corredor seguinte era mais difcil de seguir do que o 
primeiro. Era mais largo e mais alto, o que permitia uma 
maior liberdade de movimentos. mas tinha muitas aberturas e 
galerias que, muitas vezes, se abriam abruptamente, 
descrevendo ngulos apertados. Bifurcava-se em vrios stios, 
dividindo-se em dois corredores, um  esquerda e outro  
direita- Por vezes, passavam por uma abertura na qual Quentin 
s reparava quando sentia uma brisa gelada no rosto e o 
cheiro hmido e bafiento da pedra e do ar estagnado. De uma 
vez, tinham atravessado uma ponte de pedra, que descrevia um 
arco de um lado ao outro de uma fenda muito larga, que 
dividia o cho com um corte abrupto. -Na ponte, Quentin 
sentira uma corrente de ar quente e supusera que a fenda era 
o tubo de escape de alguma fogueira eternamente em chamas.
De cada vez que o corredor se bifurcava, Durwin escolhia 
sempre seguir pelo caminho que descia. Embora reconhecendo 
que no sabia exactamente o que procuravam, acreditava que o 
valioso minrio se encontrava nas profundezas da mina.
Tinham descansado numa curiosa diviso abobadada, do outro 
lado da ponte de pedra. Ao princpio, haviam cavaqueado uns 
com os outros, mas, fosse pela fadiga, fosse pela penosa 
opresso da profunda escurido, a conversa parecera secar 
como um fio de gua no deserto, desaparecendo lentamente sem 
deixar vestgios de ter sequer existido.
Apesar de cansados e doridos devido ao peso da carga que 
transportavam, tinham decidido continuar em frente. Mal 
haviam deixado a diviso abobadada, o caminho comeara a 
inclinar-se cada vez mais. Como a descida ia sendo mais 
acentuada, o peso que transportavam aos ombros impelira-os 
para baixo a um passo mais rpido do que, de outro modo, 
teriam tido foras ou vontade para andar. O resultado disto 
fora que haviam chegado ao segundo nvel num abrir e fechar 
de olhos.
Quentin sabia que tinham estado a andar havia vrias horas 
quando entraram na enorme caverna que constitua a diviso 
central do segundo nvel, mas o tempo deixara de passar da 
maneira normal. As horas

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passavam e os minutos prolongavam-se incrivelmente, at 
parecer que o tempo s tinha significado se fosse medido em 
passos ou segundo os tneis pelos quais iam passando.
Estavam eles a andar em silncio, cada um envolto nos seus 
prprios pensamentos como numa capa que os tapasse da cabea 
aos ps, quando Quentin sentira qualquer coisa no cotovelo, 
fazendo-o assustar-se tanto que quase deixara cair a tocha.
- Toli! Que susto! No te tinha ouvido chegares-te a mim.
- Desculpa, Kenta. No queria alarmar-te - dissera, olhando 
para Quentin com os seus olhos grandes e brilhantes, 
profundos como lagos insondveis. Por um instante, Quentin 
recordara a altura (parecia que havia muito tempo) em que 
encontrara na floresta um jovem jher, envergando peles de 
veado e fitando-o com os olhos doces e assustadios de uma 
criatura selvagem.
O olhar de Toli naquele momento era exactamente o mesmo. Com 
um sbito arrepio, Quentin imaginara que Toli regressara 
novamente ao seu antigo estado mais primitivo. Fitar aqueles 
grandes olhos escuros que cintilavam  luz bruxuleante da 
tocha era como fitar os olhos de um animal selvagem e 
assustado.
- O que , Toli? Aconteceu alguma coisa? - Quentin falara num 
sussurro.
Toli olhara em volta de uma maneira esquisita, com os olhos 
muito abertos. Quando voltara a falar, fizera-o em voz 
trmula, num tom estranho que Quentin nunca ouvira o amigo 
usar. Toli parecia pairar no ar, pronto a voar; Quentin 
receara que ele se lanasse, de repente, para a escurido e 
que nunca mais o vissem.
- O meu povo no gosta de lugares escuros - dissera Toli. 
Nunca vivemos em cavernas. Dantes, quando os homens viviam em 
buracos e cavernas, o meu povo vivia na floresta e construa 
as casas com muita luz.
A julgar pela maneira como falava, parecia que Toli estava a 
fazer uma confisso muito pessoal. Quentin no sabia o que 
havia de pensar.
- Entre ns, ainda h quem fale do tempo em que os homens 
viviam nas cavernas - continuara Toli. - Alguns at estiveram 
dentro de cavernas que encontraram na floresta, mas eu no.
De repente, Quentin percebera o que Toli estava a tentar 
dizer-lhe.

360

E compreendera que o jher precisara de muita fora para o 
seguir at quele lugar escuro. Para Toli. no se tratava de 
uma mina; era um tabu ancestral que ele, por amor ao seu amo, 
pusera de lado. Mas a escurido e os infindveis caminhos de 
pedra, que cada vez mais os levavam para as entranhas da 
terra, tinham acabado por quebrar o verniz de civilizao que 
adquirira ao viver com o seu Kenta. Toli voltara a ser o 
prncipe jher. selvagem como as criaturas livres das Terras 
Selvagens.
- isto acaba depressa. Toli. No tenhas medo. Daqui a pouco. 
voltars a ver a terra viva. - Naquele momento, Quentin 
sentira o vazio das suas palavras. mas essa sensao fora 
ainda mais funda quando Toli virara para ele um olhar vtreo. 
de incompreenso, e parecera no o reconhecer. Quentin tivera 
a sensao de estar a olhar para um estranho com um rosto to 
familiar como o seu. O Toli que conhecia desaparecera.
- DeInur Ivi, Toli - murmurara Quentin, enquanto ia avanando 
penosamente. Repetindo as palavras uma e outra vez  luz da 
tocha, vasculhara a memria em busca de alguma frase jher que 
pudesse ser-lhe til, e encontrara aquela: De1nurIv. 
Aguenta-te... aguenta-te.

Sempre na escurido, Quentin virou-se para o outro lado e 
ficou espantado ao ver uma luz fraca que, do vazio sem forma, 
ressaltava na sua direco. Parecia flutuar ou nadar e 
piscava como um animal das cavernas, que tropeara no seu 
caminho e que agora os espreitava. A luz era cada vez mais 
intensa.
Quentin sentou-se, pensando se havia de acordar os outros 
para os avisar. Ento, ouviu os passos arrastados de algum 
que caminhava pelo corredor, em direco  diviso onde se 
tinham aconchegado para dormir. Mas, mal pensou que podia 
haver perigo, deixou de ter essa sensao e ficou  espera. 
Por fim, a luz irrompeu pela entrada abobadada, enchendo a 
diviso (pelo menos, foi o que pareceu aos olhos privados de 
luz de Quentin) de um brilho semelhante ao do Sol.
- Pois ! Ests acordado, Quentin? Anda comigo, quero 
mostrar-te uma coisa.
- Mas os outros...
- Deixa-os dormir. No  longe. Anda.
Quentin ps-se em p muito direito e percebeu imediatamente

361

como tinha os ps doridos. Mas l foi caminhando atrs de 
Durwin, que levantou a tocha bem alto, para ambos poderem ver 
o caminho. Enfiando pelo tnel principal por onde tinham 
seguido na sua ltima caminhada. chegaram a uma pequena 
entrada abobadada aberta de um dos lados do corredor. 
Chegados a, Durwin parou e disse:
- -Andei muito tempo por esta galeria, para trs e para a 
frente. S vi isto quando, h bocadinho, voltei para ir 
dormir. E decidi experiment-la. Segue-me.
Espicaado pela curiosidade, Quentin inclinou-se para passar 
pela entrada. E encontraram-se imediatamente dentro dos 
limites desconfortavelmente apertados de um tnel baixo e 
estreito, que parecia o buraco de uma minhoca. e que 
serpenteava e curvava num espao que mal tinha a altura de um 
homem.
O tnel, muito ngreme, inclinava-se rapidamente para baixo, 
de um modo que Quentin at achava pouco seguro; parecia-lhe 
que, de repente, a galeria passaria  posio vertical, 
fazendo-o cair num poo sem fundo. Mas, aparentemente, Durwin 
no tinha medo e avanava o mais depressa que as suas pernas 
o levavam. Por isso, Quentin guardou os seus receios para si 
prprio e seguiu-o obedientemente.
Chegaram a um stio estreito: o fim do tnel. Mas Quentin viu 
Durwin virar-se de lado e desaparecer por uma fenda muito 
apertada. Endireitando os ombros e sustendo a respirao, 
tambm ele passou pela estreita abertura. Logo que apareceu 
do outro lado, sentiu Durwin agarrando-o pelos ombros. 
Depois, o eremita baixou a tocha para ele poder ver que 
estava de p numa plataforma muito estreita.
Durwin sorriu-lhe  luz da tocha, com um brilho de feroz 
alegria no rosto.
- O que , Durwin? - perguntou Quentin, sentindo um arrepio 
percorrer-lhe a espinha. Ao ouvir a sua voz afastando-se, 
percebeu que devia ter  frente um abismo imenso.
- O que ? O que ? - riu o eremita. - Eu mostro-te. - A voz 
de Durwin parecia oca e metlica ao vibrar no espao escuro 
que tinham  frente. Quentin encostou-se mais  parede 
rochosa.
O eremita pegou na tocha e arremessou-a com fora para o 
outro lado da escurido.
- No! Espera! - gritou Quentin. O eco do seu grito veio 
devolvido

362

de uma grande distncia. A tocha girava e rodava enquanto ia 
caindo, mergulhando atravs de superfcies lisas que 
reflectiam o claro da sua luz. Por fim, extinguiu-se com uma 
pancada que produziu um som semelhante ao do gelo fendendo-se 
num lago cujas guas acabaram de solidificar.
- V - ordenou Durwin, sustendo a respirao.
Quentin no via nada e estava preocupado com a tocha. Como 
iam eles encontrar o caminho de regresso? Mas ento aconteceu 
uma coisa estranha e maravilhosa.
De repente, pareceu-lhe que estava a ver as estrelas do cu 
despontando uma a uma na escurido que os rodeava. Ao 
princpio, as estrelas no passavam de lasquinhas de luz que, 
depois, comearam a crescer.
- O que ... ? - comeou Quentin. Mas no acabou o que ia 
dizer.
Acima dele, o tecto abobadado da enorme cmara comeara a 
reluzir com uma doce luminosidade cor de mbar, tingida de 
cor-de-rosa, como um nascer do Sol no Inverno. Os cintilantes 
riscos verdes que se viam do outro lado pareciam luz lquida 
a escorrer pelas paredes. L em baixo, no fundo da caverna, 
brilhava uma luz fantasmagrica aqui e ali, em manchas 
irregulares, dispostas em camadas azuis e douradas. Embora o 
tempo parecesse passar com a lentido do nascer do dia, dali 
a momentos a vasta cmara irradiava luz de todos os lados, e 
Quentin sentiu-se arrebatado por uma alegria incrdula.
- Durwin - sussurrou.
-  verdade, Quentin. Encontrmos o lanthanil.

CAPTULO XLVII

As sentinelas viram-nos chegar  luz cruel da Estrela do 
Lobo. Embora fosse a sexta hora da noite, o brilho frio da 
horrvel estrela iluminava a plancie com uma luz to viva 
como a do dia.
A estrela crescera at encher toda a parte oriental do cu, 
ofuscando todas as luzes mais pequenas. E,  luz da sua 
estrela selvagem, os Ningaal chegaram a Askelon.
Um mensageiro foi chamar o rei, que ordenara que o 
informassem mal o inimigo aparecesse, fosse qual fosse a hora 
a que isso se desse. O soldado ainda mal deixara as ameias 
quando regressou com Eskevar, sombrio e majestoso, envergando 
a sua capa forrada de preto, com o broche e a corrente do 
drago dourado cintilando  luz que caa a jorros. Ao 
esvoaar atrs de si, a capa com capuz que vestia fazia 
contorcer-se a figura prateada do drago que tinha bordado 
nas costas. O rei calava botas altas, vermelhas, e trazia a 
espada  cintura; os que o viram perceberam logo que, nessa 
noite, em vez de dormir, estivera  espera e a postos para 
enfrentar o inimigo.
Ainda estavam afastados quando Eskevar desafiou a noite pouco 
natural com um olhar colrico.
- Vinde para Askelon, horda de brbaros! - vociferou Eskevar. 
Vinde ao encontro da vossa morte!
Os nobres que se tinham reunido  sua volta trocaram olhares 
preocupados, pois o rosto febril de Eskevar ardia como o 
focinho de um lobo feroz. O rei inclinou a cabea para eles e 
disse:
- Rudd, olha. Tu tambm, Dilg. E tu, Fincher. O drago dorme

364

enquanto o inimigo se aproxima. Est debaixo da colina, 
dormindo no seu salo de pedra, mas no ser por muito tempo, 
pois acordar e defender o seu lar. Nunca a mo do invasor 
tocou nestas paredes, nem nunca tocar. O drago impedi-lo-. 
Sim, o drago!
Com medo de interromperem os devaneios do rei, os senhores 
assentiram em silncio. Eskevar agarrou-se  ameia de pedra 
como se levantasse as muralhas de mos nuas.
- Mede como eles chegam - prosseguiu lentamente, com toda a 
clareza. - Sinto os seus odiosos ps sobre a terra. Sinto o 
mal que trazem profundamente dentro de mim. Mas o corao do 
drago est comigo e  de ferro. No tenho medo.
A estas palavras do Rei Drago, os senhores contraram-se. -
Nem os que o tinham servido nas guerras contra o Goliah o 
haviam visto assim. Os olhos saltavam-lhe das rbitas e tinha 
os msculos da boca muito tensos;  luz da estrela, a sua 
testa alta e nobre mostrava-se lisa e firme.
-  um prodgio, no , senhores? Olhai bem. Olhai bem. Vede 
com que vontade se lanam na chacina. Vede a marcha maldita 
para a sua destruio. Mas no tenhais piedade deles, 
senhores. Merecem o que vo ter. Sero todos liquidados.
- Est uma noite fria, Majestade - disse Rucid. Falou com 
hesitao, pois havia vrios soldados reunidos  sua volta, 
murmurando sobre o comportamento do rei. Se se andasse por a 
a dizer que o rei perdera a razo, seria natural que os 
soldados no combatessem como deviam quando chegasse a altura 
de o fazerem. - Talvez seja melhor esperarmos todos l 
dentro. Alm disso, gostaria de falar convosco sobre as 
nossas defesas.
Eskevar virou-se para eles, como se fosse a primeira vez que 
os via.
- H? O que dizes? - Passou a mo insegura pela testa perlada 
de gotas de suor. Rudd pegou-lhe no cotovelo e sentiu o rei a 
ser percorrido por um arrepio, que o fez estremecer.
- Sim, vinde connosco dizer-nos quais so as vossas ordens - 
insistiu Dilg, pegando no outro brao do rei.
Com Eskevar no meio, afastaram-se das ameias. Os outros 
senhores seguiram-nos depois de dispersarem a multido que 
ali se juntara. dizendo:
- Ide para os vossos postos. Vamos reunir em conselho com o 
rei.

365

- E apressaram-se a ir atrs de Eskevar e da sua escolta, de 
modo a no levantarem suspeitas entre os que os viam passar.
Quando chegaram ao torreo virado a oeste, encontraram a 
rainha Alinea, que saiu ao seu encontro da densa sombra do 
umbral da porta.
- Minha rainha... - comeou Rudd, mas ela percebeu 
imediatamente os olhares acanhados dos nobres.
- Eskevar, andava  tua procura. No vs falar j com os teus 
comandantes. Deixa-os ir para junto dos seus homens. Ou, se 
quiseres, permite-lhes que se renam na cmara do Conselho. 
Quero falar contigo, meu marido. Sinto-me to s!
- Concordo, Majestade. Conversaremos em breve. Mandai-nos 
para junto dos nossos homens, para que as nossas palavras 
lhes incutam coragem.
Eskevar nem ouvia o que estava a ser dito. S olhava para a 
sua esposa. que lhe deu o brao e o conduziu para dentro da 
torre.
- Sim, ide para junto dos vossos homens. Dizei-lhes que temos 
de estar a postos. Temos de estar a postos. - O rei afastou-
se, com o rosto branco  luz crua da estrela. Por um lado 
satisfeitos por terem sido aliviados da responsabilidade de 
olharem pelo rei, mas, por outro, profundamente preocupados 
com o seu estado invulgar, os senhores de .Mensandor 
apressaram-se a regressar aos seus postos para garantirem aos 
homens que o rei estava de boa sade e que se poria  sua 
cabea na altura prpria.
Mas, no seu ntimo, no tinham assim tanta certeza.

Encontravam-se no cho de uma abbada imensa, situada no 
corao das montanhas. Com os olhos muito abertos, como uma 
criana, Quentin pestanejava, sem acreditar no que via. No 
tinha palavras que descrevessem os pensamentos que a 
magnificncia daquela cmara lhe suscitavam. Tambm Toli 
estava ao seu lado mudo de espanto com o esplendor daquele 
tesouro subterrneo.
inchkeith, gritando de alegria e cabriolando como um rapaz, 
apressara-se a descer a plataforma comprida e sinuosa por 
onde tinham entrado para a abbada. Alis, continuava a 
correr de um lado para o outro. examinando este e aquele tipo 
de depsito do minrio. Durwin, pelo contrrio, parecia quase 
tranquilo e ponderado, mas Quentin sabia

366

que ele estava to excitado como os outros. O seu jbilo 
assumia a forma da palavra: Durwin ainda no parara de falar 
desde que tinham entrado na abbada pela segunda vez, levando 
Toli e Inchkeith.
Virando-se para o eremita, que palrava sobre os vrios 
instrumentos que os Ariga usavam para explorar o lantbanil, 
Quentin perguntou:
- O que  que disseste de uma espcie de avalancha na entrada 
principal?
- O qu? Ah, sim. Encontrei a entrada principal desta cmara, 
deste castelo, sem dificuldade nenhuma. O nosso caminho vinha 
c ter direitinho. Mas estava bloqueada por um monte de 
pedras. - Virando-se, procurou a entrada, descobriu-a e 
apontou para uma parede do outro lado. - Ests a ver aquelas 
rochas soltas? A entrada fica ali.
Quentin viu um amontoado de pedras e pedregulhos, alguns do 
tamanho de casas, que dava a ideia de que o tnel se 
desmoronara.
- O que aconteceu ali? - perguntou.
- Claro que no sei ao certo, mas desconfio que foram os 
prprios Ariga que bloquearam a entrada. Eles eram mineiros 
demasiadamente experientes para deixarem que uma catstrofe 
destas acontecesse acidentalmente. Creio que o fizeram de 
propsito. Deve ter havido uma altura em que decidiram fechar 
esta parte da mina.
- Esta parte? Mas se  aqui que est o lantbanil...
- Pois ! Podes ter a certeza de que tiveram uma boa razo 
para o fazer. No sei qual foi ela, assim como no sei porque 
 que os Ariga desapareceram nem para onde foram. Mas a 
verdade  que a deixaram... para ns a descobrirmos.
- Mas teramos levado anos a limpar aquela confuso da 
entrada... O que te fez pensar que existia outro caminho c 
para dentro?
- No me parece que eles tivessem decidido impedir a entrada 
a toda a gente... s aos curiosos, aos caadores de fortunas 
e aos profanadores.
- Se fosse eu, nunca teria pensado naquele buraco da parede. 
Por mim, parecia-me a queda para uma morte certa. Como te 
lembraste dele?
Durwin sorriu e encolheu os ombros:
- No sei. Mas se acreditares que estava escrito que iramos 
encontrar a mina, ento encontr-la-amos de qualquer 
maneira. Se o altssimo assim o quisesse, as montanhas ter-
se-iam aberto  nossa frente!

367

Toli, que andava a raspar nos montes de pedra que se erguiam 
do cho, deslizou de volta ao lugar onde Quentin e Durwin se 
achavam a conversar:
- Vinde comigo - disse, puxando-os. - Encontrei uma coisa! 
Afastou-se a correr, com Quentin e Durwin na sua peugada. 
Quando deram a volta ao monte de pedra, Toli apontou para um 
local que brilhava  luz viva da caverna.
- O que ? - indagou Quentin, debruando-se para ver melhor.
- Creio que  uma bigorna - respondeu Toli.
- Uma bigorna como nunca vi outra igual.
- Porque  de ouro! E olhai para isto. - O jher baixou-se e 
comeou a apanhar objectos do cho, onde estavam alinhados 
como se esperassem que o mestre regressasse para retomar o 
seu trabalho.
- Deixa ver. - Inchkeith deu um passo em frente e tirou a 
Toli dois objectos esquisitos, que virou e revirou nas mos e 
aos quais tomou o peso.
- O que so? Ferramentas?
- Exactamente - replicou Inchkeith, com o rosto a brilhar de 
entusiasmo. - Mas so as ferramentas de um grande mestre 
arteso! E tambm so de ouro. Imaginai algum a dar to 
pouca importncia ao ouro que at fazia ferramentas dele! So 
muito antigas e de linhas pouco habituais, mas percebe-se bem 
para que servem. E olhai... um martelo.
- Isso, pelo menos, sei o que . Mas deve ser muito pesado e 
pouco duro. - Quentin tirou o martelo a Inchkeith e sopesou-
o. O martelo de ouro no era to pesado como supunha; de 
facto, s pesava ligeiramente mais do que um martelo de 
ferro.
- 0 lantbanil pode ser trabalhado com qualquer tipo de 
ferramentas, porque  maravilhosamente malevel - explicou o 
armeiro. Mas o ouro no diminui o seu poder. O ouro  a nica 
substncia que no propaga o poder do metal. E sem dvida que 
os Ariga usaram uma liga secreta para fortalecer o ouro do 
martelo e da bigorna.
"Portanto, foi um disparate ter trazido aquilo. - Inchkeith 
indicou a bagagem que se encontrava amontoada no cho, a uns 
passos de distncia. - Entre estes objectos que esto aqui - 
continuou, chocalhando as ferramentas que tinha na mo - e 
aquela forja, temos tudo o que precisamos.

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que ele estava to excitado como os outros. O seu jbilo 
assumia a forma da palavra: Durwin ainda no parara de falar 
desde que tinham entrado na abbada pela segunda vez, levando 
Toli e Inchkeith.
Virando-se para o eremita, que palrava sobre os vrios 
instrumentos que os Ariga usavam para explorar o lanffianil, 
Quentin perguntou:
- O que  que disseste de uma espcie de avalancha na entrada 
principal?
- O qu? Ah, sim. Encontrei a entrada principal desta cmara, 
deste castelo, sem dificuldade nenhuma. O nosso caminho vinha 
c ter direitinho. Mas estava bloqueada por um monte de 
pedras. - Virando-se, procurou a entrada, descobriu-a e 
apontou para uma parede do outro lado. - Ests a ver aquelas 
rochas soltas? A entrada fica ali.
Quentin viu um amontoado de pedras e pedregulhos, alguns do 
tamanho de casas, que dava a ideia de que o tnel se 
desmoronara.
- O que aconteceu ali? - perguntou.
- Claro que no sei ao certo, mas desconfio que foram os 
prprios Ariga que bloquearam a entrada. Eles eram mineiros 
demasiadamente experientes para deixarem que uma catstrofe 
destas acontecesse acidentalmente. Creio que o fizeram de 
propsito. Deve ter havido urna altura em que decidiram 
fechar esta parte da mina.
- Esta parte? Mas se  aqui que est o lantbanil...
- Pois ! Podes ter a certeza de que tiveram uma boa razo 
para o fazer. No sei qual foi ela, assim como no sei porque 
 que os Ariga desapareceram nem para onde foram. Mas a 
verdade  que a deixaram... para ns a descobrirmos.
- Mas teramos levado anos a limpar aquela confuso da 
entrada... O que te fez pensar que existia outro caminho c 
para dentro?
- No me parece que eles tivessem decidido impedir a entrada 
a toda a gente... s aos curiosos, aos caadores de fortunas 
e aos profanadores.
- Se fosse eu, nunca teria pensado naquele buraco da parede. 
Por mim, parecia-me a queda para uma morte certa. Como te 
lembraste dele?
Durwin. sorriu e encolheu os ombros:
- No sei. Mas se acreditares que estava escrito que iramos 
encontrar a mina, ento encontr-la-amos de qualquer 
maneira. Se o Altssimo assim o quisesse, as montanhas ter-
se-iam aberto  nossa frente!

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Toli, que andava a raspar nos montes de pedra que se erguiam 
do cho, deslizou de volta ao lugar onde Quentin e Durwin se 
achavam a conversar:
- Vinde comigo - disse, puxando-os. - Encontrei uma coisa! 
Afastou-se a correr, com Quentin e Durwin na sua peugada. 
Quando deram a volta ao monte de pedra, Toli apontou para um 
local que brilhava  luz viva da caverna.
- O que ? - indagou Quentin, debruando-se para ver melhor.
- Creio que  uma bigorna - respondeu Toli.
- Uma bigorna como nunca vi outra igual.
- Porque  de ouro! E olhai para isto. - O jher baixou-se e 
comeou a apanhar objectos do cho, onde estavam alinhados 
como se esperassem que o mestre regressasse para retomar o 
seu trabalho.
- Deixa ver. - Inchkeith deu um passo em frente e tirou a 
Toli dois objectos esquisitos, que virou e revirou nas mos e 
aos quais tornou o peso.
- O que so? Ferramentas?
- Exactamente - replicou Inchkeith, com o rosto a brilhar de 
entusiasmo. - Mas so as ferramentas de um grande mestre 
arteso! E tambm so de ouro. Imaginai algum a dar to 
pouca importncia ao ouro que at fazia ferramentas dele! So 
muito antigas e de linhas pouco habituais, mas percebe-se bem 
para que servem. E olhai... um martelo.
- Isso, pelo menos, sei o que . Mas deve ser muito pesado e 
pouco duro. - Quentin tirou o martelo a Inchkeith e sopesou-
o. O martelo de ouro no era to pesado como supunha; de 
facto, s pesava ligeiramente mais do que um martelo de 
ferro.
- 0 lanthanil pode ser trabalhado com qualquer tipo de 
ferramentas, porque  maravilhosamente malevel - explicou o 
armeiro. Mas o ouro no diminui o seu poder. O ouro  a nica 
substncia que no propaga o poder do metal. E sem dvida que 
os Ariga usaram uma liga secreta para fortalecer o ouro do 
martelo e da bigorna.
"Portanto, foi um disparate ter trazido aquilo. - Inchketh 
indicou a bagagem que se encontrava amontoada no cho, a uns 
passos de distncia. - Entre estes objectos que esto aqui - 
continuou, chocalhando as ferramentas que tinha na mo - e 
aquela forja, temos tudo o que precisamos.

368

- Forja? - Quentin olhou em volta. - No estou a ver forja 
nenhuma.
- Ali, na parede. Bem, no tem nada a ver com as nossas 
forjas; parece mas  um santurio. -Mas eu sei para que 
serve. Podes acreditar que  uma forja.
Quentin sentia-se pequeno e insignificante naquela cmara 
grandiosa. Mais uma vez, voltou os olhos para a enorme cpula 
de luz cor de mbar e verde, para as paredes raiadas de veios 
azuis e violeta e para o solo inundado de vermelho-dourado e 
cor-de-rosa. Tinha a sensao de ser um ladro que penetrara 
na cmara de um tesouro real, que a qualquer momento seria 
apanhado e expulso.
- Ento, pronto. j temos as ferramentas e a bigorna. A forja 
est aqui perto. Portanto, s nos falta o minrio para 
podermos comear disse Durwin.
Estas palavras arrancaram Quentin do seu devaneio. Estava to 
extasiado com a beleza da abbada dos Ariga que at se 
esquecera da razo que os levara ali:
- Comear?
- Sim. - Durwin soltou uma gargalhada. - Temos uma espada 
para fazer!

CAPITULO XLVIII

- No, estas no servem - disse Durwin, devolvendo duas 
brilhantes pedras verdes a Toli, cujos olhos cintilaram ao 
fit-las. - N-em servem as verdes, nem as cor de mbar, nem 
as azuis, nem vermelhas e nem mesmo as douradas. Talvez dem 
para fazer clices e outros objectos que tais, mas no para 
forjar a Zhaligkeer. A Brilhante tem de ser feita com 
lanffianil branco, que  o mais raro e o que tem maior poder.
Quentin olhou em volta:
Estava c a pensar porque  que h tantas pedras preciosas 
espalhadas por aqui. Afinal,  porque era s brancas que os 
Ariga davam mais valor.
Pois ! Se queremos fazer a espada, teremos de procurar 
muito, pois ainda no vi um nico afloramento branco desde 
que aqui entrmos - declarou Durwin.
Eu tambm no.
Seguindo a sugesto de Inchkeith, espalharam-se todos, indo 
cada um para um stio diferente procurar um veio de minrio 
branco entre o arco-ris formado pelo lanffianil colorido. 
1nchkeith ia-os instruindo sobre o que haviam de procurar e 
como; por isso, ao cabo de vrias horas, os mtodos usados 
pelos mineiros j no tinham segredos para eles. Mas, ao fim 
de um dia inteiro de pesquisas, ainda no tinham encontrado 
nem um gro do raro minrio branco.
As buscas do dia seguinte s fizeram com que os mineiros 
ficassem com os dedos e os joelhos todos doridos. E passou-se 
o mesmo no dia a seguir. Quentin chamava dias a estes 
perodos de actividade, visto

370

que cada um deles era limitado por intervalos de descanso, 
mas claro que no fazia a mnima ideia da sua durao. Ao fim 
dos trs dias, estavam eles sentados em redor da pequena 
fogueira que Toli fizera num crculo de pedras, quando 
Inchkeith, frustrado e cheio de sono. resmungou para si 
prprio... um hbito que ultimamente adquirira.
- O qu? - perguntou Durwin.
- Nada - grunhiu inchkeith, voltando a levar o pcaro  boca.
- Disseste qualquer coisa sobre a gua. Diz l outra vez - 
insistiu Durwin.
- Disse que esta gua tem o sabor bafiento das pedras' - 
Inchkeith lanou ao eremita um olhar colrico e exasperado.
- Talvez tenhas razo - volveu Durwin, provando um pouco da 
sua gua. - Parece pedra.
- O que h de estranho nisso? - inquiriu Quentin, achando que 
todos eles comeavam a mostrar sinais de tenso e exausto.
- H dois dias que bebemos desta gua.
- Desde que se acabou a gua dos odres que trouxemos - 
acrescentou Toli.
- Onde os encheste, Toli? - indagou Durwin ansiosamente, 
inclinando-se para a frente  luz da fogueira.
- Mas... ali naquela poa. Mesmo abaixo do stio por onde 
entrmos. Mas  boa. Provei-a antes e no me fez mal nenhum. 
Se est bafienia  porque h muito que se encontra nesta 
caverna, longe do sol e do ar.
- Ento o poo no  alimentado por nenhuma nascente?
- Parece-me que no. Se fosse, a gua devia ser mais fresca. 
Toli devolveu a Durwin um olhar cheio de intensidade.
- Porqu este sbito interesse na nossa gua? Como o Toli 
disse, h dois dias que a bebemos e no nos fez mal nenhum. - 
Quentin encolheu os ombros e, como prova de confiana em 
Toli, esvaziou o seu pcaro.
Durwn ps-se abruptamente em p:
- Leva-me at ao poo. - Ningum se mexeu. -j!
Toli levantou-se e afastou-se com ele. Confundidos, Inchkeith 
e Quentin olharam espantados um para o outro.
- j agora, em vez de ficarmos aqui, podemos ir atrs deles. 
Fico

371

sempre admirado com as ideias que aquele eremita mete na 
cabea. De qualquer modo. ningum dormira at ele se dar por 
satisfeito.
Portanto, Quentin e o armeiro seguiram as figuras que se 
afastavam a mdia-luz da grande abbada. Quando chegaram 
junto deles, encontraram Durwin e Toli de mos e joelhos no 
cho, espreitando para as profundezas de bano de um poo, 
cuja superfcie parecia dura e polida como vidro preto.
- No, no vejo nada - suspirou Durwin. - Mas acho que temos 
de tentar.
- Tentar o qu5 - perguntou Quentin.
- No tenho a certeza - comeou Durwin. - Mas... - Hesitou.
- Desembucha, maldito eremita! Do que  que desconfias?
- S disto... e  muito falvel: seria muito ao estilo dos 
Ariga esconderem melhor o seu tesouro, mas sem eliminarem 
completamente a hiptese de este poder ser encontrado.
- Pensas que est no poo? - Quentin ajoelhou-se e espreitou 
incredulamente para a gua.
- Talvez - retorquiu Durwin. - Mas eu no disse que estava de 
certeza absoluta.
- Bah! - exclamou Inchkeith. - Isto  gua de infiltrao e 
mais nada. No h nada ali dentro.
- Oh, no tenhas assim tanta certeza' Viste alguma 
infiltrao ou alguma gua a correr desde que entrmos na 
mina?
- Claro que vi um bocadinho.
- Muito pouco, senhor. Os mineiros Ariga conheciam muito 
melhor a sua arte do que qualquer mineiro vivo. Numa mina, a 
gua representa um perigo constante. Mas, como tu prprio 
viste, no  perigo que ameace esta mina; os Ariga sabiam de 
vrias e engenhosas maneiras de se livrarem dele. Por isso, 
sinto-me tentado a acreditar que este poo est aqui com um 
objectivo bem definido.
- Com ou sem objectivo, como queres que cheguemos l abaixo?
indagou Inchkeith, perscrutando aquelas insondveis 
profundezas.
Durwin abanou a cabea e levantou-se:
- Isso no sei. Primeiro. vou dormir. Talvez sonhe com alguma 
ideia.
Ento, regressaram ao lugar onde ainda ardia a fogueira de 
Toli e

372

todos fingiram tentar dormir. Mas foi uma tentativa falhada, 
porque cada um deles s pensava no quebra-cabeas do poo e 
na maneira de lhe tirar a gua. Por isso, mexiam-se e 
remexiam-se debaixo das capas, cismando no poo e no 
lanthanl branco que podia encontrar-se enterrado nas suas 
negras profundezas. Por fim, Quentin soergueu-se e disse:
- No vale a pena. No consigo dormir e, a no ser que no 
esteja a ouvir bem, mais ningum est a dormir. Portanto, o 
melhor  falarmos uns com os outros.
- Tens razo - resmungou Inchkeith. - -No teremos descanso 
enquanto no descobrirmos como  que havemos de tirar minrio 
de um charco.
- Pois  - concordou Durwin, levantando-se. - Algum se 
lettibrou de alguma coisa?
Os seus olhares vazios encontraram-se por cima da fogueira. 
Era bvio que ningum fazia ideia de como haviam de 
prosseguir a operao mineira.
Toli levantou-se lentamente:
- S h uma soluo. Tenho de ir eu l abaixo.
O silncio seguiu-se a esta declarao. Nem na batalha 
Quentin alguma vez vira uma tal mscara de medo e repulsa 
estampada no rosto do amigo.
- No  preciso, Toli. Havemos de arranjar outra maneira 
qualquer.
- Que maneira? - cismou Inchkeith.
- Podemos esvazi-lo ou... - Quentin no se lembrava de mais 
nada.
- Ests a ver? - Toli falou com suavidade. Parecia um homem 
que via caminhar ao encontro da sua prpria morte.
- Mas... - comeou Quentin a protestar.
Mas Durwin interrompeu-o:
- No, julgo que o Toli tem razo.  a nica maneira. E no 
vejo razo para falarmos mais deste assunto. j que ningum 
est com vontade de dormir, vamos pr imediatamente mos a 
obra.
- No! - objectou Quentin. - Mesmo, que o Durwin pense que  
a nica maneira, nem quero ouvir falar nisso. Se algum tem 
de ir, ento vou eu. Afinal de contas, parece que a espada  
para mim.

373

- Pensa bem no que ests a dizer. - Durwin fitou Quentin com 
um olhar severo, fazendo-o sentir-se uma criana pequena.
- Achas que ests em condies de nadar e de pegar numa 
picareta debaixo de gua? Com o brao assim, o que te parece 
que podes fazer? De ns todos, quem vs melhor do que o Toli 
para o fazer? continuou Durwin. - 0 Inchkeith? Eu? No. O 
Toli tem razo. S pode ser ele. De todos ns,  o que tem 
mais hiptese de conseguir.
- Ento, irei com ele - volveu Quentin acaloradamente.
Dum-in encolheu os ombros:
- Talvez possas dar alguma ajuda. Est bem. Vamos comear.
Dali a pouco, estavam prontos. Toli e Quentin despiram-se e, 
s com os cintures de couro, aos quais haviam sido atadas 
cordas compridas. ferramentas e, por inspirao de Inchkeith, 
pequenos fragmentos de lanthanil brilhante, para que os que 
ficavam pudessem v-los a descer e a trabalhar nas 
profundezas negras como breu, puseram-se de p na beirinha, 
olhando para dentro do poo to sombriamente como se o 
prprio Heoth estivesse l em baixo  sua espera, para os 
envolver nos seus braos gelados. Durwin e 1nchkeith tinham 
as pontas das cordas na mo.
- No vos esqueais de que basta puxardes a corda para ns 
vos iarmos imediatamente. No tenteis nadar: poupai as 
foras e os pulmes. Assim, podereis trabalhar mais tempo. O 
peso das ferramentas que levais deve fazer-vos ir rapidamente 
ao fundo. Poupai as foras.
Toli no disse nada. As suas feies endurecidas estavam 
frias e ilegveis como as pedras da muralha de um castelo. 
Fosse o que fosse que intimamente sentisse, empurrara-o para 
algum canto remoto do seu ser.
_ Ests a ter muita coragem, meu bom amigo. - Quentin pousou 
a mo no ombro de Toli e sentiu como os msculos do Jher 
estavam tensos. - No te preocupes. Estarei sempre ao teu 
lado.
Sem levantar os olhos do poo, Toli fez um ligeiro aceno com 
a cabea. Depois, deu um passo em frente, mergulhou e 
desapareceu de vista, quase sem provocar ondas  superficie. 
Quentin inspirou profundamente e seguiu-o, cingindo o brao 
ferido ao peito, para que este no flutuasse de lado.
O choque da gua gelada na sua pele nua quase fez com que

374

Quentin arquejasse imediatamente. Foi como se as pontas de 
dez mil punhais se lhe cravassem, na carne. Engoliu ar para o 
estmago e saiu-lhe do nariz uma quantidade de borbulhas. 
Dali a pouco. o assalto da gua gelada paralisou-o 
completamente.
Enquanto ia deslizando por aquele vazio preto. silencioso e 
quase imaginrio, abriu os olhos e, voltando o rosto para 
cima, viu a dbil luminosidade da caverna desvanecendo-se e 
esbatendo-se a medida que se afundava cada vez mais.
Quentin sentia a presena de Toli muito perto de si, mas mal 
conseguia ver o amigo. Um pouco abaixo da superficie da gua. 
chegaram a uma plataforma e, quase andando, foram apalpando 
esta espcie de prateleiras com os ps, at chegarem  sua 
extremidade e voltarem a descer. Quentin teve a impresso de 
que debaixo da plataforma havia uma grande caverna, pois 
deixou de ver fosse o que fosse. At a fraca luminescncia 
que vinha de cima estava agora tapada pela salincia rochosa.
Para surpresa de Quentin, os seus ps voltaram a tocar numa 
rocha de superficie regular. Se era outra plataforma ou o 
fundo do poo, isso no sabia. Mas foi ali que Toli decidiu 
comear a procurar o esquivo minrio branco. Quentin sentiu 
um ligeiro movimento ao seu lado e percebeu que Toli se 
encaminhava vagarosamente para a parede que pensava terem 
directamente  frente.
Quentin fez meno de o seguir, mas deu imediatamente uma 
topada com os dedos dos ps numa protuberncia rochosa, 
caindo desajeitada e lentamente de joelhos. A dor sbita f-
lo perder algum ar. Mas recuperou depressa e, endireitando-se 
sem dificuldade, continuou atrs de Toli, cujo cinturo de 
luzente lantbanilvia mesmo  sua frente.
Toli j chegara  parede rochosa e, com um desagradvel 
encontro, Quentin tambm parou diante dela. S se 
encontravam debaixo de gua havia uns instantes, que, no 
entanto, eram horas para Quentin. Como estaria Toli a 
aguentar-se? Uma agitao na gua, seguida de um tinido 
surdo, f-lo perceber que Toli no desperdiara tempo nem 
energias, e que j estava a fazer buracos na superficie da 
rocha com uma das picaretas de Inchkeith.
Com a mo boa, Quentin procurou desajeitadamente uma 
ferramenta no seu cinturo, e seguiu o exemplo de Toli, 
pondo-se a bater

375

s cegas, com os movimentos lentos e almofadados do nadador. 
As suas ferramentas batiam na rocha com um tinido semelhante 
ao de moedas entrechocando-se. Passado muito pouco tempo, 
comeando a sentir os pulmes a arder, Quentin fez sinal a 
Toli de que ia l acima respirar. Toli levantou a mo, 
mostrando-lhe que percebera o seu gesto. Mal puxou a corda, 
afastando-se uns passos da parede rochosa, comeou a subir 
to depressa que teve de espernear furiosamente para evitar a 
plataforma rochosa que ficava mais acima.
Produzindo muitas bolhas e arquejando, Quentin surgiu  
superficie. Durwin e Inchkeith espreitavam-no atentamente.
- L... l em b... baixo est um f... frio de morrer! - 
Quentin batia involuntariamente os dentes.
- Viste alguma coisa? - perguntou Durwin, ignorando as suas 
informaes sobre a temperatura. - O que  que h l em 
baixo?
- Primeiro, h uma plataforma rochosa e, por baixo dela, um 
espao suficientemente grande para um homem poder estar de p 
a trabalhar. No sei se  o fundo ou no. O Toli ainda est 
l, mas deve subir para respirar daqui a pouco.
- Parece um lugar to bom como qualquer outro para comear a 
procurar - disse ansiosamente Inchkeith. Quentin pensou que, 
se pudesse, o velho armeiro no hesitaria em trocar com ele, 
pois,  luz suave da abbada, o seu rosto luzia com o brilho 
de uma ansiedade intensa.
- 0 Toli j est l em baixo h muito tempo - observou 
Quentin, metendo a cabea debaixo de gua, mas no vendo 
sinais do cinturo luminoso de Toli. Inchkeith, que segurava 
a corda de Toli, ainda no sentira nenhum estico.
- Vou busc-lo. j est l h muito tempo.
- Isso, vai ver porque  que se demora tanto. Apesar de ele 
nadar como um peixe,  melhor no esforar de mais os 
pulmes. - Durwin comeou a largar a corda e Quentin 
mergulhou mais uma vez no mundo frio, silencioso e viscoso do 
poo.
Uma vez abaixo da plataforma, Quentin conseguiu distinguir o 
cinturo debilmente brilhante de Toli. Por isso, acabou de 
descer o mais depressa que pde e aproximou-se do amigo com 
passadas compridas e imponderveis.
Tacteando na gua, Quentin procurou o ombro de Toli e, quando

376

lhe tocou, fez o Jher dar meia volta. _Mas Toli girou 
novamente nos calcanhares e Quentin sentiu a agitao da gua 
e ouviu o estranho e distante tinido que significava que o 
amigo continuava a bater na rocha.
Preocupado, Quentin pensou em pegar na corda de Toli e pux-
la ele prprio, de modo a que o amigo fosse iado para a 
superficie, quer quisesse quer no. Mas, ao estender a mo 
para a corda, viu qualquer coisa pelo canto do olho.
Virando-se, deu com os olhos numa fenda pequerssima aberta 
na parede rochosa, onde brilhava uma reluzente teia de 
delicados fios de seda. Percebendo que Toli sabia o que 
estava a fazer, pegou imediatamente na picareta e, seguindo o 
seu exemplo, comeou a lascar a rocha.
Dali a pouco, a parede de rocha preta rua com um claro 
prateado, pondo a descoberto um veio de lantbanl branco da 
largura de duas mos, cujo brilho frio parecia o do prprio 
Sol.
Rpido como uma cobra, Toli estendeu as mos e tocou na 
radiosa pedra. inundado pela luz crua que brilhou de repente, 
Quentin, que tinha frio e se sentia pouco  vontade naquele 
tmulo aqutico, viu Toli transformado: estava maior, mais 
forte e mais nobre.
Mas pouco tempo teve para pensar no que viu. pois Toli, 
voltando a pegar na picareta, recomeou a bater na pedra, de 
onde arrancou um grande pedao do precioso minrio. Quentin 
ainda mal tivera tempo de pestanejar quando Toli lhe estendeu 
o fragmento branco e brilhante. Quentin olhou para ele (era 
tudo to estranho naquele mundo aqutico,) e para Toli, que, 
apesar de tudo, tinha o rosto aberto num sorriso de orelha a 
orelha. Os pulmes de Quentin j estavam a comear a arder 
outra vez: era tempo de voltar  superfcie. Admirava-o que 
Toli conseguisse manter-se submerso durante tanto tempo.
Quentin estendeu a mo para pegar na pedra que Toli lhe 
oferecia. S pensava em lev-la para a superfcie e mostrar a 
Inchkeith e a Durwin, que, por fim, tinham encontrado o seu 
tesouro. Mas, quando Toli lhe pousou a pedra nas mos, 
Quentin sentiu-se atravessado por uma onda de calor, como uma 
chama de gelo. Todo o seu corpo formigou, como se tivesse 
sido atingido por um relmpago, mas o ardor passou num 
instante, deixando na sua esteira uma quente sensao de paz 
e bem-estar.

377

At a dor nos pulmes desapareceu. De repente, sentiu que 
nunca na vida estivera to vivo, inteiro e em paz.
Embora nunca mais tivesse a certeza, porque aconteceu tudo 
muito depressa, pareceu-lhe que nesse mesmo momento o seu 
brao direito foi atravessado por um longo arrepio, que lhe 
provocou um formigueiro semelhante s picadas de muitas 
agulhas.
Depois. sentiu dentro do brao um estranho calor, que foi 
crescen^ do at lhe parecer que tinha os ossos em fogo.
Mas o fogo desapareceu to rapidamente como aparecera, 
deixando um rasto frio e calmante, como se estivesse gua a 
correr-lhe por cima do brao. Quentin ficou to espantado com 
o frio como com o fogo, pois era a primeira vez em muitas 
semanas que sentia fosse o que fosse no brao.  luz 
brilhante e sobrenatural, olhou para Toli, que lhe sorriu com 
uma expresso de entendido. Ento, estendeu a mo para tocar 
no rosto de Toli e a mo voltou a obedecer-lhe. Apesar do 
estorvo que a ligadura passara a constituir, os dedos 
dobravam e o brao mexia-se livremente.
Toli arrancou outro fragmento do luminoso veio e acenou com a 
mo para cima, fazendo sinal para subirem. Quentin at se 
esquecera de que se encontravam debaixo de gua; a urgncia 
em regressar  superfcie desaparecera no instante em que 
tocara na pedra. Mas, ao recordar, ficou ansioso por mostrar 
aos outros a sua descoberta. Por isso, sem se lembrarem de 
puxar as cordas, comearam a nadar para a superfcie.
Durwin e Inchkeith, cada vez mais apreensivos com o tempo que 
os dois amigos se demoravam l em baixo, estavam a discutir 
se haviam de os puxar ou no, especialmente a Toli, que ainda 
no subira para respirar.
Subitamente, Durwin gritou:
- Inchkeith! Pelos deuses, olha!
O armeiro olhou para onde Durwin apontava e viu dois objectos 
brilhantes, semelhantes aos olhos brancos e reluzentes de um 
monstro marinho, subindo rapidamente para a superfcie. To 
forte foi a iluso de que uma tal criatura ia surgir do poo 
que Inchkeith deu um salto para trs, pondo as mos  frente 
do rosto.
Mas, a seguir, a voz do eremita rasgou o ar, como se um 
trovo rolasse e ecoasse pela vasta caverna:

378

-  o lanthanil! O Altssimo seja louvado! Ele deu-nos a sua 
bno! Encontrmo-lo!
Observado pelos dois mergulhadores encharcados e felizes, 
Durwin, deixando-se de cerimnias, desatou aos saltos, 
lanando-se numa dana louca com Inchkeith.

CAPTULO XLIX

No meio dos queixumes dos escravos, Nin avanava, em cima das 
suas costas doridas, ao longo da velha estrada ribeirinha que 
ia de Lindalia. situada na costa ocidental. para leste, na 
direco de Askelon. Do seu squito faziam parte cinquenta 
mil homens a p. Naquele stio, a corrente do Aivin era forte 
e o seu leito suficientemente profundo e largo para os que 
conseguiam arranjar barcos (e at os que no conseguiam) e 
fugirem para o outro lado,  passagem da terrvel caravana de 
Nin.
Este esperara. sentado no seu navio palcio, mesmo do outro 
lado da ilha onde o rio misturava as suas guas com as do 
brilhante Gerfallon. Mas a sua clera fora crescendo, 
enquanto aguardava a mensagem dos seus comandantes, 
informando-o da queda de Askelon. Como esta no chegava, a 
Divindade Suprema dos Ningaal' decidira ir em pessoa resolver 
rapidamente aquele assunto.
Ento, dera ordens para que o seu exrcito de cinquenta mil 
soldados, que esperava nos barcos, desembarcasse na costa 
ocidental, e mandara que carregassem o seu trono para a 
praia. A, subira ao trono por cima dos corpos prostrados dos 
seus escravos e, fazendo um gesto de mo largo e generoso, 
mandara-os avanar. Como um exrcito de gafanhotos. arrasavam 
tudo  sua passagem: searas, casebres de camponeses, 
aldeiazinhas. Nada os detinha e ningum erguia um dedo para 
os enfrentar.
De noite e de dia, marchavam incansavelmente, sem parar, 
ficando inexoravelmente cada vez mais perto de Askelon.

380

De noite e de dia, a malfica Estrela do Lobo brilhava nos 
cus.
De dia, via-se um pouco acima da linha do horizonte, sob a 
forma de um ponto brilhante, como se fosse um minsculo 
segundo Sol. De noite, quase assumia o brilho do prprio Sol, 
transformando a escurido numa fantasmagrica imitao do dia 
que acabara de passar. Projectavam-se na terra sombras 
irreais, os pssaros no cantavam nas rvores, os anirriffis 
amontoavam-se nos campos, sem saberem se haviam de dormir ou 
de procurar alimentos, e as pessoas, agachadas nos ptios dos 
templos ou dos castelos espalhados pela terra. gemiam de medo 
e ta pavam a cabea.
E Nin continuava a marchar para Askelon.

Em Askelon, os nobres reuniam-se em segredo para discutirem o 
estranho comportamento do rei. Alguns diziam que fora a 
estrela que o levara  loucura, que ela o tocara como tocara 
as pessoas que tremiani de medo dentro das poderosas muralhas 
de Askelon. Outros diziam que a doena o atacara novamente. E 
todos se afligiam com o que aconteceria se os seus cavaleiros 
e soldados descobrissem que o Rei Drago estava incapaz de os 
conduzir na batalha, pois nenhum deles tinha dvidas de que 
no iam conseguir aguentar o cerco por muito tempo. Mais cedo 
ou mais tarde, se queriam tentar derrotar o inimigo, teriam 
de o enfrentar no campo de batalha. E, sabendo que a fatdica 
batalha se aproximava rapidamente, s esperavam que Eskevar 
recuperasse a tempo de os chefiar, nem que fosse s para se 
mostrar aos homens.

- Chegou alguma mensagem? - perguntou ansiosamente Eskevar, 
que descansava tranquilamente no seu leito e que parecia 
composto e no seu perfeito juizo. Biorkis e a rainha estavam 
de p ao seu lado. A pergunta do rei fora dirigida aos 
senhores de Mensandor, que tinham entrado nos seus aposentos.
Rudd, que falava por todos os outros, aproximou-se do alto 
leito real.
Depois de se ajoelhar, respondeu:
- No chegou nada, Majestade, e, agora, tambm j no pode 
chegar. Os guerreiros de Nin cercaram o castelo por todos os 
lados. A plancie que fica abaixo da rocha est ocupada e 
tambm tomaram a cidade.

381

Por enquanto, ainda no se atreveram a aproximar-se da rampa, 
mas no tenho dvidas de que o faro muito em breve. Askelon 
est cercado.
- Portanto, comeou - suspirou Eskevar com uma expresso 
fatigada. - Esperava que os senhores do Norte nos mandassem 
uma mensagem, comunicando-nos a sua deciso de se juntarem a 
ns.
- Receio que j seja tarde. Mesmo que chegasse agora algum 
mensageiro, no conseguiria atravessar as linhas inimigas. 
Mesmo assim, talvez os senhores ainda venham. - Lanando um 
olhar aos seus pares, Rudd acrescentou apressadamente: - 
Queramos que nos concedsseis uma merc, Majestade.
- Claro que a tereis - replicou Eskevar. - Basta-vos dizer o 
que quereis.
- Queramos que falsseis aos cavaleiros e aos soldados, 
Vossa Majestade. H por a boatos... - Sentindo que falara de 
mais, Rudd calou-se.
- Boatos? Ah sim? Boatos que dizem o qu? No tenhas medo de 
que eu fique zangado. Sei muito bem o que por a se diz.
Nervoso, Rucid olhou para os outros em busca de ajuda.
- Ento? - inquiriu Eskevar, comeando a encolerizar-se.
- Fala, senhor!
- H quem diga que estais mudado, Majestade, que no tendes 
vontade de lutar...
- Que estou louco!  isso que queres dizer, no ? Ento, 
diz!
- ,  isso. - Rucid baixou a cabea.
Eskevar fez meno de saltar da cama.
- Por favor, Majestade! - Biorkis parecia ter regressado  
vida. Ficai na cama mais um pouco, at recuperardes as 
foras.
- Ouve o que ele est a dizer! - suplicou Alinea, 
precipitando-se para ele e lanando um olhar sombrio e 
desaprovador aos infelizes senhores, que fizeram 
imediatamente meno de sair.
- No! - Eskevar levantou a mo na direco do sacerdote e da 
sua rainha. - No me levanteis impedimentos. Irei com os meus 
comandantes falar aos soldados, que no devem ter dvidas nem 
desesperar por causa do seu rei. E mostrar-lhes-ei que no 
estou doente nem tenho medo.

382

Virando-se para os seus vassalos, continuou:
- Reuni os cavaleiros e os soldados no ptio interior. Falar-
lhes-ei das ameias da cortina interior e, quando acabar, 
passarei entre eles, para lhes acalmar os medos e as 
apreenses. Assim, eles ver-me-o e sabero que estou com 
eles e que os comandarei na batalha.
Ansiosos por sarem dali, os nobres inclinaram-se  uma e 
foram depressa tratar de reunir as tropas. Depois de terem 
desaparecido pela poria dos aposentos do rei. Biorkis e 
Alinea aproximaram-se e ajudaram-no a levantar-se.
- Ests to fraco, meu rei... - soluou Alinea. As lgrimas 
marejavam-lhe os olhos verdes e deslizavam-lhe livremente 
pelas faces.
- Deixai-me dizer-lhes que ireis amanh - sugeriu Biorkis.
- Descansai mais esta noite e sentir-vos-eis mais forte.
- No, no pode ser. Amanh j pode ser muito tarde. Tenho de 
ir imediatamente. No posso permitir que os boatos persistam. 
pois vo acabar por destroar o corao dos meus soldados. E 
o soldado tem de lutar pela sua terra de alma e corao. 
Tenho de ir.
Apoiando-se pesadamente nos seus braos, arrastou-se at  
poria. Quando l chegou, Eskevar endireitou as costas e 
levantou a cabea.
- Agora, irei sozinho - disse, deixando os seus aposentos.
Depois de ele sair, Alinea virou-se a chorar para Biorkis:
- Ele nunca devia ter ido para a batalha, Biorkis. Estava a 
melhorar, mas esforou-se de mais e ainda no recuperou as 
foras, e... e, oh!, agora receio que no volte a recuper-
las1 - Enterrando o rosto nas mos, soluou: - Se o Durwin 
estivesse aqui, saberia o que havia de fazer.
Biorkis passou-lhe o brao pelos ombros delgados e tentou 
consol-Ia:
-  verdade, mas o Durwin no est aqui. Vamos ter de pensar 
o que ele faria no nosso lugar e, depois, faz-lo.
- Desculpa - fungou Alinea, levantando o rosto para os olhos 
bondosos do velho sacerdote. - No queria minimizar-te. A tua 
ajuda tem sido preciosa. Eu s...
- No  preciso dizer mais. Eu tambm gostava que o Durwin 
estivesse aqui. Ele conhece o mundo e os homens muito melhor 
do que eu, que estive tempo de mais na minha montanha, 
afastado dos mortais,

383

e que me sinto velho e intil. Esperemos que o Durwin 
regresse em breve.
- Rezemos para que sim.
-  verdade, rezemos para que sim, senhora.

Eskevar saiu da torre virada a oriente e comeou a percorrer 
as ameias  luz fria e falsa da estrela. A sua grande capa, 
com o drago prateado cintilando quela estranha luz, 
esvoaava atrs dele como uma imensa asa preta. Theido e 
Ronsard caminhavam gravemente ao seu lado. Quando chegaram s 
ameias centrais da cortina interior, Eskevar inclinou-se e 
olhou para as fileiras de soldados que se tinham reunido l 
em baixo para o ouvirem falar.
Ao observar os rostos temerosos erguidos para si, procurando 
fora, sensatez e segurana, sentiu-se muito velho e muito 
cansado. Parecia-lhe que o sugavam e, ao contempl-los, as 
foras abandonaram-no ainda mais. Sentiu-se fatigado e 
acabado de mais para falar.
Mas eles observavam e esperavam. Os seus homens fitavam-no, 
esperando que ele lhes expulsasse o medo. Como poderia faz-
lo, se no conseguia expulsar os seus prprios receios? Que 
palavras poderia dizer? Que magia poderia empregar?
Sem saber o que ia dizer, Eskevar abriu a boca e comeou a 
falar, com a voz caindo-lhe do alto, como a de um deus.
A sua voz ecoou por todos os recantos do ptio interior. 
Ergueram-se murmrios em resposta s suas palavras, e Eskevar 
receou ter-se baralhado e dito o que no queria. Mas 
continuou a falar, sem ligar s palavras que lhe saam da 
boca. "Eles tm razo", pensou amargamente. "O rei est 
louco. Balbucia das ameias como um idiota, e no sabe o que 
est a dizer."
Os murmrios foram-se transformando em gritos e aclamaes. 
Quando Eskevar pronunciou as ltimas palavras, o ptio 
interior explodiu em saudaes, vivas e gritos de batalha. 
Depois, de repente, os soldados desataram a cantar uma antiga 
cano de batalha de Mensandor, e ele, Eskevar, sem saber 
como, deu consigo a passar por entre os soldados, tocando-
lhes e deixando-se tocar por eles.
O rei Drago parou no meio das suas tropas, desorientado 
pelos gritos e pelas aclamaes. Por um lado, sentia-se mal 
por no saber o

384

que dissera, mas, por outro, gratificado por perceber que as 
suas palavras tinham sido as mais apropriadas.
As aclamaes e as canes ainda iam a meio quando foram 
interrompidas por um som que havia quinhentos anos no se 
ouvia em Askelon. Bum! O som foi-se afastando como um trovo 
seco. Bum! Bura! Ao repetir-se, todos os que rodeavam o Rei 
Drago ficaram calados. Os vivas pararam; as canes 
morreram. Bum! Bum! Bum!
Os Ningaal tinham levado um ariete at s portas de Askelon.
O cerco comeara.

CAPTULO L

- Ainda mal posso acreditar! - disse Quentin, dobrando o 
brao. - Parece que nunca esteve ferido. Alis, at est 
melhor! E olhai: o msculo est firme e a pele nem um 
bocadinho enrugada.
De p, perto de Durwin, que desenrolava as ligaduras e tirava 
as talas, Toli replicou:
- Pois eu acredito. As histrias antigas eram verdadeiras. As 
Khoen -Vavisb ainda existem depois de tantos anos.
Os dois brilhantes pedaos de rocha, pousados ao lado do poo 
preto, luziam como carves brancos em brasa. Vendo que o 
brao de Quentin estava novamente so como um pro, Durwin 
deu-se por satisfeito e terminou o exame.
- Pois ! - disse o eremita, ainda a apalpar o brao de 
Quentin com os dedos. - 0 teu brao est miraculosamente 
curado. Se no tivesse sido eu a p-lo no stio, diria que 
nunca esteve partido.
Depois, inclinou a cabea para o lado e fitou Quentin 
intensamente:
- Agora no estou a ver nada que te impea de empunhares a 
Zhaligkeer. E tu?
Com um arrepio parecido com o provocado por uma centelha ao 
tocar na pele, Quentin lembrou-se de todas as dvidas que 
conseguira afastar do pensamento; de repente, voltaram-lhe 
todas ao esprito como uma inundao, arrefecendo-lhe o 
entusiasmo.
A mo de ferro do medo pousou-lhe nas entranhas e apertou com 
fora.
- Ainda pensas que sou eu o escolhido?

386

- Porque temes? j escolheste seguir o Altssimo. Foi este o 
destino que ele traou para ti. No te desvies dele.
Quentin contemplou as reluzentes pedras:
- -Mas a profecia... L. - As palavras faltaram-lhe.
- Pensas que estars sozinho?  isso! AhI No te livrars 
assim to facilmente de ns. Estaremos sempre ao teu lado. 
No julgues que o Altssimo faz os seus servos trilharem 
apenas caminhos solitrios. Os seus desgnios tornam-se mais 
claros com a ajuda dos que tm o mesmo esprito. Ele deu-nos 
a ti, assim como te deu a ns, para que nos ajudemos uns aos 
outros.
- Aceita-as, Quentin. So para ti. - Durwin estendeu a mo na 
direco das pedras brancas, e Quentin, lenta e 
relutantemente, apanhou-as.
- Aceit-las-ei e reclamarei a Zhaligkeer para mim. - Com 
estas palavras, ergueu as pedras acima da cabea, como se j 
tivesse uma espada nas mos. - Inchkeith! Comecemos. O tempo 
escasseia e temos uma espada para fazer!
- Mas, quando olharam em volta, no viram Inchkeith por lado 
nenhum.

Bum! Bum! O som do arete batendo nas portas troava vezes 
sern conta. De cada vez que o terrvel barulho se ouvia, os 
camponeses que se haviam apinhado em Askelon para fugirem ao 
inimigo gritavam de terror. O pnico ribombava nos ptios 
exteriores.
Alguns archeiros, que tinham subido  barbac da entrada, 
esforavam-se por acertar nos Ningaal que batiam com o macio 
arete contra a ponte levadia do castelo. De vez em quando, 
uma ou outra flecha atingia o seu alvo, fazendo o guerreiro 
inimigo cair da tbua estreita que os Ningaal tinham lanado 
sobre o fosso que separava o castelo da extremidade da rampa; 
mas, apesar do incmodo, o prejuzo no era grande para os 
Ningaal, que estavam protegidos por uma placa de ferro 
montada por cima do arete. Alis, qualquer infeliz que 
tivesse a ideia de se pr muito a descoberto, era substitudo 
por outro num abrir e fechar de olhos. Portanto, o barulho do 
ariete fazia-se ouvir uma e outra vez.
- Chamai os archeiros - disse Theido, de p nas ameias, 
olhando para baixo. - O melhor  pouparmos as nossas flechas. 
Eles no vo

387

conseguir levar a melhor sobre aquele porto. Nunca ningum 
conseguiu.
- Podamos lanar-lhes fogo - sugeriu Rucid com uma expressao 
preocupada. - isso livrar-nos-ia deles.
- E tambm queimaria as nossas portas! - objectou Ronsard, 
muito irritado.
- Parece-me que nem o fogo conseguiria arranhar aquelas 
portas - cismou Theido. abanando a cabea. - Mas posso estar 
enganado. ".\o entanto,  melhor no corrermos riscos 
desnecessrios. Vamos ver o que ser que eles tentaro a 
seguir.
"Eles no podem abrir um tnel por baixo das muralhas, que se 
erguem da rocha slida. Alis, a montanha tambm  de pedra. 
A porta de trs est bem protegida e o labirinto de muralhas 
impede o uso de um arete como este. E se tentarem entrar por 
l, os nossos archeiros tambm no deixaro. Suponho que eles 
tero de arranjar maneira de atravessar as portas e s as 
portas, pois no tm outro caminho para entrarem no castelo 
de Askelon.
Quando acabou de falar, os Ningaal recomearam a bater. Bum! 
BurnI A madeira das portas estremecia a cada pancada, mas 
mantinha-se firme.
Theido afastou-se das ameias e Ronsard seguiu-o, depois de 
ordenar aos seus homens que o fossem avisar caso a situao 
se alterasse.
- Theido, quero falar contigo - disse, pondo-se a par com o 
amigo. - Vamos l para dentro conversar  vontade.
A passos largos, encaminharam-se para a barbac mais prxima, 
entraram e subiram para a plataforma mais alta do torreo 
redondo, de onde se avistava a plancie e a cidade. Da, 
desse local imponente, podiam ver a maior parte de um dos 
lados do castelo e uma poro de um segundo lado. Na verdade, 
os Ningaal haviam rodeado o castelo por todos os lados, sendo 
a sua maior concentrao em volta dos portes principais e na 
cidadela. O inimigo ateara incndios em vrios sectores da 
cidadela, e o fumo erguia-se em colunas pretas, que riscavam 
o cu.
- Hoje  um dia fatdico. - Ronsard virou para o an-go um 
rosto vincado de rugas de preocupao. - Como est o rei 
Eskevar?
- Na mesma. No h alteraes.

388

Eskevar quase perdera os sentidos quando o som do arete se 
fizera ouvir. Era Como se cada pancada atingisse directamente 
o corao do rei. Fora com dificuldade que os dois cavaleiros 
se tinham afastado com o seu soberano, sem os soldados se 
aperceberem do seu desmaio. -Mas. logo que haviam chegado  
segurana da torre, tinham-no transportado em braos para os 
seus aposentos. Biorkis e Alinea haviam ficado com ele e os 
cavaleiros tinham regressado para observarem os Ningaal, que, 
ao longo daquela noite clara como o dia, se esforavam por 
deitarem abaixo as portas.
- Achas que ele conseguir montar? - indagou Ronsard.
- Porque me perguntas a mim? Tu deves saber.. j estiveste 
muitas vezes ao lado dele na batalha. -Mas ns estamos sob 
cerco! Porque ser que toda a gente continua a insistir em 
falar em campos de batalha e em cavalgadas? - replicou Theido 
abruptamente. Depois de um longo momento de silncio, durante 
o qual Ronsard se limitou a fit-lo com tristeza, Theido 
suspirou:
- Desculpa, meu amigo. Estou cansado. H, pelo menos, trs 
dias que no durmo... e j nem se consegue distinguir o dia 
da noite! Estou cansado.
- Vai descansar. Deixa-me substituir-te. Tu prprio disseste 
que no vai acontecer nada j. Come alguma coisa e deita-te 
um bocado. Vers que te sentes melhor.
- Tens razo. - Theido afastou o olhar para norte. - Eles 
deviam vir. j deviam estar aqui.
- Eles viro. E no te esqueas de que o Quentin, o Toli e o 
Durwin esto fora. E a misso deles vai trazer-nos algum 
bem... disso tenho a certeza.
- Tambm eu. S espero que cheguem a tempo. - Sorrindo 
fugazmente, apertou o ombro de Ronsard. - Obrigado. Vou 
descansar um bocadinho, como sugeriste. H muito que no 
estou sob cerco. Esqueci-me quase completamente de como  ter 
boas maneiras.
- Tu no te esqueceste de nada, meu amigo. Agora, vai. Se 
houver alteraes, mandar-te-ei chamar.
Quando Theido desceu da barbac e os seus passos deixaram de 
se ouvir, Ronsard encostou-se s ameias de pedra do torreo, 
olhando longa e ansiosamente para norte, em busca dos 
brilhantes exrcitos que

389

esperava ver cavalgando em seu auxlio. Mas, em vez disso, s 
viu a paisagem tremeluzindo devido ao calor do sol estival. 
Nada se movia na plancie.
No entanto, o cavaleiro continuou  espera e os seus 
pensamentos transformaram-se numa orao, que elevou ao novo 
deus que to recentemente escolhera servir:
- Deus Altssimo - murmurou Ronsard -, h quem conhea melhor 
do que eu os vossos desgnios. Mas, se precisardes de uma 
espada, estou aqui. - Houve um comprido lapso de tempo antes 
de ele voltar a falar: - No sei rezar com as palavras 
apropriadas. Nunca fui homem de muitas oraes, mas vs 
ajudastes-me uma vez. h muito tempo, e por isso vos suplico 
que volteis a escutar-me: guiai-nos contra o terrvel inimigo 
que rene s nossas portas e procura destruir-nos. E, se eu 
tiver de morrer, que assim seja. Mas deixai-me viver esse 
momento como um verdadeiro cavaleiro, procurando salvar 
primeiro a vida de outrem.
Ronsard continuou a rezar de todo o corao, e t-lo-ia feito 
durante mais tempo se no fosse o alarme que o obrigou a pr-
se imediatamente de p e a ir ao encontro de um novo 
desastre.

CAPTULO LI

Encontraram Inchkeith encolhido por trs de um monte de 
pedra, no muito longe do poo, e todos ficaram surpreendidos 
com o estranho comportamento que o levara a esconder-se e com 
a expresso de medo que lhe contorcia as feies.
- O que se passa, Inchkeith? Porque desapareceste sem mais 
nem menos? - perguntou Quentin. O mestre armeiro espreitou os 
seus descobridores com um olhar desconfiado. Ao tentar falar, 
esforou-se tanto que at as mos lhe tremeram.
- No me faais tocar-lhe! Suplico-vos, senhores, no me 
faais tocar-lhel - disse, tomando a esconder o rosto nas 
mos. Os seus ombros tremeram como se estivesse a soluar.
- Isto  muito estranho - comentou Quentin, virando-se para 
Toli e Durwin. O eremita, de olhos semicerrados, contemplava 
o corpo encolhido do homem deformado.
- Creio que sei o que o aflige: tem medo de tocar no 
lantbanil branco, pois viu o seu poder e o que pode fazer. 
Viu o teu brao curado e receia o que possa acontecer lhe.
- Mas... - tartamudeou Quentin, muito espantado - deves estar 
enganado, Durwin. Pelo contrrio, ele at devia ficar muito 
contente e tratar de lhe pegar depressa, para ser curado do 
seu aleijo. Acho que era o que eu faria e, alis, qualquer 
outra pessoa.
- De certeza? - inquiriu Durwin, arqueando as sobrancelhas 
hirsutas. - Pensa bem. Claro que a coluna torcida o deforma, 
mas ele viveu toda a vida assim e acabou por se aceitar tal 
como . Atravs da

392

beleza da sua arte, elevou o esprito acima das limitaes 
fisicas. E isso f-lo sentir-se muito orgulhoso.
- Ser curado, -voltar a ser forte. a estar inteiro... que mal 
h nisso? - Quentin abanou lentamente a cabea de um lado 
para o outro. Para ele, era um mistrio.
- Quentin, nunca tiveste um defeito, uma ferida que 
transportaste sempre contigo? - Quentin franziu muito a 
testa. - Um defeito que amaldioaste, que te afligiu, do qual 
quiseste ver-te livre e que, no entanto, acariciaste em 
segredo e agarraste bem para que no te fugisse?  que essa 
fraqueza fazia parte de ti e, por muito odiosa que fosse, 
definia-te e tu tiravas fora dela. Com ela, sabias quem 
eras: sem ela, quem poderias vir a ser?
Quentin respondeu lentamente:
- Talvez tenhas razo. Durwin. Em criana, tive tantas 
fraquezas e defeitos infantis como virtudes. Mas livrei-me 
deles ao tornar-me homem.
- Pois, mas as tuas fraquezas no eram do mesmo tipo da de 
Inchkeith. No  assim to fcil libertar-se da dele. Ele no 
dever recear perder aquilo que, por mais feio que seja, o 
reconfortou tanto durante toda a vida? No admira que no 
queira tocar nas Pedras Que Curam, pois, embora desse tudo o 
que possui para ser escorreito e forte, daria muito mais para 
permanecer como est.
Quentin virou-se para contemplar Inchkeith, que, sentado um 
pouco afastado, continuava encolhido e a tremer. No havia 
palavras que descrevessem aquela lamentvel imagem. 
Tristemente, desviou o olhar.
- Ide preparar-vos para mais um mergulho - sugeriu Durwin.
- Eu vou falar com ele para o convencer de que, toque ele ou 
no na pedra, a deciso  sempre dele e de que no o teremos 
em menor conta se, no fim, decidir no o fazer. Agora, ide. 
Ns viremos j para aqui.
Obedecendo a Durwin, Quentin e Toli regressaram para junto do 
poo.
- V como brilham, Toli! - maravilhou-se Quentin. ajoelhando-
se  frente dos dois pedaos de rocha brilhante. - j viste 
alguma coisa assim? Parece que ardem com um fogo interior. 
Deviam ser quentes ao tacto, mas esto frias.

393

- Possuem um poder muito grande. Disso no h dvida. Agora 
percebo porque  que os Ariga fecharam a mina e esconderam no 
poo o que restava do lanthanil branco. A tentao de um 
poder to grande deve levar os homens  loucura.
Quentin assentiu silenciosamente.
- O que ser que a pedra pode fazer mais? - perguntou por 
fim.
O seu rosto brilhava na aura das pedras.
- Veremos, Kenta. Foste tu o escolhido para empunhar a 
Brilhante; por isso, em breve o sabers.
Dali a pouco, Durwin regressou, conduzindo um envergonhado 
Inchkeith na sua direco:
- Muito bem, vamos continuar? Temos muito para fazer, e s 
agora comemos.
- Espera, Durwin. Quero falar. - inchkeith levantou a mo. 
Sinto-me envergonhado pelo meu comportamento, e fareis um 
grande favor a um velho tonto se o esquecsseis 
completamente. Lamento ter embaraado assim os meus amigos e 
prometo no o tornar a fazer.
- No penses mais nisso, mestre 1nchkeith - replicou Quentin 
jovialmente. - Garanto-te que o assunto j est esquecido e 
que dos nossos lbios no sair nem mais uma palavra.
Dito isto, voltaram todos ao trabalho. O poder das pedras com 
minrio que Quentin e Toli levavam para a superficie permitia 
aos dois nadadores permanecerem debaixo de gua durante mais 
tempo, e dali a pouco j estava empilhado ao lado do poo um 
bom monte de pedras brilhantes.
Quando o monte atingiu o tamanho de uma pirmide de metade da 
altura de um homem, Inchkeith mandou parar com os mergulhos:
- Creio que j chega. Se esta pedra mgica for semelhante a 
outros minrios que j trabalhei, devemos ter aqui o 
suficiente para fazer uma espada, uma bainha e uma corrente.
Quentin e Toli arrastaram-se para fora da gua gelada e 
secaram-se. 1nchkeith foi a saltitar at  forja, que ficava 
do outro lado da caverna:
- Quando estiverdes prontos, trazei-me o lanthanil. Eu vou 
acender o cadinho.
Enchendo a caixa vazia das ferramentas de Inchkeith com 
minrio, Quentin e Toli levaram-na at  forja, onde, com o 
combustvel que encontrara

394
muito bem arrumado ao seu lado, o armeiro acendera o lume, 
que j estalava e crepitava. Durwin entregou-se  tarefa de 
preparar comida, pois, ao que parecia, ningum iria dormir 
durante algum tempo.
Quando Quentin e Toli acabaram de encher o cadinho com 
minrio, este foi levado ao fogo, onde se deu curiosa 
transformao. As pedras no estalaram, libertando o seu 
minrio, como acontece com as que contm cobre e ferro. Pelo 
contrrio, derreteram muito lentamente, como o gelo na 
Primavera mergulhando em gua corrente. Servindo-se de uma 
haste muito comprida, Inchkeith ia mexendo o lanthanil 
derretido, fazendo com que as impurezas ardessem, 
transformando-se em cinzas quentes, que subiam pela chamin 
do forno. Depois, com umas tenazes compridas, introduzia mais 
minrio no cadinho e mantinha a temperatura constante, por 
meio de uma viglia ininterrupta.
Esta operao prolongou-se por muitas horas, durante as quais 
os outros observavam Inchkeith e adormeciam e comiam  vez.
Por fim, o armeiro tirou o cadinho incandescente das chamas e 
pousou-o cuidadosamente.
- Agora, depressa! - gritou. - Pegai a nessa ferramenta e 
dai-me uma ajuda. Andai!
Quentin, que estava mais perto, pegou no objecto que 
Inchkeith indicara: um instrumento comprido de ferro com duas 
pegas e um bojo no meio. Inchkeith agarrou nele e colocou-o 
em cima do cadinho, ordenando a Quentin que segurasse numa 
das pegas e seguisse cuidadosamente as suas instrues. 
Depois de Quentin o fazer, comearam a vazar o minrio 
derretido, de um brilhante azul-claro, como prata lquida, 
para quatro moldes compridos e estreitos que Inchkeith 
dispusera no cho. Quando os quatro moldes ficaram cheios, 
ainda restou uma boa quantidade do precioso metal, que 
Inchkeith vazou para uma chapa.
Feito isto, sentaram-se  espera que o metal arrefecesse.
"Esperar que o brilhante lanthanil arrefea  o mesmo que 
esperar que o ovo choque", pensou Quentin. Mas, por fim, 
Inchkeith achou que os moldes j tinham arrefecido o 
suficiente e pegou numa concha de gua, que esvaziou sobre o 
metal ainda quente. Imediatamente se ergueram colunas de 
vapor no ar vagamente luminoso da caverna. Ento, quebrou os 
moldes e, com umas tenazes e umas luvas muito grandes

395

nas mos, tirou quatro bocados, de cerca de um metro de 
comprimento.
O mestre armeiro saltitou at  bigorna. fez um furo numa 
extremidade de cada bocado e juntou-os uns aos outros, por 
meio de um rebite que cortou da placa de lanthanil que 
fizera.
- Pronto. Fiz tudo o que podia - disse, levantando os quatro 
bocados acabados de juntar. para que os outros pudessem v-
los. - Segundo o Durwin, s tu que tens de fazer o resto, 
Quentin.
Quentin ps-se em p:
- Eu? Ests a brincar! Sei tanto fazer uma espada como uma 
rvore!
- Ento,  altura de aprenderes. Anda c - replicou 
Inchkeith, indicando a Quentin que tirasse os bocados de 
metal das tenazes que tinha nas mos. Quentin avanou, 
procurou com o olhar a aprovao de Durwin, que lhe fez um 
gesto para que continuasse, e pegou neles.
"Bem, agora, que nem te passe pela cabea que eu vou deixar-
te estragar a minha maior obra de arte, senhor. Guiarei as 
tuas mos at ao mais pequeno pormenor. Serei o teu crebro e 
os teus olhos e tu obedecer-me-s em tudo, percebes?
Quentin fez um gesto de cabea em sinal de assentimento e 
ambos meteram mos  obra.
Sob o olhar vigilante de Inchkeith, Quentin pegou no martelo 
e nas tenazes e comeou a entranar o metal ainda malevel, 
passando um pedao por cima do outro e fazendo uma trana 
apertada e direita. Quando acabou, o suor escorria-lhe pelo 
rosto e pelos braos nus. Despira a camisa e a tnica havia 
muito tempo e, naquele momento, trabalhava s com as calas 
vestidas. A trana foi ento lanada para o forno. para o 
meio das brasas, e Quentin foi rodando constantemente o 
ncleo (como Inchkeith lhe chamou). enquanto o armeiro 
manejava o fole, que no parava de chiar.
Dali a pouco, o ncleo voltou a adquirir um brilho branco-
azulado, e Quentin, com o rosto vermelho e corado, puxou-o 
para fora, tirando-O do lume. Pegando ento no ncleo, 
colocou uma das suas extremidades no buraco aberto de um dos 
lados da bigorna dourada e, com as tenazes, comeou a torcer 
a trana.
Torcendo e retorcendo, enrolou e tornou a enrolar at j no 
poder

396

mais. Nessa altura, Inchkeith deixou-o parar e tornou a meter 
a trana nas brasas at esta voltar a ficar branco-azulada.
Foi ento altura de torcer e retorcer uma e outra vez. 
Quentin sentia-se cada vez mais exausto, mas o ritmo do 
trabalho comeou a apossar-se dele e o jovem acabou por 
entrar num estado de abandono, no qual se movia em sintonia 
com os desejos do mestre armeiro. Tanto foi assim que comeou 
a parecer-lhe que era a vontade do mestre armeiro, e no a 
sua, que lhe guiava as mos e os msculos.
A trana foi torcida e retorcida at comear a fundir-se 
devido  tenso exercida pelas voltas que j tinha. Quando se 
fundiu completamente, Inchkeith mandou Quentin cortar o 
ncleo comprido e fino ao meio, pois a operao de torcer e 
retorcer deixara-o quase com o dobro do comprimento. Uma 
metade foi posta de lado e a outra martelada na bigorna 
dourada com o martelo de ouro. De cada vez que Quentin dava 
no ncleo provocava uma chuva de centelhas e um claro 
semelhante a um relmpago.
O ncleo achatado foi aquecido e martelado vezes sem conta, 
at ficar muito fino e muito liso. Nessa altura, foi posto de 
lado para arrefecer, e Toli encarregado de o borrifar vrias 
vezes com gua, para ficar frio mais depressa.
Pegando no bocado de trana que pusera de lado, Quentin 
meteu-a na forja para que voltasse a aquecer, e comeou a 
torc-la, formando uma lmina fina, que tambm foi cortada em 
duas e que, juntamente com a que j estava fria, foi mais uma 
vez metida nas brasas. Enquanto estas operaes prosseguiam, 
Inchkeith explicou que, tal como o entranamento dos bocados 
originais, os repetidos aquecimentos e arrefecimentos do 
metal o temperavam, tornando-o mais forte.
- Portanto, temos a fora de quatro lminas e no s de uma 
palrou ele alegremente. - Era assim que se faziam as 
lendrias espadas de outrora. Ao torcer-se a trana, provoca-
se uma tenso que nunca se desfaz.  esta tenso que faz com 
que a espada salte e cante no ar. Nenhuma lmina forjada e 
alisada pelos mtodos vulgares consegue ser melhor.
Quando as trs peas compridas estavam outra vez a lanar 
centelhas e a arder com um brilho azul, foram novamente 
retiradas do lume. Quentin estava to absorvido pelo trabalho 
que lhe parecia que caminhava

397

num sonho: tudo o que o rodeava esborratava-se, tomando-se 
leve e imaterial. Os seus olhos s viam o chamejante metal 
azul que as suas mos faziam girar.
Depois, as trs peas quentes foram colocadas na bigorna, 
segundo as instrues precisas de Inchkeith. Com marteladas 
rpidas e firmes, Quentin soldou as duas peas arredondadas  
lisa. Esta operao teve como resultado uma pea muito 
comprida e lisa, com uma aresta arredondada a meio. 1nchkeith 
mandou-o, ento, mergulhar o ncleo no poo e deix-lo l at 
ser possvel pegar-lhe  vontade.
Quentin apressou-se a obedecer-lhe, mas foi to distrado que 
quase tropeou nas figuras enroscadas de Durwin e de Toli, 
que, enrolados nas suas capas. dormiam a sono solto.
Passado algum tempo. Inchkeith foi instalar-se ao lado de 
Quentin,  espera.
- Ests a fazer um trabalho de mestre, senhor. Um trabalho de 
mestre. Se no estivesses j ocupado, levava-te comigo para 
te ensinar o ofcio de armeiro. Tens muito jeito. Tambm 
reparei como olhas para o teu trabalho. Sabes do que estou a 
falar, no sabes?
-  verdade. Nunca fiz nada assim, mas  como se sentisse nas 
mos o que o metal quer que eu faa... a, a glria  tua, 
pois sem ti nunca saberia por onde havia de comear. Mas 
quando levanto o martelo e o vejo cair, h uma voz que me diz 
"Bate aqui5... e pronto. Quentin puxou o ncleo do poo. A 
gua escorreu pela superficie azul clara e voltou a deslizar 
para o poo na forma de gotas brilhantes. Ainda no tem muito 
o aspecto de uma espada - comentou Quentin.
- Mas vai ter. Vai ter. O trabalho s agora comeou. Vamos 
ver como funciona este metal. Agora  que !
Inchkeith e Quentin continuaram a trabalhar, parando de vez 
em quando para comerem qualquer coisa ou para descansarem 
durante os poucos momentos mortos que havia. Toli e Durwin 
observavam-nos e proferiam palavras de encorajamento sempre 
que era necessrio, mas, de um modo geral, no se metiam e 
conservavam-se calados, tentando incomodar o menos possvel o 
mestre e o seu ansioso aprendiz.
O reluzente metal foi muito aquecido, arrefecido, martelado e 
modelado. cinzelado, entalhado, batido e polido at a lmina 
de uma espada surgir. por fim, do comprido pedao de metal 
liso.

398

Da placa slida que fora posta de lado fez-se um cabo e um 
punho. Para isso, enrolou-se e alisou-se uma placa, que 
tambm foi torcida e retorcida e, depois, soldada a lmina da 
espada.
Aqueceu-se e tornou-se a aquecer a lmina e, de cada vez, era 
alisada e limada vezes sem conta, com movimentos longos e 
cuidadosos. Inchkeith debruava-se sobre o metal quente e 
guiava os dedos de Quentin para aqui e para ali, apontando 
defeitos mnimos, que s ele conseguia ver. A fora e o 
entusiasmo do jovem aprendiz podiam vacilar de quando em 
quando, mas isso foi coisa que nunca aconteceu ao velho 
mestre. Com elogios, ameaas e muita teimosia, Inchkeith 
incitava Quentin a um trabalho sempre de mais qualidade; uma 
vez, at chegou a pegar nas mos de Quentin e a gui-las no 
trabalho que sabia que tinha de ser feito.
Por fim, ficou acabada.
Exausto, Quentin sentou-se numa grande pedra a contemplar a 
sua obra, que estava pousada na bigorna de ouro. Inchkeith 
examinava-a cuidadosamente, acenando com a cabea e enchendo 
 vez as bochechas de ar. Durwin. e Toli no se viam por lado 
nenhum. Quentin tinha os olhos a arder, mas, embora cansado, 
observava ansiosamente cada pestanejar e cada franzir de 
testa de inchkeith.
Por fim, o mestre arteso virou-se para Quentin, com o rosto 
aberto num grande sorriso e o peito inchado de orgulho:
- Est pronta. - Hesitou, ao ver que Quentin bebia avidamente 
as suas palavras. - E  uma obra de arte.
Quentin ps-se em p de um salto e gritou de alegria.
- Conseguimos! - berrou. - Conseguimos! - Agarrando no 
ancio, comeou a danar em volta da forja onde haviam 
vivido, trabalhado e suado durante o que lhe parecia terem 
sido semanas a fio. O alvio e a alegria daquele momento eram 
to grandes que nem ouviram Durwin e Toli regressarem.
- Essa exibio to indecorosa significa que, por fim, 
acabastes o vosso trabalho? - indagou Durwin, avanando para 
lhes dar umas palmadinhas nas costas. Mas, depois, parou, e 
os seus olhos foram iluminados por um temor reverente. Toli, 
que seguia na sua peugada, tambm parou, comeando a falar na 
sua lngua nativa.
- ... - Durwin calou-se,  procura das palavras que melhor 
definissem

399

o que via. -  de uma beleza assustadora. - As mos voaram-
lhe para o rosto, como se receasse que aquela viso o 
queimasse.
-  a Zhaligkeer - disse Toli. -  a Brilhante.
Quentin tirou-a da bigorna, segurou-a na mo e ergueu-a para 
o cu:
- Esta  a Brilhante do Altssimo. Que ela se mexa como ele 
quiser. Como sou seu servo, que ela se encha do seu poder e 
que os nossos inimigos fujam da sua fria terrivel.
- Que assim seja! - gritaram os outros. Durwin deu um passo 
em frente e tirou um frasco pequeno da bolsa de couro que 
tinha de lado.
- Guardei isto para esta altura.  leo que foi abenoado em 
Dekra. Vou ungir com ele a lmina da Brilhante.
Quentin estendeu os braos, segurando a espada nas palmas das 
mos, e Durwin abriu o frasquinho e derramou o leo sagrado 
por toda a lmina, que brilhou com uma luz clara, azul 
prateada.
Na verdade. a espada era de uma beleza assustadora. Comprida 
e fina, ia afunilando quase imperceptivelmente ao longo da 
sua superfcie regular e imaculada, at formar um ponto 
brilhante. O punho cintilava como se fosse feito de pedras 
preciosas.
Enquanto derramava o leo, Durwin abenoou a espada, dizendo:
- Nunca por maldade, nunca por dio, nunca em prol do mal 
ser esta lmina erguida, mas na rectido e na justia 
brilhar para sempre. - Com os dedos, esfregou o leo na 
lmina finamente trabalhada.
Ao tocar no brilhante metal, Durwin sentiu-se atravessado 
pelo poder do lanthanil. e foi como se os anos tivessem 
recuado: maravilhava-o a sensao de voltar a ser rapaz, pois 
acabara por se habituar s numerosas dores que o afligiam. 
Quando se virou para os outros, era o mesmo Durwin de sempre, 
mas o seu aspecto mudara muito. Parecia mais sensato, mais 
forte e mais nobre do que antes. Ao ver a sbita mudana 
operada no eremita, Inchkeith mostrou um certo ar de alarme, 
mas Durwin, apontando para ele o dedo comprido, soltou uma 
gargalhada:
- Olha, Inchkeith, meu amigo. Estou a ver que o encantamento 
da lmina tambm agiu sobre ti.
Aterrado. Inchkeith tartamudeou:
- O qu? Eu nunca toquei na pedra nem na lmina. O que  que 
ests para a a dizer?

400

Quentin olhou para o armeiro corcunda e viu que ele estava 
direito-, parecia que crescera. Como e quando acontecera, no 
sabia. Quando o mestre colocara as suas mos sobre as de 
Quentin, talvez o poder tivesse passado para ele, mas o facto 
era que haviam estado to concentrados no seu trabalho que 
no tinham reparado em nada at Durwin lho dizer.
-  verdade! - gritou Quentin. - Ests curado, Inchkeith! 
Ests direito!
Uma expresso de espanto e incredulidade brilhou no rosto do 
arteso, que endireitou os ombros e levantou a cabea. 
Inchkeith ainda levou algum tempo a acreditar que a sua 
corcunda desaparecera, mas, quando finalmente se rendeu s 
evidncias, deixou-se cair de joelhos e comeou a chorar.
- Foi o teu deus, Durwin! - gritou, com lgrimas de 
felicidade escorrendo-lhe pelo rosto. - Agora, acredito. 
Acredito em tudo o que sempre me disseste sobre ele. 
Abenoado  o Altssimo. De hoje em diante, serei o seu 
servo.
Todos eles rejubilaram e as suas vozes ecoaram na grande 
caverna abobadada. Os sales dos Ariga, nas profundezas das 
montanhas, foram atravessados por sons de alegria que j no 
se ouviam havia dois mil anos.

CAPTULO LII

Quando Ronsard chegou  barbac da entrada, deu com os 
olhares preocupados dos seus homens e de Rudd.
- O que foi? - perguntou. - Porqu o alarme?
- Fui eu que mandei - explicou Rudd. - Olha ali para baixo. 
Esto a subir a rampa com uma mquina qualquer.
Ronsard olhou para baixo e viu que o que Rudd dissera era 
verdade: mais de duzentos Ningaal, equipados com cordas e 
estacas, esforavam-se arduamente por arrastar uma mquina 
enorme pela rampa acima. O arete fora retirado e ia ser 
substitudo  frente das portas por aquele objecto pesado, 
que se movimentava sobre rodas e que os Ningaal puxavam com 
grande esforo.
- O que ? - perguntou um Ronsard perplexo. - Nunca vi nada 
assim.
- Nem eu, mas digo-te que, seja o que for, no me agrada nada 
o seu aspecto.
- Manda os archeiros estorvarem-nos o mais possvel. No 
tenho dvidas de que o melhor seria que aquilo nunca chegasse 
aos portes. Vou buscar o Biorkis; quero que ele d uma 
olhada. Desconfio de que aquela coisa pertence mais ao foro 
dele do que ao nosso.
Dali a pouco, o comandante-chefe regressava s ameias, 
arrastando atrs de si um sacerdote renitente.
- Que pensas que  aquilo? - perguntou Ronsard, espreitando 
por cima das muralhas de pedra para a actividade que se 
desenrolava l em baixo.

402

- Na verdade,  uma mquina muito estranha' - disse Biorkis, 
cofiando a barba entranada. - Muito estranha!
Os seus olhos velhos fitavam o enorme objecto preto que subia 
vagarosamente a comprida ladeira, sob uma chuva de setas.
A luz do Sol. a sua pele preta mostrava um brilho bao e 
tinha dois grandes braos estendidos para diante, com as 
palmas viradas para cima, como se fosse receber as splicas 
dos habitantes do castelo. Tinha o tronco de um homem e uma 
perna para a frente, dobrada pelo joelho, e a outra esticada 
para trs. Mas, a seguir ao tamanho. as caractersticas que 
mais chamavam a ateno eram a cabea e a juba de uin leo e 
a boca aberta de um chacal, com as presas afiadas mostrando-
se num furioso e imvel rugido de raiva. Dois enormes chifres 
pretos saam-lhe de ambos os lados da horrorosa cabea negra 
e, enquanto avanava, gemendo sob o seu peso imenso, os seus 
olhos fitavam furiosamente o vazio.
Os archeiros de Ronsard estavam a causar muita consternao 
entre o inimigo. mas no tanta como ele gostaria. pois logo 
que um dos Xingaal que puxavam as cordas tombava, um outro 
saltava para o substituir. Dali a pouco, os inimigos que iam 
 frente passaram a dispor de escudos, que puseram em cima da 
cabea, para se protegereni daquela chuva mortal. Assim, as 
flechas comearam a cair inofensivamente, s de vez em quando 
causando feridas mortais. Ronsard mandou os archeiros pararem 
de atirar, mas permanecerem alerta para qualquer alvo que se 
mostrasse mais descuidado. E aquela coisa continuou a 
avanar.
- Ento? - perguntou Ronsard. - O que dizes, Biorkis?
- Sem dvida que  uma espcie de dolo. Mas no sei a que 
deus. Nunca o tinha visto, e o que mais me intriga  o 
seguinte: que dolo  este que  levado para a guerra para 
combater os homens? Que deus adoram estes Ningaal?
- Porque  que isso te intriga? Sabes muito bem que os homens 
esto sempre a pedir aos seus deuses que os conduzam na 
guerra e que lhes dem a vitria. Isto  o mesmo, s que um 
bocadinho mais bvio.
- Sim,  o mesmo e no . Isto  mais prin-tivo e mais 
selvagem.  profano e mau. At ofende os deuses da terra e do 
cu. Pertence a

403

um tempo e a um lugar distantes, a um passado mais negro.  o 
mal e gera o mal.
- Mas tem algum poder? - inquiriu Ronsard. Biorkis fitou-o 
com um olhar estranho. - Isto , tem algum poder em si?
Biorkis meditou um pouco, antes de responder:
- No posso ter a certeza. A tua pergunta  mais difcil do 
que imaginas. - Cofiando a barba branca, contemplou aquela 
monstruosidade.
"Um dolo  s madeira ou pedra - continuou o sacerdote.
-  a imagem do deus que representa. Normalmente, as imagens 
s tm poder para aqueles que as veneram: mas, ento, o poder 
pode ser realmente muito grande.
- Esta tem poder - disse uma voz spera atrs deles. Ronsard 
e Biorkis viraram-se e deram com os olhos em Myrmior. - E,  
verdade,  o mal. Conheo-a bem, pois vi-a muitas vezes em 
funcionamento. Trata-se de um dolo, mas com um objectivo 
muito mais engenhoso e frio do que suspeitais. , sobretudo, 
uma mquina de guerra, conhecida noutras terras por 
pyrinbradam, cospe fogo.
Um brilho de compreenso iluminou os olhos de Ronsard:
Se isso  verdade, vou mandar trazer gua c para cima.
 melhor - assentiu Myrmior. - As peles molhadas, se as 
houver, tambm podem dar uma boa proteco.
Ronsard mandou os seus oficiais transmitirem as suas ordens e 
zelarem pelo seu cumprimento: os portes deviam ser molhados 
com gua e tapados com peles encharcadas, num esforo para 
reduzir a capacidade de inflamarem.
- No podemos fazer mais nada? - indagou.
- S esperar. Esperar e rezar - murmurou Myrmior.

A espera comeou e prolongou-se por doze dias. E, durante 
cada um desses dias, trabalhou-se incessantemente, iando-se 
baldes de gua at ao cimo da ponte levadia e, depois, 
despejando-os por cima das grandes tbuas de madeira. A gua 
escorria pelos portes de dia e de noite e as peles de gado 
eram encharcadas, abertas, retiradas e novamente encharcadas 
e abertas.
O dolo cospe-fogo lanava chamas da boca e das narinas numa

404

torrente infindvel, queimando madeiras e pedras e aquecendo 
os metais at estes luzirem com um brilho avermelhado. Para 
alimentarem o monstro que permanecia s portas do castelo, os 
Ningaal desfaziam as casas dos habitantes da cidade e 
lanavam numa cavidade aberta na base do dolo a madeira e o 
leo que faziam com que as chamas e as centelhas lhe sassem 
da boca em brasa.
Ao fim da tarde do dcimo terceiro dia, um oficial aproximou-
se timidamente de Ronsard- Cansado e temeroso, o cavaleiro, 
apoiado no brao. observava o combate entre as chamas e a  
ua. Tratava-se de um conflito do qual resultavam inmeras 
nuvens de vapor branco.
- Meu senhor Ronsard, eu... - o homem hesitou e calou-se. 
Ronsard virou os olhos cansados para ele.
- Sim? Diz o que quiseres, menos que estamos a ficar sem 
gua.
Era um pensamento que lhe ocorrera muitas vezes.
O homem empalideceu e ficou de boca aberta.
- Por Azrael! Estava a brincar! Fala, homem!
- O que se passa? - perguntou Theido, aproximando-se a passos 
largos para render Ronsard no seu posto. Estava retemperado, 
descansado, com os olhos alerta e a voz confiante.
-  o que estou a tentar descobrir, senhor - retorquiu 
Ronsard em voz rouca. - Parece que as novas que traz o 
deixaram sem voz.
- Ento? Fala, senhor. Somos suficientemente fortes para 
ouvirmos o que tendes a dizer. - Theido olhou furiosamente 
para o oficial e cruzou Os braos compridos sobre o peito.
O homem lambeu os lbios e abriu a boca, mas ainda se passou 
algum tempo at lhe sarem algumas palavras, que pronunciou 
numa grande salgalhada:
- O meu senhor Rudd mandou-me... a gua...  muito pouca... 
no aguentamos mais uma noite.
No precisando de ouvir mais, Ronsard mandou o homem embora.
- Agora  que no ternos hipteses! O que vamos fazer? 
Esperamos at as nossas portas carem em chamas ou at 
morrermos de sede? O que aconteceria primeiro?
- Ainda temos a nossa coragem. Levmos muito tempo a aceitar 
esta ameaa, e essa pode ter sido a nossa desgraa. Tenho uma 
ideia em que j devia ter pensado h mais tempo, mas que 
talvez ainda d

405

resultado. Manda depressa alguns dos teus homens trazerem 
cordas e ganchos. Diz-lhes para se despacharem e para 
trazerem tudo o que encontrarem. O tempo  escasso.
Theido foi pr-se na barbac, directamente por cima do dolo 
euspidor de chamas. Depois de encharcar uma corda comprida em 
gua, atou-lhe um gancho com trs dentes a uma extremidade e, 
debruando-se o mais possvel sobre a muralha. seguro apenas 
pelos braos de ao de Myrmior e de Ronsard, baixou o gancho 
at ao monstro. Quando viram a comprida corda serpenteando 
pela muralha do castelo abaixo, os Ningaal, adivinhando o seu 
objectivo, rugiram de raiva.
Depois de vrias tentativas em vo, Theido deu balano ao 
gancho e, por sorte, conseguiu prend-lo numa das presas de 
ferro do dolo. Chamou ento vrios homens para pegarem na 
corda e a esticarem e preparou outra. Dali a uma hora, tinha 
outro gancho alojado nos chifres do monstro. Ao verem-se 
incapazes de impedir o que temiam vir a acontecer, os Ningaal 
entraram num alvoroo frentico. Quando uma terceira corda e, 
depois, uma quarta apanharam o monstro do fogo, gritaram de 
frustrao.
- j deve chegar - disse Theido, regressando  segurana do 
cho das ameias exactamente a tempo, pois os enfurecidos 
Ningaal haviam comeado a lanar pedras e projcteis em 
chamas com fisgas e catapultas.
- Achas que funcionar? - perguntou Myrmior, olhando 
desconfiadamente para a teia de cordas e ganchos de Theido.
-j vamos ver. No tenho nenhuma ideia melhor.
- Ento, esperemos que esta no falhe - disse Ronsard, 
fazendo sinal aos homens que seguravam nas cordas, e que, ao 
todo, eram trezentos, para comearem a puxar. Estes, com um 
poderoso gemido, fizeram todos fora ao mesmo tempo. Ao verem 
as cordas esticadas, os enfurecidos Ningaal lanaram um 
rugido aterrador.
- Fora, homens! - gritou Ronsard. - Fora!
Alguns inimigos, desafiando as flechas que, de vez em quando, 
ainda assobiavam pelos ares, atiraram cordas por cima das que 
Theido prendera ao dolo e comearam a trepar por elas acima 
como aranhas., armados com facas que transportavam nos 
dentes, na esperana de

406

conseguirem cortar as cordas que prendiam o seu deus cuspidor 
de fogo e que ameaavam faz-lo tombar.
Os archeiros do rei conseguiram manter desocupadas as cordas 
dos Ningaal, mas o feito saiu-lhes caro, pois os chefes 
guerreiros surgiram em cena para comandarem as tentativas de 
salvao da sua mquina em perigo. O seu primeiro acto foi 
ordenar que se enchessem as catapultas com carves em brasa 
tirados do dolo, para, depois. serem lanados contra os 
rostos dos archeiros.
O resultado foi que muitos deles tombaram aos gritos, depois 
de terem sido atingidos pelas brasas.
Entretanto, as cordas eram puxadas com toda a fora. mas a 
imagem de ferro nem se mexia. Mandaram-se mais trezentos 
homens para as ameias e arranjou-se maneira de os acomodar 
nas cordas. Os soldados puxaram o mais que podiam, at as 
suas mos ensanguentarem as grossas cordas, mas o dolo 
continuou de p.
- No pode ser assim - observou Myrmior. - Precisamos de mais 
cordas.
- No temos mais - informou Theido. - Pelo menos, no do 
comprimento que precisamos.
- Ento, temos de as atar umas s outras e, se for 
necessrio, tambm usaremos as nossas capas e as nossas 
calas. Se tivermos mais cordas, o teu plano dar resultado.
- Esperai! Tenho uma ideia - anunciou Ronsard. - E se 
usssemos correntes? L em baixo, na casa da guarda, h 
correntes muito compridas. Vamos atar as cordas s correntes 
e as correntes ao sarilho e ao contrapeso da ponte levadia.
- Poderemos fazer isso? - indagou Theido. - Se calhar, assim 
desengatamos a ponte levadia.
-  um risco que temos de correr. Mandai chamar o guarda das 
porias!
A proposta de Ronsard foi levada a cabo sem grande 
dificuldade. A macia ponte levadia de Askelon era operada, 
no por um mas por dois sarilhos e por um sistema de 
contrapesos. Soltar a corrente, juntar as cordas e pass-las 
por um grande anel de ferro foi coisa que no demorou muito 
tempo. Depois., j com os contrapesos novamente em posio, 
uma dezena de homens musculosos comeou a rodar o sarilho.

407

A corrente enrolou-se no sarilho e desapareceu por um buraco 
aberto no cho de pedra da casa da guarda. Theido e Ronsard 
correram novamente para as ameias, pois queriam ver o 
resultado dos seus esforos.
- Funciona! - gritou _Myrmior, quando eles chegaram a ofegar. 
Sois uns gnios! Funciona! Que os deuses sejam louvados !
Olhando para baixo, viram as cordas esticadas puxando para 
cima o dolo. que vacilava muito ligeiramente.
- S espero que as cordas aguentem - disse Theido.
- Ho-de aguentar... vers - replicou Myrmior. - Tenho o 
pressentimento de que ho-de aguentar.
Logo que Myrmior acabou de falar. os factos quase o 
contradisseram. Uma das cordas rebentou e a ponta assobiou no 
ar e chicoteou quatro Ningaal, fazendo-os cair ao cho.
- Trazei-me sebo! - gritou Theido.
- Parai de puxar - berrou Ronsard. Os homens do sarilho 
obedeceram  ordem do comandante-chefe e a corrente 
imobilizou-se.
Com o sebo. transportado em baldes da casa da guarda. 
untaram-se as cordas e a ameia de pedra por onde estas 
passavam. Depois, puseram-se dois homens a untar as cordas de 
cada vez que estas roavam na pedra, e o sarilho recomeou a 
rodar.
Dali a pouco, o dolo cuspidor de fogo ergueu-se do cho e 
comeou a baloiar lentamente em direco aos portes. Quando 
a enorme imagem de ferro bateu na ponte levadia, ouviu-se um 
estrondo tremendo e o fumo subiu pelas muralhas. fazendo 
arder os olhos dos homens que estavam nas ameias.
- Continuai a rodar! - gritou Ronsard para os homens que 
manobravam o sarilho. O pyrinbradam subiu lentamente a ponte 
levadia, com o focinho encostado s tbuas, que comearam a 
fumegar.
- As portas esto a arder' - gritou uma voz vinda l de 
baixo.
Ronsard lanou um olhar rpido a Myrmior e a Theido:
- Foi coisa que no previ.
- Agora, no esmoreas - retorquiu Myrmior. - Continua a 
seguir o teu plano.
- Sim, s mais um bocadinho - concordou Theido, espreitando 
por cima das ameias.

408

- Trazei gua para os portes! - ordenou Ronsard aos berros.
- Continuai a rodar!
Para apagar o fogo que deflagrara, esvaziou-se mais gua pelo 
lado de fora dos portes. Juntamente com o fumo negro das 
chamas, ergueram-se colunas de vapor branco.
0 dolo subiu mais um pouco e parou. Os homens do sarilho 
fizeram mais fora e este estalou.
- A maldita coisa est presa, mas no consigo ver aonde - 
gritou Theido.
- Continuai a rodar, que talvez ela se solte - sugeriu 
Myrmior.
- Mais homens para o sarilho! Continuai a rodar - ordenou 
Ronsard.
juntaram-se mais dez homens fortes aos que j estavam no 
sarilho, e todos aplicaram nele as suas foras. O sarilho 
estalou num ruidoso queixume e as cordas esticaram-se, mas 
nem um elo da corrente se mexeu.
_ No est a dar nada - informou Theido. - Manda-os parar. Os 
portes incendiaram-se outra vez.
Quando Ronsard ia a transmitir as ordens para baixo, ouviu-se 
um silvo, as cordas cederam e houve um estrondo enorme. Todos 
correram para as ameias, de onde viram o monstro cuspidor de 
fogo vacilando na borda da rampa. Com a tenso, as cordas 
tinham rebentado, deixando a imagem de ferro cair ao cho, e 
esta rolara at  borda da rampa, estando, naquele momento, 
em perigo de tombar para dentro do fosso seco.
Vendo isto, os homens do rei comearam a soltar vivas, 
incitando o monstro a ir ao encontro da sua prpria 
destruio. Os guerreiros Ningaal, meio loucos de clera, 
saltaram para as cordas suspensas da imagem, na tentativa de 
a fazerem recuar. Ao princpio, pareceu que iam conseguir 
faz-lo.
O dolo endireitou-se e, apesar de ter duas das suas seis 
enormes rodas girando no vazio, deixou de rolar. Centenas de 
Ningaal formigavam junto das cordas, puxando a imagem para 
trs. Os vivas das ameias cessaram.
- Bem, acabou-se - suspirou Theido. - No estamos melhor do 
que antes.

409

- Foi uma boa ideia, meu amigo - consolou o Ronsard. - Quase 
deu resultado. Pelo menos, no deixmos o monstro destruir os 
nossos portes sem lhe darmos luta.
Os inimigos tinham colocado traves compridas por baixo das 
rodas e estavam a tentar fazer oscilar a pesada imagem, de 
modo a poderem puxar as rodas de trs novamente para a rampa. 
Mas este movimento soltou um dos ganchos de Theido, que se 
desprendeu.
- Vede! - gritou Myrmior. - Estamos salvos'
Ronsard e Theido viraram-se a tempo de verem cinquenta homens 
caindo pela rampa abaixo, agarrando a ponta da corda solta. O 
estico produzido fez com que a gigantesca esttua 
cambaleasse violentamente, vacilasse e, finalmente, 
mergulhasse no fosso, arrastando na sua queda cem homens que 
ainda estavam agarrados s cordas.
Cuspindo fogo, o terrvel dolo girou lentamente no ar, 
seguido pelas serpenteantes cordas, s quais os homens se 
agarravam como insectos, tentando fugir  morte. O dolo 
bateu com a horrenda cabea no cho e esmigalhou-se no meio 
de uma chuva de centelhas; ao partir-se, um dos braos abriu-
lhe um grande buraco no peito, por onde saltaram as chamas, o 
que mostrou aos que observavam tudo das ameias que o monstro 
estava completamente liquidado, o mesmo acontecendo a muitos 
dos seus miserveis guardies.
- J podemos lutar mais um dia! - gritou Ronsard alegremente.
-  verdade, mas quantos mais dias duraremos sem gua? - 
perguntou Theido, com o curto triunfo morrendo-lhe nos olhos 
e ficando com as feies ensombradas por uma nuvem negra de 
desespero.

CAPTULO LIII

O conselho estava a decorrer nos aposentos de Eskevar. O rei, 
sentado na cama, carregava furiosamente o cenho e lanava 
perguntas rpidas aos seus conselheiros. Embora estivesse 
mais magro e plido do que nunca, os seus olhos arderam 
apaixonadamente e as suas mos no tremeram quando abanou o 
dedo no ar:
- Isto no  bom! - gritou. - No temos outro remdio seno 
dar-lhes combate na plancie. O cerco acabar por nos matar, 
fazendo-nos tombar de sede.
- Ainda temos um pouco de gua, Majestade - informou 
timidamente um guarda.
- Quanta?
- D para trs ou quatro dias.
- Portanto, podemos prolongar a nossa agonia por esse tempo. 
No, no quero ver soldados enfraquecidos pela sede tentando 
retardar a queda de Askelon. Se Askelon cair, ser no campo 
de batalha. Se o fim tiver de vir, que venha, mas no 
percamos a coragem e morramos de espada na mo.
"Pelo menos, podemos proporcionar a estes brbaros um combate 
que ho-de recordar por muito tempo. Mesmo que todos ns 
pereamos, esse Nin h-de arrepender-se do dia em que ps os 
ps no solo de Mensandor.
Este inflamado discurso do rei animou muito vrios dos nobres 
ali presentes. Rudd, Benniot e Fincher tinham-se tornado 
impacientes durante o cerco. No sendo homens temerosos 
ansiavam por pegar em

412

armas e enfrentar o inimigo numa competio justa, que, 
alis, no tinha nada de justo e nem sequer de competio, 
pois, como era sabido, as foras do rei estavam em grande 
desvantagem. No entanto, atraa-os a ideia de irem de uma vez 
por todas para um combate digno de homens corajosos. Estavam 
prontos para lutar.
- O que dizem os outros? - perguntou Rudd, depois de ele e os 
seus partidrios terem dado o seu apoio ao plano do rei. 
Theido ainda demorou a comear a falar, mas, quando deu um 
passo em frente, todos os olhos se viraram para ele:
- Majestade, a vossa proposta  o ltimo acto desesperado de 
homens desesperados. Creio que ainda no chegmos a esse 
ponto. Sugiro que esperemos mais uns dias. Pode acontecer 
muita coisa durante esse tempo e, entretanto, estamos seguros 
dentro destes portes. Os Ningaal fizeram o que podiam e 
fracassaram. Se esperarmos um pouco, talvez ainda os 
consigamos vencer.
- 0 tempo de espera acabou! Agora,  tempo de agir. j 
espermos estes dias todos, e nem por isso estamos em melhor 
situao. Por mim, estou com o rei: j que no temos outra 
opo, combatamos e morramos como homens. - Rudd passeou um 
olhar desafiador pelo aposento. O seu tom de voz destemido 
f-lo ganhar muitos apoiantes.
- Sinto-me tentado a concordar contigo, Rudd - disse Ronsard. 
- E, quando chegar a altura de combater corpo a corpo com o 
inimi90, encontrar-me-s na primeira linha. Mas talvez no 
seja mau esperarmos. Trs ou quatro dias podem significar 
muito. Os senhores do Norte ainda podem aparecer a qualquer 
altura, e  bom estarmos preparados para o caso de isso 
acontecer.
"Por mim, sugiro que nos preparemos para a batalha, mas que 
esperemos at esta ser inevitvel. - A lgica de Ronsard 
arrefeceu muitos nimos j em picos para correrem a combater 
naquele mesmo momento.
- O que dizes, Myrmior? - perguntou Eskevar. - Os teus 
conselhos tm sido preciosos nestes ltimos dias. Fala. Diz-
nos o que pensas que deveramos fazer.
Myrmior olhou tristemente para o rei e para os que o 
rodeavam. Os seus grandes olhos escuros pareciam poos de dor 
e a mgoa perpassava-lhe a voz profunda:

413

- No tenho conselhos a dar, Majestade. Apesar de ter dito 
tudo o que achei melhor. estamos nesta situao extrema. Em 
vez de falar mais, tomarei o meu lugar ao lado destes homens 
dignos de serem chamados vossos sbditos leais e com eles 
erguerei a minha espada contra o odiado inimigo.
O efeito provocado pelas palavras de Myrmior foi como o 
anncio da condenao final. Em poucas palavras, dissera o 
que a maior parte deles pensava mas se recusava a verbalizar: 
"No h esperanas. Temos de preparar-nos para morrer."
- Vossa Majestade, no nos precipitemos - interveio Theido, 
aproximando-se do leito real. - Recolhamo-nos por algum tempo 
e, antes de tomarmos qualquer deciso, ouamos bem os nossos 
coraes.
Rudd tambm avanou, gritando:
- E eu digo que no devemos esperar. Cada dia a mais 
contribuir para o enfraquecimento dos nossos homens e para a 
diminuio das nossas hipteses de vencermos.  chegada a 
altura de atacarmos!
O silncio caiu sobre o aposento. Todos fitaram o rei, na 
expectativa do que ele iria fazer.
- Nobres senhores - comeou gravemente -, no quero obrigar-
vos a tomardes nenhuma deciso, mas tambm no quero 
sobrecarregar-vos com uma espera que pode enfraquecer o nimo 
de um homem.
Todos o observavam intensamente. Ao reparar na posio do 
queixo do Rei Drago, Theido soube o que este ia dizer a 
seguir, mesmo antes de se ouvirem as suas palavras:
- Portanto, amanh faremos uma surtida ao encontro do 
inimigo, para, pelo menos, termos o factor surpresa do nosso 
lado. Agora, ide para junto dos vossos homens, que devem 
estar bem alimentados e a postos. Amanh ao fim da tarde 
conduzi-los-ei para a batalha.
Os senhores de Mensandor soltaram murmrios de aprovao e 
saram imediatamente, para comearem a preparar-se. Theido e 
Ronsard deixaram-se ficar e ainda tentaram convencer o rei a 
mudar de ideias, mas este fez ouvidos de mercador e mandou-os 
embora. Depois de eles terem sado, a rainha Alinea entrou, 
para passar uma ltima noite ao lado do seu rei.

414

Eskevar escolhera o fim da tarde para atacar, porque as suas 
sentinelas o tinham informado que, a essas horas, o inimigo 
reduzia a sua vigilncia nos portes de trs, enquanto tomava 
a sua refeio da noite. Tratava-se de uma jogada ousada e 
inteligente, pois era natural que se partisse do princpio de 
que, se houvesse algum ataque da parte dos habitantes do 
castelo, este se faria pelos portes principais. Por isso. 
numa jogada de antecipao, fora l que os guerreiros haviam 
disposto a maior parte das suas foras, visto que o porto de 
trs era mais pequeno e dava para uma rampa inclinada, 
muralhada e estreita, que s dava passagem a trs cavaleiros 
de cada vez.
Tomando tudo isto em considerao, Eskevar decidira que a 
situao lhe era favorvel. Com tal manobra, conseguiria uma 
certa surpresa e apanharia os Ningaal desprotegidos e em m 
posio para iniciarem uma batalha. Claro que acorreriam 
rapidamente mal ouvissem o chamamento s armas, mas, por essa 
altura, se tudo corresse bem, j Eskevar teria liquidado um 
bom nmero de inimigos e disposto os seus homens na plancie.
O rei Drago e o seu exrcito passaram o dia a preparar-se e 
a colocar homens e cavalos em posies que lhes permitissem 
atravessar o mais rapidamente possvel os ptios e os portes 
das traseiras.
Quando tudo ficou pronto, o silncio caiu nos ptios onde os 
homens esperavam. O sol, na forma de uma grande bola 
carmesim, punha-se a ocidente e, a leste, a Estrela do Lobo 
brilhava intensamente, banhando com a sua luz fria e spera 
todos os que se encolhiam debaixo dela. Os aldees e os 
camponeses acorriam a despedir-se dos seus campees e a rezar 
pela vitria a todos os deuses que conheciam. As mulheres 
choravam e beijavam os bravos cavaleiros; os cavalos 
relinchavam e batiam com os cascos no cho: as crianas, de 
p, com os olhos muito abertos, fitavam os homens de 
armaduras reluzentes.
Do outro lado do ptio, gerou-se uma certa agitao. Os que 
estavam mais perto, virando o pescoo, viram a bandeira do 
Rei Drago desfraldada no seu estandarte, agitando-se ao 
vento  medida que avanavam pelo caminho que se abria  sua 
frente.
Depois, viram o prprio rei, sentado direito num corcel de um 
branco de leite, que se empinava a trote na direco dos 
portes.
Por cima da armadura prateada, o rei envergava uma capa azul

415

com o emblema do drago bordado a ouro. -No elmo, levava 
apenas o simples aro de ouro da coroa.  sua esquerda e  sua 
direita seguiam dois sombrios cavaleiros. que olhavam 
resolutamente em frente. Um deles ia montado num cavalo preto 
e o outro num alazo. O escudo do primeiro mostrava a 
insgnia do falco: o braso do outro apresentava um punho 
enluvado segurando uma clava e um malho.
Atrs deles cavalgava Mvrmior,
, que, segundo o costume do seu povo, no usava armadura e 
empunhava apenas um escudo redondo e leve e uma espada curta, 
e que Ronsard conseguira convencer a envergar caneleiras e um 
braal no brao da espada, mas que se recusara a pr um elmo, 
argumentando que era impossvel ver atravs de semelhante 
panela de ferro.
Seguidos por vrias fileiras de nobres e cavaleiros, 
cavalgando trs a trs, atravessaram o ptio e dirigiram-se 
para o porto. Quando chegaram s suas posies, o rei 
levantou a mo e o cortejo parou. Eskevar olhou para o guarda 
que, espreitando da barbac, fez um gesto de assentimento com 
a cabea, querendo significar que os Ningaal se tinham 
afastado do porto, deixando de vigia apenas uma pequena 
fora. Ento, Eskevar, com o rosto cinzento e duro e os olhos 
brilhando friamente  luz nefasta da estrela, desembainhou a 
espada com a mo direita. A lmina sussurrou docemente ao 
deslizar pela bainha, mas foi um som que encheu o ptio 
quando este gesto se repetiu mil vezes-
Quando a pesada porta de ferro se levantou e se pousou a 
tbua sobre o fosso seco, o Rei Drago avanou para a 
batalha.

Os Ningaal colocados junto do porto traseiro estavam 
espalhados como palha numa eira. Vrios deles, 
suficientemente loucos para empunharem as armas, foram 
abatidos mesmo antes de levantarem a mo; os outros desataram 
a correr, gritando que os defensores do castelo tinham sado 
e corriam em sua perseguio.
Eskevar voltou o ataque, no para a cidade, onde se 
encontrava o grosso das foras inimigas, mas para o cordo 
humano que se formara em volta do castelo. Pelo que ficou 
provado, foi uma boa tctica, pois os cavaleiros em tropel 
derrotaram facilmente o inimigo desprevenido e dispersaram 
muitos homens que, caso contrrio, poderiam ter formado uma 
segunda frente de batalha.

416

Mas, logo que o fizeram, os cavaleiros tiveram de dar meia 
volta para enfrentarem a carga que surgia de trs, vinda do 
outro lado da rocha sobre a qual se erguia o castelo.
O exrcito de Eskevar aguentou o embate deste ataque feito  
pressa e atravessou para o outro lado com poucas baixas, 
continuando rapidamente em frente, com o fito de atacar o 
maior dos muitos acampamentos dos Ningaal, onde vrios 
milhares de soldados se tinham reunido para comerem e 
passarem a noite.
A viso de trs mil cavaleiros carregando atravs do seu 
acampamento, fez com que os seus espritos brbaros deixassem 
de pensar em comer e em dormir, e o aquartelamento 
transformou-se instantaneamente num borbulhante caldeiro de 
confuso e terror.
Os Ningaal foram apanhados desprevenidos. pois o alarme no 
lhes chegara antes do feroz ataque dos cavaleiros. Dali a 
pouco, o cenrio era de fogo e sangue, cavalos empinados e 
espadeiradas. Muitos Ningaal preferiram fugir do acampamento 
a enfrentar a impiedosa justia das espadas do rei. Por um 
breve instante, pareceu aos defensores que os Ningaal iam ser 
dominados e esmagados.
Mas essa ideia desvaneceu-se com o aparecimento de dois 
comandantes montados nos seus cavalos pretos, que, com uma 
calma impassvel, reuniam as suas tropas em pnico.
Os cavaleiros tinham rodeado o acampamento. avanando, 
depois, at ao meio. Ao ver os comandantes juntando os seus 
regimentos desbaratados, Eskevar mandou uma companhia de 
cavaleiros ao seu encontro, na tentativa de eliminar uma 
oposio que poderia materializar-se em fora. O resto do 
exrcito continuou a lutar por manter os confusos Ningaal em 
fuga, no lhes dando tempo a convergirem para uma frente 
unificada.
Mas, num abrir e fechar de olhos, o corpo de cavaleiros que 
rodeava o acampamento foi, por sua vez, cercado por inimigos 
aos berros, comandados pelos outros dois chefes guerreiros. 
Empurrando os cavaleiros para o meio do crculo, os Ningaal 
conseguiram diminuir o seu dimetro por pura superioridade 
numrica. Parecia que, independentemente do nmero de 
inimigos mortos, havia sempre mais do que antes.
Eskevar percebeu que a sua posio era indefensvel. Com 
Theido a direita e Ronsard  esquerda, o Rei Drago conduziu 
uma carga fulminante

417

contra uma seco mais fraca do crculo. Houve um embate 
tremendo, e muitos cavaleiros caram contra a muralha de 
machados dos Ningaal para nunca mais se levantarem. Mas o 
crculo esticou e quebrou e o Rei Drago conduziu os seus 
soldados para a plancie.
Quando chegaram ao centro do terreno, a meia lgua do 
castelo, Eskevar parou e virou-se para enfrentar o inimigo, 
que, naquela altura, estava a reunir-se para o assalto final.

CAPTULO LIV

Percebendo que a vitria estava nas suas mos, os chefes 
guerreiros no se apressaram a atacar. Sem precipitaes, 
foram reunindo as suas foras e ordenando as tropas para o 
conflito final, o que tambm deu ao Rei Drago tempo para 
dispor os seus cavaleiros, alinhando-os em intrpidas 
fileiras, em volta de dezenas de homens a p com chuos e 
lanas, que tinham vindo do castelo para se lhes juntarem.
O primeiro embate com os Ningaal foi dar com o Rei Drago a 
postos, na primeira linha do seu exrcito. Aos berros, 
fazendo girar os seus machados de batalha, os inimigos, 
conduzidos por dois comandantes, lanaram-se contra as foras 
do Rei Drago a partir da parte superior da plancie. Os 
outros dois chefes mantiveram de reserva uma grande parte do 
seu repugnante bando.
Amut e Luhak, que acompanhavam a carga, embateram numa 
muralha de ao. Lutando com uma fora nascida do desespero, 
os cavaleiros do Rei Drago no s se aguentaram contra a 
terrvel guarda pessoal dos comandantes inimigos como ainda 
lhe provocaram muitas baixas. Ento, os Ningaal, com 
machados, entraram pelo campo de batalha como uma inundao 
provocada pela tempestade, mas, embora desferissem golpes 
terrveis nas armaduras dos cavaleiros com as suas cruis 
lminas, os defensores conseguiram aguentar-se.
Ao cabo de uma hora, no meio dos vivas dos cavaleiros, os 
guerreiros recuaram, deixando o campo de batalha escurecido 
pelo sangue dos seus mortos.

420

Theido, montado no seu cavalo,  direita do rei, levantou a 
viseira e contemplou o campo de batalha:
- Tommos bem conta de ns - disse. - Alm disso, no 
sofremos muitas baixas.
- Um homem j  de mais, bom amigo - replicou Ronsard, 
montado  esquerda do rei. - Se for preciso, eles liquidam-
nos um a um, at no ficar ningum de p.
- Por Azrael! - exclamou Eskevar. - S assim tomaro Askelon. 
Mas ainda no estamos derrotados. Longe disso. E tenho um 
plano que talvez os confunda. Theido, rene os nossos 
comandantes. Quero falar com eles antes do prximo ataque.
Encontraram-se no campo de batalha e o rei falou 
apressadamente, acabando mesmo quando a crescente algazarra 
provocada pelo avano do inimigo voltou a cruzar os ares. Na 
altura em que os Ningaal se aproximaram dos defensores pela 
segunda vez, houve uma certa agitao no seio do exrcito do 
rei, e o inimigo embateu, no numa muralha slida, mas numa 
fileira que o deixou passar. O inimigo foi instantaneamente 
metido dentro de um anel, como gua num frasco, e a rolha 
recolocada, o que separou os homens dos machados dos seus 
chefes, que se encontravam l dentro. Assim, a batalha 
comeou, com os Ningaal arrebanhados dentro de uma paliada 
de lminas afiadas.
Ningum do acampamento inimigo reparou na pequena fora que, 
saindo da retaguarda do exrcito do Rei Drago regressou ao 
castelo.
Os cavaleiros do Rei Drago estiveram, mais uma vez,  altura 
dos acontecimentos, derrubando o inimigo que tinham  frente. 
Esquivando-se dos flamejantes cascos dos cavalos, os homens 
dos chuos faziam cair os guardas dos chefes inin-gos, que 
eram atravessados pelas lanas mal tocavam no cho. Separados 
dos seus comandantes, que estavam dentro da paliada, os 
Ningaal com machados corriam aos gritos em volta do crculo 
exterior, atirando-se em vo contra as impiedosas lanas dos 
cavaleiros.
Os comandantes Gurd e Boghaz, que observavam tudo  
distncia, depressa perceberam o que tinha acontecido e 
prepararam uma segunda onda de soldados Ningaal que fosse 
esmagar o crculo exterior das defesas do rei, abrindo, 
assim, caminho para um fim rpido.
Montados nos seus vigorosos corcis pretos, lanaram-se para 
a refrega.

421

Mas quando j tinham quase chegado ao campo de batalha, o seu 
ataque vacilou e ruiu, no meio de urna mortal chuva de setas. 
Foram tantos os Ningaal a tombar que os seus comandantes 
tiveram de parar antes de se encontrarem com as foras do rei 
e de dar meia volta para enfrentarem os archeros, que, 
depois de terem atrasado aquela segunda onda, corriam a 
juntar-se aos seus camaradas na planicie. Os archeiros, que 
tinham ficado a defender Askelon naquela sua ltima hora de 
necessidade, eram chefiados por Myrinior e por vrios dos 
cavaleiros mais arrojados, segundo o plano traado por 
Eskevar para dividir e confundir o inimigo.
Sem conseguirem aproximar-se dos archeiros com as suas ln-
nas, os Ningaal acabaram por se ver forados a retirar para 
se reagruparem. Os archeiros chegaram facilmente  plancie, 
fazendo assobiar no ar os seus projcteis mortais, e pouco 
depois os Ningaal voltaram a retirar, deixando o campo de 
batalha ao Rei Drago.
- Desta vez, no nos samos to bem como da outra - disse 
Theido, observando de novo a carnificina que o rodeava. - 
Perdemos muitos homens bons. Talvez de mais para aguentarmos 
outra carga.
- Temos de aguentar! - gritou Eskevar. - Tem de ser.
- j os surpreendemos duas vezes. Creio que no o faremos de 
novo - disse Ronsard. - Mas demos-lhes uma batalha que ser 
cantada nos sales de todos os homens de coragem. E isso  
uma coisa que levaremos connosco. No entanto, comeo a pensar 
que, se conseguirmos aguentar-nos hoje, talvez ainda possamos 
virar a sorte da batalha em nosso favor.
- Se o Wertwin mantivesse a sua palavra e trouxesse os 
exrcitos do Ameronis, do Lupollen e dos outros, concordaria 
contigo - retorquiu Theido, virando os olhos para norte, mas 
no vendo nada movendo-se no horizonte. - Mesmo que viessem 
agora, creio que j seria tarde de mais.
- No fales assim! - exortou o rei. - Preparemo-nos para 
enfrentarmos com coragem o novo ataque.
- Como queirais, Majestade. - Theido olhou para o seu rei, e 
o seu nobre corao quase rebentou dentro de si, pois 
pareceu-lhe ver uma sombra escura, como as asas de um corvo, 
pairando em volta dos ombros de Eskevar. Quando o cavaleiro 
voltou a falar, f-lo com uma

422

voz embargada pela tristeza: - Sempre nos mostrastes a vossa 
coragem, meu rei. Conduzi-nos e seguir-vos-emos at s portas 
da prpria morte.
O rosto de Eskevar cintilou ferozmente  estranha luz branca 
da estrela, que brilhava tanto como o dia. No entanto, falou 
com um tom bondoso:
- Servistes-me bem, bons amigos. Sendo rei, confiei-vos vezes 
de mais a minha vida, e nunca vos achei em falta. - Calando-
se, olhou longamente para cada um deles.
" assim que quero ser lembrado: envergando a minha melhor 
armadura,  cabea de homens leais e corajosos - continuou. - 
 assim que quero ir ao encontro dos meus antepassados.
Ronsard ergueu a mo para protestar, mas Eskevar fez-lhe um 
gesto para se calar, dizendo:
- Chega de falar na morte! Agora, s armas! 0 inimigo 
aproxima-se outra vez.
Os Ningaal, desta vez lentamente, atravessaram o campo de 
batalha, agora escorregadio com o sangue dos mortos e dos 
moribundos, atrs de uma vanguarda de cavaleiros armados de 
chamejantes chuos. Os chefes tinham ocupado posies que 
lhes permitiam comandar uma falange de tropas a frente e 
outra atrs. Daquela vez no ia haver foras de reserva nem 
truques, pois os Ningaal moviam-se pela plancie passo a 
passo, vigiando a mais pequena alterao verificada entre os 
soldados do Rei Drago.
A sinistra Estrela do Lobo iluminava a cena com a sua luz 
odiosa, viva como o Sol do meio-dia, lanando sombras por 
todo o lado. Parecia ainda maior, enchendo o cu e tomando 
plida e insignificante a pobre Lua que nascia a oriente.
Eskevar virou o rosto para a Estrela do Lobo:
- L um sinal do mal. Sinto o seu fogo nos ossos. Como queima! 
Ronsard, Theido - chamou, virando-se para os dois cavaleiros 
-, tambm o sentis?
- O que eu sinto  o calor da batalha, Majestade - respondeu 
Ronsard.
- Pois, isso tambm - concordou Eskevar. O rei pareceu voltar 
novamente a si e olhou para o outro lado do campo de batalha, 
que ondulava com o fumo dos temveis chuos dos Ningaal.

423

Se pensam que somos suficientemente cobardes para esperarmos 
aqui que nos matem como gado, esto muito enganados - 
observou Eskevar, fitando colericamente o campo de batalha. - 
Reuni os comandantes! - gritou. O cornetim soprou a mensagem, 
que ecoou no ar.
- Vamos carregar contra eles ali... no meio - explicou o rei, 
apontando com a sua comprida espada para os inimigos que 
avanavam. - Vamos mostrar-lhes o valor que os cavaleiros de 
Mensandor do s suas vidas.
- Sim - concordaram os nobres ali reunidos, com as armaduras 
amolgadas e ensanguentadas, mas os rostos ainda ansiosos  
luz da odiosa estrela.
- E mostrar-lhes-emos o valor que os cavaleiros de Mensandor 
do  sua liberdade' - gritou Rudd. - Pela glria! - O nobre 
levantou a voz e deu incio a um vibrante cntico de batalha, 
que todos cantaram.
- Voltai para junto dos vossos homens. Estai prontos e 
esperai o meu sinal - ordenou Eskevar, pondo-se  cabea dos 
seus cavaleiros. Theido e Ronsard permaneceram  sua esquerda 
e  sua direita.
Adivinhando que o fim estava prximo, Theido olhou para o seu 
amigo Ronsard e fez-lhe uma saudao silenciosa. Aquela era a 
estrada comprida e escura que vira havia muito tempo. Agora 
que se desenrolava  sua frente, sentia-se triste, mas no a 
temia. Queria dizer uma ltima palavra ao amigo, mas no lhe 
saa nada. A saudao falava por si.
- Adeus, meu bom amigo - replicou Ronsard em resposta  
saudao de Theido, baixando a viseira do elmo e levantando a 
ponta da espada na sua direco.
- Por Mensandor! - gritou subitamente Eskevar. A sua voz 
limpida e forte ecoou como um trovo atravs da plancie. O 
rei ergueu a espada e esporeou o cavalo. Com um rugido, o 
exrcito do Rei Drago deu um salto para a frente e ps-se 
furiosamente em movimento.
O fragor do embate entre os cavaleiros e os teimosos Ningaal 
fez tremer a terra. Os cavalos relinchavam e davam voltas, 
empinando-se uma e outra vez. Os cavaleiros cortavam os ares 
com maos e malhos. Espadas chamejavam, lanas enterravam-se 
e arcos silvavam.
O corcel branco de Eskevar lanava-se sempre para onde a 
batalha

424

era mais intensa. Ousado e vivo, Ronsard defendia 
incansavelmente a esquerda do seu rei. A espada do campeo 
girava uma e outra vez no ar, desferindo golpes que 
espalhavam a morte. Theido, guardando a direita do rei, 
lutava por se manter entre o seu soberano e os machados 
sedentos de sangue dos brbaros.
Aqui e ali, no meio da furiosa refrega, os estandartes dos 
senhores de Mensandor, que lutavam por se manterem juntos, 
apareciam como ilhas de defensores, rodeadas por um mar de 
inimigos. Mas, ao longo da noite de batalha, os estandartes 
foram caindo um a um, alguns deles para nunca mais se 
erguerem.
O ousado ataque do Rei Drago acabou por produzir um 
resultado inesperado: o exrcito do rei lutou to bem e to 
tenazmente que conseguiu chegar ao centro da formao 
Ningaal. Apesar da fora superior do inimigo, os defensores 
abriram caminho atravs da ofensiva dos guerreiros invasores 
e acabaram por se juntar atrs das linhas dos Ningaal.
- Que viragem! - gritou Eskevar, respirando pesadamente e 
inclinando-se para a frente na sela. - A nossa causa ainda 
no est perdida. Olhai! O Rudd vem por ali juntar-se a ns e 
pelo outro lado vm o Fincher e o Benniot.
Observando o turbilho em fria que tinha  frente, Theido 
conseguiu distinguir as formas dos cavaleiros do Rei Drago 
entre as figuras mais escuras dos Ningaal. O fragor da 
batalha retinia-lhe quase ensurdecedoramente nos ouvidos, 
mas, como Eskevar dissera, realmente parecia-lhe que havia 
uma esperana mnima de poderem ganhar. A sua carga havia 
posto em debandada a maior parte dos Ningaal e tinha-os 
dividido como uma cunha.
Os comandantes de Nin. circulavam em volta do grosso da 
batalha, tentando reunir as suas tropas, mas em vo. O 
inimigo fugia aos magotes.
-  mesmo verdade? - gritou Ronsard, levantando a viseira 
para ver melhor.
- ! - confirmou Theido. - Vede como fogem todos para o 
centro, quase esmagando-se uns aos outros. Se fizermos uma 
investida naquela direco, podemos dividi-los ainda mais.
- Pelos deuses! Tens razo. Cornetim! Rene os homens. Vamos 
em frente! - Eskevar espicaou novamente a sua montada, e os 
Ningaal sentiram o calor da sua lmina como um fogo ateado 
contra eles.

425

Formando uma cunha, os cavaleiros do rei avanaram pelo meio 
dos inimigos aglomerados, abatendo muitos deles. Muitos 
guerreiros Ningaal, esquecendo a disciplina, fugiram do campo 
de batalha a gritar. Para acabarem com a debandada, os seus 
comandantes mataram muitos desertores com as prprias mos.
0 xito desta segunda carga animou os defensores, fazendo-os 
acreditar que talvez conseguissem a vitria. Com vivas e 
corajosos gritos de batalha, as tropas do rei lutavam ombro a 
ombro, incitando-se mutuamente a actos cada vez mais 
valorosos.
Num espao de duas horas, medidas pelo avano da doentia lua, 
o exrcito do rei ficou, pela primeira vez, com a sorte da 
batalha nas mos. Os chefes dos guerreiros comearam ento a 
tentar uma aco defensiva, procurando retirar para onde 
pudessem reagrupar os seus regimentos. Mas Eskevar e os seus 
comandantes, embora sofrendo de fadiga e de um terrvel 
desgaste, continuaram a lutar teimosamente para porem os 
invasores em fuga.
 meia-noite, fugiu do campo de batalha um regimento inteiro 
de Ningaal. Ao verem o innigo derrotado, arrastando-se para 
longe do combate, os defensores recobraram muito do seu nimo 
e soltaram um viva que chegou a Askelon e foi repetido pelos 
temerosos refugiados, que os espreitavam ansiosamente das 
ameias da fortaleza.
- Ganhmos o dia! - gritou Eskevar. - Os brbaros perderam a 
vontade de vencer.
- Majestade, deixai-nos persegui-los e expuls-los do campo 
de batalha - disse Ronsard. - Mas vs ficai aqui, a recuperar 
foras, onde os vossos soldados possam ver-vos.
-  verdade, Vossa Majestade - concordou Theido. - Deixai 
alguma glria para os vossos comandantes. No corrais mais 
riscos. Descansai e recuperai as foras.
Eskevar, curvado na sela, incapaz de conseguir manter-se 
direito por mais tempo, lanou aos seus cavaleiros um olhar 
colrico e bao. Tinha a viseira levantada, mostrando o rosto 
branco de exausto. Mas, abanando a cabea com um ar cansado, 
replicou:
- S descansarei quando o dia estiver completamente ganho... 
antes disso, no. Se os meus cavaleiros quiserem ver-me, 
tero de olhar para o meio da batalha, pois ser l que 
estarei.

426

Theido e Ronsard trocaram olhares preocupados. Preferiam que 
o seu rei se afastasse da luta, pelo menos por algum tempo. 
Theido fez meno de protestar mais, mas Eskevar baixou a 
viseira, abanou as rdeas e mergulhou novamente no tumulto da 
batalha. Os dois leais cavaleiros no tiveram outro remdio 
seno precipitar-se atrs dele e proteg-lo como podiam.
Por um momento, pareceu que este assalto final ia estilhaar 
de uma vez por todas a fora dos Ningaal, pois os lamentosos 
homens dos machados derretiam-se s lminas dos defensores 
como neve ao fogo. E, tambm por um momento, o Rei Drago e 
os seus cavaleiros ficaram sem quem os desafiasse no campo de 
batalha, ganho com to grande custo, pois o inimigo batia em 
retirada.
Mas a iluso da vitria foi fugaz. De repente, ouviu-se um 
som que parecia irromper do cho, como se a terra estivesse a 
rasgar-se, e que atravessou o ar, guinchando por toda a 
plancie. Os que o ouviram, mesmo os mais corajosos, 
vacilaram e tremeram. Todos os olhos se viraram para sul. Por 
um breve momento, as colunas de fumo dividiram-se, revelando 
uma slida muralha de guerreiros, que ocupava toda a 
plancie. Nin, o Imortal, chegara com os seus cinquenta mil 
homens.

CAPTULO LV

Horrorizados, os defensores exaustos viram a conquista quase 
conseguida fugindo-lhes nas asas do desespero e dando lugar a 
uma morte certa. Os gritos de triunfo transformaram-se em 
queixumes amargos, e os Ningaal, com a salvao  vista, 
deixaram de retirar e viraram-se novamente para o desgastado 
exrcito do Rei Drago.
Eskevar teve muito pouco tempo para reunir as suas 
desanimadas tropas at o inimigo comear a rode-las como uma 
inundao que ameaava afog-las. Os infortunados defensores 
ficaram imediatamente cercados por todos os lados e com a 
retirada cortada. Os comandantes invasores incitavam os seus 
guerreiros, cada vez num furor mais delirante, e os bravos 
soldados do Rei Drago foram tombando um a um.
Ronsard e Theido lutavam para se conservarem ao lado do rei e 
poderem proteg-lo at ao fim, mas tiveram de se separar 
quando uma sbita investida do inimigo turbilhonou  sua 
frente. Trs Ningaal ululantes, de tranas pretas, com a boca 
a espumar, os olhos enlouquecidos e o rosto manchado de 
sangue, saltaram e agarraram as rdeas da montada de Theido. 
Um dos atacantes perdeu instantaneamente uma mo, no meio de 
um esguicho vermelho, e outro caiu morto no cho, sem sentir 
o golpe que lhe rachou o crnio. O terceiro cravou o seu 
machado no peito de Theido, que sentiu a armadura amolgar e 
fender e a lmina atingindo-o bem fundo. Com a fora de um 
golpe que teria matado muitos homens, o cavaleiro cambaleou 
na sela e caiu para trs.
O atacante Ningaal, ainda agarrado ao punho do seu machado, 
foi levantado do cho quando o cavalo de Theido recuou. 
Theido fez girar

428

o broquel e baixou-o sobre a cabea do inmigo, estendendo-o 
ao comprido no cho, onde as faiscantes patas do cavalo de 
guerra fizeram o resto.
Theido, que por milagre permanecera na sela, arrancou o 
machado que o Ningaal lhe cravara na couraa. E, embora 
soubesse que estava gravemente ferido, virou-se  procura de 
Ronsard e de Eskevar, que a corrente da batalha arrastara 
para longe.
O cavaleiro viu Ronsard combatendo contra quatro ou cinco 
inimigos com espadas e chuos em chamas, tentando impedi-los 
de chegarem ao rei, quando, de repente, um chefe guerreiro 
entrou na luta, lanando-se para a frente com a capa preta 
esvoaando atrs de si.
O chefe invasor foi logo enfrentado pela figura de Myrmior, 
cujas armas eram mais leves. O mordorno-mor, com o rosto 
transformado numa mscara de dio, atirou-se para o meio do 
chefe e do rei.  luz da estrela, Theido viu a espada de Mym-
or faiscando e descrevendo um arco brilhante. O invasor 
ergueu a sua lmina e desferiu um golpe poderosssimo, que 
estilhaou a espada de Myrmior. Batendo novamente com toda a 
fora, atingiu o escudo de Myrn-iior. Sem poder fazer nada, 
Theido viu a sua lmina cruel e curva faiscar e enterrar-se 
bem fundo no peito desprotegido de Myrn-or. Ao mesmo tempo 
que o chefe guerreiro tentava retir-la, Mym-or agarrou na 
ln-na com urna mo e puxou-a, fazendo com que este se 
desequilibrasse para a frente na sela. Ento, levantando a 
espada partida, cravou-a na garganta do inimigo. Depois, 
Theido viu os dois homens tombando no cho.
Passou-se tudo to rapidamente que Theido mal tivera tempo de 
pegar nas rdeas da sua montada quando a cena acabou. Do 
stio onde estava, o cavaleiro viu Ronsard, que matara trs 
dos seus atacantes, dando uma guinada e precipitando-se 
novamente para o lado do rei. Mas nesse intervalo to fugaz 
perdeu-se tudo., pois Theido, que j ia em seu socorro, viu 
Eskevar a ser puxado da sela e a mergulhar num efervescente 
amontoado de soldados Ningaal, armados com chuos e machados.
Alcanando o local onde o seu monarca cara, Ronsard matou 
dois inimigos de uma s vez e, depois, abateu mais quatro. A 
chegada de Theido ps os outros em fuga, e Ronsard, sem 
querer saber da sua segurana, atirou-se da sela e ajoelhou-
se ao lado do seu rei.

429

Em breve havia gritos por todo o lado:
- O rei tombou! O rei Drago tombou! - Os defensores 
apinharam-se ao seu lado, formando uma muralha em volta do 
corpo do seu amado soberano.
Pegando na cabea do rei, Ronsard tirou-lhe cuidadosamente o 
elmo.
- Acabou-se, bom amigo - arquejou Eskevar. - Nunca mais 
erguerei a minha espada.
- No digais isso, Majestade - pediu Ronsard, com as lgrimas 
saltando-lhe pelos cantos dos olhos e escorrendo-lhe pelas 
faces largas. Depois, arrancando a luva, pegou num bocado da 
capa do rei e tentou estancar o sangue que escorria de uma 
ferida situada na base do pescoo de Eskevar.
- No di... no di - disse Eskevar num murmrio. - Onde 
est a minha espada?
- Aqui, Vossa Majestade - replicou Theido, colocando a sua 
prpria arma nas mos enclavinhadas do rei.
Eskevar cingiu a espada ao peito e fechou os olhos.

Quando os que estavam nas ameias do castelo viram o rei cair, 
elevou-se no ar um grito de dor e sofrimento, como o sado da 
garganta de um animal mortalmente ferido. Mas ainda o grito 
no se desvanecera no ar quando algum gritou:
- Olhai para leste! - Virando os olhos para oriente, os 
infelizes tiveram uma viso estranha e maravilhosa.
As pessoas que se encontravam nas ameias e os soldados 
debruados sobre o corpo do rei tiveram a sensao de que, a 
leste, havia uma tempestade de relmpagos to brilhante como 
o Sol, pois, de repente, viram um ofuscante claro, que 
pareceu encher o cu com uma luz mais viva do que a da 
prpria Estrela do Lobo.
Quando um outro claro de luz brilhante atingiu o cu, os 
ululantes Ningaal, alarmados, fizeram uma pausa no seu 
sangrento trabalho para contemplarem esta nova maravilha.
De repente, viu-se apenas a forma de um cavaleiro montado num 
corcel branco, galopando de leste. No seu brao erguido, 
trazia uma espada que chamejava e faiscava com uma luz viva.

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 aproximao daquele cavaleiro desconhecido, toda a terra 
pareceu ficar silenciosa. O trovo produzido pelos cascos do 
seu cavalo, que voava para a batalha como se transportado nas 
asas de uma guia, ouvia-se martelando por toda a plancie.
- A Zhaligkeer! - gritou algum. - Chegou o libertador!
Os ptios e as torres de Askelon foram percorridos por um 
murmrio. Alinea, Bria e Esme, de vigia na torre virada a 
leste, olharam por entre lgrimas para aquela estranha viso. 
Espantados, os soldados do Rei Drago, de p, lado a lado, em 
volta do seu senhor, levantaram as viseiras.
A espada, segura na mo do cavaleiro, que cavalgava 
velozmente, parecia lanar um raio de luz para o cu. Os 
espantados Ningaal olhavam, boquiabertos, para esta apario 
no anunciada.
At Nin, Divindade Suprema do Universo, fez um esforo para 
se levantar do seu trono, pousado sobre a plataforma, de modo 
a ver melhor o que estava a acontecer.
Montado no veloz Blazer, com Toli a seu lado, Quentin vira o 
que restava do exrcito do Rei Drago rodeado pelo inimigo na 
plancie. Nessa altura, s pensara em correr em seu auxlio e 
tomar o seu lugar ao lado dos outros cavaleiros. No mpeto da 
cavalgada, vira o estandarte do Rei Drago caindo s mos do 
inin-figo. Por isso, desembainhara a espada e, com um grito 
de batalha, precipitara-se para o stio onde a bandeira 
cara.
A Zhaligkeer ardia com o brilho de mil sis, lanando 
relmpagos que atravessavam os ares. Foi de mais para os 
Ningaal, que ficaram petrificados por aquela viso 
sobrenatural, pois, se no tinham medo de guerreiros humanos, 
por mais destemidos que fossem, aterrorizava-os o 
aparecimento de um inimigo celeste.
Assim, os brbaros atiraram com as armas e fugiram. Quentin 
foi at ao centro da titubeante horda e, sem ningum lhe 
tocar, cavalgou pelo meio do temeroso exrcito do Rei Drago.
Ao olhar para baixo, Quentin viu os seus amigos Theido e 
Ronsard ajoelhados ao lado do corpo de Eskevar e, lendo a 
tristeza nos seus olhos, soube que o Rei Drago morrera.
Sem uma palavra, Quentin fez Blazer dar meia volta e saltou 
atrs dos Ningaal em fuga. Uma dor inexprimvel apossou-se do 
seu esprito.

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Quentin s pensava em arrastar o inimigo odiado  sua frente, 
em cavalgar at no o conseguir mais. Na sua dor tresloucada, 
foi direito a Nin, o Destruidor, e aos seus cinquenta mil 
guerreiros tomados de pnico. Os Ningaal afastaram-se perante 
o invencvel guerreiro da espada chamejante como ondas 
assoladas pela tempestade.
Quentin no via nada com nitidez; era como se tivesse entrado 
num sonho. Mexiam-se  sua frente formas indistintas, que se 
afastavam dos dois lados como nuvens; a noite estava cheia de 
uma luz branca e ardente. Depois, ergueu-se  sua frente uma 
escurido, na forma de uma massa que se retorcia toda.
A Zhaligkeer faiscou na sua mo. Com um grito poderosssimo, 
Quentin ergueu-se na sela e atirou a espada para o alto. A 
espada girou no ar e, quando chegou ao cume do arco que 
descreveu, pareceu explodir subitamente com um estalido 
ensurdecedor, fazendo chover lnguas de fogo.
O cu ficou branco e os homens puseram as mos  frente dos 
olhos. Ningum se atrevia a contemplar aquele terrvel 
esplendor. Quentin teve a sensao de entrar na sua viso, 
pois voltara a ser o cavaleiro de armadura brilhante que, de 
p na plancie sombria, arremessava uma chamejante espada que 
penetrava no corao da escurido que o rodeava.
Houve um estremecimento no ar, e Quentin sentiu-se 
atravessado pelo fogo. Embora os relmpagos danassem  sua 
volta em ondas que cegavam, abriu os olhos e viu a escurido 
recuando, pondo a descoberto uma cidade esplndida e muito 
bela, que cintilava  luz como se fosse feita de ouro e 
pedras preciosas.
Quentin ps-se de joelhos perante aquela delicada viso.
Para a tapar, ps as mos  frente do rosto e as lgrimas 
brotaram-lhe dos olhos como se de uma nascente. Nesse 
momento, sentiu no ntimo da sua alma a mo do Deus 
Altssimo.

Quando Quentin levantou a cabea, estava sozinho e a noite 
escura. A Estrela do Lobo desaparecera no meio de um grande 
claro. Houve quem dissesse que a Brilhante, ao subir para o 
cu, chocara com ela e a extinguira, pois a estrela 
desaparecera no instante em que Quentin arremessara a espada.

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Depois, a Zhaligkeer cara para a terra e fora encontrada 
enterrada at ao punho no corpo obsceno de Nin, o Imortal. O 
conquistador de Reis jazia morto, pregado ao cho como uma 
serpente. Testemunhando o rpido milagre da morte do seu 
cruel senhor, os seus infelizes servos haviam fugido aos 
gritos pela plancie. A noite fora atravessada pelos berros 
lamentosos que soltavam enquanto tentavam fugir  justia que 
em breve os subjugaria. Os comandantes de Nin tinham cado 
sobre as suas prprias espadas, juntando-se ao seu odioso 
soberano no seu bem merecido destino.
Quentin regressou ao local onde jazia Eskevar. juntamente com 
Theido, Ronsard e os senhores e os cavaleiros de Mensandor, 
pegou no corpo do rei, pousou-o sobre os ombros e levou-o 
para Askelon.

CAPTULO LVI

O funeral do Rei Drago demorou trs dias e o luto ento 
decretado prolongou-se por trinta. Durante este tempo, 
Wertwin e os exrcitos de Ameronis, Lupollen e dos outros 
chegaram muito entristecidos e arrependidos, pois tinham sido 
apanhados no caminho pelas novas da morte do rei e foram 
imediatamente mandados em perseguio dos Ningaal, que fugiam 
ao longo do Arvin. em direco ao mar, onde os seus barcos 
ainda os esperavam. Durante a fuga, os senhores mataram 
muitos inimigos; os restantes foram expulsos para o mar  
frente da ponta das lanas.
O corpo de Eskevar foi imediatamente transportado para o 
castelo e pousado no leito real. Durwin, ajudado por Biorkis, 
foi lavar o corpo e prepar-lo para a inumao. Inchkeith. 
trabalhou horas a fio na armadura do rei, tirando-lhe as 
amolgadelas que lhe tinham sido inflingidas na ltima batalha 
e pondo-a a brilhar como nova. A rainha Alinea, em pessoa, 
vestiu o marido com as suas melhores roupas e Bria e Esme 
puseram-lhe as suas jias mais valiosas. Depois, foi levado 
para o salo e solenemente pousado no seu atade.

O corpo do rei ficou exposto no salo durante dois dias, 
guardado dia e noite por um lamentoso contingente de 
cavaleiros e nobres, enquanto uma fila compacta de sbditos 
em lgrimas passava diante do atade. Os queixumes dos 
camponeses atravessavam os ptios e os mais desesperados 
vagueavam pelas ruas da cidade, inconsolveis na sua dor. O 
grande Rei Drago morrera; nunca ningum imaginara vir a 
viver um dia to triste.

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Quentin permaneceu nos seus aposentos, sem querer ver 
ningum. Nem sequer se atreveu a ir s ameias ver ardendo na 
plancie as piras fnebres de todos os mortos do orgulhoso 
exrcito do rei. Culpava-se pela morte do rei, pois pensava 
que, se tivesse chegado apenas uns instantes mais cedo, 
Eskevar ainda estaria vivo. A entrada s era permitida a 
Toli, que ia servir o seu amo.
-Mas as necessidades de Quentin eram poucas, pois no comia 
nem dom-fia, limitando-se a deixar-se ficar afundado numa 
cadeira,  frente da lareira escura e apagada.
 meia-noite do segundo dia, Quentin levantou-se e foi 
silenciosamente at ao salo. As pessoas que tinham ido 
chorar o rei j haviam sado, e no havia ningum no salo a 
no ser os dez cavaleiros que permaneciam como esttuas de 
pedra em volta do corpo. Nos cantos do atade ardiam quatro 
tochas colocadas nos seus suportes, que lanavam uma luz 
suave e enevoada sobre o pano morturio. Quentin aproximou-
se, subiu  plataforma cheia de flores e ajoelhou-se ao lado 
do corpo.
 luz suave, as feies do rei mostravam-se descontradas e 
calmas: se no fosse aquela imobilidade pouco natural, 
poderia dizer-se que estava a dormir. As marcas da doena que 
lhe devastara a nobre figura tinham desaparecido. E as rugas 
de preocupao que ultimamente lhe haviam sulcado o rosto 
tambm j no se viam. Parecia que os anos tinham recuado, 
deixando Quentin ver um Eskevar mais novo do que o que 
conhecera. Tinha o cabelo escuro penteado por cima das 
tmporas. A testa era lisa, o nariz direito e bem feito e a 
boca firme mas no desagradvel. O maxilar duro suavizara-se, 
revelando um homem em paz consigo mesmo, e o queixo fendido 
falava da determinao inabalvel do homem que Eskevar fora.
O rei envergava a sua armadura, com o elmo debaixo do brao 
esquerdo, No peito, tinha a espada, cujo punho segurava com a 
mo direita.  luz das tochas, a insgnia do serpenteante 
drago desenhado na sua couraa parecia retorcer-se e piscar. 
Envergava uma capa azul debruada a prata e ouro, apertada no 
pescoo por uma corrente de ouro e pelo seu alfinete 
preferido, que representava um drago. Assim, Eskevar parecia 
pronto a saltar e a voltar a cavalgar ao som da trombeta.
Quentin baixou a cabea e molhou o atade com as suas 
lgrimas

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quentes. Lembrava-se to bem do tempo em que vira assim o seu 
rei, enfeitiado pelo malfico Ni=ood! Nessa altura, a 
bruxaria do necromante fora, n-raculosamente, quebrada, e o 
Rei Drago pudera voltar a viver. Mas agora o rei fora 
apanhado nas teias de um feitio muito mais poderoso, que. no 
fim, apanha todos os homens e que no pode ser quebrado.
Quentin ouviu uns passos suaves atrs de si e sentiu que 
algum lhe tocava ao de leve no ombro. Quando levantou o 
rosto, viu a rainha Alinea, toda vestida de preto, fitando-o 
com uns olhos verdes que eram dois lagos de tristeza, mas 
cujo brilho parecia ainda mais belo devido  simpatia com que 
o observavam.
- Tenho-te procurado nestes dois dias, meu filho. - A rainha 
falou docemente, com um tom de voz que acalmou o seu corao 
aflito. Quentin no disse nada.
"No te culpes. Afinal, como sempre, foi ele que escolheu o 
seu prprio destino. Era seu desejo morrer servindo o reino 
que tanto amava. E, de todos os seus amores, era este, o seu 
amor pelo reino, o que lhe exigia maior devoo. Eskevar era 
em primeiro lugar um rei, e s depois um homem.
- Obrigado pelas vossas palavras, senhora, que so um consolo 
para mim. -No me culparei mais, embora ao princpio o tenha 
feito. Sei agora que o seu destino j estava traado h muito 
tempo e que ele nunca cederia a outro.
- No sem deixar de ser o rei Eskevar. Olha para ele, 
Quentin. V como dorme em paz. A morte no conseguiu 
aterroriz-lo, pois ele conquistou-a muitas vezes. Aquilo que 
ele mais temia era que o seu reino casse sem ele poder fazer 
nada. Isso roa-o por dentro e envenenou os seus ltimos 
dias. Mas, no fim, acabou por conquistar tudo.
- Como o conheccis bem, rainha Alinea!
- Conhecia? Talvez o melhor que era possvel. E amei-o de 
todo o corao. A seu modo, tambm ele me amou. Mas um rei 
no pertence a si prprio nem  sua famlia. Pertence ao seu 
reino. O Eskevar sentia-o mais profundamente do que todos os 
que conheci. Morreu por Mensandor exactamente como viveu.
"Mas havia muitas coisas que nem eu conhecia. Os anos da 
guerra, que passou longe de casa, roubaram-nos muito tempo. 
Foram muitas as

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noites durante as quais chorei pelo meu marido, sentindo-me 
s e ansiando por uma mo forte que segurasse a minha. Mas 
no. O Eskevar estava longe, lutando pelo seu reino. E no 
descansava nem quando regressava: estava sempre com a ateno 
posta aqui ou ali, procurando sinais de fraqueza ou de 
agitao nos cantos mais remotos de Mensandor.
"Uma vez, creio que  laia de desculpa, disse-me: "Se queres 
conhecer-me, comea por conhecer o meu reino." Ele era 
Mensandor e as suas vidas misturavam-se.
Quentin olhou para o monarca morto, percebendo que havia 
muito que nunca saberia do homem que o adoptara e o tratara 
como seu.
- Agora que ele morreu, o que acontecer ao seu reino? - 
pensou em voz alta.
- Continuar a viver na vida do novo Rei Drago - murmurou a 
rainha docemente, inclinando-se sobre o corpo do seu marido e 
retirando a corrente com o alfinete do drago. Depois, virou-
se e obrigou Quentin a levantar-se. - Vers que este alfinete 
 muito mais pesado do que o ouro que contm, meu querido, 
mas ele quis que fosse teu, assim como tudo o que significa.
Quentin abanou a cabea lentamente e tocou no alfinete de 
ouro que a rainha lhe apertara na capa:
- Eu nunca fui filho dele. Por muito que vos ame aos dois e 
vos esteja grato pela bondade com que me tratastes durante 
estes anos todos, no fui feito para ser rei.
- Quem o seria melhor do que tu?
- O seu filho verdadeiro, talvez.
- Sabes bem que no tivemos filhos vares. Mas deixa-me 
dizer-te uma coisa: sempre achei estranho que um homem que 
dava tanto valor ao seu trono o tivesse...
- Entregue to facilmente - murmurou Quentin.
- No, ele no o entregou, Quentin. Sabes, a Bria nasceu 
mesmo antes de o Eskevar partir para a guerra contra o 
Goliah. Quando soube que eu no podia ter mais filhos e que o 
seu herdeiro era uma mulher, esperei que ficasse zangado. Eu 
ofereci-me para abdicar, de modo a ele poder tomar outra 
mulher, mas ele nem quis ouvir falar nisso. Disse que estava 
satisfeito e que confiaria no deus que o governava para lhe

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dar um herdeiro quando chegasse a altura para isso. Mas nunca 
mais falou no assunto.
"Por isso, quando decidiu adoptar-te, percebi que tinha 
encontrado o seu herdeiro. No fao ideia como o soube, mas 
viu em ti qualquer coisa que lhe agradou muito.
- Isso sempre me pareceu um capricho de rei, senhora. No  
que no exultasse com os seus favores, mas, por mais que o 
amasse a ele e a Askelon,  a Dekra que perteno. Ele deve 
ter sabido isso.
- No interessava. Ele s queria que fosses feliz. A sua 
confiana era to grande que sabia que, quando a altura 
chegasse, te mostrarias  altura das suas esperanas e das 
suas expectativas.
- Espero que no estivesse enganado. Rezo para que isso no 
acontea - retorquiu Quentin- Alinea contemplou longamente a 
forma imvel do rei. Por fim, soltando um suspiro profundo, 
virou-se e ofereceu a mo a Quentin.
- No estava, meu filho. As coisas esto como deviam estar... 
como ele quereria que estivessem. Vais ver.
Quentn lanou um ltimo olhar ao corpo do rei e afastou-se 
com Alinea pelo brao. Os seus passos ecoaram no salo 
escurecido e, quando deixaram de se ouvir, o silncio voltou 
a reinar.

No dia seguinte, o corpo do rei foi levado para o Anel dos 
Reis, local ancestral de descanso dos monarcas de Mensandor, 
situado dentro dos muros verdes da floresta de Pelgrin.
O cortejo fnebre, constitudo por cavaleiros e nobres a 
cavalo e por sbditos leais a p, serpenteou pelas ruas de 
Askelon, que tinham sido limpas  pressa. Os habitantes, de 
P entre as cinzas da sua cidade devastada, diziam um ltimo 
adeus ao seu soberano. Montando Blazer, Quentin seguia ao 
lado de Alinea, imediatamente atrs da carroa funerria. 
Depois iam Bria e Durwn, com Theido e Ronsard na retaguarda, 
seguindo  cabea da procisso de nobres. E havia muitos 
outros, cavalgando sob as suas divisas e bandeiras coloridas. 
O estandarte do Rei Drago abria o cortejo, com flmulas 
pretas penduradas no drago vermelho.
O rei diriga-se para o tmulo dentro do seu atade, sob um 
cu de um azul radioso, coberto de tufos de nuvens brancas. 
Embora as lgrimas ainda cintilassem aqui e ali, o vento 
fresco arrefecia o ar de Vero,

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arrastando a tristeza para bem longe. O vento levantava o 
cabelo de Eskevar e o sol batia-lhe em cheio no corpo, 
fazendo brilhar a sua armadura.
Eskevar foi colocado no Anel, num tmulo em forma de favo; 
alis, no tmulo em que Quentin o metera anos atrs, para o 
salvar do terrvel plano de Nimrood. O tmulo, que fora 
varrido e arrumado por Oswald, mordomo-mor da rainha, 
encontrava-se limpo e em ordem.
Numa cerimriia de imensa dignidade, Eskevar foi pousado 
sobre a sua laje de pedra, em cima da qual se encontravam 
estendidas as mantas de plo do seu leito. Depois de se 
haverem disposto  sua volta os objectos que mais estimava e 
de todos terem olhado para o rei pela ltima vez, o tmulo 
foi selado e a entrada coberta com terra. Em vez de ficar de 
p a ver, Quentin preferiu colaborar neste trabalho. E, 
quando tudo terminou, afastou-se sem olhar para trs.
Ao sair do silncio verde do Anel dos Reis, o cortejo fnebre 
encontrou um grupo de senhores, chefiado por Wertwin. Fazendo 
uma vnia nas suas selas, os nobres olharam para Quentin, que 
caminhava ao lado da rainha, segurando-lhe o brao.
- Disseram-nos que o rei te escolheu para lhe sucederes no 
trono - comeou Wertwin.
-  verdade - respondeu Quentin em tom monc>crdico. Pela sua 
voz, era impossvel determinar o que sentia.
Parecendo desconcertado, Wertwin lanou um olhar aos senhores 
que o rodeavam.
- Viemos prestar-te vassalagem - explicou ele.
Quentin limitou-se a fit-los.
- Aquele que empunha a Brilhante  o nosso rei' - disse 
algum de entre eles. Um coro de calorosas aprovaes 
confirmou esta declarao. Vindo dali de perto, Toli apareceu 
com uma espada nas mos. Quentin sorriu ao seu servo e pegou 
na espada.
Quando a espada lhe tocou nos dedos, Quentin sentiu o seu 
calor e, ao estender o brao, ouviu a lmina sussurrar. 
Depois, levantou a espada, para que todos a pudessem ver e, 
de repente, a clareira da floresta foi inundada por uma luz 
brilhante.
Os senhores ali reunidos desmontaram imediatamente e foram 
ajoelhar-se  sua volta. Com a espada bem erguida, Quentin 
disse:

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- Que o deus cujo poder arde nesta espada tambm arda em mim. 
Aceito a vossa fidelidade.
A floresta foi atravessada por vivas e gritos de aclamao. 
Theido e Ronsard abriram caminho at ao lado de Quentin e 
deram-lhe umas palmadinhas nas costas. Depois, os seus leais 
sbditos carregaram-no em ombros.
O alegre cortejo que regressou a Askelon contrastava 
vivamente com o que atravessara as suas portas naquele mesmo 
dia. Embora o perodo oficial de luto ainda fosse continuar 
durante algum tempo, o processo de cura da terra devastada 
iniciou-se naquele momento. Com Eskevar, todos os mortos 
tinham sido enterrados e a velha ordem posta de parte. Com 
Quentin, a nova ordem estava presente com uma promessa viva. 
semelhante ao futuro que cintilava como a luz da Brilhante.
Nascera uma nova era e fora escolhido um novo rei. E, de 
todos os que se congratulavam e a saudavam, s Durwin, o fiel 
eremita da floresta de Pelgrin, sabia o que isso significava: 
por fim, o Rei Sacerdote chegara. A promessa fora cumprida.
